589: Astrónomos descobrem o buraco negro mais próximo da Terra

CIÊNCIA/ASTROFÍSICA/ASTRONOMIA/BURACOS NEGROS

Este corpo celeste está a uma distância de 1.600 anos-luz do planeta Terra, segundo o centro de investigação NOIRLab.

© NOIRLab

Astrónomos descobriram o buraco negro mais próximo da Terra, a 1.600 anos-luz, tratando-se da primeira detecção na Via Láctea de um buraco negro de massa estelar que não está em actividade, foi esta sexta-feira divulgado.

A descoberta deste corpo celeste, denominado Gaia BH1, foi feita graças a observações precisas do movimento de uma estrela que o orbita a uma distância semelhante à que separa a Terra do Sol, indicou em comunicado o NOIRLab, um centro de investigação norte-americano na área da astronomia, que opera o telescópio Gemini Norte, no Havai, com que foram realizadas as observações.

Um buraco negro é um corpo denso e escuro, de onde nada escapa, nem mesmo luz, devido ao campo gravitacional intenso, pelo que a sua presença é inferida através da interacção com outros corpos ou matéria.

Embora existam provavelmente milhões de buracos negros de massa estelar na Via Láctea poucos foram detectados. Nos casos em que foram detectados, tal deveu-se à interacção com uma estrela na sua vizinhança.

O Gaia BH1, que tem uma massa 10 vezes superior à do Sol, é um buraco negro dito inactivo, não está a alimentar-se do material da sua estrela vizinha, pelo que se confunde com o meio envolvente.

Os resultados da descoberta foram divulgados na publicação científica Monthly Notices of the Royal Astronomical Society.

Diário de Notícias
DN/Lusa
04 Novembro 2022 — 17:41



 

588: “Conan, a bactéria” pode estar escondida debaixo da superfície de Marte (e a dormir uma longa sesta)

CIÊNCIA/ASTROBIOLOGIA/MARTE/BACTÉRIAS

Um novo estudo simulou as condições de Marte e descobriu que “Conan, a bactéria”, conseguiria sobreviver hibernado durante 280 milhões de anos debaixo da superfície do planeta.

(dr) Envato Elements

É uma questão que têm intrigado os cientistas — e David Bowie — há anos e anos. Afinal, há vida em Marte? Um novo estudo publicado na Astrobiology sugere que um dos micróbios mais resilientes da Terra pode estar escondido debaixo da superfície marciana e a dormir uma longa soneca há já 280 milhões de anos.

O micróbio em questão é o Deinococcus radiodurans, também conhecido como “Conan, a bactéria”, e é capaz de sobreviver a radiação forte o suficiente para matar qualquer outro tipo de vida conhecido.

Os cientistas testaram seis micróbios e fungos que conseguem sobreviver em ambientes extremos, tal como Conan, para tentarem perceber se estes seres vivos seriam capazes de viver nas latitudes médias de Marte.

Para isto, os micróbios foram expostos a raios ultravioleta e gamma, a temperaturas de 63 graus negativos e a protões de alta energia que simulavam as condições ambientais do Planeta Vermelho, escreve o Space.

A equipa mediu depois a acumulação de antioxidantes de manganês, cuja quantidade aumenta à medida que a resistência à radiação também cresce, nas células dos micróbios — e Conan, a bactéria, foi a vencedora clara.

As experiências mostram que Conan consegue absorver 28 mil vezes mais radiação do que os humanos. Testes anteriores já tinham indicado que o micróbio poderia sobreviver debaixo da superfície marciana durante 1,2 milhões de anos.

O novo estudo, onde o micróbio foi congelado e ressecado para se imitar o clima frio e seco de Marte, sugere que Conan poderia sobreviver durante 280 milhões de anos no planeta, se estiver enterrado a uma profundidade de 10 metros.

Esta esperança de vida diminui para 1,5 milhões de anos se a profundidade for reduzida para apenas 10 centímetros e para apenas algumas horas se a bactéria estiver à superfície, onde fica muito exposta à luz ultravioleta.

O clima de Marte há 280 milhões de anos era basicamente igual ao actual, pelo que teríamos de recuar cerca de 2,5 mil milhões de anos no tempo — quando os fluxos de água terão desaparecido — até chegarmos a uma altura em que o clima era quente e húmido o suficiente para que a vida pudesse sequer aparecer.

A equipa reconhece esta complicação, mas sugere que o derretimento periódico poderia ter permitido um repovoamento e dispersão intermitentes da bactéria.

Os autores recomendam que missões futuras em Marte sejam feitas em crateras com menos de 280 milhões de anos, para podermos descobrir de uma vez por todas se Conan, a bactéria, tem mesmo um primo marciano a dormir aconchegado debaixo da superfície e à espera de ser descoberto.

Adriana Peixoto, ZAP //
4 Novembro, 2022



 

587: Portugal pode estar com mais de 2 mil casos diários de covid-19, muito acima dos 735 oficiais

SAÚDE PÚBLICA/PANDEMIA/COVID-19/INFECÇÕES

Para o epidemiologista Manuel Carmo Gomes, desde que a linha SNS 24 deixou de prescrever testes de despiste da covid-19, na sequência do fim da situação de alerta em Portugal a 1 de Outubro, os dados de incidência no país “estão longe de representar a realidade”.

O epidemiologista Manuel Carmo Gomes
© D.R.

Os últimos dados oficiais indicam que Portugal regista uma média de 735 infecções diárias pelo coronavírus SARS-CoV-2, mas o epidemiologista Manuel Carmo Gomes alerta que o número real de casos pode ser cerca de três vezes superior.

“No que respeita ao número de novos casos, devemos estar acima de 2.000 por dia, no mínimo”, disse à Lusa o professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

O último relatório do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), divulgado na quinta-feira, estima que o número médio de casos a cinco dias está nas 735 infecções diárias a nível nacional, baixando para as 619 no continente.

Para Manuel Carmo Gomes, desde que a linha SNS 24 deixou de prescrever testes de despiste da covid-19, na sequência do fim da situação de alerta em Portugal em 1 de Outubro, os dados de incidência no país “estão longe de representar a realidade”.

“Presentemente apenas conhecemos resultados de testes realizados em meio hospitalar e de pessoas que se deram ao trabalho de obter receita médica para se testar”, alertou o especialista, para quem essa redução dos despistes das infecções está a comprometer a monitorização atempada da pandemia em Portugal.

Perante as alterações na testagem, o “guia” sobre a situação da covid-19 no país passou a ser os números de hospitalizados e de mortes, indicadores que “chegam a ter semanas de atraso em relação ao número de casos”, explicou o epidemiologista.

Além disso, o desconhecimento de “quantos casos ocorrem de uma doença diminui a percepção do risco” entre a população, sublinhou ainda Carmo Gomes.

“Uma doença infecciosa que se propaga silenciosamente tira partido da ausência de medidas que poderiam retardar o seu avanço e, quando finalmente nos apercebemos que a carga de doença na população é já elevada, torna-se mais difícil reverter a sua propagação”, salientou ainda o professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

O epidemiologista admite que o número de infecções possa estar ainda a subir em Portugal, tendo em conta que se verifica uma “leve tendência crescente” de pessoas hospitalizadas devido à covid-19.

“Durante Setembro e parte de Outubro tivemos menos de 400 camas ocupadas em enfermaria covid-19. Agora estamos com quase 500 camas”, alertou Manuel Carmo Gomes, ao adiantar que as mortes se mantiveram “muito tempo em cinco e seis por dia, mas nos últimos dias a média subiu para 7,6 óbitos”.

“Esperemos que esta tendência não se confirme, mas temos de aguardar mais uns dias para saber”, disse.

Um dos factores de incerteza sobre a evolução da covid-19 tem a ver com o facto de, nos últimos meses, a variante Ómicron se ter desdobrado em numerosas sub-variantes, que “têm em comum possuir mutações que lhes permitem fugir aos nossos anticorpos”, disse o especialista.

“Para já não existe evidência (prova) de que sejam mais patogénicas do que as primeiras Ómicron (BA.1, BA.2 e BA.5), mas ainda sabemos muito pouco sobre o seu significado clínico”, salientou Carmo Gomes.

O especialista adiantou que as próximas semanas serão decisivas para perceber se a circulação destas novas sub-variantes, combinadas com a chegada do tempo frio a Portugal, vai contribuir para uma eventual subida dos casos e de hospitalizações.

França foi o primeiro país europeu onde a “BQ.1 ultrapassou a fasquia dos 50% entre os casos e, para já, não existe evidência de maior patogenicidade”, sublinhou o epidemiologista.

“Sem dúvida que todos os que se preocupam com a dinâmica da covid e a saúde pública, gostariam de voltar a ter notificações que sejam mais representativas do verdadeiro número de casos”, afirmou Manuel Carmo Gomes.

Com a decisão do Governo de não renovar a situação de alerta, cessou a vigência de diversas leis, decretos-leis e resoluções aprovadas no âmbito da pandemia, alterações que influenciaram a “vigilância de base populacional e consequente interpretação dos indicadores” da covid-19, reconheceram recentemente a Direcção-Geral da Saúde e o INSA.

Na prática, além do isolamento deixar de ser obrigatório, os testes à covid-19 deixaram de ser prescritos através do SNS24 e passaram a ser comparticipados mediante prescrição médica, à semelhança de outras análises e meios complementares de diagnóstico.

Na quinta-feira, o ministro da Saúde, Manuel Pizarro, anunciou que vai decorrer no próximo dia 11 uma reunião de peritos para fazer um ponto de situação da covid-19 em Portugal.

Diário de Notícias
DN/Lusa
04 Novembro 2022 — 12:50



 

586: Falar da guerra, para construir a paz

“… É fundamental derrotar uma filosofia política que, estando à cabeça do maior país do nosso continente e de um membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, olha de alto para nós de modo imperial.”

OPINIÃO

Este ano, a cena internacional não tem sido falha de acontecimentos trágicos. E ainda não sabemos em que fase da tragédia nos encontramos. O enredo faz pensar no Templo da Sagrada Família em Barcelona, obra-prima de Gaudí: vai sendo construído, conforme se pode.

Todavia, num contexto bem mais complicado, pois não se percebe como irá acabar nem quem irá colocar a última pedra no edifício, se edifício terminado vier a haver.

Como disse Vladimir Putin, no fórum anual do Clube de Valdai, na semana passada em Moscovo, “temos provavelmente à nossa frente a década mais perigosa, imprevisível e ao mesmo tempo a mais importante desde o fim da Segunda Guerra Mundial”.

Sabe do que fala, por ser um dos principais arquitectos da crise actual. Porém, à velocidade a que os acontecimentos estão a evoluir, uma década afigura-se como um tempo sem fim. Tudo pode acontecer amanhã ou nos dias seguintes.

É esse o meu alerta. Começa a ser urgente travar Putin tão rapidamente quanto possível. Infelizmente, ao ponto a que as coisas chegaram, já não se trata apenas de pôr um termo à agressão contra a Ucrânia. É isso e muito mais.

É fundamental derrotar uma filosofia política que, estando à cabeça do maior país do nosso continente e de um membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, olha de alto para nós de modo imperial.

Contrariar essa visão imperialista não quer necessariamente dizer guerra, que é um horror que as nações civilizadas não desejam e uma palavra que já não se usa na linguagem europeia contemporânea, nem mesmo por quem manda executar “uma operação militar especial”.

Não se trata também de procurar criar um impasse, porque os últimos meses já mostraram que a dissuasão tem os seus limites e os conflitos congelados são como vulcões adormecidos. Tratar-se-ia, numa primeira fase, de definir claramente um conjunto de condições, que o Kremlin teria de respeitar.

Não seria um ultimato, mas um enunciado claro de um conjunto de regras básicas de boa convivência entre Estados vizinhos. Perguntar-me-ão quem estabeleceria essas linhas vermelhas. O ideal seria a União Europeia ou a Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE). Mas não tenhamos ilusões.

Nem uma nem a outra têm a unidade política necessária. Também não podem tais linhas ser definidas por uma organização de natureza militar, pois conviria que fossem acima de tudo políticas, diplomáticas, financeiras, económicas e comerciais, complementares às decisões do G7, mas fora desse grupo, para permitir a participação de pequenos Estados vizinhos da Rússia.

A hipótese mais viável seria a de um conjunto de países europeus, todos membros da NATO, uma mistura de músculo económico com uma forte determinação política e a capacidade de recorrer à protecção da Aliança Atlântica, em caso de necessidade.

Essa coligação ad-hoc adoptaria uma hostilidade híbrida, mas suficientemente clara, em relação ao poder de Putin. Este teria apenas duas opções: ou responder na mesma moeda híbrida, o que pouco afectaria esses países, ou sonhar com uma resposta bélica, o que traria de imediato a NATO para o teatro de operações.

A minha leitura é que Putin não quer entrar num conflito armado com a NATO. As conclusões que está a tirar da campanha contra a Ucrânia parecem óbvias: a parte clássica das forças armadas russas é mais fachada do que realidade; milhões de cidadãos russos descrêem da necessidade da guerra; a capacidade logística das forças armadas nacionais roça o medíocre; e os estrategas militares têm medo dos políticos e de lhes contar a verdade nua e crua.

Na realidade, apelo claramente ao uso máximo da força política, nas suas múltiplas vertentes, por estar convencido que estamos a chegar a uma encruzilhada: por um lado, existe no horizonte um sério risco do alargamento do conflito, para além das fronteiras da Ucrânia; por outro, a liderança russa poderá estar agora mais pronta do que há uns tempos para iniciar um processo de negociações.

O volte-face respeitante à circulação dos navios cerealíferos – o Kremlin passou de uma posição muito dura a uma moderada num par de dias, sem que houvesse qualquer razão que justificasse a mudança de política – significa, no meu entender, que há vontade de sair do imbróglio em que se meteram a 24 de Fevereiro.

Por isso, este meu texto é, acima de tudo, uma chamada de atenção: se se apertar o Kremlin com a sabedoria política necessária, é possível que se possa começar a falar de um processo de paz a breve trecho.

Conselheiro em segurança internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

Diário de Notícias
Victor Ângelo
04 Novembro 2022 — 00:50



 

585: Brasil e Estados Unidos no fio da navalha

OPINIÃO

Uma eventual vitória dos Republicanos na próxima terça-feira, nas eleições norte americanas para a Câmara dos Representantes e Senado, poderá lançar de novo o país na órbita das absurdas teses de Trump.

Trump e Bolsonaro são representantes de um ideário político que não se esgota na personalidade destas duas figuras. Tanto nos Estados Unidos como no Brasil o populismo tem um apoio popular que tem tendência a permanecer, mesmo depois da derrota dos seus protagonistas principais.

As ideias de Trump prosseguem nos Estados Unidos, apesar da sua derrota. A sua base sociológica e política está, praticamente, intacta desde a derrota nas eleições de 7 de Janeiro de 2021.

No Brasil, tal como nos Estados Unidos, o populismo não aceitou os resultados eleitorais. Os argumentos são os mesmos. Há fraude, as eleições não foram escrutinadas, pedem a intervenção das instituições judiciais, desafiam as respectivas forças armadas dos países a intervirem.

A violência instalou-se face à estratégia de não reconhecerem de imediato os resultados eleitorais. As sedes das instituições democráticas foram atacadas, como o Congresso nos Estados Unidos, ou nascem bloqueios nas estradas como no caso brasileiro com o país em parte paralisado à data em que escrevo esta crónica.

As instituições norte-americanas resistiram bem aos ataques populistas. As Forças Armadas, tanto dos Estados Unidos como no Brasil, parecem ser hoje uma das componentes mais sensatas dos edifícios democráticos.

Esperam, acompanham à distância, não intervêm e deixam espaço a que as coisas se resolvam no âmbito das instituições democráticas. São o que têm de ser. Um pilar decisivo na garantia do exercício democrático.

O populismo trouxe consigo sinais de um retrocesso civilizacional. A recusa da degradação ambiental coloca o planeta em perigo. Bolsonaro permitiu no seu consulado uma contínua degradação da Amazónia.

Trump recusou aceitar o preocupante degelo que se verifica nas calotes polares. A ciência viu negadas algumas das suas teses mais experimentadas e provadas. As questões culturais passaram para segunda plano.

Há no populismo um analfabetismo científico e uma boçalidade incompreensível neste século. Como podem presidentes dos maiores países do Mundo não aceitarem a eficácia de vacinas, pôr em causa o trabalho de cientistas que dedicam anos da sua vida à investigação?

Trump e Bolsonaro são também uma consequência da incapacidade das democracias resolverem os problemas sociais que os países enfrentam.

Como admitir que a democracia norte-americana não tenha, até hoje, um eficaz serviço de saúde gratuito para a população? Como é possível que existam bolsas de pobreza na sociedade norte-americana que crescem, diariamente?

Bolsonaro ganhou as eleições há quatro anos devido ao rasto que o Partido dos Trabalhadores de Lula da Silva deixou na sociedade brasileira. A Lava Jato e a corrupção à volta da Petrobras não foram travadas por Lula da Silva.

O Partido dos Trabalhadores não conseguiu conduzir os destinos do Brasil retirando a corrupção dos partidos e da sociedade brasileira. As instituições judiciais foram politizadas e o PT não cuidou de dinamizar uma conveniente separação dos poderes políticos e judiciais.

Os Estados Unidos e o Brasil são hoje países extremados, divididos em blocos políticos antagónicos.

Faltam estadistas como John Fitzgerald Kennedy e Fernando Henrique Cardoso que conquistem o centro político e consigam galvanizar as bases sociológicas daqueles dois países.

Que coloquem na ordem do dia os grandes objectivos dos países e das respectivas populações. Que as galvanizem em torno das questões nacionais.

Faltam estadistas e abundam protagonistas políticos de duvidosa consistência. A dimensão política dos que conduzem os destinos das nações é decisiva para não as deixar cair no fio a navalha.

Jornalista

Diário de Notícias
António Capinha
04 Novembro 2022 — 00:40



 

584: Os outros vistos gold: produção artística e património cultural

OPINIÃO

Num momento em que se execram publicamente os vistos gold concedidos ao abrigo da possibilidade de aquisição de imobiliário para habitação, depois de terem sido fundamentais para alavancar a recuperação do nosso edificado urbano, desde logo em Lisboa e Porto, valeria bem a pena pensar nos outros vistos dourados, de que tão pouco se fala.

Nesta semana, de forma pouco clara, aliás, o primeiro-ministro, no meio da rua, disse aos jornalistas uma generalidade conveniente, de tipo populista soft: “Há programas que nós estamos neste momento a reavaliar e um deles é o dos vistos gold, que, provavelmente, já cumpriu a função que tinha a cumprir e que neste momento não se justifica mais manter”.

Não sei se essa avaliação contemplará o universo total da possibilidade de concessão dessas autorizações de residência para investimento, mas há uma possibilidade legal que sempre me intrigou e sobre a qual acho que seria muito útil que fossem apresentados dados públicos, objectivos e quantificados.

Essa realidade é a da concessão de vistos gold perante um investimento cultural no nosso País, ou seja, a transferência, como diz a lei, de “capitais no montante igual ou superior a 250 000 euros, que seja aplicado em investimento ou apoio à produção artística, recuperação ou manutenção do património cultural nacional”, através de entidades públicas ou equiparadas.

Alguma autorização de residência foi concedida com base nesta premissa? Quantas? Em que valores falamos? Para que finalidades? Correu bem? Correu mal?

Num país culturalmente dependente da subsidiação pública, sob pena de não existir de todo produção artística e cultural, como tem vindo a ser tratada esta possibilidade de captação de investimento externo, desde logo pelas entidades públicas competentes? Houve alguma promoção externa intencional desta possibilidade?

Um despacho de 2017, do então ministro da Cultura, fixava o prazo de 10 dias como prazo de apreciação de um projecto neste sentido por parte dos serviços públicos relevantes, seguindo-se a decisão sobre o pedido.

Estes 10 dias alguma vez tiveram a oportunidade de serem suscitados e cumpridos? As últimas estatísticas oficiais disponibilizadas no sítio do Ministério da Cultura são de 2018 e nada oferecem de informação sobre esta matéria.

Quantos pedidos houve? Quantos filmes foram produzidos em Portugal, quantos monumentos foram recuperados, quantas peças de teatro nacionais circularam pelo mundo, ao abrigo deste mecenato cultural atípico, resultado de autorizações de residência para investimento?

Provavelmente, seja ou não mantido de futuro o universo das autorizações de residência concedidas por investimento directo em imobiliário, há outras autorizações de residência que visam efectivamente coisas muito diferentes: financiar a criação e a produção artística, criar empresas e postos de trabalho, o financiamento de instituições de ciência e conhecimento.

Será assim tão escandaloso que um mecenas estrangeiro que financie um museu, a produção de um filme ou o funcionamento de uma universidade em Portugal aqui possa, por esse facto, viver com a sua família durante um período de alguns anos?

Não há pior moralismo do que o falso moralismo e um suposto moralismo populista, e necessariamente mediático, seja ele de direita ou de esquerda. Às vezes, o bom senso, um bom senso bem informado e bem-intencionado, é mesmo a melhor política.

Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa

Diário de Notícias
Miguel Romão
04 Novembro 2022 — 00:35



 

583: Twitter dá início a processo de demissão de funcionários

TWITTER/DESPEDIMENTOS/ELON MUSK

Email enviado aos funcionários não especifica quantas pessoas serão demitidas.

© Chris DELMAS / AFP

O Twitter vai começar a demitir funcionários hoje, disse a rede social num email enviado aos trabalhadores, uma semana depois de ter sido adquirida pelo empresário Elon Musk.

“Começaremos o difícil processo de redução de nossa força de trabalho global na sexta-feira [hoje]”, disse o Twitter na quinta-feira, num e-mail visto pela agência de notícias France-Presse.

A mensagem indicou que todos os funcionários vão receber informações ainda esta manhã, assim que abrir o escritório do Twitter na Califórnia, no oeste dos Estados Unidos, mas não especifica quantas pessoas serão demitidas.

“Reconhecemos que vários indivíduos que fizeram contribuições notáveis para o Twitter serão afectados, mas essa acção infelizmente é necessária para garantir o sucesso da empresa no futuro”, disse a empresa aos funcionários.

Horas antes, o jornal Financial Times (FT) tinha dito que Musk pretendia demitir até metade dos 7.500 funcionários do Twitter, de acordo com fontes ligadas à compra da empresa digital, como parte do corte planeado de custos.

Como parte desses planos, o bilionário pretende cortar cerca de 3.700 postos de trabalho da empresa digital adquirida por 44 mil milhões de dólares (45,3 mil milhões de euros), indicaram fontes próximas do projecto.

“O processo de demissão em andamento é uma farsa e uma desgraça. Os lacaios da Tesla tomam decisões sobre pessoas sobre as quais não sabem nada, excepto o número de linhas de código produzidas. Isso é um completo absurdo”, disse, no domingo, Taylor Leese, director de uma equipa de engenharia do Twitter, que disse ter sido demitido.

De acordo com o jornal britânico, Musk também pretende exigir o trabalho presencial nos escritórios a partir de segunda-feira, revertendo a actual política do Twitter, que permite aos funcionários trabalhar remotamente.

O FT acrescentou que Musk já deixou a marca no Twitter, desde que finalizou a aquisição, pedindo aos funcionários que trabalhem em tempo integral em projectos seleccionados.

No final da semana passada, Musk reformulou a equipa, demitindo executivos, incluindo o responsável do Twitter, Parag Agrawal, enquanto levou para a empresa um pequeno grupo de conselheiros de confiança, incluindo o advogado pessoal Alex Spiro.

Publicidade a fugir

Entretanto, a ‘gigante’ agro-alimentar norte-americana General Mills suspendeu a publicidade no Twitter, naquele que é mais um sinal da preocupação das marcas com a visão do novo proprietário da rede social, Elon Musk, sobre moderar os conteúdos digitais.

“Suspendemos a publicidade no Twitter”, confirmou à France-Presse (AFP) a porta-voz da General Mills, Kelsey Roemhildt.

O grupo, que inclui as marcas Cheerios e Häagen-Dazs disse ainda que vai continuar a “monitorizar a evolução da situação e avaliar os gastos com marketing”.

Na sexta-feira, um dia após a aquisição do Twitter pelo chefe da Tesla, a fabricante General Motors informou que tinha suspendido temporariamente o pagamento por anúncios no Twitter.

Na quinta-feira, o Wall Street Journal afirmou que a Mondelez International (fabricante dos biscoitos Oreo), a Pfizer e a Audi (Volkswagen) tomaram decisões semelhantes.

Os anunciantes, que respondem por 90% da receita do Twitter, temem que a liberalização dos regulamentos de moderação de conteúdo, defendida por Elon Musk, torne a plataforma inóspita, com a maioria das marcas a preferir evitar a associação com conteúdo não consensual.

Desde quinta-feira, o empresário tem tentado tranquilizar as marcas, tendo escrito uma mensagem onde prometia que o Twitter não se tornaria numa plataforma “infernal”, “onde qualquer coisa pode ser dita sem consequências”.

Musk prometeu também formar um conselho de moderação de conteúdo e levar algumas semanas antes de, eventualmente, autorizar o regresso de pessoas banidas da plataforma, como o ex-Presidente norte-americano, Donald Trump.

No entanto, nem as marcas, nem várias organizações não-governamentais (ONG) parecem estar convencidas.

Diário de Notícias
Lusa/DN
04 Novembro 2022 — 08:15



 

Vacina de reforço da covid-19 disponível em “casa aberta” para maiores de 75 anos

SAÚDE PÚBLICA/PANDEMIA/COVID-19/VACINAS/CASA ABERTA

Foram vacinados, entre o dia 7 de Setembro e quinta-feira, mais de 1,7 milhões de utentes contra a covid-19 e mais de 1,7 milhões contra a gripe em Portugal Continental, dos quais mais de 1,3 milhões receberam as duas vacinas em simultâneo.

© Miguel Pereira da Silva / GLOBAL IMAGENS

As pessoas com 75 ou mais anos podem, a partir desta sexta-feira, tomar a dose de reforço da vacina contra a covid-19 na modalidade de “casa aberta”, anunciaram os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS).

No âmbito da campanha de vacinação outono/inverno, esta modalidade está agora disponível para o reforço sazonal contra a covid-19 para pessoas com 75 ou mais anos de idade, “descendo assim a faixa etária para que mais utentes possam deslocar-se aos locais de vacinação sem ser preciso marcação”, referem os SPMS em comunicado.

Recomendam, no entanto, o recurso às senhas digitais para facilitar a organização deste processo.

A “Casa Aberta” continua também disponível para grupos profissionais prioritários, com recurso a senhas digitais, e para a vacinação e reforço de pessoas entre os 18 e 59 anos e vacinação primária acima dos 12 anos

Segundo dados dos SPMS, foram vacinados, entre o dia 7 de Setembro e quinta-feira, mais de 1,7 milhões de utentes contra a covid-19 e mais de 1,7 milhões contra a gripe em Portugal Continental, dos quais mais de 1,3 milhões receberam as duas vacinas em simultâneo.

A campanha de reforço sazonal contra a covid-19 dirige-se a pessoas com 60 ou mais anos, grávidas com idade igual ou superior a 18 anos e doenças definidas pela norma publicada pela Direcção-Geral da Saúde.

São também abrangidas pessoas com 12 ou mais anos com patologias de risco, estudantes em estágio clínico, bombeiros envolvidos no transporte de doentes e profissionais de Estabelecimentos Prisionais.

Para os residentes ou profissionais de Estabelecimentos Residenciais Para Idosos e na Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI) e para profissionais de saúde e outros prestadores de cuidados estão indicadas as duas vacinas.

A vacinação contra a gripe é também recomendável para quem tem idade igual ou acima dos 65 anos, crianças com seis ou mais meses que apresentem patologias crónicas associadas, doentes crónicos e imunodeprimidos e grávidas.

As vacinas estão também disponíveis para os grupos prioritários, nomeadamente profissionais de saúde.

Desde o dia 7 de Setembro que decorre a campanha de reforço sazonal em vários centros de vacinação espalhados pelo país, e irá prolongar-se até Dezembro, tendo como prioridade proteger as pessoas mais vulneráveis, prevenindo a doença grave, a hospitalização e a morte.

“O objectivo é vacinar este ano 3 milhões de pessoas elegíveis e por isso reforça-se a importância da adesão à vacinação, em particular dos mais vulneráveis, para ficarem desde já mais protegidos para os próximos meses”, salientam os SPMS.

Diário de Notícias
DN/Lusa
04 Novembro 2022 — 09:23



 

581: Os planetas podem ser uma fórmula de anti-envelhecimento para as estrelas

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

Esta impressão de artista mostra um planeta gigante gasoso (em baixo e à direita) orbitando de perto a sua estrela hospedeira (esquerda), com outra estrela à distância (em cima e à direita). As duas estrelas estão elas próprias em órbita uma da outra.
Crédito: NASA/CXC/M.Weiss

De acordo com um novo estudo de vários sistemas, utilizando o Observatório de raios-X Chandra da NASA, os planetas podem forçar as suas estrelas hospedeiras a agir mais jovens do que são.

Esta pode ser a melhor evidência, até à data, de que alguns planetas aparentemente atrasam o processo de envelhecimento das estrelas que orbitam.

Embora a propriedade anti-envelhecimento dos “Júpiteres quentes” (isto é, exoplanetas gigantes gasosos que orbitam uma estrela à distância de Mercúrio, ou até mais perto) já tenha sido vista anteriormente, este resultado é a primeira vez que é sistematicamente documentada, proporcionando o teste mais forte até agora deste fenómeno exótico.

“Na medicina, são necessários muitos pacientes inscritos num estudo para saber se os efeitos são reais ou algum tipo de ‘outlier'”, disse Nikoleta Ilic do Instituto Leibniz para Astrofísica em Potsdam, Alemanha, que liderou este novo estudo.

“O mesmo pode ser verdade em astronomia e este estudo dá-nos a confiança de que estes Júpiteres quentes estão realmente a fazer com que as estrelas que orbitam actuem como se fossem mais jovens”.

Um Júpiter quente pode potencialmente influenciar a sua estrela hospedeira devido às forças das marés, fazendo com que a estrela gire mais rapidamente do que se não tivesse um planeta assim.

Esta rotação mais rápida pode tornar a estrela hospedeira mais activa e produzir mais raios-X, sinais geralmente associados à juventude estelar.

No entanto, tal como com os humanos, há muitos factores que podem determinar a vitalidade de uma estrela. Todas as estrelas abrandam a sua rotação e actividade e sofrem menos erupções à medida que envelhecem.

Dado que é um desafio determinar com precisão as idades da maioria das estrelas, tem sido difícil para os astrónomos identificar se uma estrela é invulgarmente activa porque está a ser afectada por um planeta próximo, tornando-a mais jovem do que realmente é, ou porque é de facto jovem.

O novo estudo liderado por Ilic, recorrendo ao Chandra, abordou este problema através da observação de sistemas binários (com duas estrelas) onde as estrelas estão amplamente separadas, mas apenas uma delas tem um Júpiter quente em órbita. Os astrónomos sabem que, tal como os gémeos humanos, as estrelas em sistemas binários formam-se ao mesmo tempo.

A separação entre as estrelas é demasiado grande para que se possam influenciar mutuamente ou para que o Júpiter quente possa afectar a outra estrela. Isto significa que podem usar a estrela sem planeta no binário como objecto de controle.

“É quase como usar gémeos num estudo onde um gémeo vive num bairro completamente diferente que afecta a sua saúde”, disse a co-autora Katja Poppenhaeger, também do mesmo instituto.

“Ao comparar uma estrela, que hospeda um planeta próximo, com a sua gémea, que não tem um planeta próximo, podemos estudar as diferenças de comportamento de estrelas com a mesma idade”.

A equipa utilizou a quantidade de raios-X para determinar quão “jovem” uma estrela está a agir. Procuraram evidências da influência planeta-para-estrela, estudando quase três dúzias de sistemas em raios-X (a amostra final continha 10 sistemas observados pelo Chandra e seis pelo XMM-Newton da ESA, com vários observados por ambos).

Descobriram que as estrelas com Júpiteres quentes tendem a ser mais brilhantes em raios-X e, portanto, mais activas do que as suas estrelas companheiras sem Júpiteres quentes.

“Em casos anteriores houve algumas pistas muito intrigantes, mas agora temos finalmente evidências estatísticas de que alguns planetas estão, de facto, a influenciar as suas estrelas e a mantê-las jovens”, disse a co-autora Marzieh Hosseini, também do Instituto Leibniz para Astrofísica em Potsdam. “Esperemos que estudos futuros ajudem a descobrir mais sistemas para melhor compreender este efeito”.

O artigo que descreve estes resultados foi publicado na edição de Julho de 2022 da revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society e pode ser consultado online.

Astronomia On-line
4 de Novembro de 2022



 

NASA prepara-se para dizer “adeus” ao módulo InSight

CIÊNCIA/TECNOLOGIA/INSIGHT/MARTE

Comparação que mostra o InSight “limpo” e “sujo” – duas selfies obtidas no dia 6 de Dezembro de 2018 – apenas 10 dias após o pouso em Marte – e no dia 24 de Abril de 2022. Pode ser vista uma espessa camada de poeira no “lander” e nos seus painéis solares. Ver aqui apenas a imagem do InSight “limpo”; aqui apenas a imagem do InSight “sujo”.
Crédito: NASA/JPL-Caltech

Aproxima-se o dia em que o “lander” InSight da NASA cairá em silêncio, pondo fim à sua missão histórica de revelar segredos do interior do Planeta Vermelho.

A produção energética do módulo de aterragem continua a diminuir à medida que a poeira soprada pelo vento nos seus painéis solares se torna mais espessa, pelo que a equipa tomou medidas para continuar, tanto quanto possível, com a energia que resta. Espera-se que o fim chegue nas próximas semanas.

Mas mesmo à medida que a unida equipa de operações, que tem 25 a 30 membros – um grupo pequeno em comparação com outras missões marcianas – continua a “espremer” o máximo que pode do InSight (abreviatura de “Interior Exploration using Seismic Investigations, Geodesy and Heat Transport”), eles próprios também começaram a tomar medidas que assinalam o fim.

Aqui fica um vislumbre do que isso engloba.

Preservação de dados

A mais importante das etapas finais da missão InSight é o armazenamento dos seus dados e a sua disponibilização aos investigadores de todo o mundo.

Os dados do “lander” forneceram detalhes sobre as camadas interiores de Marte, o seu núcleo líquido, os remanescentes surpreendentemente variáveis, sob a superfície, do seu campo magnético maioritariamente extinto, a meteorologia nesta parte de Marte e muita actividade sísmica.

O sismómetro do InSight, fornecido pelo CNES (Centre National d’Études Spatiales) da França, detectou mais de 1.300 sismos marcianos desde que o módulo pousou em Novembro de 2018, o maior medindo magnitude 5.

Registou até sismos do impacto de meteoroides. A observação de como as ondas desses sismos mudam à medida que viajam pelo planeta fornece uma melhor compreensão de como todos os mundos rochosos, incluindo a Terra e a sua Lua, se formaram.

“Finalmente podemos ver Marte como um planeta com camadas, com espessuras e composições diferentes”, disse Bruce Banerdt do JPL da NASA no sul do estado norte-americano da Califórnia, o investigador principal da missão.

“Estamos a começar a mergulhar profundamente nos detalhes. Agora não se trata apenas deste enigma; é na verdade um planeta ‘vivo’, um planeta que ‘respira'”.

As leituras do sismómetro vão juntar-se ao único outro conjunto de dados sísmicos extraterrestres, das missões lunares Apollo, no PDS (Planetary Data System) da NASA.

Vão também para um arquivo internacional gerido pelo consórcio IRIS (Incorporated Research Institutions for Seismology), que hospeda “todos os locais de dados da rede sísmica terrestre”, disse Sue Smrekar do JPL, investigadora principal adjunta do InSight. “Agora, também temos Marte”.

Smrekar disse que se espera que os dados continuem a produzir descobertas durante décadas.

Gestão energética

No início deste verão, o “lander” tinha tão pouca energia disponível que a missão desligou todos os outros instrumentos científicos do InSight a fim de manter o sismómetro a funcionar.

Até desligaram o sistema de protecção de falhas, que de outra forma desligaria automaticamente o sismómetro caso o sistema detectasse que a produção de energia estava perigosamente baixa.

“Estávamos reduzidos a menos de 20% da capacidade de produção original”, disse Banerdt. “Isso significa que não nos podemos dar ao luxo de deixar os instrumentos continuamente ligados”.

Recentemente, após uma tempestade regional de poeira ter acrescentado ainda mais poeira aos painéis solares do módulo, já de si “sujos”, a equipa decidiu desligar completamente o sismómetro a fim de poupar energia.

Agora que a tempestade terminou, o sismómetro está novamente a recolher dados – embora a missão espera que o módulo de aterragem só tenha energia suficiente para mais algumas semanas.

Do conjunto de sensores do sismómetro, apenas os mais sensíveis estão ainda em funcionamento, disse Liz Barrett, que lidera as operações científicas e instrumentais da equipa no JPL, acrescentando: “Estamos a ‘espremê-lo’ ao máximo possível”.

Arrumando o gémeo

Um membro silencioso da equipa é o ForeSight, o modelo de engenharia em tamanho real do InSight, situado no ISIL (In-Situ Instrument Laboratory) do JPL.

Os engenheiros utilizaram o ForeSight para praticar como o InSight poderia colocar os instrumentos científicos na superfície marciana com o seu braço robótico, para testar técnicas para colocar a sonda de calor do “lander” no pegajoso solo marciano e para desenvolver formas de reduzir o ruído captado pelo sismómetro.

O ForeSight será acondicionado e colocado em armazém. “Vamos guardá-lo com carinho”, disse Banerdt. “Tem sido uma grande ferramenta, um grande companheiro durante toda a missão”.

Declarando o fim da missão

A NASA declarará o fim da missão quando o InSight falhar duas sessões consecutivas de comunicação com as naves espaciais em órbita de Marte, parte da MRN (Mars Relay Network) – mas apenas se a causa da falha de comunicação for o próprio “lander”, disse o gerente da rede, Roy Gladden, do JPL. Depois disso, a DSN (Deep Space Network) da NASA ainda irá continuar à escuta durante algum tempo, por via das dúvidas.

Não vão haver medidas heróicas para restabelecer o contacto com o InSight. Embora um evento que salve a missão – uma forte rajada de vento, digamos, que limpe os painéis – não esteja fora de questão, é considerado improvável.

Entretanto, enquanto o InSight se mantiver em contacto, a equipa vai continuar a recolher dados. “Vamos continuar a fazer medições científicas enquanto pudermos”, disse Banerdt. “Estamos à mercê de Marte. Em Marte não se prevê nem chuva nem neve; a meteorologia em Marte é poeira e vento”.

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