615: Elon Musk apela ao voto nos candidatos republicanos

– Musk é o gato escondido com rabo de fora como sói dizer-se! Lá terá o Trump regresso novamente ao voto na matéria de fake news no Twitter! Não é que me interesse particularmente, mas Trump é outro dos perigos para a Paz Mundial!

“… A recomendação de voto de Musk está a alimentar preocupações nos eleitores norte-americanos, que temem que o novo dono do Twitter use esta rede social com fins políticos.”

EUA/ELON MUSK/TENDÊNCIAS/REPUBLICANOS

Elon Musk acredita que os militantes dos dois partidos dificilmente irão alterar o seu sentido de voto, pelo que o seu apelo de esta é dirigido aos independentes, “que são quem realmente decidirá”.

© EPA/Carina Johansen NORWAY OUT

O empresário Elon Musk apelou esta segunda-feira ao voto no Partido Republicano, nas eleições intercalares de amanhã, terça-feira, argumentando a necessidade de tornar o Congresso norte-americano um contrapeso à Casa Branca controlada pelos Democratas.

“A partilha de poder limita os piores excessos de ambos os partidos. É por isso que recomendo o voto por um Congresso Republicano”, escreveu Musk no Twitter, a rede social que adquiriu recentemente.

A recomendação de voto de Musk está a alimentar preocupações nos eleitores norte-americanos, que temem que o novo dono do Twitter use esta rede social com fins políticos.

O empresário tem dito que acredita que os militantes dos dois partidos dificilmente alterarão o seu sentido de voto, pelo que o seu apelo de esta segunda-feira é dirigido aos independentes, “que são quem realmente decidirá”.

Nas últimas semanas, Musk recebeu elogios do ex-Presidente Republicano Donald Trump, que aplaudiu a compra do Twitter por Musk, dizendo que esta rede social passou a estar nas mãos de “uma pessoa sã”.

As eleições intercalares norte-americanas, em 8 de Novembro, determinarão qual o partido que controlará o Congresso nos dois últimos anos do mandato do Presidente Joe Biden, estando também em jogo 36 governos estaduais e vários referendos estaduais a medidas sobre questões-chave, incluindo aborto e drogas leves.

Em disputa estarão todos os 435 lugares na Câmara dos Representantes, onde os democratas actualmente têm uma estreita maioria de cinco assentos, e ainda 35 lugares no Senado, onde os democratas têm uma maioria apenas graças ao voto de desempate da vice-presidente Kamala Harris.

As eleições podem não apenas mudar a cara do Congresso norte-americano, mas também levar ao poder governadores e autoridades locais totalmente comprometidos com as ideias de Donald Trump.

Uma derrota muito pesada nestas próximas eleições pode complicar ainda mais o cenário de um segundo mandato presidencial para Joe Biden.

Diário de Notícias
DN/Lusa
07 Novembro 2022 — 17:58



 

Guterres. Mundo tem de escolher entre “ser solidário” ou cometer “suicídio em massa”

ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS/ONU/GUTERRES

Para o secretário-geral das Nações Unidas, é “inaceitável, escandaloso e contraproducente” deixar a luta contra as alterações climáticas “em segundo plano”.

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres
© EPA/MAXIM SHIPENKOV

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, pediu esta segunda-feira que os conflitos mundiais não sejam usados como desculpa para fugir às responsabilidades relativas ao clima, defendendo que a humanidade tem de escolher entre “solidariedade ou suicídio em massa”.

No seu discurso perante a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2022 (COP27), Guterres considerou que, apesar dos múltiplos conflitos que assolam o mundo – como a guerra na Ucrânia ou o conflito no Sahel -, “as alterações climáticas têm uma escala e uma linha de tempo diferentes”, já que “constituem a questão definidora da época” actual e o “desafio central do século”.

Por isso, defendeu ser “inaceitável, escandaloso e contraproducente” deixar a luta contra as alterações climáticas “em segundo plano”, e sublinhou que “muitos dos conflitos actuais estão relacionados com o crescente caos climático”.

Reconhecendo que a invasão russa à Ucrânia expôs a dependência do mundo ocidental face aos combustíveis fósseis e criou uma crise energética no mundo, Guterres pediu que isso não seja usado como “uma desculpa para recuos” nos objectivos definidos relativamente ao clima.

Estes conflitos devem antes “ser uma razão para ter mais urgência, acção mais forte e responsabilidade efectiva”, disse.

O secretário-geral da ONU afirmou ainda que, face ao aquecimento global e aos seus cada vez mais rápidos impactos, a humanidade terá de “cooperar ou morrer”.

“A humanidade tem uma escolha: cooperar ou morrer. É um Pacto de Solidariedade Climática ou um Pacto de Suicídio Colectivo”, disse António Guterres.

A actividade humana é a causa do problema climático, pelo que “a acção humana deve ser a solução”, referiu, defendendo que “a confiança” entre “o Norte e o Sul” tem de ser restabelecida.

Guterres pediu que as economias desenvolvidas e emergentes estabeleçam um “pacto de solidariedade climática” para que todos os países “façam um esforço extra para reduzir as emissões nesta década, de acordo com a meta” de limitar o aumento da temperatura a 1,5 graus Celsius e atingir emissões líquidas zero até 2050 em todo o mundo.

“Estamos perigosamente perto do ponto sem retorno”

“Mas essa meta de 1,5º está ligada à máquina de suporte de vida e a máquina está a tremer. Estamos perigosamente perto do ponto sem retorno”, disse, pedindo aos países do G20 (grupo das 19 economias mais desenvolvidas do mundo e União Europeia) que acelerem a sua transição verde “nesta década”.

Esse pacto de solidariedade climática também deve garantir que os países ricos e as instituições internacionais “fornecem ajuda técnica e financeira às economias emergentes para que estas acelerem a sua própria transição para as energias renováveis” e “acabem com a dependência de combustíveis fósseis”.

Para isso, é preciso “eliminar o carvão nos países da OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico] até 2030 e em todos os outros até 2040”, afirmou.

O secretário-geral da ONU lembrou aos Estados Unidos e à China, as duas maiores economias do mundo, que têm “uma responsabilidade particular de unir forças para tornar esse pacto uma realidade”, sublinhando que o acordo representa a “única esperança para alcançar as metas climáticas”.

Lembrando que a população mundial chega oficialmente aos 8 mil milhões de pessoas em 15 de Novembro, Guterres avançou uma questão: “O que diremos quando esse bebé 8 mil milhões tiver idade suficiente para nos perguntar: o que fizeram pelo nosso mundo e pelo nosso planeta quando tiveram oportunidade?”.

“Não esqueçamos que a guerra contra a natureza é, em si mesma, uma violação maciça dos direitos humanos”, acrescentou.

É preciso fazer mais para ajudar os países mais vulneráveis a lidar com as “perdas e danos” já sofridos devido ao aumento das tempestades, inundações, secas e outros fenómenos climáticos extremos, defendeu.

Embora esta questão seja um dos pontos de negociação mais sensíveis desta COP27, “a obtenção de resultados concretos sobre perdas e danos será o teste dos compromissos dos governos para o sucesso” da conferência, considerou.

Notícia actualizada às 13:57

Diário de Notícias
DN/Lusa
07 Novembro 2022 — 12:15



 

613: Há sinais de “outras dimensões” no material expelido pelos buracos negros

CIÊNCIA/ASTRONOMIA/ASTROFÍSICA

Desvendar as propriedades e o comportamento do Universo nos buracos negros, onde o espaço-tempo se curva abruptamente, oferece desafios insólitos.

EHT Collaboration
A primeira fotografia de um buraco negro.

Estamos diante dos aspectos quânticos da gravidade. Neles, procuramos sinais de outras dimensões, além das quatro que já conhecemos. Porque é que acreditamos que possam existir?

A gravidade é uma força muito familiar, mas não se enquadra nas fórmulas clássicas da Física conhecida. Não conseguimos explicar porque é que ela é muito mais fraca que as outras forças fundamentais.

Explicar essa singularidade — a fraqueza da gravidade — foi o que nos levou a procurar esses sinais que confirmem a existência de outras dimensões. Essas dimensões adicionais podem estar a afectar a gravidade e ser o motivo da sua fraqueza.

Por isso, os jactos de matéria expelidos pelos buracos negros podem ser a chave para encontrar sinais da existência dessas outras dimensões.

Se encontrarmos evidências de dimensões exóticas do espaço-tempo além daquelas quatro que conhecemos (três espaciais e uma temporal), poderemos caracterizar a gravidade, compreendê-la e resolver alguns dos mistérios mais profundos da ciência — entre eles, a expansão do Universo.

Dimensões muito grandes ou muito pequenas

Se existirem outras dimensões, não devem causar efeito sobre o nosso dia a dia. Mas existem teorias em que as dimensões adicionais do espaço-tempo são necessárias para unificar a Física como a conhecemos.

A teoria das cordas defende a existência de pelo menos dez dimensões. Ela considera as três dimensões espaciais conhecidas, o tempo e outras seis que, segundo se supõe, formam um espaço muito pequeno ou muito grande.

Essas dimensões adicionais podem ser tão pequenas (abaixo da escala de Planck, quase a 10-35 metros) que são imperceptíveis, mesmo com a precisão atingida pelas experiências actuais mais avançadas, como o Grande Colisor de Hadrões (LHC, na sigla em inglês).

Ou elas podem ser muito grandes, de forma que não teríamos acesso por estarmos restritos a viver numa folha quadridimensional dentro desse Universo de dimensões adicionais.

É neste último cenário que os cientistas desenvolveram um modelo para procurar os efeitos das dimensões adicionais nos jactos emitidos pelos buracos negros.

Os jactos expelidos pelos buracos negros

Um enorme número de buracos negros no Universo emite feixes de matéria relativa, conhecidos como jactos.

A precisão com que os telescópios têm registado dados sobre jactos de buracos negros nos últimos dois anos é assombrosa — por exemplo, o telescópio espacial James Webb, o Telescópio do Horizonte de Eventos e o Observatório Espacial Europeu.

Com esses dados obtidos, numa nova teoria proposta pendente de publicação, cientistas analisam a possibilidade dos efeitos das dimensões adicionais sobre esses jactos de matéria.

Como esperamos que a gravidade ocupe todas as dimensões existentes, os seus efeitos poderiam ser observados nos jactos. Com isso, os feixes dos buracos negros tornam-se canais especialmente promissores para a sua detecção.

Seriam estes modelos a chave para desmentir ou confirmar a existência de dimensões adicionais do espaço-tempo?

Os rastos de outras dimensões

Para poder determinar os efeitos das dimensões do espaço-tempo em feixes de buracos negros, primeiramente devemos elaborar as soluções desses modelos.

Para isso, os investigadores criaram o primeiro modelo para verificar como a possível existência de dimensões adicionais afectaria os feixes de buracos negros que observamos actualmente.

Se existirem, essas dimensões adicionais afectariam a rotação do buraco negro? Reduziriam a sua eficácia para emitir feixes de energia? Aplicando o modelo, encontraram-se dois efeitos distintos.

Quanto à rotação do buraco negro, foi encontrada a mesma dependência que em quatro dimensões e menor eficácia do fluxo energético. Isto significa que, à medida que os feixes de energia emitidos pelos buracos negros giratórios propagam-se pelas cinco dimensões espaço-temporais do novo modelo, a sua potência continua a ter a mesma dependência do parâmetro de rotação do buraco negro em quatro dimensões.

Por isso, este aspecto um tanto inesperado das soluções não permite diferenciar entre quatro e cinco dimensões. Não serve para demonstrar a existência de dimensões adicionais.

Mas o segundo efeito é mais promissor. Se considerarmos a existência de outras dimensões, ocorre redução da eficácia do buraco negro para emitir feixes de energia.

Para responder à pergunta, é preciso acrescentar uma dificuldade adicional. Os jactos como conhecemos actualmente possuem eficácia maior que a esperada segundo os modelos clássicos de quatro dimensões.

Isso pareceria indicar que os modelos com mais dimensões deveriam ser desconsiderados. Mas ainda existem muitos parâmetros a serem analisados. Nos próximos anos, os novos telescópios que estão agora a recolher dados fornecerão maior precisão para caracterizar a região de emissão de massa dos buracos negros.

Os cientistas esperam poder então realmente comparar os modelos teóricos de dimensões espaço-temporais que foram criados.

Einstein demonstrou a existência dos buracos negros com fórmulas matemáticas. Eram apenas soluções fictícias escritas em papel. Décadas depois, os cientistas conseguiram comprovar a sua existência e até fotografá-los.

Da mesma forma, os modelos teóricos de vários tipos servirão para demonstrar a existência ou inexistência de outras dimensões. E, talvez um dia, possamos encontrar a primeira porta para outra dimensão no jacto de um buraco negro.

ZAP // The Conversation
7 Novembro, 2022



 

612: O planeta está a enviar um sinal de sofrimento: a crónica do caos climático

CIÊNCIA/ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS/AVISOS

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, avisou hoje que o “planeta está a enviar um sinal de sofrimento”, numa mensagem vídeo enviada aos participantes na Cimeira do Clima COP27, no Egipto, que arrancou de manhã.

ZAP // Marion / pixabay; André Kosters / Lusa

“No momento em que arranca a COP27, o nosso planeta está a enviar um sinal de sofrimento”, afirmou Guterres, citado pela agência de notícias AFP, referindo-se a uma “situação crónica do caos climático”.

A conferência climática da ONU arrancou hoje, em Sharm el-Sheikh, no Egipto, com um novo alerta sobre a aceleração do aquecimento global, cujo financiamento dos danos a países pobres está pela primeira vez, oficialmente, na lista dos debates.

Segundo dados divulgados hoje pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), os oito anos entre 2015 e 2022 serão os mais quentes já registados.

Até 18 de Novembro, delegados de quase 200 países tentarão dar um novo fôlego à luta contra o aquecimento global, enquanto as múltiplas e inter-relacionadas crises que abalam o mundo – guerra na Ucrânia, inflação e ameaça de recessão, crise alimentar – levantam receios de que o tema vai ficar em segundo plano.

“Vamos implementar juntos os nossos compromissos para a humanidade e para o nosso planeta”, apontou o ministro egípcio Sameh Choukri, que preside à cimeira.

Os impactos das alterações climáticas têm-se multiplicado, como mostram os diversos desastres que atingiram o planeta em 2022, desde as inundações históricas no Paquistão, às repetidas ondas de calor na Europa, além de furacões, incêndios, ou secas.

Os custos daqueles desastres já rondam as dezenas de milhares de milhões de euros, pelos quais os países do sul do globo, mais afectados, reivindicam uma compensação financeira.

O tema delicado das “perdas e danos” foi oficialmente adicionado à agenda das discussões, durante a cerimónia de abertura, enquanto até então era apenas objecto de diálogo previsto até 2024.

A desconfiança dos países em desenvolvimento é forte, enquanto não se cumpre a promessa dos países do norte de aumentar para 100.000 milhões de dólares por ano, a partir de 2020, a ajuda aos do sul, para reduzirem as emissões e se prepararem para os impactos.

Outra questão premente nas discussões prende-se com evitar um recuo nos compromissos de redução de emissões, que, mesmo assim, ainda são insuficientes.

Apenas 29 países apresentaram planos de redução aprimorados desde a COP de 2021, em Glasgow, na Escócia, embora tenham assumido o compromisso de o fazer.

2015 e 2022: a crónica do caos climático

Se as projecções para este ano se confirmarem, os oito anos de 2015 a 2022 serão os mais quentes jamais registados, alertou hoje a Organização Meteorológica Mundial (OMM) num relatório em que faz uma “crónica do caos climático”.

Esta “crónica do caos climático” mostra claramente que “a mudança se processa a uma velocidade catastrófica”, devastando vidas “em todos os continentes”, acrescentou, apelando para uma resposta através de “acções ambiciosas e credíveis” durante as duas semanas desta conferência sobre o clima no Egipto.

Com uma temperatura média estimada de 1,15°C superiores à da era pré-industrial, o ano de 2022 deverá classificar-se “apenas” como o quinto ou o sexto dos anos mais quentes, devido à influência não habitual, pelo terceiro ano consecutivo, do fenómeno oceânico La Niña, que provoca uma baixa das temperaturas.

“Mas isto não altera a tendência a longo prazo. É apenas uma questão de tempo até haver um novo ano mais quente”, insistiu a OMM, agência especializada da ONU.

Decisores políticos, académicos e ONGs reúnem-se entre hoje e 18 de Novembro em Sharm el-Sheikh na 27ª cimeira da ONU sobre alterações climáticas, COP27, para tentar travar o aquecimento do planeta, limitando o aquecimento global a 2ºC, e se possível a 1,5ºC, acima dos valores médios da época pré-industrial.

Líderes como o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, confirmaram a presença, e o Governo português vai ser representado pelo primeiro-ministro, António Costa.

ZAP // Lusa
6 Novembro, 2022



 

611: Vai fogoso e não seguro

– MRS é o presidente dos eleitores que votaram nele. Ultimamente tem-se dedicado a protagonizar elogios a elementos do seu partido, notoriamente abandonando a independência política que deveria assumir com o seu cargo. Por isso, não o considero o presidente de todos os portugueses mas apenas o presidente do seu eleitorado político.

OPINIÃO

Há um problema sério com Marcelo Rebelo de Sousa e temos de lhe pedir que o resolva, porque uma maioria absoluta no Parlamento sem um Presidente absolutamente determinado em combater os abusos dessa maioria, é um desperdício de tempo e de talento.

O talento de um comunicador que soube captar a atenção de uma parte dos portugueses que estava desligada da política, que rebentou com as audiências do comentário político na televisão, que se fez do povo vindo da elite, que virou a estrela das selfies aquém e além mar.

Não aproveitar esse talento para exigir que o Executivo explique prontamente todos os casos que se dão à estampa, incluindo o do secretário de Estado-adjunto do primeiro-ministro, é deixar no governo a sensação de que pode andar em roda livre. Daí para o rolo compressor é um passinho.

Miguel Alves veio, entretanto, dar algumas explicações, numa entrevista ao JN/TSF, mas não deixou escapar a oportunidade de apontar o dedo ao mensageiro, apresentando-se como vítima do “preconceito” em relação a quem está fora da “corte” mediática de Lisboa. Um preconceito que existe, sobretudo, na sua opinião, porque as coisas aconteceram em Caminha.

Tendo demorado dez dias para responder, o tempo que considerou necessário para escrever uma carta à PGR, o secretário de Estado lamenta que “estes dias, com este enredo de insinuações e suspeições, acabam por prejudicar e atacar a minha credibilidade”, mas reconhece que sem este escrutínio do jornalista José António Cerejo não se conheceriam algumas mentiras do currículo do promotor. Não tivesse havido notícia e, provavelmente, também não teriam existido os desenvolvimentos positivos nesta história.

Agora, é difícil o dinheiro ficar perdido no imaginário de uma obra não concretizada. Miguel Alves precisou de 10 dias para dar explicações e o que queria, afinal, é que o víssemos como a vítima da história.

Regressemos ao fogoso comentador, inquilino do Palácio de Belém, que corre atrás de cada notícia e que nelas tem andado a tropeçar com muita frequência, obrigado a corrigir o tiro. Dele nada se ouviu sobre o adjunto de António Costa e bem que lhe podia ter lembrado que “quando se aceitam funções políticas é para o bem e para o mal.

Não somos obrigados a aceitar, sabemos que são difíceis e sujeitas ao controlo e escrutínio crescentes”. Isto foi dito por Marcelo, mas dirigido a uma ministra com quem o Presidente entendeu fazer troça.

Coragem era ter lançado a ameaça sobre a número dois do governo (Mariana Vieira da Silva), que é quem tem a gestão do PRR, ou mesmo sobre António Costa, responsável por tudo o que acontece no governo. Mas é já evidente que o Presidente tem receio da reacção do primeiro-ministro.

Marcelo sempre foi divertido e essa é uma característica que joga a seu favor. Seja a fazer análise política, seja no exercício da função presidencial, convém é que nunca perca a noção dos limites, o povo na sua imensa sabedoria está cá para lembrar ao Presidente que “mais vale cair em graça do que ser engraçado”.

Jornalista

Diário de Notícias
Paulo Baldaia
07 Novembro 2022 — 06:15



 

610: O Fascismo existiu e existe?

– Em ordem à referência da cronista na peça abaixo, Pedro Tadeu é um cronista militante comunista que faz o seu trabalho a defender a sua dama. Como tal, o contexto literário das suas crónicas tem absolutamente a ver com a sua ideologia política e não com um pensamento livre, aliás, como é habitual em todos os políticos que colocam a própria ideologia acima de todo o racionalismo.

OPINIÃO

Com perplexidade assisto ao retorno de uma discussão académica velha de mais de 50 anos, sobre a caracterização do regime ditatorial de Salazar (e de Caetano) e a sua inclusão, ou não, num modelo de fascismo genérico.

A propósito do seu livro Fascismos para além de Hitler e Mussolini (DN, de 31/10), o politólogo Carlos Martins (CM), afirma: “Não se pode classificar o Estado Novo como fascista”, mas de “conservador fascizante”.

Não li o livro, mas parece-me que a frase entra em contradição com o título, que pressupõe a existência de mais regimes fascistas, além dos de Mussolini e Hitler.

As afirmações de CM suscitaram uma habitual reacção da opinião pública, em particular do jornalista Pedro Tadeu (DN, 2/11), segundo o qual não qualificar de fascista o regime ditatorial português é desrespeitar o sofrimento dos que o combateram, perderam empregos, a liberdade e até a vida.

Embora não concorde, reconheço que há reais tentativas de branquear o regime ditatorial português, através de não o qualificar de “fascista”, para desvalorizar a repressão, a censura e o colonialismo da ditadura de Salazar e Caetano, entre outras falsificações.

Fascismo e nazismo

O termo de fascismo – tal aliás como o de totalitarismo – surgiu na Itália, onde Mussolini chegou ao poder, há cem anos, após a “marcha sobre Roma” de 1922, provindo do nome que ele deu ao seu movimento, Fasci di Combattimento, por seu turno apropriado da Roma antiga.

Respondendo ao gigantesco bluff dessa “marcha”, o rei Emanuel III ofereceu a Mussolini a chefia do governo e o fascismo passou de movimento a um regime ditatorial de novo tipo.

Este teve semelhanças com o regime de Hitler, algumas das quais existiram aliás com o salazarista e pode-se dizer que todas estas ditaduras fizeram parte de um conjunto de muitas outras que assolaram a Europa nos anos 30 e 40 do século XX.

No entanto, as diferenças entre os dois regimes foram de essência e levam hoje a considerar-se exclusivamente de fascista o regime de Mussolini e a inserir o nacional-socialismo numa categoria à parte, totalitária. Por isso, estranho a afirmação de CM, segundo o qual só se poderia dizer as “isto foi “fascismo” foram a Itália e Alemanha Nazi”.

A nível de regime, o nazismo teve uma dinâmica ideológica racial e elevou a Volksgemeinschaft (“comunidade nacional”) e a sua política expansionista foi caracterizada pela vontade de domínio racial total e baseada na conquista de Lebensraum (“espaço vital”).

Sobretudo o Holocausto (Shoah) distingue radicalmente o regime de Hitler de outras ditaduras da época. É certo que, a partir de 1943, quando Mussolini foi expulso do Grande Conselho Fascista e formou a República de Salò, as diferenças esbateram-se.

No entanto, respondo afirmativamente à pergunta deixada de Pedro Tadeu, confirmando que os dois regimes representam espécies distintas no interior de um mesmo género, sem que isso implique uma identidade total.

Salazarismo e Fascismo

A inclusão, ou não, do regime de Salazar em modelos genéricos de fascismo tem sido muito debatida, desde os anos 70 do século passado. No entanto, por “estorvar”, mais do que ajudar à caracterização dos regimes, tem sido abandonada na historiografia, até porque o seu objecto de estudo é o passado singular.

Ao contrário das ciências sociais, vocacionadas para a criação modelos genéricos ideal-típicos, que tendem, de forma redutora, a afastar-se da realidade concreta, a anterior procura académica de um “mínimo fascista” tem sido substituída pelos estudos empíricos e pelo conhecimento historiográfico sobre diversos aspectos do regime português.

No debate sobre o caso português, não posso deixar de referir os estudos pioneiros, ainda em plena ditadura, de Hermínio Martins e Manuel de Lucena, que, à época, recorreram à teoria do totalitarismo de Arendt, para recusarem o carácter totalitário do salazarismo.

No seu estudo sobre o corporativismo salazarista (1976), Manuel de Lucena definiu, porém, o Estado Novo como “fascismo sem movimento fascista”.

Isto é, um regime que, na forma estatal, foi basicamente semelhante ao fascismo de Mussolini. Claramente a partir de 1935/36 e até ao final da II Guerra Mundial, o regime de Salazar pode ser comparado com as ditaduras de vários tipos das quais ele fez parte.

Chamar-lhe fascista – ou “fascizante” – não é assim errado. Até a ideia de decadência e o mito de “regeneração da nação” (apontada por Roger Griffin, para definir o fascismo) existiram nos regimes de Mussolini, Hitler e de Salazar.

Sem espaço para referir as semelhanças e as diferenças entre estes regimes, realço que o simples facto de os compararmos revela que todos fizeram parte dum conjunto heterogéneo que marcou uma época.

É certo que o regime de Salazar – tal como o de Franco – só pode ser comparado realmente com o fascismo e o nacional-socialismo durante a vigência destes regimes. E as duas ditaduras ibéricas permaneceram após 1945.

Estará a haver um retorno do fascismo?

Depois da II Guerra Mundial, o termo “fascismo” transformou-se num conceito com má fama, que define múltiplos aspectos de um movimento ou regime, que extravasou as definições académicas e foi apropriado – e bem – pela opinião pública.

Tal como Pedro Tadeu, deixo aqui umas perguntas: Pode-se hoje classificar de fascista a onda nacionalista de extrema-direita, racista, xenófoba e reaccionária e compará-la à vaga de ditaduras que assombrou a Europa do século passado? E utilizar o termo “fascismo”, hoje? Não tenho nada contra, enquanto académica e cidadã preocupada, pois a palavra-conceito remete para o que conhecemos dessa onda e serve de alerta.

Historiadora

Diário de Notícias
Irene Flunser Pimentel
07 Novembro 2022 — 06:25