5: Um olhar sobre um penoso ano de 2022

  • 4 semanas 
  • 4Minutes
  • 852Words
  • 20Views

 

OPINIÃO

Chegamos ao fim de 2022. Foram doze meses muito difíceis, em vários pontos do mundo. Acima de tudo, viveu-se – e muitos não sobreviveram – um período profundamente marcado pela agressão ilegítima e inaceitável de Vladimir Putin contra a Ucrânia. Putin e 2022 ficarão para sempre associados e pelas piores razões.

Para terminar o ano, regista-se na China uma explosão de novos casos de covid-19, com um enorme impacto sobre a vida dos cidadãos, a economia nacional chinesa e internacional, bem como sobre a situação sanitária em várias partes do mundo.

E o ano também fecha com a decisão inadmissível dos primitivos que controlam o Afeganistão, em nome de um fanatismo religioso que só cabe nas suas mentes medievais, proibindo as jovens e as mulheres de estudar e de trabalhar nas ONGs internacionais.

Não será um habitante da Ucrânia ou do Irão, do Afeganistão, de Myanmar, do Iémen, da região de Tigray na Etiópia, do Leste do Congo, do Sahel ou de Madagáscar, da Nicarágua, ou um rohingya refugiado no Bangladesh, que dirá que se tratou de um ano igual a muitos outros.

Este foi um ano particularmente violento. Mostrou que a ordem política internacional atravessa uma situação de faz-de-conta, que é outra maneira de falar da sua frouxidão e ineficiência.

Na realidade, uma das grandes conclusões que tiro neste triste fim de Dezembro é que o sistema das organizações políticas internacionais – não apenas o da ONU – está bastante enfraquecido. Falar em falência seria um exagero.

Mas posso afirmar, sem medo de ser contrariado, que o sistema não consegue responder aos grandes desafios políticos que enfrentamos. Em vários casos, providencia apenas uma parte da resposta humanitária, funcionando como um salva-vidas, o que é certamente importante, mas insuficiente.

Os problemas de fundo ficam por resolver. São os vizinhos dos países em crise que saltam para a arena, com todos os seus interesses nacionais apostados na parada.

O ditador de hoje pode achar oportuno acalmar o jogo durante uns tempos. Mas um ditador é como a onça, não muda as suas pintas, e voltará amanhã a portar-se de acordo com a sua natureza.

O escorpião, na velha fábula da travessia do rio às costas de um sapo, faz o mesmo: a certo ponto da viagem, acaba por picar o sapo e deitar tudo a perder por água abaixo, incluindo a sua própria vida.

Por isso, sempre fui contra a negociação com os pequenos e grandes sósias de Hitler que fui encontrando pelo caminho. Não há acomodação possível com essa gente. Devem ser afastados do poder e julgados em tribunais competentes.

Esta é uma verdade que convém repetir neste final de ano. Parece-me ser, de longe, a mais importante. Quem não a quiser compreender, quem achar que se pode negociar com o escorpião, quem não se preparar para o esmagar, acabará por ter o destino do sapo.

Para além desta ilação, cada um tirará de 2022 as que melhor entender. No meu caso, 2022 permitiu identificar igualmente quem seriam os potenciais traidores, se o conflito com a Rússia alastrasse para uma guerra alargada.

Mesmo nesta fase híbrida, já ficou claro quem são os porta-vozes do inimigo, quando a sobrevivência das nossas escolhas democráticas está em causa.

A opinião expressa por essa gente na comunicação social não é uma mera questão de exercício da liberdade de pensamento. Eles não expressam nenhum pensamento original: limitam-se a repetir o que é divulgado nos sites do inimigo.

É um trabalho de cópia e de colagem. Numa situação tão complexa como a actual, no que respeita à política de Vladimir Putin, estamos a lidar com quem nos quer destruir e com os seus cúmplices.

Para mim, ficou igualmente claro que existe uma enorme confusão na cabeça de alguns dos nossos intelectuais, que não conseguem distinguir qual é a principal diferença entre a nossa ordem política e a das autocracias: o respeito pelos direitos das pessoas, a primazia dada aos indivíduos e à sua segurança, em vez de justificar a guerra e a repressão com a defesa do Estado, do regime, da posição geoestratégica do país – a geoestratégia é um ovo podre quando comparada com a liberdade e a criatividade das pessoas.

Como já disse ao longo do ano, 2022 criou muita confusão, incluindo na cabeça de gente de bem.

O resumo de tudo isto é muito simples: o combate contra a intolerância, a opressão e o expansionismo bélico, contra o oportunismo e a superficialidade, esse será um combate que continuará a estar entre os grandes desafios do novo ano.

Conselheiro em segurança internacional.
Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

Diário de Notícias
Victor Ângelo
30 Dezembro 2022 — 00:40

actualizado em: 28/01/2023 13:28




 

 21 total views,  2 views today

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *