27: A começar o ano

 

🇵🇹 OPINIÃO

Publicado: 1 mês 

Uma crónica pode ser muita coisa. É um género de fluida identidade, mais perto da nossa própria voz e das dúvidas que nos assaltam do que de qualquer assertividade persuasiva.

Karl Kraus denunciava os riscos destes exercícios, susceptíveis de induzir graves erros e simplificações nos seus leitores e Claudio Magris seguia este austero ensinamento; mas Montaigne legitimara há muito tempo estas indagações, a que chamou ensaios, assumindo de caminho que a maior parte das coisas que pensamos são inanidades.

Olho para mim no espelho, que antes fosse de Narciso, e bem longe me vejo das minhas dispersas memórias, que procuram apenas desenhar um rosto que possa ser alheio a toda esta derrocada.

Narciso não passou por aqui, ele amava os corpos perfeitos e não as interrompidas e desconexas evocações com que em vão procuro traçar um desenho de memória.

Quando desempenhamos funções oficiais, adoptamos meia dúzia de máscaras para fazer as vezes do nosso rosto, enquanto nos dedicamos com atenção e persistência ao que nos comprometemos a fazer.

Olhando essas máscaras nas fotografias oficiais, sinto o mesmo arrepio de estranheza que sentimos ao ouvir gravada a nossa própria voz. Levei tempo até perceber que a máscara se me poderia colar à cara e roubar-me qualquer arremedo de identidade. Uma jornalista mais agressiva perguntava, quando eu apareci no governo: “Luis Filipe Castro Quem?”.

Sem o saber, tinha razão. Eu perdera o meu próprio rosto, enrolado no meu nome, e enfrentava na vida pública o mesmo jogo de perda de identidade que a poesia me tinha (em vão?) tentado ensinar.

Quem me lê, terá já compreendido que não irá encontrar aqui quaisquer revelações políticas. Respeito profundamente quem não se recusa a “meter as mãos até ao fundo” na prática política e penso que um dos factores que levaram ao empobrecimento actual de qualquer pensamento crítico foi o alastrar dessas figuras vistosas, apalhaçadas e intriguistas, que passam por porta-vozes da contestação e do radicalismo, mas em que o pensamento é tão pobre que já não consegue distinguir um trinado de uma fífia.

Eu não terei lido com atenção a oposição de Max Weber entre o intelectual e o político e não terei entendido que as convicções em política não são suficientes para contrabalançar a falta de uma prática constante e dedicada à sua actividade.

Não julgo ser qualquer mérito meu não ter vocação para a vida política, porque não desconsidero de modo nenhum quem a tenha. Compreendo aquilo em que sou diferente dos políticos e respeito muitos deles, por os ter conhecido. É uma família a que não pertenço e que levei talvez tempo demais a entender que não era a minha.

Apesar da grande e funda amizade que de alguns companheiros políticos recebi, daqueles que sempre vieram ter comigo em todos os momentos da vida, nos altos e nos baixos, daqueles que, sem reservas nem complacências, estiveram ao meu lado, compreendi que nunca pertencera afinal ao seu grupo, apenas ganhara dentro dele um pequeno ramo de amizades e de ligações fraternas. Pois nós só pertencemos às famílias a que fazemos falta.

No princípio do governo da troika, um grande amigo meu dizia “Chateia-me estar sequestrado”. Nós estamos sequestrados pelos bancos e pelos seus lucros excessivos, pelos gestores e pelas suas indemnizações excessivas e cá vamos empobrecendo, a ouvi-los dizer, ainda por cima, que nos falta respeito pelo capital…

À medida que avançamos no percurso da vida mais nos acercamos do nosso próprio rosto e melhor compreendemos que é afinal de todas as inanidades de que somos feitos que se pode levantar a nossa voz.

Continuo assim a escrever, neste exercício frágil das crónicas, sob o signo de Montaigne e sem a misericórdia dos mercados.

Diplomata e escritor

Diário de Notícias
Luís Castro Mendes
03 Janeiro 2023 — 13:09



 

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26: Chuva e vento deixam rasto de destruição no Norte do país

 

🇵🇹 MAU TEMPO // DESTRUIÇÃO // NORTE

Publicado há 1 mês 

Na segunda-feira, em Chaves, o rio Tâmega galgou as margens e inundou espaços comerciais na zona ribeirinha, junto à ponte romana. O nível das águas subiu 2,95 metros acima do normal neste período.

Estela Silva / Lusa
Parte da muralha da Fortaleza de Valença que sofreu uma derrocada no domingo

“É uma tristeza enorme. Já vivi 20 cheias. Desta vez fomos avisados na sexta-feira e coloquei as máquinas em cima das mesas. Temo prejuízos avultados, depois de ter gasto recentemente 11 mil euros em obras”, lamentou Maria Salgado, proprietária de um restaurante, em declarações ao Correio da Manhã.

Já Amândio Ferreira viu a garagem do hotel onde trabalha alagada, sendo “necessário bombear a água para o exterior”.

“As alterações climáticas são a explicação para as cheias, bem como os incêndios, uma vez que a destruição da vegetação impede os solos de reter a água”, disse o presidente da câmara, Nuno Vaz.

Em Lanhelas (Caminha), a situação mais grave registou-se no Caminho do Regueiro, onde a força da água arrastou uma caravana, um barco e dois carros e arrancou as pedras da calçada.

“A nossa primeira preocupação foi tornar as principais ruas transitáveis para que as pessoas possam sair de casa. Nos próximos dias iremos contabilizar os estragos, que deverão ser de centenas de milhares de euros”, indicou ao jornal Adolfo Marrocos, presidente da Junta de Freguesia de Lanhelas.

Em Vila de Cerveira, um lar de idosos ficou inundado. Na zona centro, em Cantanhede, a Estrada Florestal 1 foi cortada.

Na segunda-feira, numa deslocação ao Minho, em Vila Praia de Âncora, a ministra da Coesão Territorial, Ana Abrunhosa, garantiu que, “no imediato, os municípios têm meios financeiros para o mais urgente”.

A governante estimou que “no prazo máximo de um mês” terá “o levantamento dos danos e, o cálculo do investimento que é necessário fazer”.

Em Valença, onde parte da Fortaleza cedeu no domingo, indicou que “a melhor solução é ser a autarquia a intervir com o apoio da Direcção Regional de Cultura do Norte, na recuperação da muralha da fortaleza”.

A Fortaleza de Valença, no distrito de Viana do Castelo, está classificada como Monumento Nacional desde 1928 e a chuva e vento deverão ser o motivo pelo qual parte da muralha cedeu.

Derrocada de pedras no Porto

Uma derrocada de pedras de grandes dimensões ocorreu esta terça-feira cerca das 09:50 na Avenida Gustavo Eiffel, no Porto, tendo atingido dois quartos de um hotel ali localizado, mas sem causar vítimas, segundo fonte da PSP.

De acordo com a fonte do Comando Metropolitano da PSP do Porto, não houve necessidade de interromper a circulação do trânsito naquela avenida.

Em declarações à Lusa, fonte do Gabinete de Imprensa da Câmara do Porto explicou que a derrocada aconteceu nas traseiras do hotel Eurostar Porto Douro, devido à acumulação de água, em consequências das chuvas das últimas semanas.

No local, segundo esta fonte, estão técnicos da protecção civil municipal “a avaliar a situação”.

Contactada pela Lusa, fonte do Comando Distrital de Operações de Socorro (CDOS) do Porto disse que estão no terreno um total de 21 operacionais, auxiliados por oito viaturas, a proceder à limpeza daquela via.

ZAP //
3 Janeiro, 2023



 

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Marcelo justifica ida ao funeral de Bento XVI. “Sou chefe de Estado. Se fosse cidadão não ia”

– Nada de cãofusões MRS! Tanto quanto sei, o texto é mais que claro! “… Apenas as delegações do Governo e da Presidência de Itália e da Alemanha, país de onde Bento XVI era natural, participarão oficialmente da cerimónia.” E tanto quanto sei, qual foi a parte que não percebeu MRS?

🇮🇹 🇻🇦 VATICANO // FUNERAL // BENTO XVI

Publicado há 1 mês 

As cerimónias fúnebres do Papa emérito Bento XVI estão marcadas para esta quinta-feira, no Vaticano.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, confirmou esta terça-feira que vai estar nas cerimónias fúnebres do Papa emérito Bento XVI “em representação do Estado português” e não a título pessoal.

“Tanto quanto sei a Santa Sé trata em pé pela igualdade todos os chefes de Estado. Sou chefe de Estado, sou tratado como chefe de Estado. Não é o cidadão que lá vai. Se fosse o cidadão, não iria lá, obviamente”, justificou à chegada a Portugal, oriundo de Brasília, onde assistiu à tomada de posse do novo presente do Brasil, Lula da Silva.

Marcelo Rebelo de Sousa também considerou importante representar Portugal nas cerimónias fúnebres de Bento XVI, uma vez que Lisboa recebe, já em Agosto, a Jornada Mundial da Juventude.

“Terá de se representar o Estado português por uma razão muito simples: Portugal vai organizar cá a Jornada Mundial da Juventude. Esse é um facto muito relevante nas relações com a Igreja Católica e a Santa Sé, e tem uma projecção universal. Só por si, esse facto justifica que eu lá vá”, considerou.

As cerimónias fúnebres de Bento XVI estão marcadas para esta quinta-feira, na Praça de São Pedro, no Vaticano, às 9:30 locais (08:30 em Lisboa). Cabe ao Papa Francisco presidir às cerimónias.

Apenas as delegações do Governo e da Presidência de Itália e da Alemanha, país de onde Bento XVI era natural, participarão oficialmente da cerimónia.

O Papa emérito Bento XVI, que morreu a 31 de Dezembro, aos 95 anos, será sepultado no túmulo ocupado por João Paulo II na cripta destinada aos pontífices sob a basílica de São Pedro, segundo informou o porta-voz do Vaticano.

Matteo Bruni explicou que Bento XVI deixou escrito – como relatou o seu biógrafo, Peter Seewald – o desejo de ser sepultado naquele local dos subterrâneos do Vaticano ocupado pelos restos mortais do seu antecessor, João Paulo II, até maio de 2011, quando a sua urna foi de novo exposta na basílica de São Pedro, depois de ser beatificado pelo pontífice alemão.

Aquele que será o túmulo do Papa emérito pertenceu também ao Papa João XXIII e situa-se a poucos metros do de São Pedro e em frente às sepulturas de duas rainhas, Cristina da Suécia e Carlota de Chipre.

Bento XVI terá, tal como João Paulo II, uma simples lápide de mármore branco com a inscrição dos anos do seu pontificado (2005-2013) em latim.

Com Lusa

Diário de Notícias
DN
03 Janeiro 2023 — 11:32



 

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Coisas de… simpatias…

 

🇵🇹 OPINIÃO

Publicado há 1 mês 

Embora tenha rescindindo e terminado o meu registo no facebook por ter dado a minha opinião – que não ofendeu ninguém em palavreado rude -, fui “castigado” de publicar por mais de treze dias.

Como já não tenho idade nem pachorra para aturar fedelhos censores que utilizam tácticas pidescas dignas do antigo regime fascista de Salazar, mandei-os à .

Sempre lutei e continuo a lutar pela Liberdade de Expressão, de Escrita e de Opinião, apanágio das Liberdades Democráticas que parece terem caído em desuso neste pequeno país – em tudo -, à beira mar plantado, mas respeitando sempre os termos em que as mesmas são publicadas. Por isso,

Contudo, isto não me impede de pesquisar diariamente todos os assuntos que me interessam directamente e, apesar de ter deixado de noticiar a guerra na Ucrânia, não por imposição de terceiros, mas por decisão pessoal, continuo a aceder a vários registos, entre eles, do facebook.

E, caso curioso, deparei-me hoje, dia 03.01.2023, num desses registos do facebook, com uma imagem deplorável, altamente nojenta, de alguém ligado a ideologias nazis/fascistas, que não obteve a digna CENSURA dos fedelhos dessa rede social.

Se esta imagem não implica incitamento ao ódio, então fui “castigado” por dizer a verdade. Simplesmente lamentável, quer se goste ou não da visada e/ou de pertencermos à União Europeia.

E mais ainda quando essa imagem obteve pelo menos um like de uma entidade que admirava pela frontalidade das suas críticas e que agora passei a detestar.

03.01.2023
Francisco Gomes
Editor, webmaster, fotógrafo e programador



 

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23: Medicamentos anti-covid deixam milhões de pessoas em risco

 

SAÚDE PÚBLICA // MEDICAMENTOS ANTI-COVID // RISCOS

Medicamentos que chegaram a ser altamente recomendados agora deixam os doentes mais frágeis numa situação mais delicada.

Yonhap South Korea / EPA
Paxlovid, o antiviral da Pfizer contra a covid-19

Eram, e foram, medicamentos revolucionários. Melhoraram o estado de saúde de milhões de pessoas – incluindo Donald Trump, na altura presidente.

No entanto, há medicamentos anti-covid, que chegaram a ser altamente recomendados, que agora aparecem como ameaças à saúde de milhões de pessoas nos Estados Unidos da América.

O aviso é feito pelo portal Politico, que deixa dois avisos: pouco ou nada fazem agora, perante as variantes actuais do coronavírus e, além disso, não são seguros para todos os pacientes.

Comprimidos como o famoso Paxlovid podem ser uma ameaça para os doentes porque “mexem” com muitos outros medicamentos já prescritos, que os doentes costumam tomar.

Há uma questão monetária a travar o desenvolvimento de novos medicamentos: o governo federal não financia mais investigação neste âmbito. O presidente Joe Biden já tentou mas sem sucesso.

Assim, muitos pacientes em risco vão correr o risco de desenvolver casos graves de covid – e os hospitais ficarão novamente sobrecarregados.

A COVID-19 não desapareceu, o Inverno começou há poucos dias e a gripe e o vírus sincicial respiratório atacam “a sério”. Há milhões de norte-americanos vulneráveis a doenças graves.

O problema

Os comprimidos são moléculas criadas em laboratório para bloquear a entrada de um vírus nas células humanas.

Mas devem ligar-se à proteína spike do vírus para neutralizá-lo – e as muitas variantes do coronavírus foram transformando os comprimidos existentes em algo ineficaz: outra variante, outra proteína spike.

Um problema sobretudo para as pessoas mais frágeis, com o sistema imunitário comprometido (ou desde que nasceram, ou desde que foram sujeitos a transplantes ou determinados medicamentos): a vacina pode não chegar e precisariam de “reforços”.

Reforços para tratamento e prevenção… que não há, admitiu o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças, num comunicado publicado há menos de duas semanas.

O Congresso nada faz, o financiamento não aparece e o Serviço Nacional de Saúde dos EUA não tem os recursos necessários para financiar o desenvolvimento de novos tratamentos.

Por isso, e já neste Inverno, o cenário provável é terem poucas formas em casa de lutar contra a doença.

Já há pedidos, no Instituto Nacional de Saúde na própria Casa Branca, para serem realizadas reuniões com cientistas.

As empresas farmacêuticas podem estar mais inclinadas – financeiramente e a nível prático – para criarem novos comprimidos antivirais, que apresentem menos interacções com outros medicamentos e que sejam mais fáceis de serem administrados. Construir antivirais que resistam melhor a um vírus em constante mudança.

ZAP //
3 Janeiro, 2023



 

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22: Podemos estar errados sobre as múmias do Egipto

 

CIÊNCIA // ARQUEOLOGIA // MUMIFICAÇÃO

Afinal, a mumificação egípcia não estará relacionada com a preservação do corpo após a morte. Há conotação divina…

Miguel Á. Padriñán / Pexels

Sempre olhámos – ou pelo menos, a maioria olhou – para as múmias no Egipto como uma forma de preservar os corpos depois da morte.

E se estivemos sempre errados, até agora? É a pergunta lançada pelo portal Business Insider, com base em perspectivas de especialistas no assunto.

Há cada vez mais arqueólogos a defender que, de facto, os corpos ficaram bem preservados por causa da mumificarão egípcia… mas foi sem querer. Terá sido uma consequência acidental.

E a “culpa” será dos primeiros egiptólogos modernos, que espalharam essa ideia com poucas evidências científicas.

Os estudiosos vitorianos (há séculos) deixaram no ar a ideia de que a preservação dos corpos eram um sinal do fascínio macabro pela vida depois da morte que… os próprios vitorianos tinham. Eram suposições desses estudiosos vitorianos, que foram sendo repetidas milhões de vezes até hoje.

Essa teoria vitoriana é contrariada pelos especialistas mais recentes: afinal, os egípcios queriam transformar os seus faraós em estátuas, obras de arte, com conotação religiosa.

Ou seja, para os egípcios daquele tempo, os seus reis e rainhas eram deuses. Por isso, se os seus corpos passassem a ser estátuas após a sua morte, eram uma forma de restaurar a sua forma legítima.

As estátuas de deuses eram ungidas com óleos e perfumes. E algumas envolvidas em lençóis – que poderiam ser sinónimo de algum tipo de divindade. Daí os corpos ficarem envolvidos em tiras de algodão ou linho.

Os órgãos da pessoa morta eram colocados em jarros adornados com cabeças dos deuses – durante o processo de embalsamamento, os egípcios poderiam ter a intenção de imbuí-los com o espírito divino do falecido.

Quando se encontram máscaras de ouro nos sarcófagos de reis ou rainhas, estamos perante uma espécie de versões divinas da pessoa falecida. Uma forma de elevar aquela pessoa a outro patamar; não são retratos realistas.

Além disso, diversas múmias que já foram analisadas não apresentam preocupações evidentes com a preservação do corpo – o rei Tutankhamon ficou preso no fundo do caixão.

“A ideia de que o espírito regressa ao corpo, ou de alguma forma anima o corpo, não é tão explicitamente articulada quanto podíamos imaginar”, avisou o curador Campbell Price.

“Parece que existe o mundo dos vivos e das pessoas que vivem as suas vidas quotidianas. E também existe o outro mundo, o mundo das imagens e representações, estátuas, relevos e pinturas.

Isso não é apenas uma versão idealizada do Egipto – é uma imagem de deuses, uma espécie de mundo de estátuas”, continuou.

Price trabalha no Museu de Manchester, o espaço no Reino Unido que será palco de uma exposição com esta nova abordagem, a partir do dia 18 de Fevereiro: Golden Mummies of Egypt, ou “Múmias Douradas do Egipto”.

Obviamente, há quem defenda que a questão da preservação dos corpos – embora possa não ser o único objectivo da mumificação – não deve ser completamente rejeitada.

ZAP //
3 Janeiro, 2023



 

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21: Porque é que o português atravessa a fronteira? Para fazer compras a metade da inflação

 

🇵🇹 🇵🇫 SOCIEDADE // INFLAÇÃO // PORTUGAL // ESPANHA

Há portugueses a atravessar a fronteira para fazerem compras em Espanha, onde foi eliminado o IVA dos alimentos básicos e onde a inflação é quase metade da nossa.

Matheus Cenali / pexels

Pouco antes do fim do ano, o Governo espanhol anunciou a eliminação do IVA de alimentos básicos, como o pão, o leite, o queijo, os ovos, a fruta, os legumes e leguminosas, as batatas e os cereais. Estes produtos tinham um IVA de 4%. Além disso, reduziu de 10% para 5% o IVA do azeite e das massas.

Embora os portugueses vejam com bons olhos a adopção de uma medida semelhante em Portugal, segundo a SIC Notícias, a realidade é que os espanhóis falam numa poupança de “poucos cêntimos”. A medida também tem apenas a duração de seis meses.

Esta foi apenas uma das medidas apresentadas pelo Governo de Pedro Sánchez para combater a subida galopante da inflação. O pacote de apoios ajuda ainda famílias com rendimentos anuais até 27.000 euros, oferecendo um apoio de 200 euros.

Os portugueses que vivem perto da fronteira conseguem beneficiar de combustível mais barato e agora também aproveitam para fazerem as compras em território espanhol.

A taxa de variação homóloga da inflação, em Dezembro, foi de 9,6% em Portugal e de apenas 5,8% em Espanha. O ritmo de subida dos preços em Espanha foi, no último mês de 2022, 40% inferior à nossa.

Em Espanha, a inflação teve o pico em Julho, nos 10,8%, desacelerando a partir de Setembro. Por sua vez, em Portugal, o pico foi registado em Outubro, nos 10,1%, sem grande alívio desde então.

Mas, afinal, porque é que a inflação portuguesa é quase o dobro da espanhola? O jornal ECO explica que uma parte da razão está na forma como o instituto de estatística do país vizinho leva em conta a evolução dos preços da electricidade.

De acordo com o jornal, o INE espanhol inclui no cálculo do índice de preços (IPC) apenas os consumidores que têm contratos do mercado regulado, cerca de 40% do total, cujas tarifas dependem da evolução diária do mercado grossista de electricidade, reagindo por isso rapidamente à evolução das cotações.

Ao contrário de Portugal, onde é no mercado regulado que os preços da energia são mais estáveis, no outro lado da fronteira isso acontece no mercado livre.

Isto faz com que em Espanha a chamada taxa de inflação subjacente, que exclui a evolução dos preços da energia e dos produtos alimentares não transformados, esteja agora acima do IPC.

ZAP //
3 Janeiro, 2023



 

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20: Socorro

 

– Realmente é incompreensível que os verdadeiros pacientes de uma doença como a diabetes, estejam sem um medicamento (¹) essencial para o seu tratamento porque existem uns (e umas) grunhos labregos que os tomam para estética corporal (dizem que faz emagrecer). Parece interessar mais à governança a resolução dos casos e casinhos políticos; ao primeiro ministro sacudir a água do capote e ao presidente da República andar a passear pela estranja, sacar uns banhos, umas selfies, uns beijinhos caridosos, à pala dos contribuintes.

🇵🇹 OPINIÃO

Este é um genuíno pedido de ajuda. Um rogo a um tempo individual e colectivo. Um grito desesperado para que as autoridades resolvam um problema que afecta dezenas de milhar de portugueses.

Sou, como centenas de milhares de portugueses, diabético. Esta doença metabólica, reduz a produção de insulina e mata se não tratada.

Em Outubro do ano passado o médico, um dos maiores especialistas nesta área, receitou-me um novo tratamento. Trata-se de umas injecções que permitem, em conjunto com uma dieta saudável e exercício físico adequado, estabilizar a diabetes tipo 2. Muitas pessoas precisam dele.

Acontece que está esgotado há longos meses. Nunca o consegui comprar. Não existe nas farmácias, mas parece que não falta a outros utilizadores, que o empregam simplesmente para fins estéticos, para emagrecer. Uma gravíssima disfunção do mercado.

Para colmatar esta, e outras, disfunções do mercado, o Governo tem o Poder de intervir. No entanto não o faz. Porquê? Incompetência? Medo de poderes instalado? Inépcia? Falta de tempo?

O Ministro da Saúde mantêm-se estranhamente alheado e, face a este grave problema de saúde pública assobia para o lado, sem conseguir uma solução para o problema que se vai arrastando. Enquanto isso há pessoas a sofrer, outras a ver a sua saúde deteriorar-se e outras ainda a morrer precocemente.

Dou uma sugestão muito simples. Compra directa, deste medicamento para a diabetes, pelo Estado e sua entrega aos pacientes que dele necessitam através dos médicos especialistas que os acompanham e, em simultâneo, proibição de outras vendas no mercado nacional através de outros canais.

Evita-se o desvio deste fármaco para fins secundários e garante-se o tratamento dos diabéticos. Esta é uma solução drástica, mas rápida, que depois pode ser amenizada se os comportamentos mudarem e as condições o propiciarem.

Rogo, pois, a Ministro da Saúde que intervenha rápida e decisivamente como a situação aconselha, ao Primeiro-ministro que acompanhe e supervisione esta intervenção e ao Presidente da República para que seja exigente com o Governo nesta matéria concreta e não com platitudes irrelevantes.

Fica o meu grito de socorro em face de um Governo que parece paralisado pelos “casos e casinhos” que a oposição lhe estende como passadeira dourada para a inactividade e passividade.

Como antídoto a estes “casos e casinhos” recomendo uma solução simples: resolvam os problemas concretos dos portugueses. A começar com um não muito complicado como é esta falta de um medicamento essencial. Mas se nem este conseguem resolver, então é tempo de mudanças.

Diário de Notícias
Jorge Fonseca de Almeida
02 Janeiro 2023 — 14:39

(¹) – Trulicity



 

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19: Com Lula é entrar a ganhar

 

🇵🇹 OPINIÃO

Pela terceira vez, Luis Inácio Lula da Silva, de 77 anos, está de volta ao Palácio do Planalto, a sede do governo em Brasília. É o início de um tempo novo em que ao renascimento do mais prestigiado líder da esquerda sul-americana, que chegou a estar preso um ano e meio por uma condenação viciada de que foi finalmente exonerado, se junta o desafio da reconstrução de um país gravemente fracturado, de mal consigo e com o mundo.

Lula regressa com uma promessa de esperança — que os seus compatriotas voltarão a ser felizes — e três prioridades: Reactivar a economia, combater a fome e a pobreza, e que a estrela do Brasil volte a brilhar na cena internacional.

Um dos sinais de mudança mais esperados com este regresso de Lula à presidência é justamente na política externa, após quatro anos de gestão personalista e ultra-conservadora de Jair Bolsonaro, que minou a influência do Brasil em fóruns multilaterais e levou a potência sul-americana ao isolamento diplomático.

O novo governo de Lula representa uma oportunidade para reconstruir pontes — regionais e globais –, e principalmente para exercer um papel de liderança política no chamado sul global, entre o conjunto de países não-alinhados.

Depois de quatro anos em que o Brasil hostilizou vizinhos, rompeu laços com os Estados Unidos e atacou a China, seu principal cliente, o novo presidente promete devolver o seu país ao mundo — o mesmo mundo que entre 2003 e 2010 se habituou a admirar a autenticidade daquele a quem Bolsonaro chamava depreciativamente “o nove dedos”,

Lula, antigo torneiro-mecânico, que nessa qualidade perdera o mindinho. Foi com Lula no poder, durante aqueles dois primeiros mandatos, que o Brasil mais se projectou no exterior como em nenhuma outra época da sua história independente de 200 anos.

Numa das cimeiras do G20, o então presidente dos Estados Unidos, Barak Obama, referia-se publicamente a Lula: “Este tipo encanta-me! É o mais popular dos líderes mundiais.” Um antigo operário, sem estudos universitários, chegara à presidência da maior democracia sul-americana e, em poucos anos, resgatava à pobreza milhões de brasileiros.

Foi com ele que o Brasil se juntou aos BRIC, o selecto grupo de países emergentes em parceria com a Rússia, a Índia e a China. E foi também com ele que o Brasil chamou para si a organização de um Mundial de Futebol e uns Jogos Olímpicos.

Com Lula de novo no poder, a expectativa é agora de um rápido regresso do Brasil ao diálogo internacional, seja entre as maiores economias mundiais, mas também com os países de língua portuguesa, no âmbito da CPLP, uma organização que vai certamente ganhar fôlego, e questões antigas como a mobilidade ou a criação de um instrumento financeiro comum aos países de língua portuguesa vão conhecer novo impulso.

O mundo já tinha saudades do Brasil e este promete estar de volta, com um presidente que se lida bem com as ambiguidades da diplomacia e que se move à vontade entre pobres, banqueiros ou reis sem parecer um impostor. A diplomacia faz-se também de sinais.

E para lá da quase centena de delegações estrangeiras que se fizeram anteontem representar na posse de Lula (o triplo das que estiveram na posse de Bolsonaro), foi notório o destaque que o novo protocolo brasileiro deu às representações de língua portuguesa.

Entre os primeiros cinco que puderam saudar oficialmente Lula, estiveram Portugal, Cabo Verde e Timor-Leste, para além de Espanha e Argentina. Lula conta com Portugal e Espanha na reanimação do diálogo entre a União Europeia e o Mercosul, e sabe também que, para aspirar a integrar o restrito número de países no Conselho de Segurança da ONU, conta com o apoio de um português, António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas

Jornalista

Diário de Notícias
Afonso Camões
03 Janeiro 2023 — 00:37



 

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