27: A começar o ano

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🇵🇹 OPINIÃO

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Uma crónica pode ser muita coisa. É um género de fluida identidade, mais perto da nossa própria voz e das dúvidas que nos assaltam do que de qualquer assertividade persuasiva.

Karl Kraus denunciava os riscos destes exercícios, susceptíveis de induzir graves erros e simplificações nos seus leitores e Claudio Magris seguia este austero ensinamento; mas Montaigne legitimara há muito tempo estas indagações, a que chamou ensaios, assumindo de caminho que a maior parte das coisas que pensamos são inanidades.

Olho para mim no espelho, que antes fosse de Narciso, e bem longe me vejo das minhas dispersas memórias, que procuram apenas desenhar um rosto que possa ser alheio a toda esta derrocada.

Narciso não passou por aqui, ele amava os corpos perfeitos e não as interrompidas e desconexas evocações com que em vão procuro traçar um desenho de memória.

Quando desempenhamos funções oficiais, adoptamos meia dúzia de máscaras para fazer as vezes do nosso rosto, enquanto nos dedicamos com atenção e persistência ao que nos comprometemos a fazer.

Olhando essas máscaras nas fotografias oficiais, sinto o mesmo arrepio de estranheza que sentimos ao ouvir gravada a nossa própria voz. Levei tempo até perceber que a máscara se me poderia colar à cara e roubar-me qualquer arremedo de identidade. Uma jornalista mais agressiva perguntava, quando eu apareci no governo: “Luis Filipe Castro Quem?”.

Sem o saber, tinha razão. Eu perdera o meu próprio rosto, enrolado no meu nome, e enfrentava na vida pública o mesmo jogo de perda de identidade que a poesia me tinha (em vão?) tentado ensinar.

Quem me lê, terá já compreendido que não irá encontrar aqui quaisquer revelações políticas. Respeito profundamente quem não se recusa a “meter as mãos até ao fundo” na prática política e penso que um dos factores que levaram ao empobrecimento actual de qualquer pensamento crítico foi o alastrar dessas figuras vistosas, apalhaçadas e intriguistas, que passam por porta-vozes da contestação e do radicalismo, mas em que o pensamento é tão pobre que já não consegue distinguir um trinado de uma fífia.

Eu não terei lido com atenção a oposição de Max Weber entre o intelectual e o político e não terei entendido que as convicções em política não são suficientes para contrabalançar a falta de uma prática constante e dedicada à sua actividade.

Não julgo ser qualquer mérito meu não ter vocação para a vida política, porque não desconsidero de modo nenhum quem a tenha. Compreendo aquilo em que sou diferente dos políticos e respeito muitos deles, por os ter conhecido. É uma família a que não pertenço e que levei talvez tempo demais a entender que não era a minha.

Apesar da grande e funda amizade que de alguns companheiros políticos recebi, daqueles que sempre vieram ter comigo em todos os momentos da vida, nos altos e nos baixos, daqueles que, sem reservas nem complacências, estiveram ao meu lado, compreendi que nunca pertencera afinal ao seu grupo, apenas ganhara dentro dele um pequeno ramo de amizades e de ligações fraternas. Pois nós só pertencemos às famílias a que fazemos falta.

No princípio do governo da troika, um grande amigo meu dizia “Chateia-me estar sequestrado”. Nós estamos sequestrados pelos bancos e pelos seus lucros excessivos, pelos gestores e pelas suas indemnizações excessivas e cá vamos empobrecendo, a ouvi-los dizer, ainda por cima, que nos falta respeito pelo capital…

À medida que avançamos no percurso da vida mais nos acercamos do nosso próprio rosto e melhor compreendemos que é afinal de todas as inanidades de que somos feitos que se pode levantar a nossa voz.

Continuo assim a escrever, neste exercício frágil das crónicas, sob o signo de Montaigne e sem a misericórdia dos mercados.

Diplomata e escritor

Diário de Notícias
Luís Castro Mendes
03 Janeiro 2023 — 13:09



 

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