52: Quando os lobos uivam

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🇵🇹 OPINIÃO

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Como esta semana surgiram notícias sobre lobos da Suécia, lembrei-me de escrever esta semana sobre lobos da Suécia. Dizem aquelas notícias que, por pressão das associações de caçadores, foi autorizado o abate de 75 lobos nas florestas de Gävleborg e Dalarna, onde existe, ao que parece, uma população total de 460 animais, que as associações ecologistas consideram muito escassa e diminuta, sobretudo se confrontada com a congénere lupina transalpina, na casa dos três mil bichos.

Os ambientalistas vieram à liça com a Convenção de Berna, argumentando que os lobos, estando situados no topo da cadeia alimentar, são essenciais para a preservação da biodiversidade, pelo que dizimar um quarto da sua população terá consequências graves, catastróficas, para a natureza e para os animais.

Obtemperaram o governo e os caçadores que existem lobos em excesso naquelas paragens nórdicas, que a sua presença faz perigar equilíbrios ecossistémicos e que só um abate controlado permitirá restabelecer tais equilíbrios de forma harmoniosa e ambientalmente sã.

De modos que estamos nisto – e ninguém se entende. O que parece verdade, sem margem para dúvida, é que o lóbi dos caçadores é particularmente poderoso na Suécia; e que os seus membros, além de lobos, querem também dar cabo dos linces e dos ursos; e que no edifício do Parlamento sueco existe, inclusive, um clube de caçadores, com sala de troféus e tudo, e do qual são sócios deputados de vários partidos.

Os lobos converteram-se, assim, num problema político de primeira grandeza na vida sueca, pois o Parlamento aprovou que o seu total decrescesse para 170 exemplares, para horror dos conservacionistas, que afiançam ser um número arbitrário, sem base científica alguma, ditado por pura politicagem. O que a ciência assevera, dizem, é que uma escassa população lupina terá pouca diversidade genética e, logo, será mais exposta a doenças, consanguinidades e outras maleitas extintivas.

Nas páginas da revista Science, no passado dia 7 de Julho, saiu um artigo, subscrito por 18 eminências das melhores universidades europeias, em que se alerta que uma redução tão drástica do número de lobos poderá pôr em causa toda, mas absolutamente toda, a população lupina da Suécia, o que é manifestamente grave.

“É coisa que não se compreende: em 1976, quando só havia um exemplar em estado selvagem em todo o país, lançou-se o Projecto Lobo, gastaram-se milhões na reintrodução da espécie. Agora, por pressão do lóbi dos caçadores, autoriza-se a matança de um quarto da população de lobos do país. Estará tudo louco, lá como cá?”

Para agravar as coisas, a tão louvada Noruega trilha caminho idêntico, ou pior. No início do ano passado, um tribunal de Oslo autorizou, após intensa refrega judicial, o abate de 51 lobos noruegueses, mais de metade do total da população lupina do país, na casa das 80 feras.

Só num dia, imagine-se, foram mortos nove bichos, uma carnificina tanto mais trágica quanto o lobo-da-Escandinávia é considerado uma espécie em risco crítico de extinção, seja na Suécia, seja na Noruega.

Para manter uma população viável, são necessários cerca de 1.500 indivíduos, mas a Suécia e a Noruega estão muito longe dessa quantidade, pelo que o futuro do lobo-da-Escandinávia se afigura muito sombrio, para dizer o mínimo.

Tenhamos a opinião que tenhamos sobre a caça e os caçadores, parece estranho, bizarro, que alguém sinta prazer em matar uma espécie ameaçada, em patente risco de extinção.

Que poderá ter levado, na semana passada, 200 caçadores a precipitarem-se em fúria pelas florestas da Suécia adentro, só para matarem 75 bichos? (Até a média é estranha, dá quase três caçadores por presa).

Talvez isso se explique pela milenar animosidade que existe entre lobos e homens ou, melhor dito, dos homens para com os lobos. É que mesmo os que dizem amar os lobos não os conhecem verdadeiramente, na sua essência de predadores ferozes e letais, facto que, sendo natural e genético, não pode legitimar que os matemos com uma ferocidade maior do que a deles.

Postas as coisas neste plano, será forçoso concluir que o homem é bem mais feroz do que o lobo, pois é muito maior, infinitamente maior, o número de lobos mortos pelo homem do que o de homens mortos pelo lobo.

Um livro saído na Suécia em 2018 e logo convertido em best-seller, e há pouco traduzido para castelhano – La Hora del Lobo, de Lars Berge (Editorial Almuzara, Outubro de 2022) -, ajuda-nos a deslindar, creio, a relação estranhíssima, de loucura e amor-ódio, que desde sempre tivemos com estes carnívoros.

A razão do sucesso desta obra, que bem mereceria ser publicada entre nós, prende-se com o facto de se tratar, no fundo, no fundo, de um thriller nórdico, cheio de acção e suspense, mas baseado em factos reais.

O autor desta reportagem, Lars Berge, jornalista afamado no seu país, é actualmente escritor a tempo inteiro e professor na Universidade de Estocolmo e, graças ao seu extraordinário talento narrativo, podemos acompanhar a história de um país e de um modelo de sociedade – a mítica social-democracia sueca – através dos olhos cor de âmbar dos seus lobos.

Como nos bons policiais, tudo começa por um cadáver, o da jovem Karolina, mulher de 30 anos, educadora e guia de lobos do Jardim Zoológico de Kolmården, que, no dia 17 de Junho de 2012, foi encontrada morta no recinto dos lobos desse jardim, palco de um programa chamado “Contacto Próximo com os Lobos“, no qual, a troco de umas belas mil coroas suecas, cada visitante podia entrar no santuário das feras e até, se for o caso, interagir com elas.

A cena do crime foi pavorosa e dantesca: ali, o casaco impermeável de Karolina, levemente mordiscado; acolá, as calças; pelo chão, objectos esparsos, um sapato, depois outro; e ao fundo, semi-escondido, o corpo, desnudado e morto, ferozmente lacerado.

A colega que a descobriu diria à polícia que ficou surpreendida por um pormenor: o facto de um dos lobos, que antes ocupava uma posição subalterna na hierarquia da alcateia, e que até aí andava cabisbaixo, isolado, estar agora junto com os outros lobos, em altivo pé de igualdade.

Nos últimos tempos, aliás, a alcateia dava mostras de perturbação, de singular agressividade, obrigando os guias a recolherem as mãos nas mangas dos casacos, pois estas eram, e são, as partes do corpo que mais atemorizam ou enfurecem os lobos, aquelas que eles mais gostam de lamber, mordiscar e, se for o caso, morder em sangue.

A mandíbula de um lobo é dez vez mais poderosa do que a de um rottweiler ou de um pastor-alemão e facilmente rasga ou arranca um braço. Com cerca de 40 quilos de peso, em média, um lobo europeu é capaz de derrubar um alce ou atacar um urso, mas raramente o faz sozinho, preferindo actuar em grupo.

Quando um lobo ataca, de pouco vale golpeá-lo, bater-lhe, dar-lhe pontapés ou coices pois, no momento do frenesi, os lobos estão anestesiados por uma hormona analgésica que os faz serem insensíveis à dor e os tornam máquinas de matar imparáveis.

Convivem connosco há mais de dez mil anos e, apesar dos temores e da lenda, quase nunca atacam os seres humanos. Pelo contrário, temem-nos de forma instintiva, fogem de nós quase sempre, talvez porque tenham inscrito nos seus genes que somos bem mais perigosos do que eles.

Um estudo realizado na Noruega em 2002 procedeu a um levantamento exaustivo de todos os ataques de lobos registados desde o século XVIII aos nossos dias, concluindo que, em toda a Europa Ocidental, em mais de 200 anos, foram mortas 1.548 pessoas, o que, de modo algum, diminui a sua perigosidade: na Rússia, a seguir à 2.ª Guerra, houve inúmeros e graves ataques, que, entre 1944 e 1950, vitimaram 22 crianças só na cidade de Kirov; na Índia, entre 1980 e 1995, morreram mais de 200 crianças em consequência de ataques de lobos.

Este não é, todavia, e de modo algum, o panorama da Europa: na Suécia, e até à tragédia no Zoo de Kolmården, há mais de dois séculos que não se registavam ataques fatais de lobos e o último ocorrido, que teve lugar em Gysinge, no Inverno de 1821, revestiu-se de uma particularidade importante: foi perpetrado por uma loba que um lavrador tinha levado para casa quando era recém-nascida e que teve de libertar quando ela, atingida a maturidade sexual, começou a dar mostras de grande agressividade.

A loba de Gysinge fez nove vítimas mortais e 15 feridos graves, alguns dos quais tiveram de ter os seus membros amputados, tal fora a violência dos golpes.

Para quem julgue que os lobos mais não são do que cães grandes, um especialista ouvido por Lars Bergen fez uma síntese curiosa, dizendo que os cães ficaram no estádio da infância, nunca se libertando da tutela dos donos, enquanto os lobos evoluíram para um patamar superior, patente num facto singelo: num percurso na neve, por exemplo, os cães andam esparvoados em círculos, às voltas e aos saltitos, cansando-se desnecessariamente, enquanto os lobos seguem um percurso cortante em linha recta, de A para B, sem desvios supérfluos nem gastos de energia.

Feita esta descrição dos lobos, estranha-se que um jardim zoológico tivesse um programa de contacto próximo com tais bichos, a que acorriam mais de dez mil visitantes por ano, trazendo lucros fabulosos para os donos da empresa Park & Resorts.

Nem sempre, contudo, as coisas corriam bem: numa ocasião, uma adolescente que trazia calçados uns sapatos de pêlo de coelho teve de se livrar deles antes que visse os pés devorados pela alcateia em delírio; e era frequente, de resto, os lobos ficarem excitados pelo odor a peles de animais ou pelo cheiro da cera ou do óleo dos impermeáveis, o mesmo sucedendo com as bolsas de tabaco, os maços de cigarros, certos cremes e perfumes.

O olfacto dos lobos é tão complexo e poderoso que eles são capazes de detectar doenças ou quaisquer outras fragilidades nas potenciais presas, qualquer coisa que as torne especialmente vulneráveis e, logo, passíveis de ataque.

Diz-se que são capazes de despistar tumores cancerígenos, arranhões ou feridas na pele, febres, temperaturas corporais mais elevadas do que o normal. Num impressionante vídeo filmado em Kolmården, vê-se a alcateia a marcar uma mulher surda no meio de um grupo de visitantes, pressentindo a sua debilidade e começando a farejá-la, a aproximar-se dela em círculo, preparando o golpe.

Os lobos têm, além disso, uma memória singularíssima, da qual ainda pouco sabemos, sendo capazes de gestos inexplicáveis: nos dias subsequentes ao ataque que vitimou Karolina, o líder da alcateia, Farkas, andou estranhamente timorato, com a cauda entre as pernas, como que a mostrar aos humanos que sabia que algo de terrível se tinha passado no recinto de que era guardião e senhor.

“Um lobo, mesmo criado em cativeiro e amamentado a biberão, é e será sempre um lobo. E, como lobo que é, mostra-se indiferente às categorias morais com que teimamos em definir o seu comportamento.”

Mais do que o medo ou pavor, é o facto de não compreendermos os lobos, de seremos incapazes de perceber e prever os seus gestos, que nos leva a matá-los com tanta ferocidade.

O mundo rural de outrora foi palco de uma guerra sem quartel entre homens e lobos: na Suécia, entre 1830 e 1840, mataram-se 6790 lobos, quase uma média de 700 mortes por ano; em contrapartida, num só ano, em 1829, os lobos mataram 465 cavalos, 3100 vacas, 22 mil ovelhas, cabras e porcos.

Não admira que o nome sueco para lobo, Varg, esteja também associado a significados como “pessoa estranha”, “assassino”, “indivíduo violento”, como não admira a violência bárbara com que no passado se chacinavam os lobos: com a invenção de Nobel, passaram a dinamitar-se os covis com as crias, prática considerada mais compassiva, já que até aí se recorria ao método bárbaro de capturar um lobo, dar-lhe um nó no pénis e, quando ele tivesse a bexiga cheia, matá-lo e expor-lhe as vísceras, para que o resto da alcateia acorresse ao odor da urina e fosse dizimada em seguida (além das covas armadilhadas, outra forma de caça era amarrar um porco na floresta, para que os seus grunhidos atraíssem os lobos).

Em Portugal, contam-nos Miguel Brandão e Paulo Caetano num belo livro saído há pouco (Feras e Homens. A fauna no Portugal medieval, Bizâncio, 2022), a ancestral animosidade ao lobo, legitimada pela Bíblia e pela Igreja, deu pasto a um sem-fim de histórias e lendas, ao uso de amuletos feitos com ossos do bicho (as golas de lobo, utilizadas em muitas aldeias de Montalegre), à obrigação que, desde o século XIII, os jovens tinham de correr os lobos (currere lupum), ou seja, de participarem nas expedições punitivas nos montes, para não falarmos das cabeças de lobos que encontramos nas cachorradas dos mosteiros românicos de Crasto, em Ponte da Barca, de Ermelo, em Arcos de Valdevez, ou de Adeganha, em Moncorvo.

Na aparência, os lobos de Kolmården eram diferentes dos outros, pois tinham sido criados e “socializados” junto dos humanos, por estes amamentados a biberão desde tenra idade, sendo, por isso, considerados mais amigáveis e respeitadores. Simplesmente, e como disse uma especialista entrevistada por Lars Bergen, “um biberão não muda os genes de um animal”.

Para agravar as coisas, as alcateias da natureza são formadas pelos pais, muitas vezes monogâmicos, e pela sua prole, enquanto ali, no Zoo de Kolmården, o bando era composto por dois grupos de irmãos, numa horizontalidade fatídica, sem hierarquias definidas.

Pior ainda, o confinamento num espaço apertado, além de muitos outros problemas, subverte por inteiro as regras e a dinâmica da alcateia: um estudo feito nos EUA mostrou que o nível de agressividade de um lobo aumenta exponencialmente quando se limita o seu espaço abaixo dos 1.000 metros quadrados – em Kollmården, cada lobo tinha ao seu dispor não mais do que 800 metros quadrados; além disso, um lobo que viva na natureza e seja ostracizado e atacado pelos seus pares afasta-se do bando e recomeça a vida noutras paragens; em cativeiro, isso não é possível, pelo que os mais fracos são muitas vezes mortos ou tentam reingressar no grupo através de gestos de grande aparato e ferocidade.

Muito provavelmente, foi essa uma das causas da morte de Karolina: um dos membros da alcateia, Volk, que fora banido, vingou-se na tratadora, para o que muito pode ter contribuído, paradoxalmente, o facto de ela ser vista pelos lobos como uma figura maternal e tutelar e, logo, um alvo a abater para quem quisesse dar mostras de força.

O imprinting dado pelos tratadores aos lobos, desde que estes nasceram, ao invés de os “humanizar”, levou-os a verem Karolina como uma loba igual a eles – o que acabou por ser fatal.

A isso acresceram outras circunstâncias, como as deficientes condições de segurança do zoológico, que em tribunal foi condenado a pagar grossa multa, de nada lhe valendo ser defendido por Thomas Olsson, o criminalista mais famoso da Suécia, que antes fora advogado de Julian Assange e conseguira a absolvição do serial killer Sture Bergwall, o facto de Karolina ter infringido a regra mais elementar e básica do convívio com lobos, entrando sozinha no seu recinto, e, note-se, o facto de ela se encontrar debilitada nos dias anteriores ao ataque, com vertigens, desmaios, anómalos cansaços, que um médico diagnosticara como fruto de vertigem postural benigna.

Na antevéspera do sucedido, o seu companheiro teve, inclusive, de a ir buscar ao trabalho, pois Karolina estava com uma horrível indisposição. Os lobos aperceberam-se dessa sua vulnerabilidade, escolhendo o timing do ataque com precisão infalível.

O Zoo de Kolmården fora lançado em 1962, nos tempos dourados da social-democracia nórdica, o ano em que a Suécia ganhara ao Canadá a Taça Mundial de Hóquei no Gelo, em que Erik Carlsson triunfara no Rally de Monte Carlo ao volante de um Saab.

Tempos felizes, de prosperidade, em que o maior protagonismo das mulheres e mães, as novas preocupações ecológicas, a democratização dos automóveis, a moda do campismo e do caravanismo e a explosão dos programas sobre natureza na televisão levaram a uma relação mais próxima com o meio ambiente e com os animais, a qual se converteria em imagem de marca da Suécia, ainda hoje patente na publicidade da IKEA, processo que culminou na Conferência de Estocolmo de 1972.

Não por acaso, o projecto do zoológico foi apadrinhado por Per Eckerberg, governador civil de Östergötland, presidente da Sveriges Radio, uma das eminências pardas da social-democracia sueca, íntimo de Tage Erlander e de Olof Palme e ideólogo da histórica ATP, a Pensão Geral Complementar.

No dia da inauguração, em Maio de 1965, afluíram a Kolmården 40 mil visitantes, formando filas de 17 quilómetros. Vinte anos depois, em 1985, Olof Palme faria lá um comício para 40 mil pessoas, naquele que foi o maior encontro político da história da Suécia.

Entretanto, fora aberto, com estrondoso sucesso, o programa “Contacto Próximo com Lobos“, único no mundo, que terminaria tragicamente em 2012, pouco depois da morte de Karolina, numa altura em que o Zoo, afundado em dívidas, fora privatizado.

A história desse programa, ou a de muitas outras experiências de envolvimento com os animais, é bem expressiva da forma enviesada e desastrada com que os humanos encaram a sua relação com a natureza.

Em todo o mundo, todos os anos, há dezenas de casos graves de tratadores ou visitantes mortos ou gravemente feridos por animais em cativeiro e, na América, existe actualmente um grave problema de ordem pública: os “cães-lobos” – mais de um milhão! -, resultantes seja de lobos “domesticados”, seja de cruzamentos entre as duas espécies, bestas possantes e perigosas que, quando alcançam a maturidade sexual, se tornam incontroláveis, e ora são libertadas, com sério perigo para toda gente, ora são sequestradas nos quintais das traseiras, em jaulas exíguas e abjectas.

Entre nós, o livro-reportagem de Ana Daniela Soares, Cobras, lagartos e baratas – Os melhores amigos do homem? (FFMS, 2020), mostra bem os riscos envolvidos na posse de animais exóticos, barbaramente retirados dos seus habitats para puro desfrute de humanos, que ainda se gabam do seu “amor” aos bichos e se proclamam “amigos dos animais”.

Lars Bergen dá um outro exemplo daquilo a que pode conduzir o animalismo tarado e impensado: na Suécia, nos anos 1990, grupos de activistas decidiram “libertar” centenas ou milhares de animais em cativeiro (doninhas, furões, martas, etc.), limitando-se a abrir as portas das suas gaiolas e a deixar que saíssem – o resultado foi que todos eles, ou quase todos, acabaram por morrer ao fim de pouco tempo, ora congelados de frio, ora devorados por outros animais, ora exaustos de fome, ora, e sobretudo, atropelados nas autoestradas. Um morticínio desastroso.

Um lobo, mesmo criado em cativeiro e amamentado a biberão, é e será sempre um lobo. E, como lobo que é, mostra-se indiferente às categorias morais com que teimamos em definir o seu comportamento.

Em termos muito nietzschianos, os animais estão para lá do bem e do mal, são alheios a considerações sobre que está certo (lamber a mão do dono) ou errado (morder a mão que lhe dá de comer).

Termos como “egoísmo”, “altruísmo”, “gratidão” e até “ferocidade”, que neste texto abundantemente usei, poderão fazer sentido, quando muito, nos animais que domesticámos, e com os quais, esses sim, temos um contacto próximo desde há milénios.

Quando nos comovemos com o olhar ternurento de uma mãe gorila a cuidar da sua cria, a “ternura” não está nos olhos dela, mas nos nossos, do mesmo modo que um lobo não nos morde por ser mau, mas por ser lobo.

A extinção das espécies e a perda da biodiversidade são, provavelmente, o mais grave problema com que nos confrontamos no nosso tempo, um desafio maior do que o do aquecimento global, mas que não tem merecido idêntica a atenção dos media e a preocupação dos povos.

Há o risco, o sério risco, de ao lidarmos com os animais resvalarmos de novo no antropomorfismo, de vermos os animais com os nossos olhos, não com os deles, e de darmos preferência aos mais fofos e mais bonitos, relegando para segundo plano as espécies mais ameaçadas, um perigo que a comediante canadiana Samantha Bee caricaturou num imperdível vídeo disponível no YouTube, F*ck the Pandas: Ugly Animals Deserve Your Attention Too.

Quanto ao mais, o que é espantoso e terrível é constatarmos que, mesmo num país avançado como a Suécia, décadas de “Contacto Próximo Com Lobos», com milhões e gerações de visitantes, não conseguiram impedir a chacina agora em curso.

É coisa que não se compreende: em 1976, quando só havia um exemplar em estado selvagem em todo o país, lançou-se o Projecto Lobo, gastaram-se milhões na reintrodução da espécie. Agora, por pressão do lóbi dos caçadores, autoriza-se a matança de um quarto da população de lobos do país. Estará tudo louco, lá como cá?

Historiador.
Escreve de acordo ​​​​​​​com a antiga ortografia.

Diário de Notícias
António Araújo
08 Janeiro 2023 — 01:30



 

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