71: A Linda de Suza que há em nós

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OPINIÃO

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Concluídas as festas de Natal e Ano Novo, as águas – as vidas – voltam por estes dias ao seu curso habitual. Já regressaram a casa aquelas e aqueles que foram “à terra”, aos seus lugares de origem, para as celebrar. Já voltaram ao trabalho os que puderam descansar.

E já estão em muitas cabeças os propósitos – mas também as inquietações – típicos de um novo começo. É um fenómeno generalizado, mas com características particulares para um grupo específico de europeus: são os 13,3 milhões de cidadãos de países da União que vivem noutro Estado-Membro (dados do Eurostat).

Representam 3% da população como um todo e são, sem dúvida, uma das principais forças para a construção do projecto comum europeu, seja pelo trabalho, seja pelo afecto.

Muitos destes europeus aproveitam as festividades tradicionais da família para ir “à terra”. De mochila às costas, trólei numa mão e entregando a outra ao telemóvel, misturam-se e confundem-se na mole de passageiros, mas certamente já se terão perguntado: “Afinal, donde sou? Do meu país de origem? Daquele que me acolhe e dá trabalho? Porventura de algum lugar solitário, por vezes amargo, suspenso entre os dois”? Este já não é o tempo da “mala de cartão”, mas…

Mais de três milhões de romenos, um milhão e meio de polacos e outros tantos italianos e um milhão de portugueses constituem os quatro maiores grupos nacionais de deslocados para outros países da União Europeia.

E é espantoso constatar que, em alguns casos, os expatriados representam uma quota imponente do segmento laboral em idade activa (dos 20 aos 65 anos) nos respectivos países: 18% da população romena, 17% croatas, 10% portugueses… – tanta energia, quantas vidas se constroem noutros lugares.

Em 2010 a média de europeus deslocados era de 2,4%; em 2020 subia para 3,3% e, em geral, tudo indica que a maré continua a subir e com ela cresce o projecto europeu.

Em resumo, cada um com sua história – e suas respostas mutáveis – esses 13 milhões de pessoas, herdeiros de muitas linhagens, são a ponta de lança na construção de um novo espírito de pertença europeu. Os tempos que vivemos exigem que a Europa dê um grande salto na integração.

Dos flagelos pandémico e climático às ameaças à ordem global vindos das super-potências – a começar na Rússia, que reacendeu a guerra no nosso continente – a única resposta plausível é mais união, muito mais União Europeia.

A linhagem de europeus com uma pátria-mãe (que não escolheram e os formou) e outra como pátria-adoptiva (que escolheram depois) aí está, para sustentar esse salto integrador com a sua própria existência.

Podem os europeus deslocados ter dias de dúvidas, saudades, quantas saudades, mas é certamente nestes corações de duas assoalhadas que a batida, mesmo que imperceptível, oxigena mais o caminho da história europeia na direcção certa.

E, por paradoxal que pareça, são os rebentamentos e os estilhaços da guerra que reacendem nos corações europeus a velha utopia renascentista que se resume na palavra paz. A mesma utopia que animou Erasmo – filósofo humanista, amigo de Tomás Moro e do nosso Damião de Góis – o rosto mais profético do pacifismo.

Ele que passou a vida fugindo da peste e dos seus inimigos, enquanto lutava contra a barbárie instigada pelo fanatismo e pelo nacionalismo; defendeu que o mundo inteiro é a nossa pátria, concebeu uma Europa unida como aliança de culturas; defendeu a luz contra as trevas, a inteligência contra as armas, e o diálogo contra a algazarra, o ódio e a guerra.

Para ele, mais que um território, a Europa era uma ideia moral e a sua bandeira, paz, diversidade, tolerância e universalismo. Assim seja!

Jornalista

Diário de Notícias
Afonso Camões
10 Janeiro 2023 — 00:19



 

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