72: Letras e tretas

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OPINIÃO

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Passou-se num concurso de admissão à carreira diplomática. O examinador perguntava à candidata se sabia quem era um grande romancista português do século XIX que tinha sido cônsul e fizera carreira no Ministério, culminando em Paris.

A candidata respondeu-lhe, com desenvoltura: “Ah, Senhor Embaixador, eu nunca leio romances portugueses, só leio obras em língua inglesa”.

Não sei se hoje teria sido considerada justa a decisão tomada pelo júri de excluir a infeliz candidata. De um ponto de vista geral, ponderemos que os leitores, portanto os consumidores, da produção romanesca em português, são um número ínfimo, ao lado dos leitores das obras em língua inglesa, no original ou em tradução.

De um ponto de vista específico, repare-se que qualquer romance de língua inglesa que seja traduzido entre nós merece uma atenção dos jornais que nenhuma obra nacional consegue ter e que o Booker Prize tem nos nossos suplementos literários um eco que nenhum prémio literário nacional consegue suscitar (com excepção talvez do Prémio Camões), como há algumas semanas assinalava António Guerreiro.

Não, do ponto de vista da nossa opinião pública, a candidata a diplomata portuguesa que dispensava conhecer Eça de Queirós, porque só lia livros anglo-saxónicos, mereceria certamente simpatia e compreensão.

O romance tornou-se, para os fazedores de opinião, o único género literário e a língua portuguesa tornou-se demasiado pequena para a vastidão da cultura entre nós dominante: a língua inglesa, respiração do mundo, é onde a cosmopolita gente “cultivada” se sente mais à vontade e em casa.

Melhor representaria pois a cultura actual do nosso país aquela aspirante a diplomata que o Ministério injustamente recusou, por apenas ler em língua inglesa.

Muitos portugueses sentem-se infelizes por não serem ingleses ou americanos. Chamamos-lhes “os inglusos”: vivem a lamentar a “piolheira” em que vivem e os “indígenas” que se atrevem a ser seus compatriotas.

Lá fora, sim, lá fora seriam “filhos do Rei”, como na Pasárgada de Manuel Bandeira. Mas aqui na pátria, ai, a mediocridade geral não os deixa prosperar…

Compartilhando essa mágoa, as nossas principais universidades passaram a ter aulas em inglês e não me surpreenderia até que nos nossos estudos literários o cânone anglo-americano viesse a ser a matéria principal de estudo, leccionada, é claro, em língua inglesa, a que se juntariam eventuais cursos facultativos de literatura portuguesa, ministrados não mais do que por um semestre…

Será culpa dos jornalistas literários? Ou do pouco espaço de que dispõem nos jornais, onde o cinema e a música “pop” dominam o magro quinhão da cultura?

Podemos, neste contexto e nesta conjuntura, condená-los por se terem tornado meros delegados de propaganda editorial e terem abdicado de qualquer função crítica?

Todos dependemos de um meio e de uma circunstância e não só do talento que nos tenha sido dado. Sucede que a actuação de cada um de nós é determinada cada vez mais pela nossa circunstância e menos pelo nosso talento.

O jornalismo literário que temos é a consequência do espaço reduzido que os livros e a leitura têm na nossa sociedade e não de qualquer especial má vontade ou ignorância dos jornalistas.

O valor simbólico da literatura já foi maior, mas hoje que pode significar face à presente transmutação dos valores, em que só passaram a contar os valores monetários?
Simplesmente o que Pessoa/Álvaro de Campos já dizia:

Só o parvo dum poeta ou um louco
Que fazia filosofia
Ou um geómetra maduro
Sobrevive a esse tão pouco
Que está lá para trás no escuro
E nem a História já historia.

Diplomata e escritor

Diário de Notícias
Luís Castro Mendes
10 Janeiro 2023 — 00:39



 

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