70: O guiché está de volta

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OPINIÃO

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À custa de erros meus e má fortuna, tive que me deparar com “os serviços”. No caso, para que não haja discussões ideológicas, um público e outro que também o era, mas foi privatizado.

A “Loja de Cidadão”, assim mesmo, com de, como reclamou em tempos o Bloco de Esquerda para o cartão de cidadão, é nova, ampla, espaçosa e bem iluminada.

E, dito isto, ficamos por aqui no que diz respeito a pontos positivos dos “serviços”. O resto é um teste à paciência, à literacia e à própria condição humana.

Começa logo no quiosque electrónico para tirar as senhas de ordem de chegada. Como está agrupado em quatro grandes áreas, as dúvidas de quem chega são muitas na hora de carregar no botão certo.

E há de tudo. Idosos que não percebem as siglas, nem conseguem ver o monitor do quiosque. Cidadãos estrangeiros que ainda não dominam o idioma do país que os acolheu, muito menos as siglas que “os serviços” acham que todos devemos saber de cor.

Depois, o quiosque está apenas em português, pelo que paquistaneses, indianos, nepaleses e ucranianos ficam a olhar para o monitor. Não há ninguém para ajudar.

Vai daí, os cidadãos e as cidadãs interrompem sistematicamente a funcionária do balcão 1, que teve o azar de ser colocada logo ao lado do quiosque das senhas. Passa o dia a ajudar quem tem dúvidas. Por isso, a fila dos cidadãos e cidadãs do espaço de cidadão no balcão 1, não anda.

Quando chega a minha vez, está de volta o velho guiché. “Com isto” da pandemia, voltaram os acrílicos e as divisões e o que nos permite chegar aos serviços é apenas uma ranhura inferior onde mal cabe uma folha A4.

Seja. Sento-me. Não consigo ver a cara do senhor dos serviços porque, apesar de a divisória ser transparente, ele tem diante de si um monitor gigante que lhe tapa a cara. Eu tenho outro, mais pequeno, virado para fora, para ir seguindo o que ele faz.

É estranho. Estamos a menos de 40 centímetros um do outro e eu não sei como é a cara da voz.

Claro que, apesar de eu ter uma carta dos serviços a dizer que é naquele serviço que tenho tratar do assunto – o ofício diz, assim mesmo, “que me devo dirigir a uma loja do cidadão” -, a voz atrás do acrílico e do monitor não me pode ajudar.

– “Mas a carta diz que é aqui que me devo dirigir”.

Pois. Só que não.

Aqui não podemos fazer nada. Tem de ir ao outro “serviço”.

Hei de ir ao outro serviço.

Agora, antes disso, nova paragem. Num serviço privado que já foi público.

O espaço está renovado, é amplo, espaçoso e bem iluminado. Também há acrílicos e um pequeno guiché, mas desta vez consigo ver bem a cara da funcionária.

Pois, também não me consegue ajudar, a carta registada que os serviços me enviaram já foi devolvida ao remetente.

– “Pode contactar o remetente”.

Pois posso. Mas no remetente só diz “República Portuguesa”. Que raio quererá de mim a República Portuguesa? Aquela senhora que está no parlamento e que simboliza o regime? Sempre achei que ela era uma estátua, mas, afinal, manda cartas. Registadas.

O guiché está de volta. Mesmo que seja tudo moderno, arejado, amplo, espaçoso e bem iluminado, há tiques salazarentos dos serviços que permanecem 50 anos depois, mesmo que a “loja” se chame “de” cidadão.

Jornalista

Diário de Notícias
Pedro Cruz
10 Janeiro 2023 — 00:25



 

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