96: Da crise brasileira ao perigo global iraniano

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– Considero de uma hipocrisia e cinismo atrozes, a admissão na ONU de países com regimes políticos de ditadura terrorista e assassina e, mais grave ainda, com direito a VETO! Esta condição não dignifica, em nada, a composição da ONU, tornando-a conivente com esses regimes.

🇵🇹 OPINIÃO

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A gravidade do que aconteceu a 8 de Janeiro em Brasília é indiscutível. Convém, no entanto, ter presente que se tratou, simultaneamente, de actos de violência criminosa e de um enorme desafio político.

As instituições judiciárias ocupar-se-ão da parte criminal e o Presidente Lula da Silva deverá responder à questão política, que passa sobretudo pelo fortalecimento da unidade nacional.

Quero acreditar que o conseguirá, tendo em conta a força das instituições democráticas do país e a sua experiência política pessoal.

Das imagens chocantes, que os brasileiros puderam ver em directo, parece ter resultado uma nova atmosfera política mais moderada. E também a compreensão que os comportamentos antidemocráticos são inadmissíveis, em toda a parte e sobretudo num país que tem a pretensão de poder exercer algum tipo de liderança na cena internacional.

Penso, por isso, que não existem motivos para preocupação quanto ao futuro democrático do Brasil. Lula deve, no entanto, compreender que a prioridade é unir na medida do possível os cidadãos no combate aos problemas que de facto contam, a começar pela luta contra a pobreza e as desigualdades sociais, pelo reforço da segurança das pessoas e pela protecção do Amazonas e dos outros ecossistemas que fazem a riqueza e universalidade do país.

Para nós, no exterior, é altura de virar esta página e continuar o foco na procura de soluções para os problemas que realmente ameaçam a paz internacional.

Neste início de ano, é fundamental reconhecer que a comunidade das nações se encontra numa encruzilhada extremamente perigosa, no que respeita à convivência pacífica entre os Estados.

O caso da Rússia contra a Ucrânia é certamente o mais grave. Mas o que se passa no Irão é igualmente preocupante. Requer medidas muito sérias. O regime do Irão é uma ameaça aterradora para os direitos humanos do seu povo e uma das piores aberrações políticas na cena internacional.

É um perigo para os vizinhos, um fornecedor de drones que aumentam o potencial mortífero dos agressores russos e é um potencial patrocinador de atentados terroristas, incluindo no espaço europeu. Está, além disso, à beira de dispor de meios bélicos de base atómica.

Ou seja, reúne um número suficiente de condições para ser considerado um Estado pária, inaceitável como membro da comunidade internacional.

Por outro lado, há que reconhecer a coragem do povo iraniano, que desde Setembro tem estado nas ruas para exigir o fim da ditadura dos aiatolas.

Apesar da repressão já ter matado para cima de 500 pessoas, e de já haver 17 condenados à morte, quatro dos quais já foram executados, sob a acusação absurda de “terem declarado guerra contra Deus”, as manifestações continuam.

Ao mesmo tempo, um trabalhador humanitário belga, com uma história profissional perfeitamente reconhecida, foi esta semana condenado a 40 anos de prisão e a 74 chicotadas, sob a falsa acusação de espionagem.

Este é um procedimento já seguido contra outros estrangeiros, sendo o caso mais famoso o de Nazanin Zaghari-Ratcliffe, uma anglo-iraniana que esteve detida durante seis anos por razões de chantagem política sobre o Reino Unido, e que foi libertada há cerca de um ano.

Mas há mais. A França tem sete cidadãos seus encarcerados no Irão. Há mais de vinte ocidentais na mesma situação. A acusação é sempre a mesma: espionagem e incitação à agitação social. Tudo inventado.

O Irão não pode continuar a ser uma ameaça impune. Porém, a grande questão é saber como deve a comunidade internacional resolver situações deste tipo. Do lado europeu, existem sanções, mas isso não chega.

Além do apoio russo, o Irão conta com um acordo de cooperação com a China, assinado em Março de 2021 e válido por 25 anos. Este acordo é particularmente importante para a manutenção no poder dos retrógrados religiosos.

Se a China quiser ser levada a sério quando fala na promoção de uma nova ordem internacional, deverá começar por recusar tratados deste género. É isso que nós europeus devemos sublinhar quando os chineses nos propõem um sistema multilateral menos ocidentalizado e mais representativo das realidades globais.

Essas normas globais são muito fáceis de definir: devem ter como ponto de partida os direitos fundamentais das pessoas e a exclusão dos regimes políticos que não respeitam esses direitos elementares.

Conselheiro em segurança internacional.

Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

Diário de Notícias
Victor Ângelo
13 Janeiro 2023 — 01:18



 

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