137: O cartel dos instalados

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🇵🇹 OPINIÃO

Quando a política é o problema em vez da solução, o debate público vive numa taquicardia permanente, em que um episódio após outro constrói e desfaz histórias e reputações, ao ritmo da batida dos meios de comunicação e das redes sociais.

E neste carrocel, a que o primeiro-ministro chama de “casos e casinhos”, não há mês em que não pareça estarmos diante de mais uma crise ou um fim de ciclo.

Em circuito fechado, como num elevador acanhado, na política portuguesa acotovelam-se primos, afilhados, noras, amigos e congéneres. Nada de novo.

O bafo é que é por vezes difícil de suportar. Nepotismo — do latim nepos, para significar sobrinho, neto, ou descendente — é palavra antiga, inventada para designar o favorecimento de parentes ou amigos próximos, em detrimento de pessoas mais qualificadas, especialmente no que diz respeito à nomeação para determinados cargos, em particular nas autarquias, na administração central e nas empresas públicas.

Não sendo necessariamente ilegal, o nepotismo é pecado vizinho dos crimes tráfico de influências e corrupção, e ambos são as patologias mais comuns aos partidos guindados ao poder.

Não por acaso, o Eurobarómetro revela que quatro em cada cinco portugueses desconfiam dos partidos, e que dois terços dos nossos concidadãos estendem essa desconfiança ao parlamento, ao governo e à justiça.

As sociedades são fundadas na confiança, uns com os outros e para com as instituições criadas para administrar o que é comum. Se essa confiança enfraquece ou mesmo desaparecer, quem zelará pelo que é de todos e com que legitimidade?

Ora, os partidos são, segundo nosso ordenamento jurídico, um dos principais canais de participação política, e são eles os depositários do voto cidadão.

Nas democracias modernas, como a nossa quer ser, os partidos nasceram e medraram como mediadores entre a sociedade civil e o próprio Estado.

Mas têm acabado a ocupá-lo e a confundir-se com a própria burocracia das administrações, que invadem cada vez que chegam ao poder, distanciando-se dos cidadãos que afirmam representar.

Os partidos dos nossos dias, ou as suas caricaturas, não são um elo entre a sociedade e as instituições. São agências de interesses e relações-públicas para satisfazer clientelas e dedicadas ao controlo de danos.

A acção política profissionalizou-se, e os partidos funcionam cada vez mais como aquelas organizações onde não há diálogo nem democracia interna, e onde os chefes, mais preocupados com a sua reputação e imagem, vendem expectativas quando não ilusões — e à qualidade do seu produto preferem a percepção que se tem dele. Quase tudo tem sabor a tacticismo em vez de estratégia; jogo de poder antes do interesse cidadão.

Daí a crescente erosão na base das formações políticas tradicionais — cá, como em toda a Europa. E quando a desconfiança medra, a construção democrática vacila.

Sabendo-se, desde Aristóteles, que a política tem horror ao vazio, nos últimos anos, o desencanto com os partidos tradicionais deu origem a novas formações.

Resta saber se, de futuro, o descontentamento se manifesta na forma de desinteresse ou alimenta o terreno fértil onde florescem os extremismos. Seremos na Europa o país que menos reformou o seu sistema de governo nas últimas décadas: das leis eleitorais ao financiamento dos partidos.

Ora, se o espaço democrático está doente, é preciso saneá-lo, de nada servindo uma qualquer maioria absoluta se ela não se traduzir em estabilidade e impulso reformista. E se alguma coisa aprendemos com as anteriores é que, ao contrário das artes marciais, na política não se ensina a cair.

Jornalista

Diário de Notícias
Afonso Camões
17 Janeiro 2023 — 00:23



 

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