135: PS – O que resta de socialista?

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🇵🇹 OPINIÃO

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Chocou muitos socialistas de base a vontade do governo de ilegalizar a solidariedade dos professores para com o pessoal não docente das escolas, um grupo profissional muito importante para manter os estabelecimento de ensino em funcionamento mas que são esquecidos pelo Estado em termos de remunerações, de condições de trabalho (muitas vezes ao frio, de pé, atirados para a supervisão das Câmaras).

O STOP procura agrupar no mesmo sindicato todos os profissionais da educação. A ideia de sindicatos verticais não é nova e tem vantagens e desvantagens. Na educação tem evidentes vantagens.

No entanto durante uma greve alguns grevistas conseguem, por múltiplas razões, aguentar mais facilmente a perda de remuneração que outros. Então, nada mais nobre, justo e correto do que organizar a solidariedade através de donativos dos que podem para os que mais precisam.

É sobre este princípio de solidariedade que se ergue o Estado Social europeu, que está construída a nossa Segurança Social, que está, no fundo, assente a nossa Democracia.

Ao procurar ilegalizar a solidariedade entre trabalhares da mesma escola, do mesmo sistema de Ensino, o Governo passa a mensagem à sociedade que a solidariedade é criminosa, que a solidariedade deve ser banida, que a desunião e o individualismo extremo devem predominar, que o individuo isolado face ao poder do Estado deve ser a norma.

Que melhor receita para o desastre social pode haver? Que melhor fórmula para o empobrecimento do país podemos desencantar?

Que têm estas ideias a ver com o socialismo social-democrata de que o PS se reivindica em períodos eleitorais? Que têm estas ideias a ver com a Esquerda que o PS quer liderar?

O acarinhar da solidariedade humana é uma marca indelével da Esquerda (embora não exclusiva da Esquerda), um princípio que vem de longe, dos

primórdios da esquerda, um princípio sustentado por todas as organizações de Esquerda.

A solidariedade humana, incluindo a profissional, é mais do que uma possibilidade ela é um dever moral, um imperativo ético de todo o ser humano. Pretender proibi-la remete para o absurdo, para o ditatorial, para o amoral para a ausência de ética.

Surge, então, a dúvida, a questão, a pergunta: poderá um Partido que, quando no Governo, pretende ilegalizar a solidariedade espontânea entre profissionais ser de Esquerda ou socialista?

Pode um Partido que se propõe impedir a espontânea solidariedade entre pessoas ser de Esquerda? Poderia mesmo reclamar-se de Democrata-Cristão? Dificilmente porque a doutrina cristã tem como dogma que todos os homens são irmãos e que, consequentemente, devem ser solidários.

Retirar a possibilidade às pessoas a liberdade de ser solidário, de apoiar, de ajudar o amigo, o colega, o vizinho, o compatriota, o ser humano que vive noutro país, é um ato despótico que não pode ser tolerado.

Ilegalizar a solidariedade para derrotar uma greve é algo tão monstruoso, tão desproporcional, tão prepotente, tão mesquinho, só próprio de gente que sacrifica princípios universais simplesmente para eliminar um pequeno incómodo, a contrariedade de uma greve limitada e circunscrita a um grupo profissional.

Quem por tão pouco sacrifica os seus princípios fundamentais, que poderá fazer em face de desafios maiores? Que faria face a uma greve geral?

O Governo não se entende com a ética, enclausurado num ambiente de facilitismo, de quero posso e mando agora que tenho a maioria absoluta, de safe-se quem poder, de enriquecer rapidamente através de indemnizações ou empregos que de acordo com o próprio Primeiro-ministro violam as Leis, pretende agora ilegalizar a solidariedade.

Que desvario, que incompetência, que ganância, que enorme vazio de projecto e de estratégia.

E, pasme-se, defende-se agora que “não há alternativa”. Como se fora verdade. Como se já não tivesse sido demonstrado, numa noite eleitoral a um primeiro-ministro sorridente e ilusoriamente triunfante, que há sempre alternativas. No plural.

Diário de Notícias
Jorge Fonseca de Almeida
16 Janeiro 2023 — 15:10



 

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