158: O Chega, esse partido do sistema

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🇵🇹 OPINIÃO

O Chega é provavelmente o partido mais sistémico do nosso panorama político e do nosso sistema parlamentar. É absurdo dizer-se isto? Sob uma fina capa de indignação e de grito anti-sistema e antipolíticos, aqui o que está em causa é, ainda e sempre, a estrutura identitária do nosso colectivo, por uma larga maioria.

Porquê? Porque a cultura de delação, a nossa pequena inveja e mesquinhez, um quase transe místico ao verdascar os outros e ao vê-los em queda, haja ou não razão objectiva para isso, ou o voyeurismo embasbacado sobre o poder e os seus exercitantes, são, infelizmente, traços estruturais da nossa relação com os demais à nossa volta.

Tudo para mais recoberto com uma patine abeatada, salvífica, purificadora, pela miséria de gosto e pelo ressentimento que infelizmente toda a pobreza traz.

O poder dos populismos nasce de coisas simples: o medo do estrangeiro, do outro, do diferente; a sensação de injustiça perante um outro; uma percepção de insegurança, até nos gestos mais simples do quotidiano; a falta de crença no homem político “habitual” e na resposta das instituições públicas.

Os populismos só podem ser minorados nos seus efeitos e no seu sucesso com uma mistura entre redução dos sentimentos de injustiça e de desigualdade e a oferta de factos contra meras opiniões ou simples mentiras. Não quer isso dizer que sejam travados.

Veja-se qual é a realidade das democracias do norte da Europa, os países mais ricos e menos desiguais do mundo, e onde partidos extremistas ou de protesto têm ganho peso.

Mas sem uma demonstração clara do que é factual, contra os discursos da mentira conveniente, e sem a redução da injustiça subjectiva, aquela que cada um sente, devida ou indevidamente, no seu quotidiano, nada pode funcionar, pelo menos, como parte da solução.

A censura simples ou a exaltação moralista da superioridade dos generosos contra os mesquinhos não funcionam e até são contraproducentes, já que permitem e exacerbam a vitimização e o discurso da vitimização, que se associa bem ao que muitos sentem também.

É necessário, por outro lado, credibilizar o discurso e a prática do exercício do poder, de modo a que uma proposta tolerante, solidária e feita para o futuro e não apenas nascida do ressentimento e do oportunismo, possa continuar a ser uma hipótese de poder.

Ao contrário do que possa ser uma opinião dominante e da moda, provavelmente já temos demasiados registos públicos, mecanismos, instituições…

Talvez o que falte mesmo sejam regras que limitem adicionalmente um exercício ilimitado em cargos públicos, já que o decurso de tempo exagerado no poder, num qualquer poder, parece trazer sempre uma dose elevada de impunidade e uma convicção de excepcionalismo.

Banalizar o exercício do poder é melhor do que torná-lo num tema de coscuvilhice permanente e de vingança à mesa do café pelos nossos insucessos pessoais e dramas colectivos.

Transparência nos números e nos factos, instituições a funcionarem bem e políticos mais credíveis e com mais desapego ao exercício continuado do poder seriam assim bons elementos de preservação das democracias.

Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa

Diário de Notícias
Miguel Romão
20 Janeiro 2023 — 01:11



 

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