209: O Filho do Marco

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🇵🇹 OPINIÃO

(conto baseado em caso verídico)

I CAPÍTULO
Era uma vez, ainda durante o Estado Novo, a jovem Emília. Quase a ultrapassar os 30 anos de idade, desejava ter filhos em conjunto com o seu marido, Manuel, que era professor de Ciências Naturais do Ensino Secundário. Tinham casado seis anos antes na Conservatória do Registo Civil à Ferreira Borges, em Campo de Ourique.

Esse dia foi devidamente comemorado com um “copo de água” servido no “Canas” da Rua Saraiva de Carvalho, no mesmo bairro de Lisboa. Antes da festa, os noivos passaram no Jardim da Parada para as tradicionais fotografias.

Mas, ao longo dos seis anos de casamento, Emília não conseguia ficar grávida. O casal tudo fez no sentido de iniciar a tão desejada procriação. Ela e o marido ansiavam por ter filhos rapidamente. Emília contava às amigas as constantes tentativas sem qualquer resultado positivo.

Essas conversas faziam crer que tudo estaria bem com ela no que se referia à sexualidade. Manuel confessava aos irmãos a tristeza e a frustração por não ter filhos, ao mesmo tempo que afiançava a sua virilidade que, aliás, considerava ser indiscutível. Resolveram, então, procurar conselhos médicos. Foram a muitas consultas.

Uma vez que Emília trabalhava como segunda-oficial administrativa no Governo Civil tinha direito, como funcionária pública, a beneficiar da ADSE que possibilitava o acesso aos melhores médicos especialistas, incluindo professores da faculdade. Multiplicaram-se consultas, muitos exames, análises clínicas e mudanças constantes de ginecologistas e endocrinologistas.

No final das inúmeras consultas, os médicos concluíram que Emília estava bem, em termos de saúde sexual e reprodutiva. Já a Manuel foi diagnosticada esterilidade em consequência de ter tido uma complicação da papeira, adquirida na infância.

II CAPÍTULO
Ao fim de um dia normal de trabalho nos serviços da Secretaria do Governo Civil de Lisboa, Emília apressa-se a ir ao gabinete do Dr Marco Oliveira e diz-lhe frontalmente:

– Senhor Dr Marco, estou aqui porque o meu marido perguntou-me se havia no meu serviço um jovem elegante, educado e inteligente. Ora, como imagina, o Senhor Dr corresponde a este perfil. Como o meu marido é estéril, eu peço-lhe, com o conhecimento dele, para vir comigo ao Hotel Borges, onde já reservei um quarto para fazer amor comigo, se assim aceitar. A ideia foi do meu marido, repito.

– Ó Emília, dessa não estava eu à espera, mas, olhando de cima para baixo, garanto-lhe que vou consigo. Estou disponível agora mesmo. Tratarei do assunto com prazer. Sempre a achei atraente. Vamos.

– Ó Senhor Dr Marco, ainda bem que vai comigo, até porque hoje deve ser o dia certo do meu ciclo, a confiar no método das temperaturas que tenho feito todas as manhãs!

– Ó Emília, vamos começar já antes do jantar e depois repetimos por segurança!

No dia seguinte a Emília não foi trabalhar. Nunca mais compareceu no Governo Civil. Não voltou a ver o Dr Marco.

III CAPÍTULO
Passados nove anos, pela manhã de um sábado, o Marco Oliveira estava na Estação do Rossio a caminho de Sintra. Eis senão quando, por mero acaso, viu e reconheceu a Emília.

Cumprimentaram-se e, logo depois ela afastou-se. Ia com um rapaz de 9 anos pela mão. De repente o Marco deduz que era seu filho. Hesita em ir atrás dele para o conhecer. Não foi!

Moral da história:
O que faria o leitor no lugar do Marco?

Ex-director-geral da Saúde
franciscogeorge@icloud.com

Diário de Notícias
Francisco George
25 Janeiro 2023 — 01:03

– Ó doutor, independentemente do problema da infertilidade do Manuel, marido da Emília, desta ter de recorrer a terceiros (dr. Marco) para poder ter um filho, fazendo sexo com ele, penso que o dr. Marco deveria ter, passados que foram 9 anos do “acontecimento”, procurar saber, junto da Emília, se aquele rapazinho de 9 anos era mesmo seu ou se tinha recorrido a outros “intervenientes”…



 

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