147: Guiné-Bissau

 

“… Muitos portugueses que estiveram na Guiné-Bissau, antes da independência, gostariam de lá voltar na perspectiva de recordarem os tempos da juventude aí passados. Quase todos como soldados.”

Na condição de ex-combatente da guerra do Ultramar ou colonial como melhor entenderem chamar, nunca estive minimamente interessado em regressar a um país – na altura colónia portuguesa – do qual apenas tenho bem vivas – passados que foram já 55 anos – as memórias da guerra passada no mato, dos ataques terroristas aos aquartelamentos com morteiros, roquetes, canhão sem recuo e armas automáticas, assim como as minas nos caminhos que as colunas percorriam e destruiam viaturas de transporte e mataram tantos camaradas, por mercenários financiados e armados pela união soviética e treinados por Cuba. Sei que muitos camaradas (termo castrense) já visitaram a Guiné-Bissau, regressaram aos locais onde sofreram ataques mortíferos, mas pessoalmente nem que me pagassem a viagem em executiva e estadia com tudo pago em hotel de 5 estrelas em Bissau (Hotel Ceiba Bissau, Ledger Plaza Bissau Hotel, Hala Hotel & Aqua Park, Dunia Hotel Bissau, Coimbra Hotel and Spa, Bissau Royal Hotel), eu acederia a essa viagem.

🇵🇹 OPINIÃO 🇬🇼

Muitos portugueses que estiveram na Guiné-Bissau, antes da independência, gostariam de lá voltar na perspectiva de recordarem os tempos da juventude aí passados.

Quase todos como soldados. Muito provavelmente, o interesse em regressar às matas guineenses acontece com mais frequência quando comparado com circunstâncias análogas de outras antigas colónias de África.

Assim sendo, como justificar este desejo em remexer a memória por quem ali tanto sofreu a combater os guerrilheiros do PAIGC?

Antes de mais, pelo reconhecimento que a guerra era injusta e, como tal, inglória. Mas, também, porque a Guiné é muitíssimo especial.

País tropical composto por uma componente continental e por belíssimas ilhas atlânticas, é habitado por população de diversas etnias e religiões, mas irmanada pelo profundo sentimento nacional, cimentado de forma expressiva, no tempo de Amílcar Cabral ao conduzir a Luta de Libertação. Fulas, Mandingas, Balantas, Papeis ou Felupes, muitos deles muçulmanos, outros animistas e alguns cristãos, formam, desde a proclamação de 1973, a República da Guiné-Bissau.

Ao contrário do Brasil, de Angola ou de Moçambique, os portugueses não emigravam para a Guiné. Historicamente, não se registaram fluxos migratórios a caminho de Bissau. Em rigor, a Guiné constituiu um modelo de colonialismo, mas sem colonização.

– A Guiné-Bissau era – e parece que continua a ser – um país pobre em quase tudo. Não possuis os recursos de um Brasil, Angola ou Moçambique. Por isso o quase nulo fluxo migratório.

A presença de Portugal ao longo dos séculos traduziu-se pela exploração das suas riquezas naturais, em termos de comércio, sem ignorar a marcante traficância de escravos que partiam de Cacheu para Cabo Verde e daqui para as Américas e Europa.

“Em rigor, a Guiné constituiu um modelo de colonialismo, mas sem colonização.”

Então, como explicar a genuína vontade que tantos manifestam em “matar saudades” e ir à Guiné?

Antes de tudo, importa sublinhar a gentileza natural da população guineense, associada à beleza ímpar da paisagem que mistura diferentes tonalidades de verde que compõem a imensa flora guineense.

As elegantes palmeiras que sobressaem nas savanas exóticas, por vezes animadas pela imagem de um jovem trepador a extrair o precioso shabéu (ou coconote ou dendém), destinado ao fabrico de óleo alimentar.

A riqueza e diversidade da alimentação, sobretudo pescada nos rios, a começar pelos camarões apanhados pelas redes que as mulheres colocam para aproveitar as marés.

Também as ostras gigantes de Quinhamel abertas na grelha em cima da brasa e depois saboreadas juntamente com sumo de lima e malagueta são imperdíveis.

As frutas estão abundantemente representadas pelos saborosos mangos da Índia, toranjas gigantes e cajus (consumidos quer frescos em sumo, quer sob a forma de castanha assada). Amendoins torrados completam escolhas exigentes.

– As referidas ostras, apenas as saboreei aquando do regresso à Metrópole em fim de comissão, já com o N/T Uíge ao largo do cais de Pidjiguiti, na cidade de Bissau, numa esplanada do Café-Restaurante-Cervejaria Portugal. Quanto aos amendoins (mancarra em crioulo), uma tigela de sopa comprada aos jubis (rapazinhos jovens) custava meio peso (moeda guineense que valia menos 10% que o Escudo)

Um episódio, tão pitoresco como inesquecível, é o aparecimento repentino, de um dia para outro, de milhões de grilos que saltam e cantam durante uma semana por todo o lado. Entram nas casas, incluindo nos quartos de dormir… Alguns dias depois desaparecem. Um mistério da natureza.

Mini-enciclopédia
Na língua portuguesa a origem da expressão GUINÉ significa “terras com gente de pele escura”. Por isso, a nível mundial, compreende-se a existência de quatro guinés:

Guiné-Bissau; Guiné-Conacri; Guiné Equatorial e Papua-Guiné.

Ex-director-geral da Saúde
franciscogeorge@icloud.com

Diário de Notícias
Francisco George
18 Janeiro 2023 — 00:27





 

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