283: Às armas. Pacifistas juntam-se à tendência de investimento na defesa

 

INTERNACIONAL // CORRIDA AO ARMAMENTO

Japão e Alemanha, em resposta à China e à Rússia, revertem décadas de políticas de secundarização das forças de segurança e de defesa motivadas pelo expansionismo que desembocou na Segunda Guerra. Tóquio e Berlim validam máxima do chanceler Bismarck: “A diplomacia sem armas é como uma orquestra sem instrumentos”.

Miniatura de um tanque soviético T-80BV. Indiferente às sanções económicas, Vladimir Putin diz não haver restrições de financiamento aos militares.
© NATALIA KOLESNIKOVA/AFP

Há coisa de 11 meses, dias depois de Vladimir Putin ter dado ordem para a “desmilitarização” e “desnazificação” da Ucrânia, o chanceler alemão proferia um discurso no parlamento sobre os “tempos de mudança” (Zeitenwende) e no qual anunciou cem mil milhões de euros para reequipar o exército.

O Japão, outro país que carrega o peso do militarismo associado a um regime totalitário, respondeu ao fortalecimento militar da China (e à contínua ameaça da Coreia do Norte) com uma nova estratégia de segurança nacional e um orçamento a condizer.

Não por acaso, Zeitenwende foi a palavra de 2022 para os alemães e os monges japoneses do templo de Kioymizu escolheram como ideograma do ano o que significa batalha ou guerra.

Estes são os exemplos de maior simbolismo e que implicam movimentos tectónicos nas respectivas sociedades. Porém, da América do Norte ao Extremo Oriente está em curso, se não uma corrida ao armamento, pelo menos um movimento de investimento militar, que não foi desencadeado com a invasão russa, antes ganha novas dimensões.

Em 2021, os gastos combinados das forças armadas ultrapassaram os 2,1 biliões de dólares, um crescimento de 0,7 pontos percentuais em relação ao ano anterior e um máximo de sempre, segundo contabilidade do Instituto Internacional de Estudos para a Paz de Estocolmo (SIPRI). E a tendência é para agravar.

A ascensão da China a potência militar desencadeou uma resposta musculada dos Estados Unidos e do Japão, mas também da Índia, cujos cidadãos veem agora Pequim como a maior ameaça militar e não o arqui-inimigo Paquistão.

O país que mais gasta em defesa, os Estados Unidos, tem um orçamento para 2023 de 858 mil milhões, um aumento de oito pontos percentuais. O seu grande rival económico, a China, aprovou para 2022 um orçamento de 229 mil milhões de dólares, um aumento de 7,1 pontos percentuais.

A desaceleração económica – o produto interno bruto cresceu 3% em 2022, o valor mais baixo desde 1976 se excluirmos 2020, marcado pela pandemia – trará um dilema aos decisores do regime comunista, que por norma fazem acompanhar o crescimento orçamental militar a par do económico.

Nos últimos meses, e em particular depois da visita da então presidente da Câmara dos Representantes dos EUA Nancy Pelosi a Taiwan, Pequim respondeu com uma agressividade inédita.

As demonstrações de poderio militar chinês sucederam-se no estreito de Formosa ou na zona de identificação aérea e o líder chinês Xi Jinping não excluiu o uso da força para tomar a ilha, ao que o presidente norte-americano Joe Biden disse que as forças do seu país apoiariam Taipé.

O contratorpedeiro de mísseis guiados INS Mormugao é o segundo da sua classe da Marinha indiana, construído em Mazagão. O seu nome presta homenagem ao porto de Mormugão, em Goa.
© THOMAS KIENZLE / AFP

A fechar o pódio dos mais gastadores em defesa (e o maior importador de armamento) está a Índia. A maior democracia do mundo, que historicamente olha com desconfiança para o Paquistão, está agora mais preocupada com a China.

É o que revela uma sondagem recente, segundo analisa a Foreign Policy: 43% dos inquiridos veem em Pequim a maior ameaça, e 22% em Washington, ficando Islamabade a par de Moscovo, com 13% de respostas.

A Índia é o país que mais armas adquiriu no estrangeiro entre 2017 e 2021, 11% do bolo total. O PM Modi quer a indústria indiana a produzir tudo e cancelou compras de aviões e helicópteros, mas peritos avisam que o país pode ficar sem equipamento suficiente.

O que leva a estes resultados explica-se em parte com as recentes disputas fronteiriças, ao que não ajudará o facto de a linha ao longo de mais de 3400 quilómetros entre ambos os países não estar definida – o problema que levou à guerra de 1962 e que terminou com uma vitória chinesa.

Por outro lado, Nova Deli vê com preocupação a presença crescente da marinha chinesa no Índico, enquanto Pequim se prepara para ter um terceiro porta-aviões.

A China, uma vez mais, é também o factor decisivo para a viragem histórica do Japão. Nos últimos anos, o primeiro ultrapassou o segundo na vice-liderança económica enquanto os orçamentos militares também acompanharam essa expansão.

Sete décadas de pacifismo não chegam ao fim no papel, uma vez que a Constituição não foi objecto de mudança e mantém-se o princípio de umas forças de defesa e sem recurso a armas nucleares.

Artigo 9.º A Constituição japonesa estipula que “renuncia para sempre à guerra como um direito soberano da nação e à ameaça ou uso da força como meio de resolução de disputas internacionais”.

No entanto, a aprovação da nova estratégia de segurança nacional, que premeia o esforço de anos de Shinzo Abe, o ex-líder japonês assassinado no ano passado, aponta o dedo a Pequim: “um inédito e maior desafio estratégico” para a paz e a segurança do Japão e da região.

Em concreto, Tóquio vê com preocupação as actividades militares chinesas em redor das ilhas Senkaku, que a RPC reclama suas (bem como Taiwan) e o lançamento de mísseis balísticos que caíram em águas próximas do Japão.

O PM japonês Fumio Kishida e o presidente norte-americano Joe Biden na Casa Branca.
© EPA/JIM LO SCALZO

O governo de Fumio Kishida apresentou o orçamento da defesa de 2023 para um recorde de 55 mil milhões de dólares, mais 20% que no ano anterior. Além disso planeia quase duplicar o orçamento dentro de cinco anos.

As prioridades passam por melhorar a cibersegurança e os serviços de informações, e pela aquisição de centenas de mísseis de cruzeiro Tomahawk, que podem ser instalados nos navios e ter capacidade para atingir locais de lançamento de mísseis, seja na China, seja na Coreia do Norte, uma permanente ameaça à paz na região.

500 Tomahawk. Entre outros investimentos, o plano japonês a cinco anos passa pela aquisição de meio milhar de mísseis de longo alcance Tomahawk, de fabrico norte-americano.No final do período, o país deverá ter o terceiro maior orçamento em defesa.

O norte-coreano Kim Jong Un quer um “aumento exponencial” do arsenal de armas nucleares do país já nos próximos meses, e Pyongyang está a construir uma frota de lança-foguetes móveis de grandes dimensões com a capacidade de atingir qualquer ponto do Sul com uma ogiva nuclear.

A febre atómica do ditador pode traduzir-se em até 300 armas nucleares nos próximos anos.

A reacção de Seul não se fez esperar e, pela primeira vez, o presidente Yoon Suk Yeol sugeriu a entrada no clube nuclear, enquanto afirmou que o caminho para prevenir ataques passa por ter uma capacidade para “ripostar cem vezes ou mil vezes mais”.

Contas feitas, o orçamento da defesa para 2023 sofre um aumento de 4,6% em relação a 2022 e situa-se nos 42 mil milhões de dólares.

A Rússia, na sequência do ataque lançado em larga escala à Ucrânia, viu-se na obrigação de rever em alta o orçamento da defesa, que é agora de 84 mil milhões de dólares.

Vladimir Putin, que disse não haver “restrições de financiamento” para os militares, planeia gastar um total de 600 mil milhões de dólares na defesa nacional, segurança e ordem pública entre 2022 e 2025.

O chanceler Scholz, de visita às instalações da empresa Hensoldt, observa um sistema de vigilância.
© THOMAS KIENZLE / AFP

A Alemanha, que desde a reunificação apostou no desenvolvimento de relações económicas com a Rússia como um factor de mudança pró-ocidental, ou pelo menos de estabilidade, em especial com os gasodutos Nord Stream, acordou para a realidade e o chanceler Olaf Scholz denunciou o “imperialismo” de Putin.

Anunciou também um pacote de cem mil milhões de euros para investir em equipamento militar e em cumprir de então em diante, o compromisso de reservar o equivalente a 2% do PIB em despesas de defesa.

67% de apoio. Segundo sondagem publicada em Junho no portal T-online, dois terços dos alemães aprovam o pacote de cem mil milhões para equipar o exército, mas as regiões orientais mostram-se divididas.

Mas é mais fácil de dizer do que fazer num país que carrega às costas o passado nazi, ao que se juntam repetidos escândalos de neonazis infiltrados nas forças armadas.

A isto acrescente-se uma burocracia tão extensa como o nome do departamento responsável pela aquisição (Gabinete Federal de Equipamento, Tecnologias de Informação e Apoio ao Serviço do Exército). Uma encomenda de um artigo como uma mochila tem de passar por 12 repartições, segundo revela a NPR.

Um funcionário da empresa construtora dos tanques Leopard, KMW, diz que nem um euro foi encomendado, o que ajudará a explicar porque nem o orçamento anual de 50 mil milhões foi gasto na totalidade (300 milhões a menos) e que, em consequência, o objectivo de atingir 2% do PIB esteja muito longe de alcançar.

Na sexta-feira, o novo ministro da Defesa, Boris Pistorius, mostrou que quer agitar as águas: disse que o processo de aquisição tem de ser mais rápido, é da opinião que os cem mil milhões não chegam para as encomendas, nem o orçamento.

Na base aérea de Mont-de-Marsan, o presidente Macron anunciou que o orçamento da Defesa vai aumentar em um terço em sete anos.
© EPA/Bob Edme/POOL

O par de Berlim na construção europeia pós-guerra, Paris, não é indiferente aos desafios da Rússia. E estes não se restringem ao continente europeu.

Em África, o presidente Macron anunciou o fim da operação Barkhane, de combate aos grupos jihadistas, com os mercenários russos a preencherem o vazio.

Mais concentradas na Europa, as forças armadas francesas vão receber mais de 400 mil milhões de euros para o período 2024-2030, um aumento de 30% em relação ao período em vigor.

“Depois de repararmos as forças armadas, vamos transformá-las”, prometeu o líder francês, apostando na rapidez de acção e no incremento da força, em paralelo com um maior investimento nas defesas aéreas, na cibersegurança e nos serviços de informações militares.

cesar.avo@dn.pt

Diário de Notícias
César Avó
29 Janeiro 2023 — 00:12



 

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50: A guerra na Ucrânia e a segurança asiática

 

🇯🇵 OPINIÃO

A guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia levou as pessoas em toda a região do Indo-Pacífico a questionarem se os problemas ocultos ou abertamente inflamados nesta zona também poderiam levar a uma guerra aberta.

Após a resposta histérica da China à visita da então presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, Nancy Pelosi, a Taiwan em Agosto, a resposta parece muito clara.

Do Hinducuxe ao Mar do Sul da China e ao paralelo 38 da Península Coreana, o Indo-Pacífico não tem falta de profundos antagonismos históricos e falsas reivindicações de soberania que podem explodir em conflito sem aviso prévio.

Assim, a verdadeira questão enfrentada pelos líderes do Indo-Pacífico é se a região pode construir uma estrutura de paz para evitar que as ambições e hostilidades nacionais se transformem em guerra aberta.

Muito dependerá de as potências democráticas da região – Austrália, Índia, Indonésia, Japão, Coreia do Sul e Estados Unidos – conseguirem forjar o tipo de confiança estratégica necessária para fazer qualquer potencial perturbador da paz pensar duas vezes antes de iniciar as hostilidades.

Os alicerces de Abe

Na concretização desse objectivo, o Indo-Pacífico foi prejudicado por uma das grandes tragédias políticas e humanas de 2022: o assassinato do ex-primeiro-ministro japonês Shinzo Abeō por um atirador solitário.

Abe passou os nove anos dos seus dois mandatos como primeiro-ministro, e o ano que lhe restou depois de sair do cargo, a considerar os tipos de alianças, tratados e estruturas institucionais que seriam necessários para fornecer limites e vedações de protecção dentro dos quais o dinamismo inevitável da Ásia poderia ser canalizado pacificamente.

Ele reconheceu que a Ásia não é tão farta em organizações e alianças multilaterais como a Europa, e que tais órgãos são fundamentais para a manutenção da paz e da prosperidade.

Agindo com base nessa perspectiva, Abe tornou-se o arquitecto de duas estruturas-chave que, espera-se, se tornarão os blocos de construção de uma paz estável para toda a região Indo-Pacífica: o Diálogo de Segurança Quadrilateral (“o Quad”), um fórum que inclui a Austrália, Índia, Japão e Estados Unidos, e o Acordo Abrangente e Progressivo para a Parceria Transpacífica, o sucessor da Parceria Transpacífica depois de Donald Trump ter abandonado a PTP no início da sua presidência isolacionista.

O AAPPT reúne agora 11 países do Pacífico – Canadá, México, Peru, Chile, Nova Zelândia, Austrália, Brunei, Singapura, Malásia, Vietname e Japão – no maior bloco comercial do mundo.

Ao dar o pontapé inicial no Quad e salvar o PTP, Abe ajudou a criar duas instituições com potencial para estabelecer regras de trânsito para todo o Indo-Pacífico.

O Quad está a liderar o caminho da segurança ao aprofundar os laços entre os seus quatro membros principais, cada um dos quais está também a fortalecer outras parcerias estratégicas, como as parcerias entre os EUA e a Coreia do Sul, Índia e Vietname, e a Austrália e uma Indonésia orgulhosamente não alinhada.

Por mais amorfos que sejam muitos desses laços de segurança, o Quad, no entanto, está a ajudar a criar uma rede de países determinados a manter a paz e a segurança em toda a região.

Outros laços, como os frequentes exercícios militares conjuntos que o Japão e a Índia agora mantêm com o Vietname, são tudo menos amorfos.

Ao liderar o AAPPT, Abe entendeu que os líderes da Ásia poderiam agir de forma eficaz por conta própria, mesmo quando os EUA optassem por ficar à margem.

Ele e os outros líderes asiáticos que assinaram o AAPPT entenderam que isso impediria a China de alcançar um domínio económico esmagador na Ásia através do seu próprio acordo comercial, a Parceria Económica Regional Abrangente.

Agora no seu quarto ano, o AAPPT está a criar inúmeras oportunidades para os líderes regionais cooperarem de maneira coerente e colectiva.

O elo mais fraco

Essa cooperação deve ser mais fomentada. Uma lição fundamental na construção de estruturas duráveis de paz e segurança na era pós-Segunda Guerra Mundial é que a solidariedade entre os países participantes é indispensável. A sólida solidariedade dentro da NATO dissuadiu, pelo menos até agora, o presidente russo, Vladimir Putin, de estender a sua guerra para além da Ucrânia.

A sensação de segurança que a NATO oferece aos seus membros convenceu até mesmo a Suécia e a Finlândia, países com uma longa história de neutralidade, a pedir a adesão à aliança.

É claro que a solidariedade é mais fácil de construir quando as questões são económicas, ou quando há uma ameaça existencial do tipo que a Europa enfrentou quando a NATO foi fundada no auge da Guerra Fria.

Poucos ficarão surpreendidos com o fato de o AAPPT ter sido adoptado e implementado de maneira tão tranquila, mesmo sem o imprimatur dos EUA.

Por outro lado, falta um sentimento genuíno de solidariedade dentro do Quad, como ficou demonstrado pela resposta hesitante da Índia à guerra na Ucrânia.

Desde que conquistou a independência em 1947, a Índia sempre pensou que poderia garantir a sua segurança por meio do não-alinhamento e dos seus próprios esforços bilaterais.

Apesar das incursões regulares da China no território indiano no Himalaia, juntamente com os fortes laços de Abe com o primeiro-ministro Narendra Modi, terem ajudado a convencer a Índia de que já não poderia garantir a sua segurança sempre sozinha, Modi, como a maioria dos seus compatriotas, teve dificuldade em romper com velhos hábitos.

Além disso, um factor importante na estratégia de segurança nacional da Índia tem sido a sua forte dependência da Rússia para equipamentos militares e formação. Esta dependência, um legado dos anos em que os EUA vincularam os seus activos regionais ao Paquistão, faz sentido há muito tempo para a Índia.

A União Soviética esteve disposta a apoiar a Índia na Guerra de Independência do Bangladesh em 1971, fornecer-lhe caças modernos e aplicar pressão diplomática na China de Mao depois de esta ter invadido a Índia em 1962.

Como um agente livre com um pé em ambos os campos da Guerra Fria, a Índia percebeu que estava a viver no melhor dos mundos possíveis em termos de segurança.

Mas os tempos mudaram, e a antiga dependência da Índia da Rússia está agora a puxá-la para o lado errado da história e a aumentar a sua vulnerabilidade perante uma China agressiva.

Nós, no Japão, há muito entendemos o papel crítico que a Índia pode e deve desempenhar na criação de uma estrutura de paz e segurança que abranja os Oceanos Índico e Pacífico.

Como ministra da Defesa do Japão, visitei a Índia em 2007, quando as sementes dos primeiros exercícios navais conjuntos dos nossos países foram plantadas. Desde então, o relacionamento floresceu de uma forma cada vez mais dinâmica de cooperação militar e de informação.

À medida que o Quad se consolida para se tornar a principal organização de segurança da Ásia, espera-se que a Índia reconheça que manter uma distância igual entre os seus parceiros do Quad e a Rússia já não é uma política viável, especialmente agora que a Rússia se está a tornar cada vez mais um Estado vassalo chinês.

Num conflito entre a Índia e a China, os indianos não deveriam ficar surpreendidos se a China prevalecer sobre a Rússia para esta parar de lhes fornecer equipamento militar, energia ou outras importações críticas. Nenhum governo indiano deveria estar disposto a assumir um risco tão intolerável no futuro.

Os arquitectos da Índia moderna, de Mahatma Gandhi e Jawaharlal Nehru a Bhimrao Ramji Ambedkar, viram a independência nacional como um triunfo moral e cultural, bem como político.

Hoje, com a China a reivindicar grandes extensões das províncias do norte da Índia, a insistência no princípio da integridade territorial em todos os lugares é a única maneira de a Índia garantir que as suas fronteiras sejam sempre respeitadas. Esse princípio está agora em julgamento na Ucrânia.

Se Abe ainda estivesse vivo, não tenho dúvidas de que ele estaria discretamente a persuadir Modi a reconhecer o que está em jogo e abraçar totalmente os parceiros Quad da Índia.

Limpar os obstáculos finais

Velhos hábitos também estão a pôr em risco a segurança na Península Coreana. Quase oito décadas após o fim da Guerra do Pacífico, as disputas sobre a sua história ainda impedem com muita frequência a cooperação de segurança efectiva entre os governos sul-coreano e japonês, apesar do esforço incansável do ditador norte-coreano Kim Jong-un para desenvolver o seu arsenal nuclear.

Ao longo das décadas, os EUA tentaram várias vezes superar essa divisão. Em última análise, apenas a Coreia do Sul e o Japão podem fazer isso.

Eles devem reconhecer que as suas diferenças são insignificantes em comparação com a ameaça muito real à segurança que ambos enfrentam pelas ambições hegemónicas regionais do presidente chinês Xi Jinping e do regime pária de Kim Jong-un.

É encorajador ver que ambos os países estão agora fortemente envolvidos na assistência à Ucrânia (fornecendo armas e análises de informação em tempo real).

Esperemos que a guerra convença os líderes políticos de ambos os países a abandonarem os debates históricos infrutíferos e começarem a concentrar-se em iniciativas conjuntas de segurança nacional.

As grandes potências e as aspirantes a tal abominam o vácuo geopolítico. Putin viu o isolamento da Ucrânia fora da NATO e da União Europeia como um vazio a ser explorado.

Na Ásia, permitir que a China faça exigências cada vez mais beligerantes aos seus vizinhos não aliados, particularmente no Mar do Sul da China, criou uma dinâmica semelhante. No Pacífico Sul, a negligência por parte das democracias de pequenos estados insulares encorajou a China a fazer diabruras militares.

Felizmente, a actual procura por solidariedade e segurança está a começar a preencher o vácuo institucional da região de forma a aumentar a segurança de países grandes e pequenos.

Essa unidade regional em evolução significa que qualquer potência que procure alterar unilateralmente o mapa da Ásia encontrará certamente uma oposição firme e unificada.

Yuriko Koike, governadora de Tóquio, é ex-ministra da Defesa do Japão, conselheira de segurança nacional e membro da Dieta Nacional.

© Project Syndicate, 2022.

Diário de Notícias
Yuriko Koike
07 Janeiro 2023 — 00:19



 

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