440: Peixe encontrado nos Açores é o maior do mundo

CIÊNCIA/BIOLOGIA/PEIXE LUA GIGANTE

(dr) Atlantic Naturalist
Peixe-lua gigante encontrado nos Açores.

Um peixe-lua gigante com 2.744 quilos encontrado no ano passado nos Açores foi agora considerado o maior do mundo. Tinha 3,25 metros de comprimento e 3,6 metros de altura.

Um peixe-lua gigante foi encontrado já sem vida à entrada do porto da Horta, nos Açores, em Dezembro do ano passado. Na altura já se suspeitava que, pelas suas dimensões, pudesse ser o maior do mundo. A confirmação chegou agora, com um estudo publicado na Journal of Fish Biology.

O espécime encontrado tinha 3,25 metros de comprimento, 3,6 metros de altura e pesava 2.744 quilos. O anterior recordista era um peixe-lua gigante com 2,4 toneladas, encontrado no Japão, em 1996.

O peixe foi recolhido pelas autoridades açorianas, cujos trabalhos foram acompanhados por investigadores da Associação de Naturalistas do Atlântico e da Universidade dos Açores, escreve a CNN Portugal. São conhecidas três espécies deste peixe de águas profundas.

“Nós recolhemos os dados com todo o rigor científico e apresentamos os nossos dados a uma revista científica, que os validou, inclusive a calibração da balança.

E, perante as provas documentais que mostramos, eles aceitaram o artigo para publicação. Como tal, está validado por investigadores e pela revista científica”, disse José Nuno Pereira, da Associação Naturalistas do Atlântico, à RTP Açores.

As causas da morte não foram determinadas, embora um corte na cabeça sugira que poderá ter colidido com alguma embarcação. Não foram encontrados plásticos ou outros elementos prejudiciais no estômago do peixe.

“Estas descobertas melhoram a nossa compreensão sobre a biologia desta espécie e o papel dos animais que se alimentam de seres gelatinosos.

Revelam ainda que o oceano continua saudável para sustentar os maiores animais do planeta, mas chamam a atenção para os riscos que estes correm e a necessidade de mais medidas de conservação”, sublinham os responsáveis da Associação de Naturalistas do Atlântico.

  Daniel Costa, ZAP //
15 Outubro, 2022



 

“As próximas pessoas na Lua serão mulheres. O quando depende dos sistemas de lançamento e de pouso, que estão a ser testados”

TECNOLOGIA/ESPAÇO/LUA

Antigo cientista chefe da NASA e actualmente à frente do Goddard Space Flight Center também da agência espacial americana, James Garvin esteve nos Açores para a GlexSummit e conversou com o DN sobre Vénus, mas também sobre Marte e até sobre o regresso à Lua. O entusiasmo com que fala, também todo o conhecimento que revela, justifica o optimismo que têm sobre a exploração espacial, incluindo a cooperação entre países e entre empresas privadas e governos.

Já conhecia James Garvin de uma anterior entrevista, feita em Lisboa antes do cientista americano dar uma palestra no Instituto Superior Técnico, e se na altura Marte era o grande tema que o apaixonava, agora é Vénus que exige boa parte da sua dedicação.

A conversa aconteceu no Teatro Micaelense, em Ponta Delgada, durante a GlexSummit 2022, mas depois acompanhei o antigo cientista chefe da NASA numa ida ao Faial, nomeadamente ao vulcão dos Capelinhos, que estuda há muitos anos, tal como aos Açores em geral, acreditando – diz – que se pode aprender sobre o espaço estudando a Terra e também sobre o nosso planeta investigando o que se passa, ou se passou, noutros.

Vénus é agora a grande prioridade para a NASA?
Não. Vénus é uma de muitas. As prioridades incluem a Terra – a avaliação das alterações ambientais e o impacto no futuro -, a NASA tem um grande programa nessa área; os voo espaciais das mulheres – levar as mulheres à Lua – e isso é muito importante, como deve ser; a continuação de Marte – trazer amostras para a Terra – com a comunidade mundial, pois a NASA e a Agência Espacial Europeia [AEE] estão a fazer isso em conjunto, o que é muito importante; mas, agora, também usar Vénus como uma janela para outros mundos, especialmente aqueles que nós pensamos que seremos capazes de sentir com os Grandes Observatórios Astronómicos. Na verdade, Vénus é literalmente detectável porque é uma grande atmosfera.

A atmosfera de Vénus é 97% maior que a da Terra, é enorme. Portanto, aquela dimensão demorou algum tempo a desenvolver-se até ficar tão grande. O que é que fez isso acontecer? Porque é que não é mais desenvolvida quimicamente como a nossa com hidrogénio e oxigénio? Porque é que o registo aparente de água na atmosfera sugere que muita, muita água se perdeu? Água para um oceano.

Se houvesse um oceano seria talvez maior que o da Terra. Assim, o potencial de Vénus ter tido vida como a Terra nesses tempos antigos de oceanos e sistemas geotérmicos, como estes dos Açores, é muito alto. Provavelmente será difícil lá chegar e será difícil trabalhar lá. Marte é um ambiente árctico gelado, pode-se pôr o telefone no congelador de Marte que ele fica bem.

Portanto, Marte é mais fácil de explorar, de investigar, do que Vénus?
Muito mais fácil. Também é mais fácil porque ainda não é possível chegar a Vénus de forma a haver tempo para fazer o trabalho, pensamos que um veículo espacial em Vénus não durava mais do que uma hora. Por isso, o que queremos é fazer mais trabalho na atmosfera enquanto tentamos chegar à superfície.

Da mesma forma que a exploração do mar profundo observa tudo no caminho lá para baixo. A secção daqueles 70 km de história química do sistema climático é muito importante. A química não mente, se lermos bem a química podemos aprender muita coisa. A atmosfera de Vénus tem muitas camadas.

Em Vénus podemos então aprender alguma coisa sobre a Terra?
Podemos, porque Vénus passou por um cenário de efeito de estufa descontrolado. Nós pensamos que era mais fresco, mais agradável em determinado momento. Tudo sugere isso – precisamos de mais dados, mas vamos obtê-los -, mas depois alguma coisa aconteceu. Assim, Vénus como deve ter sido, não está lá agora.

O que é que correu mal? Ou nós percebemos mal? Portanto, ao medirmos certas coisas, tanto numa missão como a nossa DAVINCI e a missão irmã EnVision, vamos mapear Vénus na totalidade, medir a atmosfera até à escala mais fina, tocar nas montanhas de um outro mundo pela primeira vez.

Nunca nenhuns sistemas de montanhas foram alguma vez visitados por pessoas do planeta Terra e, então, que é o mais importante, vamos ter os dados para todas as pessoas brilhantes de hoje em dia, com melhores ferramentas, melhores computadores, melhores ideias, melhores modelos.

Depois há um sonho partilhado por alguns de nós: depois de termos feito todo esse trabalho nos próximos 10 ou 15 anos, talvez possamos ter pessoas na órbita de Vénus a operarem robots, como nas profundezas do mar.

Na órbita, porque pousar em Vénus é quase impossível?
É possível, mas há tanto a aprender antes de pousarmos, que se formos directamente para aí, todo o trabalho será apenas em algumas pedras.

Mas existe tecnologia actualmente para se pousar em Vénus?
Nós fomos lá com os russos nos anos 1970. Mas agora temos esta tecnologia para medir a atmosfera, da mesma maneira que o faríamos num laboratório aqui na Terra. Nunca tínhamos tido isso antes. Sabemos que funciona porque fizemos isso em Marte durante 10 anos.

O rover Curiosity levou os mesmos instrumentos que estamos a levar para a atmosfera de Vénus e eles mostraram-nos moléculas orgânicas, a história da água, etc. Quando fizermos isso na atmosfera profunda de Vénus, e em toda a atmosfera, vamos ver que se comporta como o oceano profunda na Terra, só que é um gás quente e não água quente.

Na nossa última entrevista, em 2019, falou muito sobre a importância da colaboração internacional no estudo do espaço. Hoje, com esta situação geopolítica tensa, essa cooperação internacional é mais difícil ou os cientistas conseguem colaborar na mesma?
Penso que os cientistas cooperam na mesma, acho que vamos sempre cooperar.

Mesmo durante a Guerra Fria era possível essa cooperação?
Sim, era. No fim da Guerra Fria, eu era um estudante acabado de formar e trabalhei com a Academia de Ciências Soviética. Estive em Moscovo e era um dos dois americanos que lá estavam.

Fui o primeiro americano a ser colocado no Cazaquistão no que era um grande centro astronómico e as pessoas tocavam-me porque nunca tinham visto nenhum [risos]. Vinham em camelos ao deserto onde nós estávamos a trabalhar com os soviéticos da Academia de Ciências.

Continuamos a trabalhar juntos na Estação Espacial Internacional. Sim, algumas nações querem mostrar que lideram agora, tudo bem. Acho que com a exploração espacial comercial, com os estudantes interessados, com a melhor participação dos jovens actuais em encontros como este, a cooperação vai continuar.

Sente-se optimista com os avanços da exploração espacial privada?
Sinto. Acho que o que vai acontecer é que eles vão abrir caminho, aprendendo e indo mais longe, mais depressa, com menos impedimentos, menos desafios e vão abrir espaço para novas maneiras de fazer ciência. Algumas não vão ser perfeitas de início, pois nós temos padrões incrivelmente elevados.

Para ir a Vénus, a minha missão teve milhares de páginas de propostas e de revisões, muita coisa, mas eles podem avançar mais rapidamente, podem experimentar coisas, mais como a exploração dos oceanos – “Vamos experimentar isto, vamos ver se aprendemos alguma coisa. Não deu certo. Não faz mal, tentamos novamente”. Isso vai trazer inclusão, mais pessoas a fazerem mais coisas e melhor.

Isso da experimentação, do tentar mesmo podendo falhar, é algo que também está muito ligado com a tradição da sociedade americana, a de que se podem correr riscos, mais do que noutros países?
Acho que cada sociedade corre riscos de formas diferentes. Os Estados Unidos são muito grandes, com muita gente inteligente.

Testar os limites nos negócios e em muitas outras áreas, como o espaço, é algo que faz parte da experiência americana, penso que também da europeia. Há também uma população muito maior, maior do que a de qualquer país da Europa Ocidental, como sabe, o que dá origem a mais géneros de pessoas diferentes.

A maneira como essas pessoas trabalham juntas é muito importante para se avançar, porque os EUA estão a mudar radicalmente. Penso que a exploração espacial é uma coisa sobre a qual a maior parte das pessoas concorda que vale um certo investimento.

Os bilionários gastam dinheiro nela, as organizações nacionais como a AEE, a NASA, a JAXA no Japão, a Austrália, o Canadá, investem na transmissão de capacidade, tecnologia e inspiração às pessoas, criando empregos – a nossa missão para Vénus emprega 2000 pessoas.

Portanto, acho que vamos assistir a um alargamento de abordagens, como as estações espaciais comerciais – a Axiom e outras -, missões comerciais para Marte, porque não? Vamos usar o acesso comercial à Lua, para fazer coisas para a NASA e para outros. Isto é um pouco mais difícil, mas as empresas privadas vão para a atmosfera e vamos ver o que conseguem fazer.

Recentemente, a Coreia do Sul lançou um foguetão e o número de países e de empresas capazes de o fazer está a crescer…
Está.

A China faz cada vez mais parte deste processo de conquista do espaço, mas nem sequer participa na Estação Espacial Internacional, ao contrário dos russos, apesar de estes terem anunciado a saída a partir de 2024. A competição no espaço é algo que o preocupe?
Eu penso que a competição é boa. A China tem mais de mil milhões de pessoas e está a fazer coisas óptimas no espaço. Eles estão a cooperar a nível científico com artigos em revistas com cientistas americanos e europeus.

Não estão à frente dos Estados Unidos neste momento?
Para ser sincero, não sei.

Mas pensa que eles estão a crescer muito rapidamente?
Penso que eles são muito, muito eficazes. Aprendem com anos de trabalho fundamental noutros sítios – Rússia, EUA, Europa – a terem um bom modelo de negócio. Nós também precisamos de aprender a fazer isso.

Espero que a China faça coisas boas, porque a exploração não é uma coisa de um país só, de um homem só e o espaço não tem limites, eu chamo-lhe a fronteira eterna. Porque é verdadeiramente para sempre, portanto acho que a competição é boa.

As primeiras pessoas a saberem coisas, não apenas nas redes sociais, podem afirmá-las, publicá-las e podem reivindicar essa capacidade. Isso é importante, já foi importante na década de 1960, num tempo diferente, demonstrar essa capacidade e foram menos países a fazê-lo na altura, mas eu diria que quanto mais intervenientes melhor.

Eu vejo o futuro como uma exploração digital do universo, do sistema solar, dos oceanos, de uma maneira que mudará tudo. E não serão poucos a ter acesso a isso, todos terão. Estou muito entusiasmado. A política não é a minha área, não sei nada sobre ela, mas espero que os políticos fiquem contentes.

Em termos de simbolismo para a NASA, pôr uma mulher na Lua é hoje o mais importante?
Não penso que seja simbólico, penso que é uma necessidade de há muito tempo. Não há razão para o não termos feito antes.

Mas actualmente é importante em termos de mensagem?
É importante não só como mensagem, é importante em termos de aptidão. As mulheres astronautas são tão boas, se não melhores do que os homens. São pessoas com capacidades diferentes.

Acha que vai acontecer dentro de poucos anos?
Acho que as próximas pessoas na Lua serão mulheres. O quando, o tempo que demorará, depende do nosso sistema de lançamento e de outros sistemas, como o de pouso, que estão a ser testados. Logo que sejam declarados como suficientemente testados, elas irão.

Porque é que é difícil ir à Lua actualmente, quando há 50 anos foi possível?
Em primeiro lugar, eu acredito, puramente pela minha experiência como cientista, que provavelmente fomos à Lua 50 anos antes do tempo. Talvez, num tempo histórico diferente, tivéssemos desenvolvido mais a robótica. O que fizemos foi acelerar muito.

Para fazer muito boa ciência, em vez de trazermos gramas de material, trouxemos quilos. Portanto, desenvolvemos muita coisa muito depressa e isso permitiu-nos aprender o suficiente para podermos então, graças à exploração humana, construir a exploração robótica. Essa tem sido a história desde 1972 até agora, passámos para a era de transição robótica.

Assim, penso que a pausa – tal como entre Fernão de Magalhães e Francis Drake foi cerca de 50 anos. Magalhães fez a circum-navegação, ótimo! O próximo explorador a navegar foi Drake, 50 e tal anos depois. Penso que agora o regresso à Lua vai ser mais inteligente, melhor, mais barato e para sempre. A capacidade para sustentar isso, não se vai tornar o problema que foi no passado.

Sim, podíamos ter desenvolvido um posto avançado na Lua, mas não teríamos um shuttle, não teríamos um sistema de satélites meteorológicos, não teríamos mandado a Viking a Marte, a Galileu, a Cassini, etc. A exploração humana deu origem a coisas fantásticas, como a missão Magellan a Vénus, lançada em 1989, que foi uma grande missão.

O Hubble foi reparado quatro vezes, portanto estamos a aprender, o papel humano no espaço está a mudar. Nós somos exploradores, capacitadores e fazedores, mas não temos de fazer tudo. Portanto, penso que as mulheres e os homens na Lua poderão permitir uma permanência, ou uma escolha de permanência, também vão arrastar as empresas espaciais privadas e isso vai fazer da Lua o nosso próximo posto avançado.

Eu estive na comissão de satélites no fim da década de 1980, depois do desastre do Challenger, e lá dissemos que um caminho futuro para as pessoas da Terra – e para a NASA – era concentrarmo-nos num posto avançado na Lua, pôr lá pessoas e usar a Lua como uma estação espacial. Não se constrói uma estação, usa-se uma que já existe.

Uma coisa que se irá fazer, tenho a certeza, é estabelecer um sistema intermodal de comunicação, posicionamento e navegação em redor da Lua. Será aquilo que precisamos para termos confiança para vivermos e trabalharmos lá. Será como a Internet digital do sistema lunar, e se fizermos isso na Lua, podemos expandi-lo a Marte. Marte está de volta. Ainda não fomos a muitos lugares bons.

Na verdade, penso que o rover europeu Franklin é fundamental que voe, tem instrumentos incríveis, uma equipa fantástica, um veículo maravilhoso – tem de voar, é demasiado bom para não voar. De qualquer maneira, penso que as coisas irão ser fantásticas, o ritmo a que vão acontecer é imprevisível.

Acho que as pessoas vão voltar à Lua e isso será inspirador; depois irão a Marte. Alguns de nós pensamos que a primeira coisa a fazer em Marte é pôr lá homens e mulheres. Mas isso é uma opção de investimento que não é minha – talvez seja possível com parceiros comerciais e mais países.

Acho que será importante para a humanidade saber que podemos fazer isso, mas a Lua é mais acessível, as estações espaciais comerciais são mais acessíveis. Acho que podemos fazer tudo isso, embora não sem riscos. Penso que o espaço vai mudar, dentro de 50 anos já não será o mesmo espaço de que falávamos há 50 anos depois das primeiras pessoas terem ido à Lua.

Como cientista, está optimista…
Estou, penso que as pessoas estão prontas para isso, os jovens estão prontos. É uma questão da velocidade com que vai avançar, do sucesso dos investimentos privados, dos êxitos científicos… o telescópio James Webb vai mostrar mais coisas e nós vamos dizer” Umm… podemos ir ali!” Temos melhores telescópios, melhor ciência – temos agora instrumentos a medir a migração do carbono em todo o planeta, não só nos oceanos, há 20 anos isso seria impossível. Tudo o que aprendemos no espaço aplica-se de volta aqui.

É como nós dizemos nos EUA: os dólares nunca foram para o espaço – ou os euros, já agora – eles vão para as pessoas que fazem as coisas lá, para as máquinas que eles fazem. Portanto, estou entusiasmado, penso que a geração dos jovens vai fazer grandes coisas. A verdade é que se tivermos a oportunidade somos capazes de fazer grandes coisas!

leonidio.ferreira@dn.pt

Diário de Notícias
O DN viajou a convite da GlexSummit
Leonídio Paulo Ferreira, em Ponta Delgada
22 Agosto 2022 — 00:29