983: Casamento incestuoso

OPINIÃO

Há 100 anos, por estes dias, o director do Diário de Notícias, Augusto de Castro, desembarcava na estação ferroviária de San Sebastian e dali era encaminhado para o Palácio de Miramar, onde o esperava Afonso XIII, rei de Espanha, para uma entrevista exclusiva que não quisera dar em Madrid.

O encontro de duas horas, concertado entre o director deste jornal e os serviços do monarca espanhol, resultou num recado deste para Lisboa: “É necessário que terminem para sempre, entre Portugal e Espanha, desconfianças recíprocas que não têm razão de ser.

Dentro da independência política dos dois povos, que ninguém respeita mais do que eu, precisamos de entrar num novo período de entendimento, sobretudo no campo económico”.

Mais concreto, Afonso XIII já dizia então que “Lisboa é o Porto natural de Madrid sobre o Atlântico” e acrescentava mesmo: “No dia em que os senhores quiserem, a viagem Lisboa-Madrid far-se-á em 7 horas”.

Ora, 100 anos e 33 cimeiras luso-espanholas depois, o estado da arte é o que sabemos: actualmente, a ligação ferroviária entre as duas capitais dura pelo menos 9 horas e obriga ao transbordo em três comboios, enquanto única conexão internacional em uso é uma velha e lenta automotora a diesel, entre o Porto e Vigo.

As responsabilidades deste escandaloso descarrilamento entre as políticas de Lisboa e Madrid são recíprocas e, para lá das contingências da história de cada um, ou da miopia de sucessivas governações de ambos, dizem respeito às diferentes visão e prioridades de cada lado sobre o desenvolvimento da rede de alta velocidade na Península e a sua ligação à Europa Central.

Enquanto à Espanha parece bastar-lhe o modelo radial Madrid-Badajoz-Lisboa, Portugal precisa de vertebrar a ferrovia em todo o eixo Atlântico (Lisboa-Porto-Vigo e Porto-Aveiro-Salamanca-Madrid), em benefício também das regiões espanholas afectadas.

Aparentemente, tratar-se-ia de interesses complementares e não incompatíveis, para o que se pediria apenas vontade política de ambos os lados, dada a afinidade ideológica entre os dois governos e num momento de particular cordialidade traduzida já este ano na defesa de interesses comuns em Bruxelas, com ganhos como o mecanismo ibérico para limitar o preço do gás ou o acordo com a França sobre as conexões energéticas.

Acontece que, para lá dos mimos trocados, a 33ª cimeira que se realizou há dias, em Viana do Castelo, foi mais uma oportunidade perdida quanto ao futuro das ligações ferroviárias entre os dois países.

Do outro lado da fronteira, as Juntas Autonómicas da Galiza e da Extremadura queixam-se de ter sido colocadas à margem das conversações, enquanto o chefe do governo de Madrid, Pedro Sánchez, lembra que já está pronto o troço de 150 quilómetros entre Badajoz e Plasencia, com ligação à rede de alta velocidade espanhola.

Quanto ao lado de cá, vai ser preciso esperarmos pelo menos até ao início de 2024, quando estiver concluída a construção do troço Évora-Elvas, para que volte a haver um comboio directo entre as capitais dos dois países.

Já no que respeita à ambição portuguesa de ligar em alta velocidade toda a frente atlântica que vai de Lisboa à Corunha, a resposta espanhola traduzida no seu orçamento de Estado para 2023 é bem revelador das faltas de interesse e prioridade que atribuem ao projecto: está lá inscrito o valor de 29.900 euros, digo bem, vinte e nove mil e novecentos, para estudar o assunto.

Ora, num tempo em que a economia reclama a abertura de novos corredores ferroviários internacionais – quase sete mil empresas portuguesas exportam os seus produtos para Espanha, enquanto mais de 15 mil empresas espanholas exportam para Portugal, que tem no vizinho o seu principal fornecedor e cliente – a desconversa ferroviária entre vizinhos ibéricos faz lembrar aquela frase histórica por um cónego português, em Braga, por ocasião da visita de Afonso XIII: “Espanha e Portugal são países irmãos, mas a Santa Madre Igreja não aprova o casamento incestuoso”.

Jornalista

Diário de Notícias
Afonso Camões
29 Novembro 2022 — 00:15



 

853: A pátria de chuteiras

OPINIÃO

Aos 25 minutos já perdíamos por 3-0. Alguns chorávamos, e já nesse tempo a culpa era do treinador – aquele momento virginal em que, como agora, vem ao de cima o Fernando Santos que há em nós.

O meu primeiro foi também o de Portugal, selecção estreante naquele Mundial. Oito golos, um jogo para a eternidade. A malta do bairro trouxe banquinhos de casa e, no cruzamento de três ruas onde o dono da tasca tinha virado para fora o aparelho de tubos catódicos, juntou-se o arraial à volta da única televisão que havia na vizinhança. A preto e branco e um só canal.

Guardo cada nome e cada rosto, e não me esqueço daqueles 11 cromos que um certo dirigente político me ficou a dever no jogo do abafa. Talvez um dia lhos cobre.

Diante de José Pereira, na baliza, jogávamos em 4-2-4: Morais, Vicente, Alexandre Batista e Hilário, na defesa; Jaime Graça e Mário Coluna na linha média; e aquele mágico quarteto de ataque com José Augusto, Simões, Torres e Eusébio.

Atordoados por uns norte-coreanos que corriam como lebres e que ninguém antes vira jogar, era preciso reverter a humilhação. Assim: nos 34 minutos seguintes, Eusébio fez um, dois, três, quatro golos de talento e superação, e José Augusto ainda teve tempo de marcar um quinto, de cabeça.

Caímos apenas nas meias-finais, honrosamente perante os ingleses, inventores do futebol, com um bis de Bobby Charlton.

Cada fã tem a sua própria história, e são estas vivências de menino que fazem o fascínio de um campeonato mundial. Não é preciso conhecer as leis da física para saber que a bola pincha.

Mas não deixa de ser maravilhoso como, por uns dias, descobrimos que este jogo, mais do que os Capacetes Azuis das Nações Unidas, consegue fazer respeitar à escala global um mesmo código legal: países ricos e países pobres, de distintos continentes, culturas e religiões, por vezes até em conflito, aceitam jogar sob as mesmas regras e compreendem que alguém, de apito na boca e que não conhecem de lado nenhum, as faça cumprir. Tomara António Guterres!

Sim, este Mundial-2022 é no Qatar, coisa decidida há 12 anos de forma pouco limpa por uma quadrilha de dirigentes que aliás foram afastados por corrupção. Mas é também disto que vive o maior espectáculo.

É o primeiro Mundial no Médio Oriente, o primeiro que se organiza num país árabe, num lugar do Golfo Pérsico com pouco mais de dois milhões e meio de habitantes, a maioria deles imigrantes, erguido no deserto sobre uma das maiores reservas de petróleo e gás natural do mundo.

Ali, onde há défice de liberdade e de alguns dos mais básicos direitos humanos, sobra dinheiro para que o país se mostre ao mundo, pagando caro e querendo que o mundo o aceite tal como é.

A operação que os ingleses baptizaram de sportwashing, ou seja, a tentativa de usar o desporto para limpar a imagem de um país ou de um governo nem sempre funciona e, por vezes, tem até efeitos contrários.

Debaixo do fogo das críticas estão todos quantos aceitaram emprestar a sua imagem para branquear o evento. E anda meio mundo político a debater o modo de se meter no atoleiro sem sair enlameado.

Por estes dias, o Qatar enche-se de nacionalismos futebolísticos e os gritos de golo, golo, golo! hão de abafar a perseguição homofóbica, a situação das mulheres e a exploração do trabalho daqueles milhares de imigrantes que construíram os oito estádios climatizados, gigantescos parques de diversões onde até pela televisão também se podem exorcizar os caseiros casos de Odemira e quejandos.

E se há quase sempre política no futebol, há pelo menos algumas lições que este jogo ensina a todos: no futebol como na política, não há homens providenciais, e alguns dos melhores saem vencidos do seu pedestal. Porque, neste jogo, a equipa é sempre mais importante que o maestro.

Jornalista

Diário de Notícias
Afonso Camões
22 Novembro 2022 — 00:19



 

621: Não aquenta nem arrefenta

OPINIÃO

Diante de dezenas de pares de quase todo o mundo, o primeiro-ministro António Costa discursa hoje na Cimeira do Clima (COP27), no Egipto.

Digo de “quase todo o mundo”, porque China, Rússia e Índia, que representam metade da Humanidade em população, marcam pela ausência numa assembleia que deveria assumir um renovado e justo protagonismo, num ano em que a crise climática mostrou a sua pior face: rios e barragens à míngua, degelo nos pólos, furacões mais violentos nos trópicos, seca e fogos aqui, inundações acolá — o tempo a tresloucar.

Em 30 anos de brados inconsequentes e resultados decepcionantes, esta é a 27.ª Cimeira em que todos concordam que as mudanças climáticas não se manifestam apenas no aquecimento global progressivo — já estamos, em média, um grau e meio acima da era pré-industrial — mas na forma de fenómenos extremos, mais intensos, mais frequentes e em qualquer parte do Mundo.

Faltam, depois, os compromissos dos principais poluidores para mitigar os efeitos da catástrofe anunciada e, sobretudo, a ambição e a urgência de os concretizar.

A invasão da Ucrânia e o desequilíbrio geopolítico provocado pela guerra vieram agravar os piores cenários, com a procura por combustíveis fósseis a atingir máximos históricos.

E, ao invés de o combater — denuncia o secretário-geral da ONU — “continuamos a alimentar o vício”: voltámos a subsidiar gasolina e gasóleo, atrasa-se o encerramento de centrais nucleares (Alemanha), e há até quem admita reabrir as centrais de carvão para resistir à convulsão nos mercados energéticos.

E das duas, uma — clama António Guterres: “Ou a acção colectiva, ou o suicídio colectivo”.

“O Senhor viu que era grande a maldade dos homens… E aconteceu que, passados sete dias, vieram sobre a terra as águas do dilúvio, chuva torrencial, quarenta dias e quarenta noites” (Génesis). Falta-nos a Arca de Noé.

A escolha não dá tréguas: Podemos travar uma guerra por procuração contra a Rússia, na Ucrânia. Podemos impor sanções comerciais à China, para limitar as capacidades militares do país. Ou combatemos as mudanças climáticas.

Acontece que, derrotando a Rússia e isolando a China, não há como trazê-los para o combate comum. “Podemos vencer uma destas guerras, mas não as três ao mesmo tempo”, previne Wolfgang Münchau, director do Eurointelligence.

A China gera 30% das emissões globais de gases de efeito estufa, ainda mais do que os Estados Unidos. E juntas, Rússia e China representam metade do nosso chão. Corremos o risco de travar demasiadas batalhas, e perder a mais importante.

“O Senhor viu que era grande a maldade dos homens… E aconteceu que, passados sete dias, vieram sobre a terra as águas do dilúvio, chuva torrencial, quarenta dias e quarenta noites” (Génesis).

Cada vez mais frequentes, os fenómenos extremos e os desastres naturais voltam a espevitar narrativas apocalípticas, como se a ira dos céus abatesse sobre nós o castigo que expia o pecado da nossa dependência dos combustíveis fósseis, os maiores responsáveis pela emissão de gases com efeitos de estufa.

Mais que as preces retóricas para evitar o dilúvio ou o braseiro do inferno, é crucial que comecemos a construir as nossas arcas de Noé.

À nossa frente, entre os mais poluidores, há 60 países, e apenas 10 entre os que mais utilizam energias renováveis. Mas Portugal pode e deve fazer melhor e mais rápida a sua parte. Por exemplo, não seria demasiada ambição cobrirmos escolas e hospitais, enfim, todos os edifícios públicos da administração central e local, com painéis solares.

O exemplo tem de começar em cima. Sem compromisso e acção, a COP27 nem aquenta nem arrefenta, por mais agradável que seja a estadia de tantos chefes de estado e de governos em Sharm El-Sheikh, a mais famosa estância balnear egípcia sobre o Mar Vermelho.

Jornalista

Diário de Notícias
Afonso Camões
08 Novembro 2022 — 00:10



 

452: Das cuecas ao telemóvel

OPINIÃO

Aprendemos que no princípio era o Verbo e que a palavra, apesar de móvel, não ia longe. Foi com a invenção da escrita, há mais de 5000 anos, que essa tecnologia de ponta deu pernas às palavras. A escrita permitiu fixá-las, primeiro no barro, e levá-las daqui para lá sem nunca mais pararem de mover-se. Cartas, livros, telegramas, jornais ou mensagens são declinações da palavra móvel.

E móvel, aqui, como simples adjectivo, até ao dia em que ela se transformou em substantivo – sobretudo em Portugal, onde chamamos telemóvel ao artefacto que já foi grande e agora é pequeno, que ficava na mesa e agora na algibeira, que antes permitia falar e agora permite, sobretudo, ver o mundo ou a parte dele que nos dizem que devemos ver: um mundo que os algoritmos desenham à nossa medida.

A palavra é móvel há milénios, mas o telemóvel é a máquina que define os novos tempos: quase tudo está nele, e ele está em quase tudo. Há 30 anos, os primeiros eram grandes e pesados como tijolos, e não faziam nada que os fixos não fizessem, a não ser andar. Em menos de uma década, os telemóveis encolheram no tamanho e cresceram em funcionalidades, com a ligação à Internet.

Daí a avalanche: agora, mais de 5.000 milhões de pessoas têm telemóvel, a maioria dos quais já são inteligentes – os aparelhos, é claro. Calcula-se que uma de cada duas pessoas no mundo tem mais que um, enquanto uma em cada duas, nenhum – o que diz bem das igualdades apregoadas.

Nos países mais ricos é incontornável. O telemóvel, ou celular, como lhe chamam também os brasileiros, é agora o objecto com o qual passamos mais tempo: são horas e horas todos os dias (uma média de quatro entre os europeus), e aquela sensação de nudez, de que sem ele não somos ninguém, e que não o vendo nos deixa ansiosos.

Aquele pedaço de metal e vidro acompanha-nos no trabalho, em casa, e até o levamos para a cama. Há anos, antes de sairmos, conferíamos se levávamos dinheiro, chaves, documentos. Agora, o telemóvel começa a reunir tudo isso, para além da sua aptidão para a fotografia e vídeo.

E tirando as cuecas – a mais antiga peça da indumentária inventada pelo homem das cavernas – não há de haver outro objecto na história com o qual tenhamos tido uma relação tão íntima. Fomos invadidos, e gostamos. O telefone, por definição, era um aparelho que trazia e levava sons de e para longe.

O telemóvel, como o próprio nome indica, é um dispositivo que se leva para longe para nunca estarmos longe: um objecto que se transformou no nosso próprio lugar. Já não estamos naquela esquina, naquele comboio, naquela sala: estamos no telemóvel, o que nos redime da obrigação de estar diante de alguém em algum lugar.

Ora, se ao tempo que consumimos de mãos e olhos no telemóvel juntarmos as horas em que lidamos com outras telas visuais, sejam eles computadores, consolas, televisores, facilmente concluímos que os ecrãs são o elemento central da vida moderna, diante dos quais consumimos uma boa parte do tempo desperto de qualquer humano adulto. E o que interpela não é o facto, notório, mas a tendência: até onde nos levam eles?

Telemóveis, computadores e televisões acrescentam vantagens e benefícios tão extraordinários, que uma demonização simplista desses aparelhos é tão inútil como subestimar alguns dos seus potenciais efeitos nocivos. Porque é difícil encontrar objectos que sejam tão viciantes, omnipresentes, hipnotizantes, tão capazes de influenciar as nossas vidas.

O telemóvel mudou realmente a forma como vivemos, as formas como convivemos, e até a vigilância que sofremos. Quando, através dele, entramos nas redes sociais, o telemóvel funciona até como um rosário digital: com ele sempre à mão, desfiamos as contas do terço, mas não pedimos perdão: desejamos apenas atenção.

Jornalista

Diário de Notícias
Afonso Camões
18 Outubro 2022 — 06:05



 

411: A fábula dos ouriços

OPINIÃO

Desde Fevereiro que nos interrogamos sobre como e até quando a guerra no Leste europeu está a mudar o mundo em que muitos eram felizes sem saber. Porque desta vez tudo parece diferente.

Não estamos perante o estouro de uma bolha financeira nem diante de uma nova pandemia, mas frente a um mundo que passou da interdependência à competição geopolítica em que os dados, as finanças, o comércio e até as declarações políticas são convertíveis em armas de guerra.

As sanções contra Putin, a hostilidade comercial entre a China e os Estados Unidos ou a triplicação do preço do gás na Europa, como resultado da redução do fornecimento russo, são a evidência de quanto o mundo mudou em poucos meses.

E diante de um mapa de incertezas, há um dado que tomamos como certo: a inflação, que atinge os níveis mais elevados dos últimos 30 anos, está a empobrecer-nos, enquanto a carestia de vida e o agravamento das taxas de juros terão consequências sobre o crescimento, o emprego e a solvência futura das famílias, empresas e governos. E tudo isto quando se teme que o pior está para vir – e pior ainda para os do costume.

Diante do inverno económico que se adivinha, a forma como se organizam os ouriços-cacheiros no defeso ilustra bem o comportamento primário dos cidadãos e das suas organizações.

O ouriço, para quem nunca viu nenhum, é um bichinho arredondado, do tamanho de palmo, mas cheio de espinhos. Encontramo-lo nas hortas e jardins, à cata de frutos caídos, insectos, rãs, lesmas, minhocas e caracóis.

Quando se sente ameaçado, o ouriço-cacheiro enrola-se sobre si próprio, transformando-se numa bola com picos – e são cerca de seis mil os espinhos aguçados em cada um. Ora, conta a fábula que, para resistirem ao inverno, os ouriços juntaram-se muito juntinhos, para que o calor de uns e outros os protegesse do frio.

Acontece que, ao juntarem-se, picaram-se uns aos outros. E o mesmo voltou a suceder quando a necessidade de se aquecerem os aproximou de novo, até que, entre um e outro mal, encontraram a posição intermédia entre si, para que pudessem suportá-los melhor.

Diante do inverno económico que se adivinha, a forma como se organizam os ouriços-cacheiros no defeso ilustra bem o comportamento primário dos cidadãos e das suas organizações: governo, sindicatos e patronato.

Foi esse, certamente, o espírito de concertação que prevaleceu, este fim de semana, com o acordo firmado entre o governo, as confederações patronais e a UGT, para os próximos quatro anos.

O pacto de rendimentos – salários dos trabalhadores e lucros empresariais – é uma garantia mínima de estabilidade social, logo é uma boa notícia, ensombrada apenas pela recusa da CGTP em alinhar com os restantes parceiros. Falta-lhe ambição, podia ser melhor se não fosse tão apressado, dizem uns. É um ponto de partida que dá alguma esperança, dizem outros.

Já o governo assinala o acordo como um marco de confiança, no que é seguramente uma vitória de António Costa, que mostra abertura ao diálogo por parte da maioria absoluta e ajuda à paz social. Ajuda, mas não garante.

De resto, a auto-exclusão da CGTP, que associa este pacto a mais empobrecimento, acentuando o desequilíbrio entre o trabalho e o capital, já prenuncia vagas de protesto nos próximos meses.

É certo que, perante as incertezas da guerra, a principal dificuldade em avaliar o alcance do acordo de concertação social, bem como o conjunto das medidas do governo para mitigar a crise, é a falta de visibilidade sobre a evolução da economia.

Mas são bem-vindas todas as iniciativas que travem o aumento das desigualdades numa sociedade que ainda lambe as feridas da recessão e da pandemia.

O pessimismo prematuro não é, certamente, a melhor receita. E se formos capazes de controlar a espiral da inflação, estamos até em posição mais vantajosa para enfrentar a crise do que alguns dos nossos parceiros europeus mais dependentes da energia russa.

Talvez aprendermos melhor com a fábula dos ouriços. Afinal, o crescimento da nossa economia, o emprego e a nossa posição relativa na União Europeia são, por ora, o que mais nos importa.

Jornalista

Diário de Notícias
Afonso Camões
11 Outubro 2022 — 00:09



 

360: Morrer de tédio e solidão

– Existe quem atire para o depósito do lixo (lares de idosos) familiares que tendo poder financeiro, podem pagar um balúrdio pelos “cuidados” prestados nessas instituições. Mas também existem aqueles que não querem ter o “trabalho”, embora possuam disponibilidade para isso, de cuidarem dos seus familiares. É menos um “peso” a suportar no dia a dia.

OPINIÃO

As imagens que procuramos esquecer, da idosa amarrada à cama e coberta de formigas, enchem-nos de vergonha e má consciência. Mas não nos iludamos: a maioria dos lares de idosos que inventámos são lugares onde se vai para morrer – de velhice, de doença e, sobretudo, de tédio e solidão. Somos capazes de mudar isto?

Ainda há pouco, os nossos mais velhos foram as primeiras e principais vítimas mortais da pandemia. Eles estavam na faixa etária mais vulnerável ao novo vírus, e o número de infecções e mortes dominou os noticiários durante dois anos.

Se não nos apressarmos a esquecer as lições aprendidas na dor, uma delas é que tudo isso foi o primeiro trágico alerta para o mau funcionamento de muitos lares de idosos (residências seniores, casas de repouso, ou como lhe queiramos chamar) que passaram despercebidas à maioria da população: mais de um terço das mortes causadas por covid ocorreram nesse tipo de instituições, cujo modelo assistencial varia apenas na capacidade das famílias para suportar o internamento.

A frequente opacidade na gestão interna e a falta de um sistema de fiscalização eficaz são dois factores que impõem a urgência política de reformar o seu funcionamento.

A maioria dos lares de idosos que inventámos são lugares onde se vai para morrer – de velhice, de doença e, sobretudo, de tédio e solidão. Somos capazes de mudar isto?”

Antes, num tempo que já não é nosso, envelhecia-se e morria-se em casa. Em casas que, mesmo tugúrios, acolhiam três gerações, pais, filhos e avós. Certamente que a maioria dirá que prefere envelhecer e morrer junto dos seus. E sim, já existem sistemas de cuidados que o permitem. Mas nem sempre pode ser assim ou, pior, quase nunca é assim.

O aumento da expectativa de vida e as mudanças na estrutura das famílias significam que, mesmo ampliando e melhorando os Serviços de Cuidados Domiciliários, serão necessários melhores e muito mais residências para idosos no futuro.

Um estudo recente revela que há em Portugal cerca de 2.500 instituições para acolhimento de idosos: 772 são privadas, dispondo de 24 mil lugares, mais os 1.768 lares “sem fins lucrativos”, com um total de 78.292 camas, sendo que neste último grupo avultam as 502 unidades geridas pelas Misericórdias.

Acontece que, entre a falta de vagas e o desespero das listas de espera, estima-se o défice de camas se aproxime das 10 mil. E o problema é tanto mais agudo quanto se sabe que, até ao final da década, um em cada quatro portugueses terá 65 anos ou mais, e quase um milhão já estará para lá dos 80.

Escândalos como o da Misericórdia de Boliqueime, ou até mesmo a denúncia da vizinha confederação espanhola de idosos, segundo a qual há muitos milhares que são amarrados ou sedados diariamente para reduzir a agitação nas residências ou para prevenir quedas, auto-mutilações e acidentes, não podem deixar-nos indiferentes, sendo que em maior risco estão os lares que abusam dos contratos precários para compensar a redução do quadro de funcionários especializados e a incapacidade de prestar cuidados adequados.

É, pois, urgente reclamarmos uma mudança na abordagem das condições de vida nos nossos lares de idosos e nos métodos da sua fiscalização.

Em muitos casos, só precisamos de procurar copiar bem, sobretudo daqueles que já aplicam há anos o critério de que essas residências não podem ser lugares superlotados onde os idosos tenham de se adaptar às condições e necessidades da instituição, mas muito pelo contrário: são as instituições que têm a obrigação de recrutar o pessoal mais qualificado e procurar organizar-se de forma que o acolhimento seja o mais próximo possível de um ambiente familiar, onde se respeite o estilo de vida dos residentes.

Melhorar as condições de vida dos nossos lares de idosos não pode ser apenas uma causa, é uma exigência social e política. E, também aqui, a oportunidade dos fundos previstos no Plano de Recuperação e Resiliência não pode ser desperdiçada.

Jornalista

Diário de Notícias
Afonso Camões
27 Setembro 2022 — 00:19



 

154: A queimar os últimos dias

OPINIÃO

Então, ainda vais, ou estás de volta? é a frase mais batida nos empregos – para quem tem a felicidade de ter um. A maioria já foi, estás-lhes na cara. Para os que já regressaram ou para os que ainda queimam os últimos dias de férias, a praia deixará de ser presente para voltar a ser aquele futuro que adoça outros presentes mais adversos, aquele desejo que sonhamos como prémio quando nos sobrepesa a realidade de cada dia.

Descontada a areia que sacudimos dos pés, a praia tornou-se o destino mais popular e gozado da nossa civilização: o lugar de sermos outro. Praia é uma palavra suave e lisa, como todos os ditongos.

E deriva de ser plana, segundo os dicionários, que a definem como um “um acidente geográfico” junto a uma massa de água, que é constituída por partículas soltas feitas de rocha, como areia, cascalho, seixos, ou de fontes biológicas, como conchas de moluscos ou algas coralinas. E, no entanto, as definições de praia são tão estreitas que não cabem nelas todo o seu real significado.

Aquele que é o mais preferido dos nossos destinos para repouso começou por ser temido, porque representava perigo: a faixa onde o mar e a terra colidem era espaço hostil, indefensável, aberto a temporais e à pirataria. Por isso, as cidades mais antigas não foram construídas nas praias, mas mais adentro, abrigadas.

A invenção da praia como lugar de veraneio só ocorreu em finais do século XIX, quando franceses e ingleses mais abastados decidiram que era elegante e saudável tomar banhos de mar, pasmar sob guarda-sóis, ou pavonear-se no areal. Invenção de ricos, a praia só foi apropriada pelos pobres já em pleno século XX, muito a custo e após décadas de combates pelo direito a férias.

Para a história, fica a imagem gloriosa dos operários da Frente Popular francesa, em 1936: após semanas de greve, conquistaram o direito ao repouso remunerado e partiram em massa à descoberta da praia. Em Portugal, os ventos desse direito só chegariam no ano seguinte, em 1937, por força de uma convenção da Organização Mundial do Trabalho.

Por cá, é certo, uma minoria podia tirar até oito dias, mas apenas depois de cinco anos de “bom e efectivo serviço”. Na prática, porém, foi só com a revolução de 1974 que a esmagadora maioria da população pôde gozar férias remuneradas.

Só desde então a praia começou a ser o que é – o lugar de uma realidade paralela, onde a grande maioria não faria noutros lugares o que faz nela: não andaria de tanga e biquíni, não se deitaria no chão, não dormiria em público, não esqueceria o relógio, não ousaria o atrevimento.

A praia tornou-se um símbolo de lazer: estar na praia é, em princípio, não fazer nada que não se queira fazer, e fazer tudo o que não seja aquilo a que em geral chamamos trabalhar – enfim, um lugar para uma espécie de carnaval de verão, que dura no máximo umas semanas.

Em breve, o Google vai revelar-nos as fotos deste verão de 2022, e parecerá que estávamos felizes – e certamente estávamos, o mais possível. Há aqueles, porém, que não saem nem voltam de lugar nenhum.

Excluídos da festa, riscam os dias que faltam para que voltem os que partiram, nem que seja para se sentirem menos sós e poderem invocar o mal de muitos, a consolação de todos. Para os que ainda vão, a única promessa da praia é que continua lá, pelo menos por enquanto.

É que, segundo as previsões científicas, entre as mudanças climáticas, o uso massivo e desenfreado, a construção descontrolada e a erosão, o mundo perderá um quinto das suas praias em poucas décadas, e metade delas até final do século. Há, pois, que gozá-las como se não houvesse amanhã. Até porque os amanhãs que se avizinham ameaçam temporal.

Jornalista

Diário de Notícias
Afonso Camões
30 Agosto 2022 — 00:29

109: As pernas da rainha

OPINIÃO

O jornalista morreu a meio da reportagem. Deixou viúva a notícia, e três artigos menores por editar. Consta que a notícia, despudoradamente, anda já por aí a dar nas vistas, para garantir o share da sobrevivência. Fim de citação”. Quem me traz a “Notícia” é o João de Sousa Teixeira, poeta amigo que também já foi jornalista.

Ora bem, ali ao lado arde tanto como cá, as imagens do fogo ocupam as televisões e, no entanto, leio que a foto mais procurada do verão espanhol, e seu último tabu real, é a de Doña Letizia em biquíni. Fora isso e a guerra, a visita do coração de D. Pedro a Brasília, onde é recebido com honras militares e salvas de canhão, bem como a disputa dos funerais de José Eduardo dos Santos, falecido há 46 dias, revelam como um defunto, ou uma pequena parte de outro, podem intervir numa campanha eleitoral.

Mas voltemos ao fogo, onde está a emoção. Pelas televisões, assistimos há semanas à devastação da nossa floresta. Passamos da tristeza à raiva e novamente à desolação. É natural. Vivemos quase todos em centros urbanos, mas muitos de nós mantêm sentimentos e laços reais com o Portugal rural.

O mais desconcertante, à medida que o fogo avança, é aquela sensação de sermos espectadores do inevitável, como se os incêndios fossem produto da mera providência e mais não restasse senão franzir a sobrancelha e cerrar os dentes, de cada vez que o oráculo vermelho se estende na passadeira dos ecrãs, com o título: “Portugal em chamas”.

O jornalista morreu a meio da reportagem. Deixou viúva a notícia e três artigos menores por editar. Consta que a notícia, despudoradamente, anda já por aí a dar nas vistas, para garantir o share da sobrevivência. Fim de citação.

Somos como aquela família do romance: Passamos tantos anos a assistir pela televisão aos infortúnios dos outros que, quando a nuvem tóxica invade o bairro, somos incapazes de reagir.

Em Sociedade do Espectáculo, Guy Debord, um dos inspiradores das manifestações do Maio de 68, demonstra que é natural que nos sintamos como as personagens da novela: a espectacularização da realidade (chama-se agora “teatro de operações”) provoca uma aceitação passiva do estado de coisas, vistas do sofá.

E não há notícia de incêndios que não seja acompanhada pela mesma narrativa, subtil, mas repetida até à náusea: a onda de calor aumentou o risco de incêndio, o terreno acidentado e a falta de acesos dificultam o combate; o vento é forte e traiçoeiro, … factores incontroláveis.

Justificações certamente verdadeiras, mas redundantes, e apresentadas como se tudo o que ocorre obedeça a forças superiores, porventura para além da nossa compreensão.

Nem de propósito, o EFIS (Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais) aponta 2022 como o pior ano desde o início do século, associando este agravamento a um modo de vida nosso, focado esgotamento dos recursos, geralmente em benefício de poucos, e no abandono do que já não é “produtivo”. Em suma, uma estratégia de terra queimada.

Por estes dias, quando o fogo junta o céu e a terra, lembro a história que se conta na minha aldeia, por alturas da tradicional Romaria de Verão: Já era fim de tarde e a bebida começava a fazer estragos quando se avistou fumo vindo dos lados do casario.

Temendo que o fogo chegasse a suas casas, os vizinhos apressaram-se para apagá-lo. Na festa, para continuá-la, só restou o boticário, o mais rico das redondezas, insistindo que quem devia correr era o dono dos haveres em perigo. Todos lhe ignoraram o conselho: a casa que tinha pegado fogo era, justamente, a dele.

Talvez por causa dessa interposição massiva das imagens de incêndios, esquecemos que o principal é mesmo apagar o fogo e, acima de tudo, tentar evitá-lo. Porque o que arde e desaparece é sempre nosso, o que é comum. Enquanto desejamos, ou querem que desejemos, continuar com a festa, é bom que saibamos que apenas alguns se divertem. Nem que seja a pensar nas pernas da rainha.

Jornalista

Diário de Notícias
Afonso Camões
23 Agosto 2022 — 00:09

54: À sombra e água fresca

OPINIÃO

Deixem que vos roube um pequeno sorriso. Pois bem: entre as disponíveis, a tecnologia mais eficiente que temos contra o calor é a árvore. E, naturalmente, a água é indispensável.

Sabemos como construímos as nossas cidades: a saturação dos materiais que absorvem a radiação solar – aço, asfalto e betão – mantém picos de temperatura persistentes que desencadeiam o uso do ar condicionado, multiplicando o calor.

E a pergunta é: como se arrefecem, como se refrescam? Pois bem, uma investigação da Bloomberg combinou imagens da Agência Espacial Europeia com dados abertos da NASA e do Serviço Geológico dos Estados Unidos para fazer um mapa térmico das cidades mais afectadas pela onda de calor.

De lés-a-lés, entre as seleccionadas, identificaram os lugares mais quentes de cada uma e, em seguida, os mais frescos, para assinalar onde estão e descobrir o porquê de tamanhas diferenças de temperatura entre zonas de uma mesma cidade.

Entre as conclusões, ficamos a saber que a tecnologia mais eficiente contra o calor é a árvore. Um parque local baixa a temperatura entre dois e seis graus; uma fileira de árvores pode refrescar a superfície de uma rua até 12°. E, é claro, as grandes concentrações de água, rios, canais e lagos têm o mesmo efeito.

E depois, há os materiais. Algumas das cidades mais quentes do mundo mais rico estão a cobrir telhados e estradas com materiais reflectores, para reduzir o aquecimento dos prédios e reduzir o uso de ar condicionado, que, além do calor, desencadeia maior consumo de energia, aumenta a conta da luz, a poluição e as emissões.

As palavras podem ter a magia de nos transportar para um lugar fresco e descrever um copo de água. Não podem, porém, matar a sede. Por enquanto, a mais eficiente das tecnologias contra o calor é uma árvore.

As alterações climáticas fazem estragos também na água, esse recurso vital. Não só porque é essencial para a nossa existência e para o ambiente, mas porque, ao contrário do ar que respiramos ou da energia emitida pelo sol, é um recurso escasso que se renova constantemente. O copo de água que bebemos hoje é a mesma água que um dinossauro bebeu há milhões de anos.

É, portanto, um recurso finito, mas insubstituível, que deve ser distribuído de forma mais equilibrada entre os que habitamos este planeta, os seres humanos – cada vez mais numerosos – e nosso ambiente natural, cada vez mais deteriorado, onde o uso irrestrito da água cresceu duas vezes mais rápido que o crescimento populacional no último século.

As secas são cada vez mais frequentes e intensas, como é visível em toda a zona mediterrânica e, em particular, na Península Ibérica. Aqui, onde os rios secam e os reservatórios estão à míngua, procuram-se soluções de emergência para enfrentar a seca, que é severa (55%) e extrema (45%) na totalidade do território de Portugal Continental, exponenciando o risco de incêndios e a sua propagação – também estes combatidos com água. Aqui e acolá, suspendem-se regas, fecham-se piscinas, raciona-se o abastecimento.

Como qualquer recurso escasso, a distribuição da água tem de ser gerida. Ora como não se pode administrar o que não se tem, a disponibilidade da água que temos é o ponto de partida para gerir a procura. Entre nós, há comissões para tudo e com bonito nome.

Nas vésperas de mais uma reunião (dia 24) da Comissão Permanente de Prevenção, Monitorização e Acompanhamento dos Efeitos da Seca, ficamos a saber que as áreas de regadio utilizam 75% da água em Portugal e desperdiçam mais de um terço. Ora, num cenário de alterações climáticas, não basta monitorizar a seca.

É obrigatório repensar a política agrícola para avaliar que regadios são sustentáveis, travar as promessas de falsas ampliações que geralmente não se cumprem e perseguir com toda a dureza da lei a persistente abertura de poços ilegais. Por enquanto, as palavras podem ter a magia de nos transportar para um lugar fresco e descrever um copo de água. Não podem, porém, matar a sede.

Jornalista

Diário de Notícias
Afonso Camões
16 Agosto 2022 — 00:09