341: Indústria da carne antecipa aumento de preços entre 15 a 20 % nos próximos meses

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Agravamento dos custos de produção está a levar à diminuição do número de animais criados para alimentação humana. A Associação Portuguesa dos Industriais de Carnes prevê que o consumo diminua entre 10 a 15%.

Estimativa, para este ano, de prejuízos no sector da suinicultura é de 100 milhões de euros
© Sérgio Freitas/Global Imagens

O preço da carne poderá subir entre 15 a 20% até Fevereiro do próximo ano. A previsão – e o alerta – é da Associação Portuguesa dos Industriais de Carnes (APIC), que adianta que a instabilidade do mercado e, em especial o preço dos cereais, estão a conduzir a uma diminuição do número de animais para consumo.

“As próximas semanas serão determinantes para percebermos qual vai ser a reacção do mercado à falta de animais e ao facto de estarem muito leves”, diz ao DN/Dinheiro Vivo a directora executiva da associação, Graça Mariano.

As razões que impactam nesta subida de preços são sobejamente conhecidas – aumento do preço das matérias-primas, dos aditivos, dos materiais de embalagem, do transporte e da electricidade e gás, o que leva os produtores a reduzir a criação animal por não ser rentável – mas agora acrescenta-se a valorização do dólar, que está a levar a China a voltar a comprar carne na Europa, expõe Graça Mariano.

No mesmo sentido, e agora que o turismo abrandou e o custo de vida aumentou de forma significativa, a expectativa da APIC é que “haja um decréscimo acentuado do consumo, a rondar os 10% a 15%, o que reflecte as enormes dificuldades que o sector irá atravessar no curto prazo”.

Presentemente, a diminuição do cabaz de compras já é notória, com os consumidores a optarem por adquirir produtos mais económicos. “Existe uma queda de 1% do consumo de produtos à base de carne”, afirma Graça Mariano, citando os dados da Nielsen (empresa de análise de dados de consumo), acumulados até Agosto.

Sem especificar, em termos de valor, o impacto que a crise terá no sector, a directora executiva da APIC garante que “ao nível de rentabilidade, o que podemos afirmar com toda a certeza é que as empresas estão neste momento com margens residuais”.

Risco de falências

O que leva ao risco de falência das empresas, adverte, por seu turno, o secretário-geral da Federação Portuguesa de Associações de Suinicultores (FPAS), João Bastos.

Só na área da suinicultura a estimativa é que, no final deste ano, o prejuízo ronde os 100 milhões de euros. Embora a federação não registe, para já, uma quebra de consumo (de acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística, nos primeiros sete meses deste ano foram consumidas cerca de 262 toneladas de carne de porco, contra as 253 do mesmo período em 2021), o secretário-geral da FPAS frisa que a diminuição da procura é global e generalizada.

Quanto a aumentos de preços, João Bastos diz que, neste momento, a previsão é que a carne de porco tenha atingido o seu valor máximo anual. E, embora a oferta e a procura deste alimento estejam equilibradas, a oscilação dos custos de produção, como a alimentação animal e os serviços energéticos continuam a ser uma incógnita.

“A produção e a indústria têm suportado grande parte do aumento dos custos de produção, não repercutindo no consumidor os incomportáveis aumentos de bens como o gás, que aumentou 500%, ou a alimentação animal que aumentou 80%”, sublinha, lembrando que, no caso da suinicultura, “40% das matérias-primas utilizadas na alimentação animal em Portugal têm origem na Ucrânia”.

João Bastos lembrou o recurso à reserva de crises, que resultou num apoio directo, por parte do ministério da Agricultura aos suinicultores, de um montante total de 5,5 milhões de euros.

“Uma medida importante, mas, como facilmente se percebe face aos prejuízos acumulados no sector, claramente insuficiente para salvar milhares de empresas, a maioria familiares, em risco de falência”, alerta.

Um aviso que a Associação dos Criadores de Bovinos da Raça Alentejana (ACBRA) também faz. “A produção não consegue reflectir nos preços de venda da carne as subidas sofridas nos factores de produção, baixando assim a rentabilidade das explorações”, afirma Luís Miguel Bagulho, o presidente da associação.

E, embora no que à carne de bovino alentejana diz respeito, a ACBRA não tenha quebras significativas no seu consumo, até agora, Luís Bagulho não deixa de ressalvar: “Com os aumentos expectáveis de energia, cereais e adubos é possível que esta situação se venha a alterar, agravando ainda mais os preços da carne ao consumidor”. O que poderá levar o consumidor a mudar os seus hábitos alimentares e substituir a carne de bovino “por outras mais baratas”.

Embora seja de opinião contrária, relativamente à mudança dos hábitos alimentares por parte dos portugueses, Marianela Lourenço, da Federação Nacional das Associações dos Comerciantes de Carnes (FNACC), tende a concordar com os impactos da crise no sector.

“Iremos sentir progressivamente falhas no mercado, à medida que a produção for reduzindo”, alerta, estimando que o sector tenha prejuízos na ordem dos 20%, devido à inflação, e aos preços das rações, energia e combustíveis.

A directora executiva da APIC reforça a afirmação da representante da FNACC. “O custo de produção não consegue ser reflectido no custo do produto final, face à crise do mercado e à necessidade das grandes superfícies serem cada vez mais competitivas e fazerem uma pressão enorme aos fornecedores de carne”, refere Graça Mariano, que avisa também para a possibilidade das empresas mais pequenas poderem abrir falência.

“A procura de produtos mais baratos e, consequentemente, de menor qualidade, leva à desvalorização da cadeia alimentar e dos sectores primário e secundário”, considera.

monica.costa@dinheirovivo.pt

Diário de Notícias
Mónica Costa
25 Setembro 2022 — 00:07