866: Alguns alimentos são bons para a memória. Outros, são para esquecer

CIÊNCIA/SAÚDE/ALIMENTAÇÃO

No livro No Caminho de Swann, primeira parte do romance Em Busca do Tempo Perdido, do escritor francês Marcel Proust, o sabor de um biscoito mergulhado em chá desencadeia instantaneamente uma memória de infância para o protagonista.

Desde então, essa experiência que (quase) todos nós já tivemos — a associação entre memória e comida — ficou conhecida como “momento proustiano” ou “madeleine de Proust”.

Essas recordações associadas a alimentos “são formadas sem qualquer edição consciente”, explicou Susan Krauss Whitbourne, professora emérita de psicologia da Universidade de Massachusetts Amherst (EUA), à BBC Travel.

“As memórias envolvem áreas muito básicas e não verbais do cérebro que podem ignorar sua consciência”, explica. “É por isso que se pode ter fortes reacções emocionais quando come um alimento que desencadeia essas memórias inconscientes profundas.”

“Mesmo que não consiga traduzir essas memórias por palavras, você sabe que há ‘algo’ que a comida desencadeia nas profundezas do seu passado. A memória vai além da comida em si, às associações que você tem com aquela memória de muito tempo atrás, seja de um lugar ou pessoa.”

Mas existem alimentos que ajudam a potencializar esta relação entre comida e memória? Segundo a psicóloga e mestre em nutrição Kimberley Wilson, existem alimentos e bebidas que podem ter um efeito surpreendentemente positivo ou negativo na memória.

Diferentes memórias

A memória é nossa capacidade de recordar informações do passado recente ou distante. Temos três tipos de memória: imediata, de trabalho e de longo prazo. A nossa memória imediata só pode reter informações por um curto período de tempo: usamos para marcar um número de telefone que alguém acabou de lhe dizer sem anotá-lo. Usamos a nossa memória de trabalho para pensar em acção.

Em tarefas como conversar, isso ajuda-nos a lembrar o que a pessoa acabou de dizer, entender o significado, conectá-la à conversa anterior e depois compartilhar nossos próprios pensamentos. Com nossa memória de longo prazo, lembramo-nos de informações de dias ou anos no passado.

As memórias que estão armazenadas nela foram movidas da nossa memória imediata em um processo chamado “consolidação“.  No entanto, vale a pena destacar que aquilo que comemos pode ter um impacto no funcionamento da nossa memória.

Num estudo com adultos mais velhos com problemas de memória, 500 ml de suco de uva roxa por dia durante 12 semanas permitiram que eles aprendessem mais palavras em comparação com o grupo placebo. Em estudos com crianças que comeram 240 gramas de mirtilos frescos, isso permitiu a elas lembrar mais palavras e recordá-las com mais precisão 2 horas depois.

Então, as uvas e os mirtilos são especiais? Mais ou menos. Ambos são fontes ricas de antocianinas, um tipo de químico vegetal chamado polifenóis, que lhes confere sua cor profunda. Esses compostos de polifenóis também são encontrados em outras frutas.

Quando metabolizados no corpo, eles melhoram a flexibilidade dos vasos sanguíneos e o fluxo sanguíneo para o cérebro. Isso, por sua vez, fornece mais nutrientes energéticos e oxigénio, melhorando nosso desempenho cognitivo. E não são apenas as frutas. O consumo a longo prazo de chá verde também tem sido associado a uma melhor memória de curto prazo, atenção à memória de trabalho e redução do risco de declínio cognitivo.

Também há uma boa notícia para os amantes de chocolate, porque o cacau melhora o fluxo sanguíneo cerebral, embora o mais indicado seja o chocolate negro, que contém mais de 70% de sólidos de cacau para se obter benefícios.

A regra geral é que quanto mais saudável a dieta — rica em frutas, vegetais, grãos integrais, leguminosas e peixes oleosos — maior o centro de memória do cérebro e melhor o desempenho da memória.

Alimentos processados

Mas se o chocolate, as frutas vermelhas e o chá verde são bons para nossas memórias, existem alimentos que não o são? Décadas de estudos em animais e um número crescente de testes em humanos mostram que uma dieta rica em alimentos processados tem um efeito prejudicial no aprendizado e na memória.

Num outro estudo, 110 pessoas saudáveis que normalmente comiam uma dieta nutritiva foram convidadas a comer uma dieta rica em alimentos processados por apenas uma semana.

No cardápio, dois waffles no café da manhã em quatro dos dias e duas refeições de junk food (termo em inglês para alimentos de alto teor calórico e pobres em nutrientes) a qualquer momento da semana. Em poucos dias, a dieta altamente processada levou a problemas de memória, de aprendizado e falta de controle do apetite.

Uma dieta rica em alimentos processados e açúcares e pobre em frutas, vegetais e fibras também está associada a um risco maior de doenças neuro-degenerativas, como Alzheimer.

Pesquisas indicam que adoptar pequenas medidas para tornar nossas dietas mais nutritivas — um pedaço extra de fruta no café da manhã, uma porção extra de vegetais no jantar — pode ajudar a melhorar nossas memórias de hoje e protegê-las para o futuro, conclui a psicóloga Kimberley Wilson.

ZAP // BBC
22 Novembro, 2022



 

470: Os Neenderthais eram carnívoros — mas odiavam sangue e ossos

CIÊNCIA/NEANDERTAIS

Kojotisko / Flickr

Os isótopos de zinco estão negativamente correlacionados com a dieta carnívora. daí que as baixas concentrações encontradas tenham sido determinantes para ajudar os cientistas.

Ao longo dos anos, várias investigações com o objectivo de identificar a dieta dos Neenderthais falharam. No entanto, uma nova pesquisa parece ter encontrado a resposta utilizando uma nova abordagem aplicada às amostras de restos antigos.

Pela primeira vez, os isótopos de zinco do esmalte dos dentes de Neanderthal foram utilizados para investigação, revelando que eram muito provavelmente carnívoros, e não vegetarianos.

Trabalhar com espécimes com mais de 50.000 anos de idade pode ser complicado quando se trata de tentar estabelecer a posição de um animal na cadeia alimentar.

Olhar para isótopos de azoto retirados do colagénio ósseo é uma abordagem que tem sido utilizada para os restos de Neanderthal no passado, mas a sua especificidade para espécimes encontrados em regiões temperadas com colagénio intacto significa que nem sempre é adequada.

Sabe-se que os isótopos de zinco estão negativamente correlacionados com o carnívoro. Ou seja, baixas concentrações significam uma dieta altamente carnívora, enquanto altas concentrações apontam mais para alimentos à base de plantas, sustenta o Science Daily.

Neste sentido, testaram amostras de um molar de Neanderthal (estudos dentários revelaram anteriormente o uso de drogas) juntamente com os ossos de outros animais vivos na altura — incluindo linces, lobos e camurças — para procurar concentrações de isótopos de zinco.

Os resultados revelaram que a dieta deste indivíduo consistia provavelmente em muita carne, uma vez que era mais semelhante em concentração de isótopos de zinco do que a dos carnívoros ao mesmo tempo.

“O consumo de carne é apoiado tanto pelos dados zoo-arqueológicos em Gabasa como pela análise do esmalte”, escrevem os autores no seu artigo. “Além disso, a baixa razão isotópica [zinco] observada na amostra única medida de Gabasa Neandertal sugere que este indivíduo poderia ter tido uma dieta distinta em comparação com outros carnívoros (possivelmente evitando o consumo de ossos e sangue).”

Os ossos partidos encontrados no local apontam também para uma dieta carnívora para o Neandertal Ibérico que foi desmamado por volta dos dois anos de idade, de acordo com análises químicas.

Esta última investigação não só afirma ter encontrado uma resposta a essa questão, como também estabeleceu uma nova abordagem para testar restos ósseos ibéricos com mais de 50.000 anos — características que historicamente tornaram os testes de isótopos de azoto pouco fiáveis ou impossíveis.

  ZAP //
23 Outubro, 2022



 

344: Estudo: cogumelos alucinogénios podem ser benéficos para os astronautas

CIÊNCIA/ESPAÇO/ASTRONAUTAS/COGUMELOS ALUCINOGÉNIOS

Os cientistas estão, constantemente e cada vez mais, à procura de formas para tornar as viagens espaciais mais confortáveis para os astronautas. Desta vez, um novo estudo descobriu que os cogumelos alucinogénios podem representar benefícios para os astronautas.

Pode parecer loucura, mas os investigadores têm argumentos que podem ser válidos.

Já vimos cientistas a testar a possibilidade de cultivar alimentos no espaço, ou de garantir que os astronautas conseguem comer de forma saudável, e também já foi mencionado, aqui, a “sexologia do espaço”.

Efectivamente, os especialistas procuram encontrar formas de tornar as viagens espaciais mais confortáveis, bem como menos perigosas para os astronautas que as realizam.

Nos últimos anos, as investigações têm sido direccionadas para as consequências mentais e físicas dos voos e das estadias no espaço. Afinal, passar um longo período de tempo longe da civilização, com um grupo muito pequeno de pessoas, em condições ambientais que não suportam vida, pode ser traumático, para o corpo e para a mente.

Por isso, e apesar de não haver ainda evidência científica suficiente relativamente ao assunto, uma equipa de cientistas de uma empresa de biotecnologia sugere que cogumelos alucinogénios poderiam ajudar os profissionais a superar os efeitos do stress, aquando das viagens ao espaço. a investigação foi publicada no Frontiers in Space Technologies.

Cogumelos alucinogénios poderão ajudar astronautas nas viagens ao espaço

Teoricamente, os medicamentos psicadélicos, tomados de forma controlada e combinados com terapia, são muito eficazes no tratamento do transtorno de stress pós-traumático.

No entanto, considerando que a NASA proíbe o consumo de drogas, poderá ser difícil testar em situações reais. Por esta razão, e porque o tema carece de investigação, a equipa de cientistas ressalva que o estudo serve apenas, para já, para recomendação.

Os autores do estudo mencionam que a psilocibina, o componente que transforma os cogumelos alucinogénios numa droga psicoactiva, poderá ser eficaz para os astronautas. Embora não tenham conseguido realizar ensaios clínicos no espaço, basearam as suas conclusões em vários estudos nos quais o fármaco ajudou a aliviar o stress em doentes com cancro terminal.

Além disso, consideraram também ensaios pré-clínicos em animais, que sugerem que os cogumelos alucinogénios podem ajudar a melhorar a plasticidade neuronal. Uma vez que isto estaria implicado nas consequências cognitivas do stress a que os astronautas estão sujeitos, acreditam que poderia ser benéfico.

À equipa de cientistas, resta, daqui em diante, testar a sua teoria com astronautas, em ambiente espacial real.

Pplware
Autor: Ana Sofia Neto
24 Set 2022