719: Irá o G20 salvar-nos novamente desta crise?

OPINIÃO

Os líderes das principais potências do planeta reunir-se-ão em Bali numa nova Cimeira do G20. A ocasião suscita especial interesse, pois será a primeira vez que os presidentes dos EUA e da China se veem cara a cara num contexto de tensão global crescente, que já muitos qualificam de Nova Guerra Fria. Tudo parece indicar que Vladimir Putin não comparecerá, apesar dos esforços do anfitrião, o presidente indonésio Joko Widodo.

Seria certamente uma singular “fotografia de família” num momento marcado pela guerra na Ucrânia, a tripla crise energética, económica e alimentar e o regresso de uma ameaça nuclear que julgávamos já desterrada nos confins dos livros de História.

Pese embora a previsível ausência russa, não restam dúvidas de que poucos fóruns multilaterais têm a tracção do G20. Acabámos de o constatar na COP27 de Sharm el-Sheikh, cuja abertura ficou marcada pelas ausências de Biden, Xi ou Modi, dirigentes dos três países mais poluentes do planeta.

A emergência e consolidação do G20 como principal instância de cooperação económica e financeira internacional deveram-se, precisamente, a um outro período de crise inusitada, que foi o ano de 2008. Há 14 anos, o mundo também parecia estar à beira do precipício.

Em boa medida, a recuperação deveu-se à audácia de líderes como Gordon Brown, Nicolas Sarkozy ou Kevin Rudd, com a inicial aquiescência de George W. Bush e o posterior impulso de Barack Obama, que souberam reconhecer o que o então G8 tivera tanta relutância em admitir: a imperiosa necessidade de implicar activamente os grandes países emergentes na tomada de decisões relativas à governança económica global.

Com visão e pragmatismo, transformaram um fórum que, desde 1999, reunia ministros das finanças e governadores de bancos centrais numa cimeira de líderes, através das sucessivas reuniões de Washington, Londres e Pittsburgh.

Contudo, o tempo passou e deixou a sua marca no G20. Ao longo dos anos, este fórum teve a sua quota parte de altos e baixos, conseguindo sempre sobreviver aos abanões, quando muitos o julgavam morto ou, pelo menos, moribundo.

O seu momento de maior fraqueza terá porventura sido em 2020, durante a presidência saudita, quando foi alvo de uma enxurrada de acusações em torno das origens da covid-19 e da incapacidade de articular uma agenda partilhada para dar resposta à pandemia.

“Em apenas quatro anos de mandato, Trump provocou mais danos à cooperação internacional e, pelo caminho, à democracia do seu próprio país, do que qualquer outro mandatário da história recente.”

Como tantos outros espaços multilaterais, há anos que o G20 acusava não só o desgaste provocado por sucessivas presidências com diferentes prioridades, mas também, e muito em particular, a gradual erosão do multilateralismo, que se vinha acelerando desde 2015.

Os catalisadores deste processo foram a implosão do G8 no rescaldo da invasão russa da Crimeia, a crise migratória síria, o retrocesso inédito na construção europeia motivado pelo Brexit e, claro está, a nefasta presidência de Donald Trump.

Em apenas quatro anos de mandato, o magnata nova-iorquino provocou mais danos à cooperação internacional e, pelo caminho, à democracia do seu próprio país, do que qualquer outro mandatário da história recente. Ainda hoje estamos a pagar as consequências.

Iremos nós presenciar o enésimo renascimento do G20 em Bali, após o discreto encontro do ano passado em Roma? É pouco provável. Tal como em 2008, encontramo-nos, mais uma vez, à beira do precipício.

A grande diferença entre o então e o agora, porém, é que a ameaça económica não passa do sintoma de uma grande fractura política que atravessa o planeta de lés a lés com uma intensidade nunca vista desde a queda do Bloco Soviético.

O comércio e o investimento transnacionais, que desde os Anos 90 vinham favorecendo uma certa integração planetária nas asas da globalização, vêem-se agora ofuscados e subordinados a forças que disputam claramente a hegemonia global.

Acabou o soft power e a diplomacia económica. Volta a reinar a política do poder mais realista e tradicional. Assistimos ao crescente confronto dos dois modelos antagónicos do capitalismo de mercado democrático e do capitalismo de estado autoritário.

Apanhado entre estes dois extremos, o resto do mundo movimenta-se com uma perturbante inclinação para forças cada vez mais iliberais. Entretanto, nos cantos recônditos desta batalha, a fissura entre globalismo e nacionalismo vai-se dilatando, o que é, sem dúvida o debate decisivo do nosso tempo.

O G20 assenta nesses dois modelos e concepções do mundo distintos, sendo-lhe difícil fazer avançar a agenda, inclusivamente, os três pilares que a actual presidência indonésia definiu: a reforma da arquitectura da saúde global, a transição energética sustentável e a transformação digital e tecnológica.

Apesar dos obstáculos, não devemos menosprezar dois factos singulares que nos dão margem para algum optimismo. Primeiro, as quatro presidências G20 provenientes do chamado Sul Global, com a Índia, o Brasil e a África do Sul a suceder à Indonésia daqui a 2025.

Depois, e num contexto puramente latino-americano, um acontecimento inédito até à data, desde que este fórum adquiriu a sua actual relevância, que é o previsível alinhamento progressista entre a Argentina, o Brasil e o México, os três países da região membros do G20.

Estes dois fenómenos evocam um tímido cenário de possibilismo: países com um peso global crescente, que aspiram a desenvolver as suas comunidades sem cair no jogo de soma zero e desafio pela hegemonia global lançados por Washington e Pequim.

Países que, no caso particular dos três membros latino-americanos do G20, afirmam ser possível praticar outro tipo de globalização mais humana, mais equitativa e mais respeitadora do planeta.

Se a crise dos Anos 70 deu origem ao G7 e a de 2008, ao G20, talvez esta crise planetária dramática por que estamos a passar possa fazer nascer um novo modelo de governança global, sem que tenhamos de sofrer o trauma de um grande conflito, como aconteceu em 1918 ou 1945.

Quem sabe se não poderemos criar um sistema menos baseado na competição, na exclusão e nos interesses nacionais e mais centrado na solidariedade, na inclusão e no interesse global colectivo.

Num momento particularmente difícil como o actual, em que ouvimos os tambores de guerra ribombar com especial virulência, é urgente vermos surgir uma nova maioria de países dispostos a construir uma ordem mundial diferente, que supere, por fim, as lógicas de poder que tanto vêm pesando sobre a História da Humanidade. Paradoxalmente, o próprio G20 poderia ser um bom Cavalo de Troia para isso.

Vicedean da IE School of Global and Public Affairs (IE University)

Diário de Notícias
Ángel Alonso Arroba
14 Novembro 2022 — 07:00