921: Quão sujos eram os nossos antepassados? A higiene ao longo da história

SOCIEDADE/HIGIENE/ANTEPASSADOS

Os nossos antepassados têm uma má reputação quando o assunto é higiene, mas será que têm o proveito? Bem, sim e não.

Torii Kiyonaga / Wikimedia

Uma das mudanças mais óbvias é a criação das sanitas e dos sistemas de saneamento. Muitas casas medievais tinham divisões semelhantes a pequenos armários onde as pessoas se aliviavam em potes e vasos, atirando depois os conteúdos pelas janelas.

Esta prática levou até a que, em 1809, Lisboa emitisse um edital que obrigava a população a gritar “Água Vai!” antes de atirar as fezes e urina pelas janelas, para que quem estivesse na rua não fosse apanhado de surpresa com estes “presentes”.

As casas mais ricas tinham alguns sistemas rudimentares de canalização, que levaram a água suja e os dejectos para fossas. No entanto, há muitos relatos de pessoas que recusavam usar estas casas de banho e que preferiram responder à chamada da natureza em cantos escuros nas suas casas e até nas casas de amigos.

As lareiras vazias ou lugares escondidos por cortinas ou tapetes também eram locais de eleição. Na maioria dos casos, a preguiça de se ir à casa de banho era a principal motivação, relata o Ancient Origins.

Um dos empregos mais inusitados na Idade Média era também ser o responsável por transportar a sanita portátil do rei e registar detalhadamente todas as vezes que o monarca se “aliviava”.

Mais estranho ainda, este cargo de “mordomo da sanita” era altamente cobiçado devido à garantia de proximidade ao rei, que ajudava os funcionários a tornarem-se confidentes dos chefes de Estado e possivelmente receber terras ou fortunas.

O posto surgiu por necessidade, já que muitas vezes os reis precisavam de ajuda para retirarem as suas roupas luxuosas antes de irem à casa de banho.

Os académicos ainda não sabem se o funcionário só entregava um tecido ao rei para se limpar ou se verdadeiramente lhe limpava o rabo. Em Inglaterra, este cargo apenas foi abolido em 1901.

Se a população fazia as suas necessidades em qualquer canto da casa, não é de admirar que isto atraísse muitos insectos e vermes para casa. Desde piolhos a percevejos, as casas estavam infestadas com estas pragas.

Outro factor que alimentou o aparecimento destes animais, principalmente nas casas mais pobres, era o facto de os chãos serem feitos de palha para protegerem as habitações contra a humidade. Por contrapartida, esta palha também era o lar ideal para estes insectos.

Por vezes, a população colocava flores e ervas na palha para que a casa não cheirasse tão mal. Mas isto apenas servia para mascarar o problema, já que não evitava que os insectos se continuassem a reproduzir e espalhar infecções.

As camas eram também locais ideais para estes insectos se espalharem e até a própria pele e cabelo das pessoais. Os piolhos eram muito comuns na Idade Média, especialmente nas camadas mais pobres da sociedade, onde vários membros da mesma família partilhavam uma cama, o que facilitava a transmissão.

Os sabonetes milenares

Apesar de tudo isto não dar uma imagem muito limpa dos nossos antepassados, ms a verdade é que o sabão é uma invenção mais anttiga do que pensamos. O primeiro foi inventado pelos babilónios em 2800 A.C.

As evidências arqueológicas indicam que os egípcios tomavam banho regularmente, tal como mostra o Papiro Ebers, um dos tratados médicos mais antigos e importantes que se conhece que foi escrito por volta de 1500 A.C. e que revela várias receitas de combinações de sais com óleos animais e vegetais para se fazer sabão.

Os gregos também eram muito asseados. Não só usavam sabão como inventaram os primeiros “chuveiros” e os mais ricos até tinham as suas próprias casas de banho.

Os romanos também eram famosos por serem adeptos das termas públicas e por serem engenheiros talentosos, tendo inventado sistemas de saneamento semelhantes aos modernos e criado aquedutos para transportarem água para as suas vilas.

Foram também os romanos que baptizaram o sabão, em honra ao Monte Sapo, uma montanha lendária nos arredores de Roma onde a água escorrecia e misturava-se com cinzas e gorduras animais, formando barras de sabão.

Apesar da sua reputação como bárbaros barbudos e sujos, os vikings também eram muito adeptos da higiene e até tomavam banho uma vez por semana, bastante mais vezes do que os seus contemporâneos noutras zonas do mundo.

A palavra islandesa para sábado — Laugardagur — significa até “dia de lavar” e foram também já encontrados vários pentes, limpadores de orelhas ou lâminas de barbear em escavações na Escandinávia.

Em alguns locais durante a Idade Média existiam balneários públicos que a população podia pagar para usar. Quem não tivesse dinheiro usava os rios para tomar banho ou então recorria à “lavagem seca”, esfregando o corpo com uma toalha limpa.

Aos poucos, a Europa começou a tornar-se mais adepta da higiene, mas houve alguns retrocessos. O rei Luís XVI de França foi um exemplo notório disso, já que reza a história que o monarca tinha medo de tomar banho e apenas o fez duas vezes em toda a sua vida.

Cuidados com os dentes (ou falta deles)

A nível da saúde oral, as coisas não eram famosas. As escovas de dentes foram introduzidas pela primeira vez em Inglaterra no fim do século XVII e há evidências de que os palitos eram usados antes disto. No entanto, os problemas dentários eram muito comuns na mesma.

Alguns textos sumérios antigos dão até conta de “vermes dentários“. Esta foi a designação dada às cáries, que deixavam buracos visíveis nos dentes. Os dentistas da altura não sabiam a causa destes buracos, assumindo que teriam sido causados por vermes.

Pouco foi feito em termo de medidas preventivas e a principal preocupação era tratar os problemas já depois destes se manifestarem. Mesmo assim, houve civilizações que trataram melhor dos seus dentes mesmo sem o saberem.

Os esqueletos de romanos que viviam em Roma mostram que tinham dietas mais saudáveis do que o resto da população do Império, o que se traduzia numa melhor saúde oral.

Adriana Peixoto, ZAP //
26 Novembro, 2022



 

504: Humanos antigos. Canibais oportunistas ou predadores?

CIÊNCIA/PALEONTOLOGIA/ANTROPOLOGIA/ARQUEOLOGIA

Randii Oliver / NASA

Os nossos antepassados do Paleolítico comiam-se uns aos outros. Os Homo sapiens e os neandertais também, tal como Homo erectus e o seu antecessor. É altamente provável que quase todos os hominídeos tenham praticado o canibalismo de alguma forma. As questões são “porquê” e “até que ponto”?

Segundo um artigo do Big Think, actualmente o canibalismo é visto como algo “abominável”. Mas será que essa aversão existia entre os nossos antepassados?

Os cientistas geralmente consideram o canibalismo paleolítico como uma excepção, não uma norma, “mas talvez isso seja apenas o desejo” de “imaginar os nossos ancestrais “como nobres caçadores e colectores” e não “como canibais brutais e oportunistas”.

James Cole, professor de Arqueologia na Universidade de Brighton, que recebeu um Prémio IgNobel pela investigação publicada em 2017 na Nature, referiu que “dada a natureza esparsa do registo fóssil de hominídeos, o facto de termos provas de canibalismo indica que o comportamento era talvez mais comum dentro das populações pré-históricas do que o número sugerido pelos sítios arqueológicos”.

Cole descreveu alguns sinais claros sobre ossos humanos fossilizados que apontam para o canibalismo: ausência de uma base craniana (para chegar ao cérebro) em esqueletos completos ou quase completos; ausência de vértebras (devido a esmagamento ou fervura para chegar à medula óssea e à gordura) e marcas de corte.

Além disso, outros sinais são as técnicas de abate comparáveis em restos humanos; provas de cozedura sob a forma de osso queimado e marcas de dentes humanos.

Estes indicadores foram observados em sítios humanos antigos em todo o mundo. Nas Cavernas Goyet, na Bélgica, os investigadores encontraram provas de que, há cerca de 45.000 anos, os neandertais massacraram alguns dos seus mortos e utilizaram os seus ossos como ferramentas.

E na caverna de Gough, no Reino Unido, os antropólogos descobriram marcas de mordeduras em ossos de Homo sapiens com 15.000 anos. Também descobriram centenas de marcas de filetagem e incisões ritualísticas nos ossos e crânios desenterrados aparentemente modificados para utilização como copos.

Será que os humanos praticavam o canibalismo de forma oportunista, devido à morte de um membro do grupo? Terá sido por necessidade, em situações de fome? Ou será que os humanos de grupos rivais caçavam-se uns aos outros?

Cole calculou o número de calorias que teria um homem adulto. Descobriu que seria de 143.771, o suficiente para alimentar um grupo de 25 humanos adultos durante meio dia.

Na sua opinião, “não valeria o esforço, especialmente em comparação com a caça a um cavalo, um boi selvagem ou um mamute, excluindo a ideia de que os humanos antigos caçavam-se uns aos outros regularmente”, lê-se no artigo.

“Um único grande indivíduo da fauna fornece muito mais calorias sem as dificuldades de caçar grupos de hominídeos, que eram tão inteligentes e engenhosos como os caçadores”, escreveu Cole.

Isso significa que, provavelmente, o canibalismo paleolítico era praticado de forma oportunista, por necessidade ou para fins ritualísticos, acrescentou.

  ZAP //
28 Outubro, 2022