‘Gone with the wind’ (‘Foi com o vento’)

OPINIÃO

Atenas, na pandemia, andou livre de turistas, havendo espaço e vagar para a vermos na beleza antiga, graças a Zeus.

Entre as muitas maravilhas, a Torre dos Ventos, ou Horológio de Andrónico, do nome do seu erector, o astrónomo macedónio Andrónico de Cirro.

Construída por volta de 50 a.C., com doze metros de altura, todos inteirinhos em mármore, tem planta octognal, com cada um dos lados a representar uma divindade eólica: Bóreas, do norte, Kaikias, de nordeste, Eurus, de leste, Apeliotes, de sueste, Lips, de soeste, Zéfiro, de oeste, e Siroco, de noroeste. No interior, houve em tempos uma clepsidra, movida a água vinda da Acrópole, e no topo um cata-vento, naturalmente, pois era a Torre dos Ventos.

Ao início, o cata-vento de Atenas tinha no cimo uma enorme figura de bronze do Tritão, o deus do mar com cauda de peixe cujo tridente apontava para o nome do vento que o arejava, mas é possível, até provável, que mais tarde passasse a ostentar um galo, pois assim foi determinado no século IX, quando o Papa Nicolau I ordenou que os cata-ventos das igrejas e das abadias tivessem no topo um galináceo cantante, em alusão ao galo que cantou três vezes antes da aurora raiar e, sobretudo, à indecisão de São Pedro, que tanto jurava Cristo como O negava a pés juntos.

À semelhança do santo, também os cata-ventos viram para um lado e para outro, consoante o vento que levam ou trazem, não sendo essa, obviamente, a primeira nem a última associação entre os ventos e os deuses.

Na Grécia antiga, existiu, inclusive, a crença numa imaculada concepção eólica, pois dizia-se que Bóreas, o vento gelado setentrional, soprava com tal vigor que era capaz de engravidar as éguas que estivessem a pastar nos campos com os quartos traseiros virados para norte, e que assim eram fecundadas sem qualquer intervenção de um macho.

De resto, já os antigos egípcios acreditavam que não havia abutres machos, e que a fertilização das fêmeas se fazia pela força do vento, algo que Plínio aplicaria às perdizes, mas com uma nuance: segundo ele, existiam perdizes machos e fêmeas, mas estas engravidavam por um vento soprado pelos machos, não havendo, pois, qualquer contacto carnal, tese que, por seu turno, Virgílio aplicaria às éguas da Lusitânia.

Em árabe, a palavra para vento é ruh, que tanto pode significar “respiração” como “espírito” e em hebraico usa-se ruach, que também pode querer dizer “criação” ou “divindade”.

As antigas divindades helénicas do vento chamavam-se Anemoi, que deriva de anima, “alma”, e que por sua vez deu o nome às anémonas; e é também grega a palavra pneuma, que tanto poderia dizer “respiração”, como “sopro”, como “alma” ou “espírito”, abrangendo, portanto, desde os pneus dos automóveis até pneumologia, ramo dos estudos teológicos que se ocupa do Espírito Santo. Sem maçar muito com etimologias, diga-se tão-só que ventilação vem de ventus, obviamente, e que no inglês e no nórdico antigos se usavam as palavras windoge ou vindauge, ambas com o significado de “olho do vento”.

Das crenças e tradições ligadas ao vento, uma das mais belas que conheço é a dos moinhos ingleses, desde sempre foram usados como fonte de energia e tracção, mas também como sinal de aviso para o perigo próximo, seja um incêndio a galopar ao longe, seja a aproximação de um exército inimigo, seja, enfim, a aparição indesejada de um cobrador de impostos.

E a tradição era esta: quando morria um moleiro, tiravam-se as vinte de tábuas dos braços do moinho, e este permanecia silencioso e imóvel durante um tempo – dez, quinze, vinte dias, ou mais -, fazendo luto pelo seu dono (se fosse a mulher do moleiro, tiravam-se dezanove tábuas; num filho criança tiravam-se treze tábuas, na morte dos pais, onze tábuas; na morte do filho de um primo, uma tábua apenas).

Noutras paragens, muitas, acredita-se que os ventos são espíritos de gente que morreu recentemente e em várias culturas existe uma figura que serve de guardião dos ventos, como Éolo, na Grécia clássica, ou Feng Po Po, o deus do vento na sabedoria chinesa antiga, um ancião de barbas brancas e barrete azul, que consigo transporta um saco amarelo chamado “Mãe dos Ventos”, de onde vai libertando ventos em várias direcções.

Muitos povos índios da América, como os Iroqueses ou os Algonquinos, acreditavam que um deus maligno tinha os ventos aprisionados numa caverna, crença também partilhada pelos Batuk da Malásia ou pelos Maori da Nova Zelândia, numa comunhão universal de mitos e lendas que sempre surpreende e intriga, mas que talvez se explique por uma razão singela: nunca conseguimos ver um vento, mas apenas os seus efeitos, que ora surgem sob a forma de suaves brisas, ora de tempestades arrasadoras. A invisibilidade do vento e a volatilidade dos seus humores prestam-se, pois, e muito, a que os associemos aos deuses.

Os ventos são sempre masculinos, ou quase sempre, e há-os bons e maus (“de Espanha nem bom vento…”). Entre estes últimos, destaca-se o föhn, um vento quente e descendente dos Alpes, cujo nome vem do gótico fôn, que significa “fogo”, pois o föhn traz consigo um risco real de incêndio; ou o sirocco, um vento quente de Primavera, vindo do Saara, e que tem vários nomes, mas também o mistral, do latim magistralis, esse um sopro frio de noroeste, com rajadas que percorrem o Vale do Reno, e do qual já Estrabão dizia ser “um vento impetuoso e terrível”.

Se os Himalaias protegem a Índia das frentes frias mais vigorosas, a Itália está salvaguardada pelos Alpes e a Espanha pelos Pirenéus. Já a América Norte não tem uma cordilheira que bloqueie o fluxo para sul dos ventos frios setentrionais e, por vezes, uma maré de ar polar chega até ao Golfo do México.

Em contrapartida, no Canadá e a leste das Montanhas Rochosas há um vento bom, quente e seco, o chinook, considerado um “devorador de neve”, cujos uivos são prenúncio de que o Inverno acabou.

Ao que parece, a maior rajada de vento do mundo, produzida por um tornado, foi registada em 12 de Abril de 1934, no cume do Monte Washington, na cordilheira dos Apalaches, e atingiu a incrível velocidade de 370 quilómetros por hora. E o sítio mais ventoso do planeta é uma montanha na extremidade da Antárctida, onde há um vento constante, que sopra a 60 quilómetros por hora, todos os dias todas as noites do ano.

E que dizer da “Tornado Alley”, uma região que atravessa o Kansas, o Oklahoma e o Missouri, e de onde nascem cerca de 700 tornados por ano? Ou que pensar quando nos dizem que um furacão mediano precipita cerca de 20 000 milhões de água por dia, o equivalente em energia a 500 mil bombas atómicas? (o furacão Betsy, de 1965, é considerado o maior desastre natural da história dos EUA, tendo provocado prejuízos superiores a mil milhões de dólares).

Mais espantoso ainda é sabermos que o interior de um monstro desses – ou seja, o “olho” do furacão, com cerca de 20 quilómetros de diâmetro – é anormalmente calmo e sereno e muitas vezes está cheio de aves que tranquilamente rodopiam em seu seio.

Numa vertigem imparável, a intensidade e a violência das tempestades tem vindo a aumentar de forma assustadora: em Outubro de 2018, uma tempestade de vento e de chuva atingiu extensas zonas dos Alpes orientais, com rajadas de velocidade superior a 200km/hora, que destruíram dezenas de milhares de hectares de bosque.

Como mamíferos que andam erectos sobre uma base de sustentação reduzida (ou, se quisermos, sobre uma superfície que corresponde apenas a 2% de todo o nosso corpo), geralmente não gostamos dos ventos, desde logo por essa razão biológica elementar.

Dos poucos ventos que apreciamos, e que consideramos benignos, destacam-se as brisas de curta duração, suaves e refrescantes, ou moderadamente tépidas, como o imbat, que aflora as costas quentes da Tunísia; o datoo, que traz ar fresco da costa oeste do Atlântico através de Gibraltar; o vento de baixo de Portugal; o medina, de Cádis; o kapalihua, no Havai; ou o libeccio, que ameniza os escaldantes (e porquíssimos) Verões napolitanos.

Tudo quanto aqui é dito encontra-se num tratado completíssimo, Uma História Natural do Vento, do malogrado Lyall Watson, obra que a esclarecida editora Bazarov, de Arcozelo, deu à estampa em 2020, e que no final traz um exaustivo dicionário de todos os ventos que neste mundo existem.

Ali sabemos, entre tantas coisas, que as névoas e secas avermelhadas vindas do Saara (lembram-se delas, há poucos meses?) são transportadas em direcção aos pólos e pousam em sítios tão distantes como a Cornualha e Devon e produzem chuvas de lama tão vermelhas que por vezes são confundidas com sangue.

É fenómeno antigo: já Gregório de Tours dizia que, no ano 582 d.C., uma “chuva de sangue” aterrorizou de tal forma os habitantes de Paris que estes rasgaram as vestes em sinal de pânico.

E é fenómeno cíclico: em 1846, as sarjetas da Provença ficaram cheias de lama vermelha e, em 1859, na Alemanha, uma área de 30 mil quilómetros quadrados ficou toda coberta por um manto róseo, arenoso; em 1901, houve copiosas “chuvas de sangue” em Espanha e em Portugal e, em Abril de 1926, estima-se que a Europa tenha sido inundada por dois milhões de toneladas de lama do Saara, a qual voltou a atacar a Suíça, em 1936, e o Luxemburgo, em 1947.

Se dúvidas houvesse sobre a interacção entre clima e cultura humana, bastaria dizer que o nascimento de todas as civilizações primitivas ocorreu ao longo de uma isotérmica em que a temperatura média anual é de 20º C e, sempre que essa temperatura coincidia com uma humidade razoável e terra arável, florescia uma nova civilização com uma regularidade infalível. Assim foi com os egípcios, com os fenícios, com os assírios e com os babilónios, com os persas, com os chineses, com os aztecas, os maias e os incas.

Terá havido, sem dúvida, civilizações que despontaram e medraram em ambientes mais agrestes e a temperaturas mais baixas, mas só o fizeram depois de terem desenvolvido técnicas que lhes permitiram controlar os efeitos do clima e manter a temperatura na média amena de 20º C, não mais, não menos.

Aliás, muito do que lemos na Bíblia, mormente no Velho Testamento, mais não são do que narrativas sobre desastres climáticos e, segundo se crê, o registo mais antigo de um tornado foi feito pelo profeta Ezequiel, no ano 600 a.C., quando disse: “Então olhei e contemplei uma terrível tempestade que se aproximava vinda do Norte: uma nuvem enorme, com relâmpagos e raios intensos, cercada por forte luz brilhante.

O centro do fogo parecia metal reluzente” (e para quem julgue que a Bíblia é um livro sensaborão, atente-se no versículo hard core de Ezequiel 23:20, “desejou ardentemente os seus amantes, cujos membros eram com os de jumentos e cuja ejaculação era como a dos cavalos”).

O clima e os ventos foram de tal forma importantes para dominar o mundo que em torno deles sempre existiram mistérios e ocultações. Os marinheiros árabes guardavam ciosamente os seus segredos dos ventos, pois aqui residia o senhorio das costas de África e do Golfo Pérsico, numa área que se estendia pelo Mar Vermelho e pelo Índico adentro, até aos ricos domínios de Oriente, que Alexandre tentou em vão conquistar, mas que só seriam abertos pela intrepidez do nosso camarada Vasco, o da Gama.

Foram os ventos alísios, de resto, que favoreceram o achamento do Brasil e, como nota Lyall Watson, é essa “propensão para oeste” dos alísios, que persistiu até aos dias das grandes embarcações de aço do início do século XX, que explica, em larga medida, o superior desenvolvimento do Brasil, em contraste com a estagnação e o esquecimento a que Angola foi votada.

Ao longo da História, o curso de muitas batalhas foi determinado pelos ventos, ou ajudado por eles, como sucedeu com a derrota da Invencível Armada, em 1588, e, três séculos antes, em 1281, com a destruição da frota de Kublai Khan pelos shimpu, os “ventos divinos” que protegeram o Japão dos invasores mongóis (ainda hoje se encontram destroços dos navios do Khan nas costas de Takashima), para não falarmos do triunfo de Temístocles sobre Xerxes, em Salamina: se os gregos não tivessem vencido os persas, não teria existido o século de Péricles, as esculturas de Praxiteles, a democracia ateniense, a filosofia de Platão e de Sócrates e, no fundo, toda a civilização ocidental, tal como a conhecemos e vivemos. É grande o poder do vento.

Não admira, assim, que os homens desde sempre tenham tentado dominá-lo. No Árctico canadiano, quando o vento soprava semanas a fio, impedindo os inuítes de saírem para caçar, estes faziam longos chicotes com algas marinhas e açoitavam o ar, gritando “Taba! Já chega!”.

Na Gronelândia, escolhia-se uma mulher que tivesse dado à luz recentemente e que se dirigia para a tempestade, enchia os pulmões de ar e regressava para casa com os ventos cativos no interior do seu corpo.

Nos Xhosa da África do Sul, um sacerdote cuspia uma poção na direcção do vento, para que este serenasse, e, na Índia, homens santos enfrentavam as tempestades sozinhos, munidos de um bastão e de uma tocha flamejante.

Na antiga Gália, venerava-se uma sacerdotisa, a barbagouin, que tinha o poder de gerar ventos e, no século XIX, Walter Scott ainda encontrou várias “bruxas dos ventos” na ilha de Man, havendo mulheres nas Shetland que vendiam ventos sob a forma de lenços atados.

Hoje, pouco resta dos moinhos de vento que pontuaram os cumes da Europa e que se calavam à morte dos seus moleiros. Chegaram a ser mais de 18 mil só na Alemanha, sete mil entre Portugal e Espanha, dez mil na Inglaterra, outros tantos na Holanda. Vemo-los agora sob novas vestes, as das eólicas que desfiguram a paisagem, mas que tão necessárias são para nos livrarmos das energias fósseis.

No recente A Planta do Mundo – Aventuras de Plantas e Pessoas (Pergaminho, 2022), diz-nos Stefano Mancuso que a principal adversidade com que as árvores se debatem, pelo menos na Europa, é o vento, ao qual se devem mais de 50% dos danos sofridos pelos nossos bosques, os quais são ameaçados não apenas pelos incêndios (apenas 16% dos danos), nem pelos elementos patogénicos ou pelos insectos, mas simplesmente por acção eólica.

As perdas de árvores causadas pelo vento não cessam de crescer desde os anos 1950 e duplicaram de 1970 a 2010, passando de cerca de 50 milhões a 100 milhões de metros cúbicos. Desse modo, reduz-se em cerca de 30% a capacidade de fixação do CO² nas áreas afectadas por este massacre ventoso.

E, numa vertigem imparável, a intensidade e a violência das tempestades tem vindo a aumentar de forma assustadora: em Outubro de 2018, uma tempestade de vento e de chuva atingiu extensas zonas dos Alpes orientais, com rajadas de velocidade superior a 200km/hora, que destruíram dezenas de milhares de hectares de bosque.

Desde há muito que se sabe que a deflorestação aumenta exponencialmente o poder destruidor dos ventos. Há quem diga, inclusivamente, que o mistral teve origem no abate em massa das árvores das Cevenas, perpetrado nos tempos do imperador Augusto.

Subitamente desnudado, o bosque impenetrável deu lugar a uma paisagem desolada, feita de calhaus e de arbustos, que Robert Louis Stevenson, montado num burro, descreveu admiravelmente em Os Prazeres dos Lugares Inóspitos (Relógio D”Água, 2016).

Talvez seja exagero atribuir a origem de um vento à acção de um só homem, mesmo que imperador de Roma, mas o facto é que abundam exemplos, tristes exemplos, em que a imprevidência e a avidez humanas potenciaram brutalmente o poder destruidor dos ventos.

Num livro acabado de sair, As Últimas Colheitas (Vogais, Outubro de 2022), um relato demolidor dos efeitos da agricultura intensiva sobre as alterações climáticas, Philip Lymbery fala-nos da chegada em massa, nos anos 1920, de novos colonos às Grandes Planícies americanas, atraídos pelas promessas de prosperidade feitas pelos poderes públicos, por grupos económicos e por especuladores.

Encorajados pelos preços elevados dos cereais a seguir à Primeira Guerra, milhares ou milhões de famílias precipitaram-se então sobre a terra virgem. O Departamento Federal dos Solos garantia que aquele era “o único recurso que não pode ser esgotado, não pode ser gasto”.

Na década de 1920, naquilo que ficou conhecido como “a grande lavra”, foram revolvidos, destruídos, milhões de hectares de cobertura de erva, para em sua substituição se plantar trigo numa escala nunca vista, com o auxílio de máquinas e tractores. No imediato, a produção disparou 300%, houve excedentes colossais de cereais e, logo, uma abrupta queda de preços.

Os agricultores viram-se então no dilema de diminuírem a produção para manter os preços em alta ou de a aumentarem ainda mais, optando por esta última solução, que veio a revelar-se desastrosa. Enquanto continuavam a lavrar cega e incessantemente, vieram oito anos de seca, instalou-se a aridez, e, como nos conta Philip Lymbery, a ausência de chuvas implicou que as plantas recém-cultivadas não conseguiram crescer, deixando o solo exposto.

Os campos outrora verdes acabaram por secar. Os preços caíram mais, ainda mais, milhares de agricultores entraram em falência, milhões de hectares de antigo prado ficaram despidos, expostos aos ventos que sopravam ferozmente sobre a terra seca e poeirenta, levando a que grandes extensões se fendessem e separassem, uma dor de alma.

Então ergueram-se grandes ventos, começaram as tempestades de poeira. Em alguns locais, as nuvens de pó e terra seca chegavam aos três quilómetros de altura, ofuscando a luz do sol, cobrindo campos e cidades de um manto denso, acastanhado, impedindo as pessoas de saírem sequer à rua.

O Dust Bowl, nome por que ficou conhecido, devastou, como uma praga bíblica, o oeste do Kansas, o leste do Colorado, o nordeste do Novo México e zonas enclave do Oklahoma e do Texas.

Estima-se que, em 1934, 40 milhões de terra agrícola tenham perdido a totalidade ou a maior parte do seu solo arável para os ventos. Em certas localidades, a poeira matou 90% das galinhas, as vacas deixaram de dar leite, o gado solto no pasto ficou cego, com os olhos como que colados.

Cerca de dois milhões de pessoas abandonaram os estados da Dust Bowl na década de 1930, um êxodo terrível que seria narrado por John Steinbeck em As Vinhas da Ira e captado em imagens cruciantes de fotógrafos como Walker Evans, Dorothea Lange, Russell Lee ou Arthur Rothstein.

No rescaldo das tempestades, surgiram as lebres famintas. Os agricultores tinham matado os coiotes, o que agravou a praga dos coelhos bravos, que agora competiam com os humanos pelo pouco que restava no solo.

As comunidades organizaram então batidas impiedosas, em que os coelhos eram encaminhados para enormes redis e aí açoitados até à morte com bastões e mocas, numa orgia de sangue e dor.

Ainda hoje há quem não consiga esquecer os berros lancinantes de milhares de coelhos massacrados, o barulho ensurdecedor que faziam enquanto eram mortos à paulada por homens, por mulheres, por crianças.

O Dust Bowl e os seus ventos foram um trágico exemplo, mais um, daquilo a que podem conduzir a cupidez e a estupidez humanas. Estupidez que ainda hoje em dia persiste naqueles que ainda teimam em negar as alterações climáticas e a sua origem humana.

Alguns, por ignorância ou má-fé, vão ao ponto de invocar a História e convocar o passado, com isso pretendendo dizer que outrora também houve mudanças do clima, pelo que as de hoje não serão certamente diferentes, seja na sua gravidade e alcance, seja na ausência de responsabilidade humana na sua génese.

Há um par de meses, um terço do Paquistão ficou submerso pelas cheias, que causaram de imediato 800 vítimas mortais, esperando-se muitas mais, devido às epidemias e às doenças. António Guterres afirmou nunca ter visto uma “carnificina climática” semelhante.

Por cá, perante uma tragédia daquelas, alguns imbecis (sem surpresa, os mesmos imbecis que questionam os confinamentos e as vacinas da Covid, que salvaram 19,8 milhões de vidas) não acharam melhor do que caricaturar Guterres e os seus insistentes alertas, alertas que, note-se, são partilhados de forma esmagadora pela comunidade científica: um estudo de 2021, publicado na revista Environmental Research Letters, concluiu que 99% dos trabalhos publicados sobre a matéria reconhecem que as actuais alterações climáticas têm origem humana.

De um lado, 99% de cientistas; do outro, 1% de idiotas. Parole al vento, dizem os italianos. E nós também.

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

Diário de Notícias
António Araújo
04 Dezembro 2022 — 07:00



 

817: A Glória da Manhã

OPINIÃO

Agora, que tombam chuvas d”Outono, começam as baixas pressões, sobretudo humanas. Cuidado por isso, muito cuidado, com a pérfida SDS, maleita detectada, ao que parece, por um psiquiatra da Clínica Bethesda, no Maryland, o Dr. Norman Rosenthal, que se tem interessado por muita coisa, da meditação transcendental ao stress pós-traumático, passando pelos efeitos do jet lag, e que, em 1980, desenvolveu uma pesquisa que concluiu o óbvio: as pessoas que são afectadas pela SDS (acrónimo de Síndrome de Depressão Sazonal) quebram um bocadito no pino do Inverno, têm então menos energia, mais melancolia, perdem criatividade, produtividade.

Segundo o Dr. Rosenthal, isso influi até na saúde física, sendo sintomático que o número de doentes passe de 1,4% da população, na soalheira Florida, para 9,7% no álgido e chuvoso New Hampshire.

Talvez o mal não esteja no frio que faz lá fora, mas no Inverno que connosco trazemos e que nos devora o espírito, pois se há uns que deprimem e fenecem com as chuvas, também há muito boa gente que, em contrapartida, rejubila e resplandece à visão de um céu carregado de nuvens.

Um deles, dos mais taraditos de todos, é inglês, claro, e chama-se Gavin Pretor-Pinney. Em 2004, fundou a Cloud Appreciation Society, uma agremiação de adultos, espera-se que sensatos, cujo hobby predilecto consiste em contemplar nuvens das mais diversas formas, quanto mais estranhas, melhor.

Pretor-Pinney é também autor de uma série de livros sobre o assunto, de que se destaca The Cloudspotter”s Guide, de 2006, do qual existe tradução portuguesa (O Mundo das Nuvens, ed. Estrela Polar), infelizmente e desgraçadamente esgotado — para quando uma reedição?

A loucura deste caçador e gourmet de nuvens é tal que, num belo dia, decidiu ir aos antípodas, do outro lado do mundo, só para contemplar uma delas. Não uma nuvem qualquer, igual aos fiapos escanzelados que às vezes surgem nos céus, mas a mais majestosa de todas, grande de muitos quilómetros, a Glória da Manhã.

Produto de um fenómeno meteorológico raro, a Glória é uma nuvem solitária de baixa altitude, que forma uma coluna perfeita, em forma de tubo, que chega a atingir mil quilómetros de extensão, ou seja, que é maior do que o Reino Unido, de norte a sul.

Já foi observada noutras paragens, no centro dos Estados Unidos, no Canal da Mancha, em Berlim e em Munique, na Rússia, na costa do Rio de Janeiro, mas onde ela mais aparece — e, note-se, nem sempre — é no Golfo da Carpentária, ao norte da Austrália, defronte a Burketown, uma cidadezinha com 238 habitantes completamente isolada do resto do mundo, a distâncias quilométricas de tudo e de todos.

Foi registada pela primeira vez em 1942, por pilotos da Força Aérea Australiana, mas de há muito integrava o folclore e as lendas dos aborígenes, que lhe chamam kangólgi e que fazem danças específicas (wamur) para fomentar a sua aparição, pois ela é escapista e incerta e são muitos os forasteiros que percorrem mundos só para a ver, passam semanas à sua espera e, no final, saem de Burketown desapontados.

Mas, quando a Glória da Manhã surge no horizonte, monumental e poderosa, são muitos os que sobem para cima dos aviões — ou, melhor dito, dos planadores — para mergulharem no seu ubérrimo seio, para a sobrevoarem em voo livre a velocidades que chegam a atingir os 260km/hora.

A nuvem, essa, é capaz de se mover a uns impressionantes 60km/hora, como um monstro celeste prestes a devorar o universo. O seu poder é tal que, diz-se, antes de ela se avistar no horizonte todas as folhas das árvores se agitam e, reza a lenda, a madeira das mesas do único pub de Burketown começa a curvar, a enfolar-se, e a humidade é tanta que as portas de vidro dos refrigeradores ficam cobertas de geada.

Os aborígenes têm um termo sensacional para o fenómeno — yppipee, que anuncia a estação das chuvas de final de Outubro –, mas o seu nome universal é outro, e não menos belo: a Glória da Manhã.

Por causa dela, pus-me a folhear uma preciosidade que recentemente me veio parar às mãos, o International Cloud Atlas, em vários volumes, edição da Organização Meteorológica Mundial, de 1956, objecto, em 1974, de um resumo em português do nosso Serviço Meteorológico Nacional.

É obra prodigiosa, maravilhosa, que começa por definir o que é uma nuvem (“agregado visível de partículas muito pequenas de água no estado líquido ou no estado sólido, ou nos dois, em suspensão na atmosfera”) e depois nos leva pelo complicadíssimo reino da taxonomia nebulosa, onde existem, caso não saibam, nuvens nacaradas e nuvens noctilucentes e, nas diversas espécies de nuvens, os cirros, os cirrocúmulos, os cirrostratos, os altocúmulos, os altostratos, os nimbostratos, os estratocúmulos, os estratos, os cúmulos e, claro está, os cumulonimbos.

A coisa, já de si difícil, não fica, porém, por aqui, pois existem subespécies: um simples cúmulo, por exemplo, pode ser humilis, mediocris, congestus ou fractus, havendo ainda a variante radiatus. Não contente com isso, há espécies acessórias muito fofas, todas com nomes latinos — pileus, velum, virga, praecipitatio, tuba, arcus, pannus, mamma, incus –, que nos fazem mergulhar numa autêntica nuvem, mas de ignorância, para usarmos o título de um célebre texto místico inglês do século XIV, The Cloud of the Unknowing, traduzível à letra por A Nuvem do Não-Saber ou A Nuvem do Desconhecido.

De facto, é tudo tão nebuloso e tão complexo que, descendo das nuvens à terra, o mais que se oferece dizer é que nem nos apercebemos da importância que elas têm tido na história e na cultura humanas.

E os que julgam que o Dumbo foi o primeiro elefante voador do mundo, devem ficar a saber que, de acordo com os mitos sânscritos das origens, os primeiros elefantes da Criação eram brancos e tinham asas, e eram dotados do poder mágico de fazer chover.

Mais intrigante é pensarmos que uma nuvem mediana alberga consigo 10.000.000.000 de gotículas por metro cúbico e que o peso total dessa nuvem mediana (uma cumulus mediocris, por exemplo) é de 200 mil quilos, o equivalente a oitenta elefantes (outra estatística impressionante: a energia contida num cumulonimbo é duas vezes a da bomba de Hiroxima).

As nuvens não são um exclusivo das cosmogonias hindus, surgindo na Bíblia, por diversas vezes: no Monte Sinai, orientando o êxodo de Moisés, ou nos Actos dos Apóstolos, na Transfiguração e na Ascensão de Cristo – Deus, irrepresentável, surgia atrás de uma nuvem, a shekinà, ou era simbolizado por ela, não sendo por acaso que, segundo o esoterismo islâmico, Alá era uma nuvem antes de se revelar, ou que as nuvens tiveram papel fulcral em todas as religiões e crenças do mundo, desde os povos do Báltico aos aborígenes, passando pelos budistas ou pelos Massais do Quénia.

A redescoberta da mitologia clássica pelo Renascimento produziria até exemplos de “pornografia nebulosa”, como lhes chama Gavin Pretor-Pinney, que a este propósito cita o quadro Júpiter e Io, pintado por Correggio em 1532, e actualmente no Kunsthistorisches Museum, de Viena, no qual se mostra aquela sacerdotisa em êxtase, abraçada pelo deus lascivo em forma de nuvem ou, mais precisamente, de cúmulo.

Andrea Mantegna, de seu lado, preferia os altocúmulos e, dos três quadros que pintou de São Sebastião, dois mostram-no cercado dessas nuvens: um está no Louvre; o outro, no Kunsthistorisches Museum, tem uma nuvem curiosíssima, com a forma de um homem a cavalo no lado esquerdo da tela (vejam na Net, que vale a pena).

E, em Minerva Caçando os Vícios do Jardim da Virtude (ou O Triunfo das Virtudes), no Museu do Louvre, Mantegna cometeu a proeza de colocar, dissimulado, um rosto de perfil na forma de um cúmulo que atravessa os céus.

Séculos depois, na Feira Mundial de Osaka, de 1970, a escultora japonesa Fujiko Nakaya surpreenderia o mundo com as suas esculturas de fumo e nuvens feitas a partir de jactos de água, experiência que replicaria nas décadas vindouras, em obras cada vez mais elaboradas e envolventes; e, na Expo 2002, na Suíça, os arquitectos Elizabeth Diller e Ricardo Scofidio ergueram em Yverdon-Les-Bains, no Lago de Neuchâtel, um estranho e assustador pavilhão feito de uma espessa massa de fumo, o “Blur Building”, exemplo típico da “arquitectura de atmosferas”, liquefeita e evanescente.

Mas se é grande a beleza da arte, maior a da natureza. Quem duvidar que veja imagens de um fenómeno chamado “evento luminoso transiente”, o qual assume três formas distintas: os blue jets (jactos azuis), os sprites (ou duendes) e os elves (elfos).

Segundo a informada Wikipédia, trata-se, e cito, de “electrometeoros caracterizados por emissões ópticas de curta duração, em geral de luminosidade muito menor do que o comum relâmpago, que se desenvolvem na média e alta atmosfera por cima de trovoadas activas”.

Quem fica fascinado com as auroras boreais, não pode deixar de contemplar esta extraordinária beleza da natureza, visível a olho nu apenas por escassas fracções de segundo, e que assume formas únicas, desconcertantes, como gigantescas medusas de vermelho vivo, vivíssimo, as quais, ademais, só foram descobertas há bem pouco tempo, nos anos 1990.

Razão tinha o fotógrafo Alfred Stieglitz quando, em 1925, começou a fotografar a beleza das nuvens nos céus, projecto que levou a cabo até 1934 e do qual resultaram 220 imagens, pelo menos.

A série, denominada Equivalents, é um prodígio de técnica e de estética e, segundo se diz, Stieglitz foi o primeiro a retratar as nuvens apenas enquanto tal, apenas pela sua qualidade artística.

As suas nuvens constituem objectos singularíssimos: por um lado, são um puro produto da natureza, nelas não há truques nem artifícios, mostram-se como estão no céu andante; por outro, são imagens extremamente abstractas, quase parecendo pinturas, pois nelas não se descortina nada que não sejam manchas ou traços brancos num fundo escuro.

É essa sua natureza abstracta e fugidia que torna difícil traduzir as nuvens em música, clássica ou contemporânea. Muitos compuseram já sobre tempestades e trovões, fenómenos de muita e tremenda sonoridade, mas as nuvens, em si mesmas, são mudas e silentes, não fazem ruído algum.

Pelo menos, era o que que pensávamos até conhecer a Harpa das Nuvens, concebida por Nicolas Reeves, professor canadiano (não confundir com o controverso egiptólogo britânico Nicholas Reeves) que inventou um instrumento electrónico meteorológico que, através de um radar, converte as diferentes formas de nuvens em sequências musicais e que já foi instalado em diversos locais do Canadá, dos EUA, de França, da Alemanha e da Polónia.

Na sua imensa variedade, as nuvens tanto convocam a imaginação romântica e a sua noção de sublime (lembremos as gigantescas telas paisagistas norte-americanas do século XIX, como as de Frederic Edwin Church ou Albert Bierstadt, prolongadas nas fotografias de Anselm Adams ou nos westerns de John Ford) como se prestam a devaneios futuristas de ficção científica: os altocúmulos lenticularis têm, como o nome indica, a forma de uma lentilha, mas também, estranhamente, a de um disco voador, não admirando, pois, que tenham sido confundidos com OVNI”s por vários aviadores ou simples observadores.

Uma fotografia feita em Julho de 1907, na cidadezinha de Droebak, na Noruega, foi divulgada, durante décadas, como prova da existência de naves extraterrestres, até que alguém concluiu ser um altocúmulo lenticularis, perfeitamente natural e, de resto, há muito conhecido na arte ocidental: na sequência de frescos pintados em 1466 na Basílica de São Francisco, em Arezzo, intitulada A Lenda Verdadeira Cruz, Piero della Francesca representou diversos altocúmulos lenticularis, um tipo de nuvem que provavelmente conhecia bem, dado ter nascido em Borgo San Sepolcro (actualmente, Sansepolcro), uma terra situada nas faldas dos Apeninos e, por isso, muito propícia à formação daquela forma nebulosa, que, insiste-se, nada a tem a ver com OVNI”s ou extraterrestres.

Ainda assim, alguns persistem em associar as nuvens ao sobrenatural e até mesmo ao Diabo: na Cidade do Cabo, há uma nuvem gigante, soberba e belíssima, que por vezes cobre por completo a Table Mountain com um impressionante manto branco (e, por isso, é chamada pelos locais de Tablecloth).

Trata-se de um stratocumulus, idêntico aos que frequentemente cobrem as montanhas como um boné, e que deu azo a uma lenda antitabagista: Jan Van Hunks, um pirata neerlandês do século XVIII, cansado de uma vida passada a semear o terror nos mares, decidiu repousar no sopé da Table Mountain e aí fumar tranquilamente o seu cachimbo; um homem acercou-se dele, desafiando-o para uma competição, cujo prémio seria um pote de oiro para aquele que conseguisse fumar durante mais tempo.

Após vários dias a esfumaçar, tanto que cobriu a montanha de uma espessa nuvem, Jan Van Hunks venceu a aposta, mas acabou por descobrir que, desgraçadamente, o seu contendor era o próprio Diabo, que não só não lhe deu oiro algum como o envolveu naquela nuvem densíssima, irrespirável, precipitando-o para sempre nos quintos dos infernos. Um aviso para os fumadores…

São também do domínio diabólico as experiências que, ao longo de décadas, as potências militares têm feito com as nuvens, na ânsia de controlar o poder imenso encerrado em cada gotícula, apesar de minúscula (uma gota de um cúmulo não tem mais do que 0,005 milímetros).

Desde há muito que se associam as previsões meteorológicas às guerras e aos esforços bélicos: a Escola de Bergen, fundada em 1917 por Vilhelm Bjeknes, no rescaldo da Primeira Guerra, pioneira nos estudos da atmosfera e do clima, usou um vocabulário fértil em alusões guerreiras e, por isso, ainda hoje falamos em “frente fria” ou “frente polar”.

Durante a Segunda Guerra, os cientistas Irving Langmuir e Vincent Schaefer colaboraram com a General Electric num programa para criar nuvens artificiais para dissimular o armamento, o qual se estenderia pelo pós-guerra e daria azo, em 1947, ao Projecto Cirrus, com vista a alterar a trajectória dos furacões e tufões.

Durante a Guerra Fria, americanos e soviéticos gastaram fortunas em projectos militares para controlar o clima através das nuvens e, em 1957, o comité para esse efeito nomeado pelo Presidente dos EUA fez uma afirmação lapidar, infelizmente actual: “alterar o clima pode ser uma arma mais poderosa do que a bomba atómica”.

No decurso da “Operação Popeye”, em 1966, a América despejou toneladas de químicos sobre os céus do Laos, e outros tantos no Vietname e no Cambodja, para aumentar as chuvas e antecipar a chegada das moções com vista a perturbar os movimentos do inimigo.

Não foi uma loucura do passado: em 1999, a Organização Meteorológica Mundial anunciou que 24 países levavam a cabo mais de uma centena de projectos de alteração do clima. A China, sempre ela, está na vanguarda, sendo o país que actualmente mais investe na manipulação climática, cerca de 40 milhões de dólares ao ano.

“Por muito que os homens maldigam a chuva que lhes cai sobre a cabeça, é ela que lhes traz a abundância e esconjura a fome”, disse São Basílio, o Grande, já no século IV.

Infelizmente, terrivelmente, “os dados científicos mais recentes confirmam que não podemos contar com as nuvens para suprimir o aquecimento global”, diz-nos, de forma terminante e cortante, o Professor Paulo Ceppi, climatologista do Imperial College, de Londres, numa obra há pouco publicada entre nós e que deveria ser de leitura obrigatória para todos, sem excepção: O Livro do Clima (ed. Objectiva, 2022), compilação concebida por Greta Thunberg, e que reúne dezenas de breves textos, todos elucidativos e esmagadores, da autoria dos melhores especialistas, sobre o desgraçado estado do planeta. Se tivesse que recomendar um livro do ano, pela actualidade e urgência, seria este, sem sombra (ou nuvem) de dúvida.

É saboroso, mas em simultâneo trágico, ver a súbita conversão climática e o arrepiar de caminho dos que até há bem poucos anos gozavam com a Greta e desdenhavam o seu activismo ambiental.

Na altura, irritados pelas proclamações inflamadas da catraia (que, em si mesma, reconheço, tem o seu quê de irritante), foram incapazes de ver para além dela, de tomar consciência do acerto do muito que ela dizia, mesmo que não gostássemos, nem gostemos, da forma arrogante e petulante como fala.

Simplesmente, obviamente, a questão não estava na forma da miúda, mas na sua substância — e, na substância, Greta Thunberg tinha e tem mais do que razão.

Agora, há quem critique o radicalismo dos jovens que se pespegam às telas dos nossos museus, que atiram sopa e tomates aos inocentes quadros, num afã de criar escândalo que, além de contraproducente, é deveras estúpido (primo, a arte não tem culpa nenhuma do aquecimento global e é até, como atrás vimos, uma forma de admirar a natureza e de cuidar do seu futuro; secundo, se quiserem provocar a sério, façam-no junto das petrolíferas, nas gasolineiras, nos aeroportos).

Não percebemos, porém, que isso é só o início de uma contestação que, com o passar do tempo, tenderá a agudizar-se e a tornar-se a cada dia mais intensa e violenta, numa espiral galopante.

Não é descabido nem alarmista supor que, um dia destes, teremos quadros destruídos e incendiados ou coisas muito piores (What next, petrol on a Picasso? Threatening art is no answer to the climate crisis, escrevia há dias Jonathan Jones, no insuspeito The Guardian) Eis mais um efeito colateral, e obviamente condenável, da inércia de governos e cidadãos perante o aquecimento do planeta, o qual também dará azo a novas guerras, a migrações em massa, a graves disputas por água e por alimentos (há poucos meses,

Espanha não cortou a água do Douro, falhando as cotas convencionadas em Albufeira? A tal propósito, que fez ou disse o nosso governo na recente cimeira ibérica?).

Adivinham-se, portanto, tempos bem plúmbeos, muitas e negras nuvens nos horizontes do futuro. Razão acrescida para que, no presente, admiremos a indescritível beleza da Glória da Manhã e dos cirros que têm pincelado os céus deste Outono, felizmente nebuloso e chuvoso. É o tempo dela, diziam os antigos da chuva. E nós, com eles, só temos de a festejar.

Historiador

Escreve de acordo com a antiga ortografia.

Diário de Notícias
António Araújo
20 Novembro 2022 — 01:06

– Também aprecio muito o formato das nuvens e embora não tenha conhecimentos de Nefologia ((do grego néphos, nuvem, e logos, estudo) é a ciência que estuda as nuvens), adoro, sempre que possível, fotografar as suas formas, normalmente no final da tarde aquando do por do Sol. Abaixo, uma das muitas centenas de imagens de nuvens que tenho captado ao longo dos anos.

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468: Os donos disto tudo

OPINIÃO

É estranho chegar a uma certa idade sem perceber nada de como funciona o mundo. Soube há dias, por um acaso, que, nos idos anos 1990, aquando do frenesi das privatizações na Rússia, a PepsiCo, detentora dos refrigerantes gaseificados, tornou-se uma das maiores potências navais do mundo, pois, em troca das garrafas e das latas Pepsi que estava a vender à larga para a ex-URSS, aceitou ser paga em espécie: 17 submarinos soviéticos, um cruzeiro, uma fragata e um contratorpedeiro.

A frota foi vendida para sucata, o que levou o presidente da empresa a gracejar com a Casa Branca: “nós estamos a desarmar a União Soviética muito mais depressa do que vocês.”

É desta e de muitas outras loucuras que se faz o nosso tempo, triste e opaco, sem rumo nem norte, abominável mundo novo. E, por detrás dos governos e dos políticos, da ONU e doutras organizações internacionais, das diplomacias, cimeiras bi- ou multilaterais, há gente que actua na penumbra e na sombra, que movimenta o planeta e o põe a rodar sem que nós, os comuns mortais, tenhamos a mínima consciência disso, das decisões e opções que afectam milhões, muito mais do que julgamos.

Quando lemos nas notícias que a Rússia autoriza ou não a exportação do ucraniano grão, quando sabemos dos movimentos e dos fluxos do petróleo e da recente – e inacreditável – facada da Arábia Saudita nas costas no Ocidente, julgamos que tudo se passa a um nível estritamente político, entre governos e líderes cujos rostos conhecemos, quando, na realidade, e sem falsos conspirativismos, há outra gente envolvida, muita outra gente envolvida, que compra e vende as mercadorias, os bens de necessidade primeira, que os paga a pronto ou a fiado, que os vai buscar a terras em guerra, que os despacha para onde mais pagarem.

O Mundo à Venda. Dinheiro, poder e as corretoras que negoceiam os recursos da Terra (Casa das Letras, Setembro de 2022), um livro recente, da autoria de dois credenciados jornalistas do Financial Times e da Bloomberg, Javier Blas e Jack Farcity, levanta a ponta do véu da actividade dos corretores de matérias-primas, um punhado de empresas que controlam uma parcela substancial dos recursos naturais do planeta e que na sombra fazem lucros estratosféricos, muitas vezes à conta da guerra e do sofrimento alheio.

Dirão os seus defensores que, sem os corretores de recursos, não teríamos o que comer à mesa nem gasóleo nos depósitos, não haveria casas, computadores, aviões no ar, carros nas estradas, o que é indiscutivelmente verdade, mas mostra o poder que tais indivíduos e empresas têm, a sua capacidade de domínio e influência, com a agravante de não sabermos quem são e o que fazem, de agirem na obscuridade e quase total impunidade, alheios ao controlo democrático e ao escrutínio mediático a que sujeitamos, e bem, os nossos governantes.

É por isso, justamente por isso, que se torna ainda mais absurdo, inconcebível, que ignoremos sequer a existência destas pessoas e entidades, que não saibamos quem são e o que fazem, quais são os seus líderes e os seus perfis, concentrados que estamos em celebridades ou políticos que, na esmagadora maioria dos casos, não têm poder comparável ao desta gente sem rosto.

Fiz a experiência: na sempre informada Wikipédia, cliquei no nome de “Gary Neagle” e deparei com quatro linhas apenas, que nos dizem tratar-se de um sul-africano que fez um curso de comércio e de contabilidade na Universidade de Witwaterstrand e que em 2000 entrou para os quadros da Glencore, de que é hoje o CEO.

Nada mais é dito, nada mais sabemos sobre o homem que está aos comandos de uma das maiores empresas do mundo, ainda hoje a maior empresa de corretagem de mercadorias do planeta, até há pouco a maior empresa da Suíça, dominando 60% de todo o zinco comerciado internacionalmente, 50% do cobre, 9% do trigo, 3% do petróleo.

Ou veja-se uma outra empresa, a familiar e centenária Cargill, sediada no Minnesota, da qual provavelmente poucos ouviram falar, ao contrário do que sucede com a Apple, a Zara, a IKEA ou tantas outras. Pois bem, a Cargill é uma empresa privada, mas, se fosse aberta e cotada em bolsa, estaria no 15º lugar do índice Fortune 500.

Com mais de 166 mil empregados espalhados por 66 países, dedica-se ao trading de cereais e outros produtos agrícolas, como o óleo de palma, mas também ao comércio de energia, aço, gado, rações, bem como à produção de xarope de glucose, óleos vegetais, alimentos processados.

É responsável por 25% de todas as exportações norte-americanas de trigo e pelo abastecimento de 22% da carne consumida nos Estados Unidos. Todos os ovos consumidos nos restaurantes McDonald”s da América provêm de aviários da Cargill, que é também a maior produtora de frangos da Tailândia.

O seu CEO chama-se Dave McLennan e, se forem novamente à Wikipédia em língua inglesa, encontrarão não mais do que três linhas, que dizem apenas que se formou em Amherst e que fez um MBA em Chicago, que é casado e tem três filhos, mas nada mais adiantam ou esclarecem.

Sucede que, em 2019, num relatório produzido para o Center of International Policy, um think tank de Washington fundado em 1975, o antigo representante democrata Henry Waxman não hesitou em qualificar a Cargill como “a pior empresa do mundo”, cuja dimensão colossal a faz esmagar todos os seus concorrentes e com um inenarrável cadastro em matéria de abate de florestas, poluição, alterações climáticas e tráfico e exploração de seres humanos.

O rol das acusações é extenso e brutal: em 2021, oito antigas crianças escravas do Mali intentaram uma acção contra a Cargill, pelas condições de trabalho que sofreram nas plantações de cacau do Mali, existindo notícias sobre redes de tráfico e exploração nesses países desde 2005, pelo menos, o mesmo sucedendo com o algodão do Usbequistão, que a Cargill adquire e que é produzido com trabalho escravo e trabalho infantil.

A isso juntam-se problemas laborais gravíssimos, como tentativas de supressão de sindicatos, exposição dos funcionários aos riscos da Covid-19, a par de aquisição abusiva de vastas parcelas de terra, violando os limites da propriedade fundiária, venda de alimentos adulterados (em 1971, a Cargill foi responsável pela venda de trigo contaminado ao regime de Saddam Hussein, provocando a morte de 650 pessoas, pelo menos), deflorestação na selva amazónica e das florestas tropicais na Sumatra, no Bornéu, no Gana, na Costa do Marfim (a Cargill comprava ou compra cacau plantado ilegalmente nos parques naturais desse país!), poluição atmosférica intensa, fraude e evasão fiscal. “A pior empresa do mundo”, dizem, e o mais grave é nem sabermos que ela existe e o que faz.

“Agora e por ora, uma coisa é certa: Putin e Xi, Mohammad bin Salman e outros prestaram-nos um grande, enorme serviço, ao mostrarem-nos que temos de arrepiar caminho e mudar de vida, de dependermos menos, cada vez menos, do petróleo sujo das ditaduras.”

Para termos uma ideia, basta dizermos que as cinco maiores corretoras de petróleo do mundo lidam diariamente com 24 milhões de barris de crude e produtos refinados, o equivalente a quase um quarto da procura de petróleo mundial.

Ou que as sete maiores corretoras de bens agrícolas detêm quase metade dos cereais e sementes oleaginosas do mundo. Ou que a Glencore, a maior corretora de metais do planeta, representa um terço da oferta mundial de cobalto, uma matéria-prima essencial para a produção de veículos elétricos.

É certo que, a par dessas empresas, muitas outras se dedicam ao comércio de matérias-primas, como as grandes petrolíferas, com a BP e a Shell à cabeça, ou instituições bancárias como a Goldman Sachs ou a Morgan Stanley.

Mas o que impressiona, além da opacidade tremenda, é o grau de concentração e domínio que este punhado de corretoras adquiriam: a partir de um bunker numa cidadezinha da Suíça, a Glencore é uma das maiores corretoras de trigo e de metais do mundo e controla uma parcela do negócio de petróleo, cuja empresa-líder é a Vitoil, sediada em Londres, a curta distância do Palácio de Buckingham.

Desde que o mundo existe, existem indivíduos ou companhias que se dedicam a negociar e a intermediar compras e vendas de bens e produtos. Contudo, foi a explosão do comércio mundial no pós-Segunda Guerra que levou à expansão das corretoras e, sobretudo, à sua concentração em gigantescos colossos que actuam à escala global e desafiam o poder de governos e a soberania dos Estados.

Nos anos a seguir à guerra, o comércio mundial de matérias-primas e bens manufacturados representava cerca de 60 biliões de dólares; em 2017, representou mais de 17 triliões de dólares.

É também espantoso notar como estas empresas singraram e se mostraram e mostram imunes às sucessivas convulsões que abalam o mundo – e até, pelo contrário, como são capazes de tirar partido dessas convulsões para aumentarem os seus lucros e o seu poderia.

Até aos anos 1960, o comércio mundial de petróleo era dominado pelas chamadas “Sete Irmãs”: a Anglo-Persian Oil Company, antecessora da BP; a Royal Dutch Shell; a Standard Oil of California, a Gulf Oil e a Texaco, que se uniram na actual Chevron; a Jersey Standard e a Standard Oil of New York, predecessoras da ExxonMobil.

Com as vagas de nacionalizações que assolaram os países do Médio Oriente nas décadas de 1960 e 1970, o monopólio das “Sete Irmãs” foi seriamente afectado e, de repente, o mercado mundial do petróleo tornou-se livre, ou na aparência mais livre, pois logo foi capturado pelas corretoras de matérias-primas, que tiveram aqui o seu grande boom.

Mais tarde, com o colapso da União Soviética, as corretoras entraram a matar no vasto paraíso de recursos naturais da Rússia e, anos depois, voltaram a beneficiar extraordinariamente do espectacular crescimento económico da China, um país sedento de matérias-primas. Para se ter uma ideia: em 1990, a China consumia o mesmo montante de cobre de Itália e hoje é o maior consumidor de cobre e o maior produtor de metal refinado do mundo.

E, na década do boom das matérias-primas liderado pela China, que se prolongou até 2011, os lucros combinados das três maiores corretoras eram superiores aos dos mais conhecidos gigantes do comércio internacional, como a Apple e a Coca-Cola.

Outra circunstância que favoreceu, e muito, os corretores internacionais foi, segundo os autores de O Mundo à Venda, a “financeirização” da economia e o crescimento do sector bancário nos anos 1980 e seguintes, facto que permitiu aos traders negociarem agora com base em vultuosos créditos e garantias bancárias.

Em 2019, as quatro maiores corretoras de matérias-primas tiveram um volume de negócios de 725 mil milhões de dólares – mais do que o total das exportações do Japão.

O abrandamento da economia imposto pela Covid reflectiu-se numa redução dos preços das matérias-primas, o que implicou perdas para os mais frágeis, mas, uma vez mais, permitiu aos grandes potentados adquirirem mercadorias a preços de saldo, ridiculamente baixos, guardarem-nas nos seus gigantescos silos e revenderam-nas com lucros fabulosos (alguns corretores compraram mesmo barris de petróleo a preços negativos, o que obrigou a produtores a pagarem para vender a sua mercadoria!).

E, a crer do que ocorreu no passado, em que as guerras sempre beneficiaram os traders de bens essenciais, é possível, até provável, que hoje em dia existiam corretores a fazerem fortunas astronómicas com o grão da Ucrânia ou o petróleo da Rússia. É que, na perspectiva dos corretores, quanto pior, melhor, ou seja, a instabilidade de uma dada região é, em regra, um factor de maior rentabilidade.

Se um país rico em recursos mergulhar numa guerra civil fratricida, os que lá se aventurem com o bolso cheio de dólares poderão comprar a preços de saldo aos dois lados em contenda; em certos casos, as corretoras, como dispõe de fundos financeiros gigantescos, não hesitam em financiar uma das facções em luta, ou ambas, a troco de contratos que hipotecam os recursos naturais do país por 10, 15, 20, 30 anos. (foi a Vitol que financiou os rebeldes da Líbia e, em larga medida, precipitou a queda de Kadhafi).

Ou seja, a violência e a guerra interessam a estas empresas, como lhes interessam as altas de preços, mesmo que isso impliquem o sofrimento e a penúria de milhões. Na crise do petróleo de 1979, a Marc Rich & Co. ganhou tanto dinheiro que, se estivesse cotada em Bolsa, teria sido uma das dez empresas com mais lucro da América.

Não muito depois, Marc Rich teve de fugir dos Estados Unidos, onde era acusado de crimes vários (ex. evasão fiscal, escutas ilegais, extorsão, negócios ilícitos com o Irão aquando da crise dos reféns), que foram escandalosamente perdoados por Bill Clinton no último dia do seu mandato, facto a que não serão alheios os donativos milionários feitos para o Partido Democrata.

© Rafael Costa

As sanções económicas não dissuadem estes donos do mundo e, pelo contrário, criam até, muitas vezes, um ambiente mais favorável a actuar na sombra e a reclamar maiores lucros.

No Iraque, as corretoras negociaram com Saddam Hussein, ignorando as sanções da ONU, da mesma forma que trocaram açúcar por petróleo com Fidel Castro, venderam secretamente toneladas de trigo e de milho norte-americanos à URSS no auge da Guerra Fria e, claro está, financiaram os negócios dos oligarcas de Vladimir Putin, como Igor Sechin, o patrão da Rosneft, alcunhado “Darth Vader”, que hoje é alvo de fundas sanções no Ocidente.

Nada que dissuada os traders de matérias-primas, que nunca hesitaram em negociar com os ditadores mais sanguinários do planeta, mesmo quando já era certo e sabido as atrocidades que praticavam.

E, ao longo das últimas décadas, é inimaginável a dimensão da corrupção praticada as corretoras de recursos: têm-se sucedidos os escândalos e os processos, mas eles representam apenas a ponta de um icebergue quilométrico, que já envolveu, entre outros, um dos maiores bancos do mundo, o BNP Paribas, alvo de uma multa de 8,9 biliões de dólares, em 2014, por negociar com países alvos de sanções pelos EUA, como o Sudão, o Irão e Cuba, país onde o BNP Paribas financiou a acção de uma corretora, a Trafigura, a qual esteve metida em tremendos escândalos como o do programa Petróleo-por-Alimentos das Nações Unidas, que encerrou em 2003 devido aos seus esquemas fraudulentos e corruptos, e o do lixo tóxico despejado na Costa do Marfim, em 2006, responsável por uma crise de saúde pública que afectou cerca de 100 mil pessoas.

É quase desnecessário dizer que uma parcela significativa das matérias-primas que circulam no mundo estão sediadas em off-shores, fugindo ao controlo de qualquer regulador nacional, e recorrem a empresas de fachada, enquanto as corretoras se domiciliam na Suíça ou em Singapura, desde sempre complacentes para com a escória do mundo.

Num mundo globalizado, de pouco vale ter mecanismos de transparência e controlo nacionais, válidos em cada país, se depois não existir regulação e vigilância num plano mais vasto, internacional.

De que adianta ter mecanismos que impeçam, em França, em Portugal, no Canadá ou no Brasil, excessivas concentrações de empresas, práticas monopolistas ou distorções de concorrência se as empresas em causa têm as suas sedes em off-shores e actuam não à escala nacional, mas transnacional? Um exemplo: nas duas últimas décadas, a Vitol, a rainha do petróleo mundial, pagou apenas 13% em impostos sobre os seus lucros de mais de 25 mil milhões de dólares.

Na Bélgica, a carga fiscal sobre o trabalho é de 52,6%, em Portugal é de 41,8%, a média dos países da OCDE é de 34,6% A Vitol pagou 13% sobre os seus lucros de 25 biliões. Em face disto, não admira que surjam, cada vez mais, sentimentos de revolta e populismo anti-sistémicos; o que admira, isso sim, é que essa revolta e esse extremismo sejam ainda tão reduzidos.

Para as injustiças que vemos por esse mundo fora, se o comportamento dos cidadãos surpreende por alguma coisa é pela sua moderação, pelo conformismo, pelo respeito por um estado de coisas cada vez mais precário e insuportável. As democracias preocupam-se, e bem, com o ascenso de forças políticas extremistas, mas pouco fazem para debelar os problemas económicos e sociais que lhe dão origem.

De pouco adianta, na verdade, gastar milhões na vigilância de grupos neonazis se se mantiver o statu quo nas periferias das grandes cidades, com desemprego jovem, falta de oportunidades e perspectivas de futuro, desigualdades crescentes, crise na habitação.

Nos últimos anos, ao que parece, o poder das corretoras tem sofrido algum retrocesso, seja pelo facto de a informação privilegiada de que dispunham sobre fontes de matérias-primas, preços de compra e venda, etc., estar hoje muito mais generalizada e democratizada graças à Internet, seja porque muitos governos e organizações procedem aos seus negócios de forma directa, prescindindo de intermediários, seja, enfim, porque a cultura vigente nos traders também mudou para melhor, porventura fruto dos muitos escândalos do passado e das indemnizações milionárias que tiveram de pagar.

Resta saber, todavia, se a guerra da Ucrânia e a instabilidade mundial não representarão novas oportunidades para um regresso em força das corretoras, naquele que é mais um efeito colateral, e pouco falado, do gesto louco de Vladimir Putin.

Outro, de que pouco se fala, será o fortalecimento das redes e das máfias de tráfico humano no centro da Europa, do crime organizado, bem como dos negócios de armamento, para não falar de que, quando tudo acalmar, existirão certamente centenas ou milhares de homens armados a Leste, com experiência de combate e sem profissão e emprego. Serão necessários anos, décadas, para que tudo possa regressar ao normal.

Agora e por ora, uma coisa é certa: Putin e Xi, Mohammad bin Salman e outros prestaram-nos um grande, enorme serviço, ao mostrarem-nos que temos de arrepiar caminho e mudar de vida, de dependermos menos, cada vez menos, do petróleo sujo das ditaduras. E não, não é indiferente comprarmos energia a uma democracia comercial como a América ou a uma ditadura corrupta como a Rússia.

Resta saber como se irão portar, no meio de tudo isso, os donos e senhores do mundo, as corretoras de matérias-primas. Saber sequer que eles existem, conhecer quem são e o que fazem, é já um bom primeiro passo. E depois, confiemos no futuro, já que o presente… enfim.

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

Diário de Notícias
António Araújo
23 Outubro 2022 — 00:40



 

250: Água vem!

OPINIÃO

Ao jantar, Noé dizia sempre à mulher:
“Não me importa para onde vai a água,
desde que não vá para o meu vinho.”

G.K. Chesterton

Não há, de facto, muitas razões para termos confiança na espécie humana quando, logo nas primeiras páginas da Bíblia, uma das personagens principais do enredo, depois de ter salvo a vida na Terra, apanha uma valente borracheira, entra na tenda da família e despe-se todo à frente dos filhos.

O bêbado exibicionista, com mais do que idade para ter juízo (mais de 600 anos, e chegaria às 950 primaveras, números redondos), foi Noé, ou Noach, e o lamentável episódio, que surge logo ali em Génesis 9:20, ainda hoje intriga os teólogos, que têm dado voltas à cabeça para discernir o seu propósito, o qual, ao cabo e ao resto, é um e só um: com divina presciência, vem o Velho Testamento dizer-nos que esta mania que os bêbados têm de se despir em público não é tara de agora, mas hábito antigo como o mundo, e que o problema não está aí, mas na ressaca do day after – Noé acordou na manhã seguinte com uma indisposição dos diabos, a cabeça pesadíssima, e virou-se contra um dos filhos, o infortunado Canaã, e condenou-o, e aos seus descendentes, à eterna servidão.

Daí nasceu uma coisa boa, um deslumbrante óleo de Giovanni Bellini, A embriaguez de Noé, pintado circa 1515, hoje no Museu de Belas-Artes de Besançon, mas uma outra coisa péssima, a escravatura dos cananeus e, mais tarde, de muitos outros povos.

A surpresa, porém, não termina aqui: muitos milénios depois, e justamente por causa de Noé, um outro homem iria despir-se em público, fazendo tristes figuras, com a agravante de, desta feita, se encontrar sóbrio. Chamava-se George Smith e era um antigo gravador das placas das notas de banco, que na juventude passava horas a fio a contemplar as vitrinas onde está exposta a fabulosa colecção de tábuas assírias do British Museum – mais de 130 mil peças!

Alguém do museu reparou na curiosidade do moço, contrataram-no como tarefeiro, e Smith revelaria uma capacidade absolutamente ímpar, genial, para identificar os fragmentos em falta nas tábuas antiquíssimas, para compor os puzzles com os pedaços dispersos e, sobretudo, para ler e interpretar a intrincada escrita cuneiforme.

Ao fim de uma década de árduo labor, tornou-se um dos maiores assiriologistas de todos os tempos e, um dia, julgou ter descoberto uma tábua que falava do dilúvio universal, muito antes da Bíblia e do episódio de Noé.

Sucedia, porém, que um trecho dessa tábua, essencial para a sua compreensão, achava-se coberto por uma fina camada de argila, uma lama milenar, delicadíssima, e só outro funcionário do British Museu tinha engenho, arte e autorização superior para restaurar as tábuas mesopotâmicas. Ora, o dito funcionário encontrava-se em gozo de merecidas férias, longe de Londres.

Passou uma semana, depois outra, a seguir mais uma, e Smith, um homem já de si nevrótico, ficou uma pilha de nervos, pois o poltrão do colega não havia meio de retornar ao serviço. Semanas depois, o homem lá apareceu, levou a tábua consigo para o seu gabinete, limpou-a com mil cuidados, e devolveu-a a George Smith, que, quando finalmente a pôde ver na íntegra, confirmando a sua tese, exclamou “sou o primeiro homem a ler estas palavras ao fim de dois mil anos de oblívio!”.

Logo a seguir, ficou tão exaltado e excitado que, vá-se lá saber porquê (fala-se numa resposta epiléptica a um grande choque emocional), tirou a roupa toda e pôs-se a percorrer em pelo, dando saltinhos, os vetustos corredores do Museu Britânico, tal qual Noé havia feito logo nas primeiras páginas do Velho Testamento.

Tempos depois, mais recomposto, daria uma douta conferência na Sociedade de Arqueologia Bíblica de Londres, onde anunciou ao mundo a sua sensacional descoberta, a história do dilúvio universal narrada muitos anos antes de Noé (fala-se muito em Darwin, mas geralmente subestima-se o contributo da arqueologia para desfazer o mito criacionista).

À palestra compareceram o arcebispo de Cantuária e o primeiro-ministro William Gladstone, o que dá bem a noção da importância tremenda, a um tempo histórica e teológica, da descoberta de George Smith (e, em nós, fica a pergunta cruciante: quando é que, nos nossos dias, supostamente mais “avançados”, algum primeiro-ministro iria assistir a uma conferência sobre uma tábua da Mesopotâmia?).

O episódio é contado num livro espesso e bem denso, The Ark Before Noah. Decoding the story of the flood (Hodder & Stoughton, 2014), da autoria de Irving Finkel, um legítimo sucessor de Smith (até na aparência física: vejam-lhe a carinha na Net), e curador da preciosa colecção de tábuas do Museu Britânico.

Finkel começa por esclarecer que o que Smith descobriu não foi um trecho do Épico de Gilgameš (o grande poema mesopotâmico compilado no século VII a.C. por Assurbanípal, uma das primeiras obras da literatura universal), mas um texto mitológico sumério ainda mais antigo, a Epopeia de Atracasis, cuja primeira cópia conhecida data de 1600 a.C.

Quer no Épico de Gilgameš, quer na Epopeia de Atracasis, quer no Velho Testamento, um deus destrói o mundo, e todos os seres nele viventes, através de um grande dilúvio, mas há uma particularidade curiosa, curiosíssima: na Bíblia e em Gilgameš, o deus castiga os homens por serem maus e corruptos, enquanto na Epopeia de Atracasis flagela-os por serem ruidosos (rigmu), por não suportar mais o barulho da espécie humana, o que, segundo algumas interpretações, era uma metáfora para o problema da sobrepopulação na Mesopotâmia.

Ainda assim, e para os que se preocupam com a questão do ruído, para os que aspiram a um pouco mais de sossego e silêncio (Lisboa, um pavor!), aqui fica esta nota: há quase quatro mil anos, um deus destruiu o mundo por causa dos danados decibéis.

© Ilustração Vítor Higgs

Em todas as culturas e lugares existem narrativas lendárias de uma catástrofe primordial, geralmente sob a forma de dilúvio, as quais estão documentadas na Mesopotâmia, no Egipto, na Grécia, Síria, Europa, Índia, Extremo Oriente, Nova Guiné, Américas, Melanésia, Micronésia e Austrália. Situada na confluência entre o Tigre e o Eufrates, e por isso chamada “Mesopotâmia” (em grego, mesos significa “no meio” e potamus significa “rio”, daí hipopótamo, o “cavalo do rio”), era natural que nessa região surgissem histórias sobre enchentes prodigiosas, inundações catastróficas, que marcam, antes de tudo o mais, um ponto de ruptura no tempo e na História, doravante dividida entre um antes e um depois do Grande Dilúvio.

A descoberta de George Smith fez a ligação entre o episódio bíblico de Noé e essas narrativas mesopotâmicas, que podem ter chegado ao conhecimento dos hebreus seja porque Abraão era natural de Ur, na Caldeia, seja durante os agrestes anos do exílio e cativeiro na Babilónia.

A mim, ignaro destas coisas, o que mais espanta não é tanto o divino, antes o humano. Desde logo, o esforço assombroso que é necessário para saber ler e interpretar línguas tão antigas, mortas há milénios.

Conta Irving Finkel que, na sua formação em acádio e sumério, começou por empinar o tratado clássico Manuel d”Épigraphie Akkadienne, de René Labat, que em letra miudinha e a duas colunas reúne todos os signos compilados nos últimos três mil anos; depois, teve de aprender a escrita e, a seguir, aprender a linguagem, a qual, tendo sido falada e escrita durante milénios, teve evoluções, nuances, variantes e cruzamentos.

Ou seja, não só é necessário saber ler os caracteres da escrita cuneiforme como, sobretudo, tem de se perceber o que eles queriam dizer – e queriam dizer na sua época, à distância de vários milénios.

Só assim será possível saber se o texto em causa é um documento oficial (ex., uma lei, um decreto régio) ou privado (ex., um contrato, uma carta, um testamento), uma obra literária (ex., hinos, epopeias, provérbios) ou intelectual (ex., um tratado de magia ou de astrologia, de medicina, de matemática ou gramática).

Os grandes especialistas clássicos, alemães, ingleses e franceses, antes sequer de se aventurarem na leitura da escrita da Babilónia, tinham de possuir profundos conhecimentos de latim, grego, hebraico, árabe, copta, etíope, sírio e aramaico. O esforço hercúleo de uma tarefa destas, quase comparável a uma ida à Lua, desafia a nossa imaginação.

É também prodigioso o labor insano que tem sido feito em redor da história do dilúvio de Noé. Além dos trabalhos de arqueologia, uns visando descobrir mesmo os vestígios da Arca, outros tentando perceber o ambiente em que nasceu esse mito literário, e além do olhar dos pintores, o Dilúvio Universal tem motivado, claro, um esforço ciclópico por parte dos teólogos das três grandes religiões monoteístas, já que na Sura 71 do Corão também surge a história de Noé e das águas e, de resto, de um modo muito mais desenvolvido do que na Bíblia.

Ao longo de séculos, houve e há estudiosos que dedicaram as suas vidas a determinar a forma e o tamanho da Arca (137,2 metros, parece), o número dos humanos a bordo (oito: Noé e senhora, os seus três filhos e noras), como é que lá se albergaram tantos animais, e quais, coisas que parecem triviais, mas não são, pois eram, ao cabo e ao resto, produto da palavra divina.

Assim, na interpretação de certos rabinos judeus, Noé terá plantado cedros 120 anos antes do dilúvio, e foi com eles que construiu a Arca, a qual teria, para uns, 300 compartimentos, garantindo outros que possuía apenas 60 divisões.

Depois, havia o problema de saber como é que Noé e família se orientavam durante a escuridão do dilúvio, asseverando alguns rabinos que levava a bordo umas pedras preciosas cujo brilho assegurou a iluminação do barco.

Também se afirmou, com argumentos de peso, que um grupo de anjos cuidou de alimentar e tratar das bestas, puras e impuras, as quais, por comando divino, mantiveram-se sossegadas durante os dias em que durou a cheia (40 dias e 40 noites, para a Bíblia; apenas sete dias, na tradição babilónica), abstendo-se de se reproduzirem a bordo e de se devorarem umas às outras (é que, na verdade, se só existia um par de cada animal não-puro, se um fosse comido acabar-se-ia a espécie).

Ao contrário da Bíblia, o Corão não tem um nome para a Arca, usando apenas o termo vulgar para “barco” (safina) e não especificando como foi construído. Ainda assim, Abd Allah ibn Abbas, um contemporâneo de Maomé, garantiu que o navio tinha a forma da barriga de uma ave e era feito de madeira de teca…

No mundo cristão, Justus Lipsius (1547-1606) e o polímato Athanasius Kircher (c. 1601-80) dedicaram-se afincadamente ao estudo dos animais da Arca e Kircher fez, inclusive, um desenho pormenorizado do interior da embarcação, com os bichos arrumados de forma ordeira e tranquila, pois, segundo ele, ao tempo do dilúvio não haveria mais do que umas 50 espécies e todas as outras só surgiram de cruzamentos posteriores (a girafa, por exemplo, só teria aparecido após o dilúvio, fruto do acasalamento entre o camelo e o leopardo…).

Se tudo isto nos parece hoje caricato e risível, importa lembrar que representava um esforço para interpretar uma história divina, ou seja, algo de sagrado e bem sério.

E até nos nossos dias, mesmo os que sabem que tudo não passa de um mito e de uma metáfora literária, procuram determinar como seria a Arca e quais os materiais nela usados, pois isso esclarece-nos muito, do ponto de vista histórico e arqueológico, sobre como era a vida na Mesopotâmia. Irving Finkel garante que a Arca seria uma versão gigante dos kuphar ou quffa, as barcas circulares ainda hoje usadas no Tigre e no Eufrates (em Inglaterra existe, inclusive, uma associação dedicada ao seu estudo e preservação: coraclesociety.org.uk) e que o cenário do dilúvio foram os pântanos do sul do Iraque (Ahwar), tidos pelos Jardins do Éden e classificados como Património da Humanidade, outrora ameaçados pela ditadura de Saddam Hussein e, agora, por três anos consecutivos de seca extrema.

Há também quem procure os restos da Arca, como foi o caso do astronauta James Irwin, que a ida à Lua converteu ao criacionismo, mas a tarefa é quase impossível pois, ao contrário do que muitos julgam, o Ararat não é um monte isolado, mas uma vasta cordilheira, falando a Bíblia justamente de “montanhas de Ararat” (Gen., 8:4). E, já agora, porquê procurar os restos da arca nas faldas de Ararat e não nas montanhas Zargos, no Irão, como consta das epopeias babilónicas de Atracasis e de Gilgameš?

Nos nossos dias, a história do dilúvio tem sido recuperada no âmbito da “teologia do ecocídio”, de que é exemplo o admirável ensaio que Teresa Bartolomei publicou no seu livro Dove abita la luce? Figure in cammino sulla strada della Parola (Vita e Pensiero, 2019), cabendo dizer, caso não saibam, que a autora, de quem tenho o privilégio de ser amigo, vive e ensina em Portugal, é uma das mulheres mais cultas e uma das pensadoras mais profundas deste país, estranho país que prefere escutar as vacuidades dos opinadores televisivos em detrimento de quem, como esta teóloga da Universidade Católica, estuda honestamente e a fundo, e sabe verdadeiramente do que fala.

No longo texto que dedica a Noé e ao “ecocídio”, Teresa Bartolomei mostra-nos que o Dilúvio não resultou de uma punição desferida por um Deus vingativo, sendo antes o produto da responsabilidade humana e, logo, uma questão moral.

Na verdade, Javé não aniquilou por completo a nossa espécie ou a biosfera, coisa que poderia ter feito na sua omnipotência; pelo contrário, quis justamente preservar o Homem, na pessoa de Noé e da sua família, os quais seriam salvos das águas através das águas, como sucederá a Moisés.

O Dilúvio ilustra, assim, a responsabilidade ética que temos para com as gerações futuras e para com o planeta e com as demais espécies, cuja destruição é fruto dos excessos nossos, só nossos, não o produto de ira divina ou uma fatalidade da natureza.

O dilúvio bíblico, de resto, não é uma narrativa de extinção, mas de renascimento: após a descida das águas e do regresso da pomba com o ramo de oliveira, Deus estabelece um novo pacto de aliança com Noé e os seus descendentes, à luz do qual a humanidade aprendeu, ou deveria ter aprendido, o princípio mais básico e essencial de todos – ninguém se salva sozinho.

Desgraçadamente, catastroficamente, esquecemo-nos desta lição e, sobretudo nas últimas décadas, temos sido uns péssimos cuidadores do Jardim do Éden – como nos têm lembrado sucessivos papas, de Paulo VI à Laudato si” de Francisco.

Julgamos erroneamente que o dilúvio, real ou imaginário, ocorreu em tempos imemoriais e que pouco ou nada de comum possuímos com os assírios ou com os hebreus, que Assurbanípal ou Abraão são personagens longínquas e de lenda.

Pensemos, porém, no seguinte: se 35 indivíduos se colocarem numa fila, e se cada um tiver uma idade de 75 anos, isso significa 2.625 anos. Apenas cerca de 87 gerações nos separam desta gente, dos reis que governaram os povos, dos escravos que ergueram os palácios.

No fundo, é como se eles e nós estivéssemos numa fila para o cinema, na companhia de Cristo, Gengis Khan, do rei D. João II ou de Luís XIV, uns colados atrás dos outros. Por isso, da próxima vez que na Loja do Cidadão receber a senha 35, lembre-se que é Nabucodonosor quem está ao balcão a ser atendido a renovar a carta ou o BI.

Também entre nós e o Dilúvio não há grande distância, bastando ouvir os noticiários que dizem que, nas últimas semanas, um terço do Paquistão foi submerso pelas águas ou que informam que o Rijksmuseum afundou 15 centímetros e que todas as casas do centro histórico de Amesterdão estão em riscos de colapsar (Bloomberg, 3/9/2022).

Os custos de salvamento orçam a quantia de 100 mil milhões de euros e o problema afectará muitos edifícios de madeira erguidos sobre as águas: na Alemanha, na Suécia e, claro, em Veneza.

Por isso, e por muito mais, é chegado o tempo de construirmos uma nova Arca e de percebermos que ela é – e tem de ser – o planeta inteiro, todo ele, pois nenhuma nação e nenhum indivíduo isolado, por mais ricos ou poderosos que sejam, poderão salvar-se sozinhos.

Não se percebe o que ocorre na cabeça de alguém como Peter Thiel, o desprezível multimilionário que fundou o PayPal e foi um dos primeiros investidores no Facebook, que financia à larga figuras sinistras do Partido Republicano que negam as alterações climáticas, e que deu milhões para Donald Trump, enquanto tenta construir na Nova Zelândia uma mansão para se refugiar do aquecimento global.

Pensará ele que, num cenário de catástrofe, como aquele que já está a ocorrer, poderá mesmo salvar-se, isolado de tudo e todos, e viver com qualidade nos confins da Terra?

Que passa pela cabeça da família Koch, talvez os maiores ecocidas do mundo, donos de petrolíferas e indústrias químicas, que doam milhões aos negacionistas climáticos? Que se passa com os Republicanos da América?

Não é exagero dizer-se que o actual Partido Republicano, dominado e sufocado por Trump, é hoje a maior ameaça para o Ocidente, para a democracia e para o futuro do planeta. Putin e Xi Jinping serão ditadores nos seus países, se puderem tiram-nos a liberdade e oprimem-nos de morte, mas encontram-se, digamos assim, acantonados nos seus territórios e regimes. São inimigos externos, não internos.

Com os Republicanos radicais é diferente, são uma quinta coluna, poderosa e armada até aos dentes, um cavalo de Tróia que não hesitou já em invadir até a casa da democracia, o Capitólio de Washington, num gesto bárbaro que por um triz não levou ao assassinato do vice-presidente Mike Pence e da speaker Nancy Pelosi.

Num país com 393 milhões de armas nas mãos de civis, o único país do mundo que tem mais armas do que habitantes, com 120 armas de fogo por 100 residentes, os riscos de uma guerra interna são enormes, evidentes.

Mesmo que limitado a uma cidade ou a uma parte do território, um conflito armado entre facções políticas terá efeitos devastadores na estabilidade e perenidade do regime democrático dos Estados Unidos e é nisso, aliás, que apostam Putin e Xi Jinping, para quem uma guerra civil na América seria um maná dos céus.

Daqui, na Europa, deveríamos fazer tudo para apoiar as vozes da moderação e da prudência, da democracia e da liberdade, que estão hoje nas fileiras dos Democratas e em alguns restos dos Republicanos, cada vez mais amordaçados e mais raros.

Foi isso, aliás, que liberais como Fukuyama e Anne Applebaum vieram dizer-nos nas recentes Conferências do Estoril. E é isso, só isso, que evitará que que o mundo assista a um novo dilúvio – não de água, mas de sangue.

Historiador.
Escreve de acordo com a antiga ortografia.

Diário de Notícias
António Araújo
11 Setembro 2022 — 07:00



 

92: Qatar, o Mundial da Vergonha

OPINIÃO

No próximo dia 21 de Novembro, às quatro da tarde em ponto, hora local, um esférico denominado Al Rihla (“A Jornada“), fabricado pela marca Adidas, com uma cobertura de poliuretano texturizado e 20 gomos, será colocado no centro de um grande rectângulo de relva. Em seu redor, um estádio com 60 mil lugares sentados, projectado pela firma alemã AS+P, querendo “AS” dizer Albert Speer, o filho do arquitecto de Hitler.

A empresa holandesa que forneceu os relvados dos últimos três Mundiais de Futebol recusou-se a colaborar neste torneio após ter sabido que só na construção dos estádios já pereceram mais de 6750 trabalhadores, todos oriundos da Índia, do Bangladesh, do Nepal e do Sri Lanka. Nenhum cidadão do Qatar, país anfitrião, morreu na edificação das infra-estruturas que irão receber o Mundial da Vergonha.

Para os jornalistas e turistas que lá forem, para os que ficarem colados aos écrans a ver as fintas e os passes dos craques, talvez fosse útil saber um pouco mais sobre o que é o Qatar, pelo que se recomenda a leitura de um livro-reportagem acabado de sair, assinado por John McManus, um antropólogo social e escritor, que tem passado a última década no Médio Oriente e na Turquia (vive em Ancara), tendo já publicado, aliás, um outro livro sobre a paixão futeboleira turca e suas fúrias.

Este de que agora falo tem o título pouco inspirado de Inside Qatar – Hidden Stories From One of the Richest Nations on Earth (Icon Books, 2022) e, ao contrário do que se possa julgar, não é um relato preconceituoso e impiedoso dos muitos males que afligem o emirado, antes uma digressão pelas fundas incoerências de um país recente, que só viu a independência em 1971 e, desde então, anda em busca de um caminho entre os biliões do petróleo, grandiosas ambições de modernidade e pesados arcaísmos islâmicos.

Um relatório da ONU, já de 2020, descreve o Qatar como “quase uma sociedade de castas baseada na nacionalidade”, o que em parte, mas só em parte, se compreende, pois os cataris representam uma ínfima minoria no seu próprio país, sendo cerca de 313 mil cidadãos, numa população total de cerca de três milhões, essencialmente composta por imigrantes vindos da Índia (24% da população), do Nepal (16%), das Filipinas (11%), do Bangladesh (5%), do Paquistão (4%) e do Sri Lanka (2%).

Com tantos trabalhadores migrantes, a esmagadora maioria dos quais na construção civil (44% da força laboral do país trabalha nas obras), não admira que 72% da população seja masculina. Mulheres estrangeiras, no Qatar, só as empregadas domésticas vindas das Filipinas e de África, especialmente do Quénia.

Sendo óbvio que os opulentos privilégios de que gozam os cataris não poderiam estender-se à restante população (por ex., os nativos não pagam impostos e dois terços da população não trabalha, nem tem sequer ocupação), o que espanta e confrange é a brutal disparidade entre nacionais e não-nacionais, mesmo os vindos do Ocidente para empregos sofisticados e bem pagos.

Atroz ironia: na Europa e na América, onde hoje tanto se combatem as injustiças do racismo, não houve ainda um movimento em larga escala para boicotar um Mundial de Futebol realizado num dos países mais racistas do mundo, onde, segundo as estatísticas oficiais, 43% dos cataris casam com membros da sua própria família, geralmente primos em primeiro grau, o que tem provocado sérios problemas de consanguinidade, que o director do Centro de Genética Médica de Doha reconhece, mas desvaloriza em nome da preservação da “pureza de sangue do país”. Goebbels não diria melhor.

À semelhança da independência, também a riqueza é recente – mas imensa. Sem aptidão agrícola ou vocação industrial, a economia do Qatar baseava-se historicamente na apanha de pérolas em alto-mar, mas acabou por se afundar com o crash bolsista de 1929 e com a descoberta, pelos japoneses, de métodos de cultivo artificial de pérolas (facto que bem poderia servir de lição para a actualidade e para os riscos da monocultura do petróleo e do gás).

Em meados dos anos 1940, a população reduzira-se a umas 16 mil almas e o xeque Abdullah Al Thani foi ao ponto de ter de fazer um empréstimo hipotecário sobre o seu palácio. Entretanto, em 1939, geólogos da Anglo-Persian Oil Company descobriram frondosas jazidas de petróleo e, dez anos depois, começaram as exportações do ouro negro.

É ele a causa de o Qatar ser um dos países mais ricos do mundo: de 2002 a 2014, foi o mais rico; desde então, está em terceiro lugar, atrás do Luxemburgo e de Singapura.

Dinheiro a jorros, mas que beneficia quase em exclusivo 11% da população residente, os cataris de raça. Dinheiro que tem permitido compras multimilionárias pelo mundo fora: além do Harrod”s, estima-se que o Estado do Qatar tenha mais propriedades em Londres do que a rainha Isabel II, para não falar dos investimentos em marcas de luxo como a Valentino ou a Tiffany, entre tantas outras.

© Vìtor Higgs / DN

Dominado desde o século XIX pela Dinastia Al Thani, e governado desde 2013 pelo emir Tamim bin Hamad Al Thani, um autocrata que, segundo se diz, é ainda mais conservador do que o seu pai, o Qatar é mais liberal do que outras nações de Golfo, com destaque para a Arábia Saudita (por exemplo, as cataris podem conduzir automóveis, ainda que tenham várias limitações para obter a carta; a pena de morte não é aplicada desde 2003; as mulheres são encorajadas a estudar e 2/3 dos licenciados são do sexo feminino).

O país gosta, aliás, de transmitir uma imagem de modernidade e abertura ao mundo, com a Qatar Airways e a Al-Jazeera (bem menos independente do que parece), e, importa dizê-lo, muitas das práticas que mantém são elementares medidas de autodefesa de uma população ultraminoritária na sua própria terra, a qual tem, ademais, uma relação nada fácil com os seus poderosos vizinhos.

Em 2017, o Qatar foi alvo de um grave bloqueio por parte de diversos países muçulmanos (Arábia Saudita, Iémen, Bahrain, Egipto, Emirados Árabes Unidos, Maldivas, Líbia) e ficou sem acesso a alimentos e a matérias-primas, alegadamente por causa das suas relações incestuosas com a Irmandade Islâmica e com o Daesh.

Até às reformas constitucionais dos anos 90, que deram ao emir o poder de designar o seu filho como sucessor, a chefia do Estado não obedecia ao princípio da primogenitura, o que dava azo a um sem-fim de conflitos e de intrigas palacianas e o país é bem menos estável do que parece, tendo assistido, nos últimos 70 anos, a duas abdicações, em 1949 e 1960, e a dois golpes de Estado, em 1972 e 1995, o último dos quais levou um filho a depor o próprio pai.

A ambiguidade estratégica tem sido chave de sobrevivência: o Qatar tanto alberga a maior base dos EUA no Golfo Pérsico, Al-Udeid, com mais de 11 mil soldados estacionados, como mantém relações cordiais com o Irão e namora e favorece o extremismo islâmico (a principal mesquita de Doha é, de resto, dedicada ao fundador do ultra-conservador Movimento Wahabista).

Além da opressão sobre o povo e da ausência de democracia e de respeito pelos Direitos Humanos, traços comuns às monarquias do Golfo, o principal e mais vil pecado do Qatar, a sua singularidade repulsiva, é o modo como trata os trabalhadores estrangeiros.

É certo que, também nesse plano, não se destaca muito das barbáries praticadas naquelas paragens, bastando lembrar que, no Líbano, em 2018, a etíope Lensa Lelisa se atirou da janela da casa dos patrões (por sinal, donos de uma das marcas mais fashion do país, a Eleanore Couture) por não suportar mais os espancamentos diários com cabos eléctricos, entre outras torturas; ou que, no Kuwait, o cadáver desmembrado da filipina Jonna Demafelis, de 29 anos, foi encontrado na arca congeladora do casal que servia; ou o caso de Tuti Tursilawatti, uma empregada doméstica indonésia de 34 anos, executada na Arábia Saudita por ter morto o patrão quando este a tentou violar, ao fim de um ano de sevícias sexuais.

E não, não são casos isolados, mas sim a ponta de um icebergue miserável. Das cerca de 176 mil empregadas domésticas que trabalham no Qatar, 83% tiveram os seus passaportes confiscados mal chegaram ao país, segundo um relatório de 2020 da Amnistia Internacional.

E só conseguem entrar se tiverem o patrocínio de um empregador, segundo o sistema da kafala, ficando inteiramente nas mãos dos seus senhores e amos, sem dinheiro para obter o visto e comprar passagem de regresso a casa, sem possibilidade de mudar de emprego ou de patrão, um inferno na terra.

Na esmagadora maioria dos casos, os migrantes, logo à chegada, são confrontados com um contrato novo, com salários mais baixos e piores condições do que aquele que haviam assinado antes de partirem.

Sindicatos não existem e os contratos laborais têm todos prazos curtos de um, dois anos, mesmo para quem trabalhe para a mesma empresa ou patrão há dez, 20 anos, ou mais.

A kafala é o cancro maior do Qatar: a existência de um patrono, que, segundo a lei islâmica, constituía uma forma de os mais fortes protegerem os mais fracos (por ex., quando estes assinavam contratos ou iam a tribunal), converteu-se, muito por culpa do colonizador britânico, num sistema de paternalismo esclavagista, com os empregadores a apoderarem-se dos vistos de entrada, dos passaportes e das autorizações de trabalho e residência dos pobres migrantes.

Não admira, assim, que, para milhares deles, a jornada de trabalho comece às 4.30 da manhã, com interrupção à hora do calor (por vezes, nem isso), e só termine pelas sete ou oito da noite.

Um inquérito de 2018 concluiu que os operários das obras do Mundial trabalhavam dez horas por dia, seis dias por semana, em condições deploráveis, sendo frequentes jornadas de trabalho de 12 a 14 horas e até casos de escravos que trabalharam 148 dias consecutivos sem uma única folga. Com a aproximação do torneio e a aceleração da obra, a situação agravou-se.

Contudo, e dadas as atenções internacionais e as inspecções mais regulares, os trabalhadores do Mundial são até dos mais protegidos – simplesmente, correspondem a 4% da força laboral do país; os restantes 96% continuam à mercê de um sistema iníquo em que até os relatórios oficiais do país reconhecem que milhares de desgraçados são obrigados a trabalhar em condições de “stress de calor”, a temperaturas acima dos 40ºC, com humidade horrível, com um em cada três trabalhadores a sofrer de hipertermia.

Um artigo publicado em 2019 na revista Cardiology estabeleceu uma correlação inequívoca entre o calor extremo e a morte de 500 operários nepaleses. O problema agrava-se pelo facto de o Qatar não realizar autópsias, sendo todas as mortes atribuídas a “causas naturais” ou “doenças cardiovasculares”, o que, tendo em conta a idade jovem da maioria dos migrantes, é coisa mirabolante.

Para efeitos estatísticos, aliás, o Registo Nacional de Traumas só contabiliza as mortes que têm lugar após a chegada ao hospital, ou seja, deixa de fora o imenso universo dos acidentes letais ocorridos nos locais de trabalho.

Apesar de tudo isto, é consensual entre as ONG e os observadores externos que os abusos mais graves e os piores maus-tratos não são perpetrados pelos cataris, mas pelos migrantes sobre outros migrantes, até seus compatriotas, sendo frequente a descoberta de horríveis redes de exploração e de tráfico humano nos países de origem da Ásia e de África.

Mesmo ao fim de décadas a viver e a trabalhar no país, é praticamente impossível obter a cidadania; é necessário falar árabe, residir no Qatar há 25 anos e a lei determina que, por ano, só podem ser concedidas 50 naturalizações.

De igual modo, e ao contrário do que se passa no Dubai, por exemplo, é quase impossível a um estrangeiro comprar propriedades ou enviar os filhos para escolas de qualidade, excepto ocidentais privilegiados, sendo também estranho que num país com tantos asiáticos não exista um só templo budista ou hindu (há uma minúscula zona cristã que os cataris não podem frequentar).

Até por isso, o que se passa com o futebol é particularmente abjecto. O Qatar não tem tradições na modalidade e o seu primeiro clube só foi criado em 1950; desde então, foram fundados outros – o Al-Rayyam, o Al-Arabi, o Al-Saad – que servem para arredondar as contas de jogadores ou técnicos em fim de carreira, como Pep Guardiola, Gabriel Batistuta ou Xavi Hernández, mas que, apesar dos investimentos milionários, não levam os cataris aos estádios.

Mesmo com bilhetes a preços caricatos – cerca de 3 euros nas bancadas, 14 euros num lugar VIP – nunca mais de mil pessoas assistem a um jogo ao vivo, preferindo fazê-lo no conforto de casa, algo que, obviamente, será uma tormenta no pós-Mundial: que destino irão ter tantos estádios, tão sumptuosos e volumosos?

De resto, por causa do clima e não só, são poucos os cataris que praticam futebol e diz-se que este é, isso sim, um brinquedo caro do xeque Jassim bin Hamad Al Thani, filho do antigo emir, que governou o país de 1995 a 2013. O xeque Jassim, ao que parece, tem até um gigantesco estádio de futebol em sua casa e foi um dos principais promotores do actual Mundial, no qual o Qatar investiu a única coisa que tem: dinheiro.

Através da Qatar Airways, foram patrocinados grandes clubes europeus, como o AC Roma ou o Bayern de Munique, ao mesmo tempo que se construía um hospital de ponta de Medicina Desportiva, a que já acorreram diversas estrelas, e se lançava um canal internacional de desporto, o beIN Sports, e a multimilionária Academia Aspire, que recruta talentos da bola ao abrigo de um programa designado Football Dreams, orçado em muitos milhões de dólares, que já escrutinou mais de 3,5 milhões de jovens pelo mundo fora, dos quais anualmente são seleccionados uns 20, no máximo, a quem são oferecidas condições estratosféricas e o maior prémio de todos – a cidadania do Qatar.

Se o país é xenófobo e racista, avesso a naturalizar estrangeiros, mesmo os que nele trabalham há décadas, no domínio desportivo passa-se o inverso, com concessões escandalosas e rapidíssimas de nacionalidade: em 1999, a equipa de lançamento de peso do Qatar foi desqualificada dos Jogos Árabes por se ter descoberto que nela participavam quatro atletas búlgaros; em 2003, o queniano Stephen Cherono, supostamente a troco de avultada maquia e de uma pensão vitalícia, tornou-se nacional catari com o nome Saif Saaeed Shaheen; em 2004, para fúria da FIFA, o Qatar tentou naturalizar, numa semana, três futebolistas brasileiros, Ailton, Dédé e Leandro.

Graças aos biliões injectados na Academia Aspire, o Qatar conseguiu conquistar a Taça Asiática de 2019, um feito extraordinário num país que, dois anos antes, estava na 102ª posição no ranking mundial, atrás da Serra Leoa e das Ilhas Faroé.

Resta acrescentar que se tratou de um triunfo forjado na base da fraude, mesmo que autorizada pelos complacentes critérios da FIFA: dos 23 jogadores da selecção, 17 eram naturalizados, muitas vezes às pressas e, pior ainda, segundo regras e procedimentos jamais aplicáveis aos que vivem e trabalham no país há décadas.

Argumentar que em todas as selecções desportivas do mundo há casos como este só obscurece o essencial: o abominável racismo selectivo do país anfitrião do próximo Mundial. Racismo que se estende ao desporto: cerca de metade da população do país tem origem no sul da Ásia, pelo que o críquete é, de longe, a modalidade mais popular e praticada.

Ora, enquanto o fundo soberano do Qatar já gastou, desde que comprou o Paris St. Germain, em 2011, muitos biliões com o futebol, incluindo a compra-recorde do brasileiro Neymar por 262 milhões de dólares, a Associação de Críquete do Qatar recebe anualmente um subsídio que não chega aos 200 mil dólares.

Ou seja, o futebol é usado como instrumento de dominação da minoria catari sobre a legião de migrantes que sofrem e mourejam no deserto, sob calores escaldantes. Os que se erguem, e bem, contra o racismo da Europa e da América deveriam também, no mínimo, olhar para outras paragens do mundo, mil vezes piores e mais bárbaras.

E saber, por exemplo, que 15% das hospitalizações de migrantes no Qatar derivam de tentativas de suicídio; e que, num país com serviços médicos gratuitos e de alto nível, 90% dos migrantes nunca chegam a receber o seu cartão de saúde das mãos dos patrões.

Depois, houve a tremenda corrupção que deu a vitória ao Qatar na corrida à organização do torneio, não deixando de ser irónico que, num ano em que o mundo sofreu uma vaga de calor sem precedentes (e a Europa a maior seca de 500 anos), causada pelo aquecimento global e pelos combustíveis fósseis, nos preparemos para assistir alegremente ao Mundial do Petróleo – e do Gás.

O Qatar, convém lembrá-lo, tem a maior reserva de gás natural do mundo, situada no mar setentrional do país, estimada em 900 triliões de metros cúbicos (e é também um dos maiores emissores de gases com efeito de estufa do planeta, com um cadastro ambiental miserável).

Quando agora se fala da dependência europeia do gás e do petróleo russos (a propósito, quando conheceremos o plano de contingência e de poupança energética do governo português? E porque não existe uma campanha nacional de poupança da água?), deve recordar-se que, em 2021, um quarto de todo o gás importado pela Grã-Bretanha veio do Qatar.

Se a isso juntarmos as vultuosíssimas compras de armamento à América e ao Reino Unido, os biliões ganhos pelos gabinetes que projectaram e pelas empresas que construíram os novos e faraónicos estádios, orçados em 10 mil milhões de dólares (!), não custa concluir que era óbvio que o Qatar iria ser o anfitrião deste Mundial vergonhoso, que faz lembrar o da Argentina de 1978, que branqueou e legitimou a cruel ditadura de Videla.

Pequeno grande detalhe: desde há décadas, e para polir a imagem, o Qatar gasta biliões nas maiores empresas de lóbi de Londres e Nova Iorque – Hill+Knowlton Strategies, Portland Communications, Blue Rubicon, Grey, Brown Lloyd James – e contratou a peso de ouro diversos “embaixadores” da sua candidatura – Samuel Eto”o, Xavi Hernándes, David Beckham.

Tudo isto é bem o espelho daquilo em que o futebol se tornou nas últimas décadas: uma actividade viciada, viciosa e viciante que de desportiva pouco tem. Todos os anos, com a cumplicidade dos paizinhos, sedentos de terem um Ronaldo em casa que os converta em milionários, milhares de jovens são atraídos por uma carreira na bola, seduzidos por promessas de clubes que os usam como escravos descartáveis.

São ínfimas, quase nulas, as probabilidades de um jovem praticante nas “academias” vir a jogar nos escalões seniores dos clubes grandes: menos de 0,012%. Repete-se: menos de 0,012%.

À conta dessa miragem, milhares de moços, talvez milhões, perdem dez anos de vida, largam os estudos, comprometem o futuro, o deles e o dos seus países, que na quimera da esfera desbaratam gerações de miúdos, com efeitos não despiciendos na produtividade e nas qualificações da mão-de-obra de uma nação inteira.

Se a isso juntarmos outros males – corrupção generalizada de dirigentes, árbitros e jogadores; promiscuidade com políticos, autarcas, interesses imobiliários, negócios escuros; promoção de uma cultura boçal e alarve, machista, sexista e racista, assente na violência física e verbal, com sucessão de “casos” e “escândalos”, muitos dos quais do foro criminal, sobretudo os desencadeados pelas horripilantes “claques”; transferências com valores pornográficos; ocupação tirânica do espaço público, com vários canais e jornais e horas infindas de “comentários”, em detrimento de outras actividades intelectual e espiritualmente mais enriquecedoras – percebemos que aquilo que hoje se passa no mundo do futebol poderá ser muita coisa, mas desporto não é certamente.

No próximo mês de Novembro, enganar-se-á quem julgar estar a assistir a um jogo de futebol na TV: no rectângulo, disputa-se a bola, mas o que aí verdadeiramente se joga são negócios fabulosos de petróleo e armamento, conjuras geopolíticas, fundamentalismos religiosos, a opressão de mulheres e de migrantes, o absoluto desprezo pelos direitos fundamentais e pela dignidade humana. É este o belo espectáculo que estamos prestes a aplaudir.

Historiador.
Escreve segundo a antiga ortografia.

Diário de Notícias
António Araújo
21 Agosto 2022 — 07:10