904: Selecção de futebol vai ser apoiada nos cafés e esplanadas portuguesas

OPINIÃO

Há uma verdadeira ponte aérea institucional de Lisboa a caminho do Catar. A coisa não se faz por menos e vão três. Presidente da República, Presidente da Assembleia da República e primeiro-ministro.

Mas os caros leitores percebem porquê? Será o gás? Será o petróleo? Serão as duas coisas? As três primeiras figuras institucionais do país e do Estado vão ao Catar fazer o quê? Apoiar a selecção no Mundial de Futebol! OK, mas é preciso uma representação tão dimensionada para apoiar a selecção portuguesa de futebol?

Dada a circunstância do país que é, e que parece ter tudo no seu radar menos os direitos humanos, era necessário este rodopio institucional? Um discreto secretário de Estado do Desporto não chegaria? Acham mesmo que é preciso uma representação tão avantajada para apoiar a selecção? E não há outras formas de apoio?

O presidente norte-americano, Joe Biden, fez uma imaginativa e divertida chamada vídeo com toda a equipa de futebol norte-americana. Desejou-lhes boa sorte, toda a equipa bateu palmas e o apoio institucional cumpriu-se na maravilha.

E os tweets tão usados noutras situações e com tanta eficácia mediática não seriam uma boa solução para poupar umas horas de voo ao Falcon e fazer boa gestão dos nossos impostos?

Ou será que as nossas três primeiras instituições políticas rivalizam entre si e vão ao Catar em busca daquele minuto de presença nos Telejornais, associando, assim, a política ao futebol, uma receita tão eficaz na projecção mediática.

E, depois, os caros leitores acham que ir a França apoiar a selecção é o mesmo que ir ao Catar como deixou entender o primeiro-ministro? A França é um país democrático, onde existe liberdade de imprensa. Sindicatos que defendem os interesses dos trabalhadores, tribunais independentes, um país onde as mulheres têm, praticamente, os mesmos direitos que os homens. Nada disto acontece no Catar.

Não há liberdade de imprensa. As mulheres para estudarem, trabalharem, viajarem, casarem, precisam de autorização do pai, do marido, do irmão. As relações sexuais fora do casamento são penalizadas com penas de prisão até sete anos. O Catar é o país onde o Ministério do Interior mandou prender gays, lésbicas, bissexuais, transgéneros. O Catar é o país onde quem “espalhar notícias falsas” ou ” conteúdos que “violem valores ou princípios sociais” pode ser condenado a três anos de prisão e 140 mil euros de multa.

O Catar é o país onde os estádios de futebol foram construídos com um custo da vida de milhares de trabalhadores que pereceram por excesso de calor ou falta de condições de trabalho, com passaportes apreendidos e, por vezes, vencimentos em atraso?

Será, então, que as nossas primeiras figuras institucionais podem ir ao Catar apoiar a selecção nacional sem levar em linha de conta o perfil do país para onde viajam.

Esquecem que representam 10 milhões de portugueses, onde a esmagadora maioria deles, estou certo, está contra o que, política e sociologicamente, se passa no Catar.

Em nome de um apoio à selecção varre-se para debaixo do tapete tudo o que é o edifício político de Doha, tão distante dos princípios do 25 de Abril a que tantas vezes recorremos. Onde está afinal a afirmação nacional da nossa identidade de valores e princípios democráticos que nos regem?

Estiveram bem o BE e a Iniciativa Liberal, o PAN e o Livre, os quatro deputados socialistas e os deputados do PSD (abstenção) que se manifestaram contra uma presença institucional no Catar.

Os valores democráticos que estão na base da nossa vivência como país não servem apenas para serem usados nas datas comemorativas e para pôr o cravo na lapela.

E não é necessária uma preocupação excessiva com os apoios à selecção portuguesa de futebol. Ela tem sempre o apoio dos dez milhões de portugueses que, na sua generosidade, não deixarão de estar ao seu lado, seja qual for o resultado que consiga no Mundial. É nas esplanadas e nos cafés de todas as cidades portuguesas que vai estar o maior apoio à selecção.

E este é, seguramente, o apoio que todos os jogadores mais anseiam.

Jornalista

Diário de Notícias
António Capinha
25 Novembro 2022 — 06:38



 

788: Putin. Um abcesso mundial

OPINIÃO

O recente encontro de Joe Biden com o Xi Jinping, à margem da reunião do G 20, traduziu-se num “atar de mãos” para Putin. Fechou-se mais uma opção de guerra na trajectória de loucura do ocupante do Kremlin.

Sejam armas químicas, biológicas, nucleares tácticas ou estratégicas, ou quejandos, Putin ficou a saber, pela concordância dos dois presidentes das maiores potências mundiais, que lhe está, tacitamente, vedado o uso daquele tipo de arsenal militar.

A questão da utilização de armas nucleares por Moscovo parece ser uma possibilidade que para Putin está, seriamente, em cima da mesa. Não é em vão que William Burns e Sergei Naryshkin, responsáveis máximos, respectivamente, da CIA e do FSB (antiga KGB) se encontraram em Ankara com o assunto em agenda.

Burns terá avisado a sua contraparte das consequências da utilização daquele tipo de armamento no teatro da guerra.
Entretanto, vai-se acentuando o isolamento internacional da Rússia.

Se em Fevereiro último, do encontro entre Xi e Putin tinham saído sinais de uma “parceria sem limites”, recentemente, a China através de declarações de fontes oficiais ao Financial Times, afirmou que Putin “não disse a verdade” sobre a guerra na Ucrânia.

De facto, a China tem neste “dossier” o desafio de um equilibrismo difícil de conseguir. Está, compreensivelmente, “em cima do muro”. Existem na Ucrânia seis mil cidadãos chineses. A China tem uma enorme carência de recursos energéticos para manter em funcionamento a sua economia.

E, na Rússia, não falta gás e petróleo para vender. Por outro lado, não está no ADN de Pequim aceitar uma guerra onde não existe o mínimo respeito pelos direitos humanos. Sociologicamente, a guerra não se faz só com pistolas-metralhadoras e mísseis.

No terreno os soldados russos têm-se comportado como “gangsters”. Roubam, pilham, assassinam. A violência brutal do exército russo leva às últimas consequências as orientações do topo da hierarquia política russa.

O nível de pobreza e de educação dos soldados russos expressa-se bem na pilhagem que vão fazendo. Bens pessoais, electrodomésticos, automóveis, roupa, ouro, nada escapa à voragem das tropas russas. Tornou-se habitual os ucranianos serem despojados dos seus bens pessoais.

Nos últimos dias a tensão subiu no panorama internacional. Putin revelou-se um desastroso comandante das Forças Armadas. Soma derrotas atrás de derrotas, sem que se anteveja uma estratégia lógica no conflito.

A sua ausência da recente reunião do G 20, o comportamento errático do ministro Lavrov no encontro e os ataques com cerca de cem mísseis desencadeados em várias cidades da Ucrânia mostram bem o desatino que reina no Kremlin.

À medida que o Ocidente vai treinando e dotando o exército ucraniano de novas e mais modernas armas de defesa, as forças armadas russas sofrem desaires no terreno. Kherson é a última e mais importante expressão da incapacidade do exército russo em manter posições.

Perante a evidência da desorganização e fragilidades do exército russo, Putin decidiu atacar alvos civis. A população ucraniana está sem água, sem luz, sem aquecimento. É a estratégia de terror de Moscovo.

Putin transformou-se num abcesso mundial. Esta guerra está beira de vir a tornar-se num conflito internacional. Qualquer incidente que aconteça com um míssil em território de países que pertençam à Nato pode dar origem a um conflito de proporções mundiais.

A paz, por enquanto, parece ser uma miragem. A supremacia do exército ucraniano no terreno condiciona, para já, o início de conversações. E a teimosia de Moscovo em não abandonar o território ucraniano ocupado dificulta qualquer passo no sentido da paz.

Perante a loucura de Moscovo e a aventura em que Putin meteu todo o mundo resta-nos esperar que as instituições políticas, diplomáticas e militares ocidentais mantenham a cabeça fria, agindo e respondendo com inteligência à crescente loucura de Putin. Que, verdadeiramente, se transformou num abcesso de consequências negativas para toda a Humanidade.

Jornalista

Diário de Notícias
António Capinha
18 Novembro 2022 — 00:05



 

661: Torniquete autárquico, precisa-se!

OPINIÃO

A questão autárquica tem estado na ordem do dia nos últimos meses. Não pelas melhores razões.

Há um pouco de tudo. Contratos ilícitos, prevaricação, favorecimento de empresas, negócios duvidosos. A Operação Teia e Éter desencadeadas pela Polícia Judiciária trouxeram a lume um conjunto de irregularidades e ilegalidades que cabe agora aos tribunais avaliar e julgar.

Há vários de nomes de autarcas e ex-autarcas envolvidos. Alguns destacam-se pela sua já conhecida expressão junto da opinião pública, como é caso de Isaltino Morais. Outros pela posição política que desempenham na actualidade, como Miguel Alves, secretário-adjunto do primeiro-ministro.

A estes, recentemente juntou-se também Rodrigues Gonçalves, vereador da Câmara de Oeiras e vogal da Comissão Política Nacional do PSD.

Convém referir que para todos funciona o princípio da presunção inocência até trânsito em julgado. Contudo alguns foram já constituídos arguidos. É sabido que a responsabilidade política tem uma dimensão diferente da responsabilidade judicial.

A primeira funciona com a ética republicana e com a avaliação que os próprios fazem da sua situação. Ou da avaliação que os seus responsáveis políticos fazem da sua actuação. Discute-se assim a assertividade da afirmação” à política o que é da política, à Justiça o que é da Justiça”.

É difícil separar uma da outra ainda que ambas possam ter diferentes consequências. Na Europa democrática temos políticos que se demitem pela má utilização de um cartão de crédito, ou por um qualquer comportamento menos próprio.

Por cá, aquela mesma afirmação, possibilita a permanência em cargos políticos de protagonistas de alguma maneira expostos negativamente à opinião pública com consequências nefastas para os próprios e para os organismos políticos que integram. Expostos ao desgaste mediático torna-se esgotante não tirarem consequências da situação de fragilidade política para que foram arrastados.

Esteve, por isso, bem Luís Montenegro em suspender, temporariamente, Rodrigues Gonçalves das suas funções de vogal da Comissão Política do PSD.

O actual líder do PSD foi lesto a agir e tirou corretas conclusões da sua afirmação de que ” a criminalidade que está investigação é grave e os partidos devem ser os primeiros interessados que estas investigações sejam levadas até às últimas consequências”.

O mesmo não terá acontecido com Miguel Alves, secretário-adjunto do primeiro-ministro antigo presidente da Câmara Municipal de Caminha, que permaneceu no exercício das suas funções políticas escudado na cobertura de António Costa.

Não sabemos, verdadeiramente, o que ganha o Governo com esta atitude. Acrescentará desgaste á sua imagem, retirará capacidade de actuação a um protagonista político que deveria estar liberto de qualquer constrangimento para exercer, tranquilamente, as suas funções, não só pela enorme responsabilidade das mesmas, como pela posição de proximidade do chefe do Governo.

Não é de somenos importância a actuação do ex-presidente da Câmara de Caminha ao validar um contrato de construção do Centro de Exposições Transfronteiriça no valor de 300 mil euros sem garantias. No mínimo poderá existir aqui uma componente de incompetência.

É, pois, com frequência que vamos assistindo a situações anacrónicas de ilegalidade e irregularidade nas autarquias locais. Dá a ideia que a fiscalização deveria ser mais apertada. A função autárquica é importante e muitas vezes as autarquias são um instrumento vital no apoio às populações, nomeadamente as mais carenciadas. Não descuramos esse aspecto.

Mas num país como o nosso, com acentuadas dificuldades financeiras, é bom que exista um maior escrutínio legal e institucional no modo como são geridos os dinheiros públicos, com natural origem nos impostos de todos os portugueses.

Seria bom que o Governo, a Assembleia da República, os partidos, e outras instituições agissem no sentido de um maior rigor e fiscalização na utilização de dinheiros por parte das Câmaras Municipais. Um torniquete que pusesse cobro ao desmando que parece existir nalgumas autarquias na gestão das suas finanças.

Jornalista

Diário de Notícias
Antonio Capinha
11 Novembro 2022 — 00:05



 

585: Brasil e Estados Unidos no fio da navalha

OPINIÃO

Uma eventual vitória dos Republicanos na próxima terça-feira, nas eleições norte americanas para a Câmara dos Representantes e Senado, poderá lançar de novo o país na órbita das absurdas teses de Trump.

Trump e Bolsonaro são representantes de um ideário político que não se esgota na personalidade destas duas figuras. Tanto nos Estados Unidos como no Brasil o populismo tem um apoio popular que tem tendência a permanecer, mesmo depois da derrota dos seus protagonistas principais.

As ideias de Trump prosseguem nos Estados Unidos, apesar da sua derrota. A sua base sociológica e política está, praticamente, intacta desde a derrota nas eleições de 7 de Janeiro de 2021.

No Brasil, tal como nos Estados Unidos, o populismo não aceitou os resultados eleitorais. Os argumentos são os mesmos. Há fraude, as eleições não foram escrutinadas, pedem a intervenção das instituições judiciais, desafiam as respectivas forças armadas dos países a intervirem.

A violência instalou-se face à estratégia de não reconhecerem de imediato os resultados eleitorais. As sedes das instituições democráticas foram atacadas, como o Congresso nos Estados Unidos, ou nascem bloqueios nas estradas como no caso brasileiro com o país em parte paralisado à data em que escrevo esta crónica.

As instituições norte-americanas resistiram bem aos ataques populistas. As Forças Armadas, tanto dos Estados Unidos como no Brasil, parecem ser hoje uma das componentes mais sensatas dos edifícios democráticos.

Esperam, acompanham à distância, não intervêm e deixam espaço a que as coisas se resolvam no âmbito das instituições democráticas. São o que têm de ser. Um pilar decisivo na garantia do exercício democrático.

O populismo trouxe consigo sinais de um retrocesso civilizacional. A recusa da degradação ambiental coloca o planeta em perigo. Bolsonaro permitiu no seu consulado uma contínua degradação da Amazónia.

Trump recusou aceitar o preocupante degelo que se verifica nas calotes polares. A ciência viu negadas algumas das suas teses mais experimentadas e provadas. As questões culturais passaram para segunda plano.

Há no populismo um analfabetismo científico e uma boçalidade incompreensível neste século. Como podem presidentes dos maiores países do Mundo não aceitarem a eficácia de vacinas, pôr em causa o trabalho de cientistas que dedicam anos da sua vida à investigação?

Trump e Bolsonaro são também uma consequência da incapacidade das democracias resolverem os problemas sociais que os países enfrentam.

Como admitir que a democracia norte-americana não tenha, até hoje, um eficaz serviço de saúde gratuito para a população? Como é possível que existam bolsas de pobreza na sociedade norte-americana que crescem, diariamente?

Bolsonaro ganhou as eleições há quatro anos devido ao rasto que o Partido dos Trabalhadores de Lula da Silva deixou na sociedade brasileira. A Lava Jato e a corrupção à volta da Petrobras não foram travadas por Lula da Silva.

O Partido dos Trabalhadores não conseguiu conduzir os destinos do Brasil retirando a corrupção dos partidos e da sociedade brasileira. As instituições judiciais foram politizadas e o PT não cuidou de dinamizar uma conveniente separação dos poderes políticos e judiciais.

Os Estados Unidos e o Brasil são hoje países extremados, divididos em blocos políticos antagónicos.

Faltam estadistas como John Fitzgerald Kennedy e Fernando Henrique Cardoso que conquistem o centro político e consigam galvanizar as bases sociológicas daqueles dois países.

Que coloquem na ordem do dia os grandes objectivos dos países e das respectivas populações. Que as galvanizem em torno das questões nacionais.

Faltam estadistas e abundam protagonistas políticos de duvidosa consistência. A dimensão política dos que conduzem os destinos das nações é decisiva para não as deixar cair no fio a navalha.

Jornalista

Diário de Notícias
António Capinha
04 Novembro 2022 — 00:40



 

498: Excelências do Governo. Quando é que descem à Terra?

OPINIÃO

Emigrantes sem visto – São 25 mil a precisarem de autorização ou renovação de residência. As suas vidas estão no fio da navalha. Não podem trabalhar. Passam horas ao telemóvel a tentarem um contacto com o SEF.

Se a sua situação estivesse regularizada teriam as suas vidas resolvidas e estariam a contribuir para a riqueza do país com o pagamento de impostos e descontos para a Segurança Social.

Entregaram as suas manifestações de interesse e aguardam uma entrevista do SEF para regularizarem a sua situação. Devido ao que vivem não podem deixar o país.

Previsivelmente vão ter de esperar dois anos para conseguirem a tão desejada autorização de residência e integrarem o mercado de trabalho resolvendo assim a sua situação de trabalho e inserção em Portugal. Boa sorte!

Maria José e Alberto – Maria José tem 77 anos. Alberto tem 75 anos. Viviam há nove anos numa modesta casa quando a dura realidade do crescimento do alojamento local de Lisboa lhes bateu à porta. Com um rendimento parco de 700 euros mensais foram despejados há dois meses e meio e ficaram sem tecto.

A Gare do Oriente tem servido de abrigo. Tiveram direito a visita presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa e de um representante da Santa Casa da Misericórdia. Marcelo falou de novo do número dos sem-abrigo que segundo o próprio estão numa tendência de crescimento.

Não admira. Com a guerra e a pandemia outra coisa não seria de esperar. Em simultâneo com a visita presidencial veio também um elemento da Santa Casa da Misericórdia com uma tentativa de solução.

Maria José e Alberto são apenas dois protagonistas dessa dura realidade dos sem-abrigo que Marcelo tem jurado a pés juntos ser necessário erradicar. Há um silêncio ensurdecedor do governo e da Câmara de Lisboa sobre o assunto.

Timorenses no Martim Moniz – São cerca de duas centenas. Vieram, talvez, catalisados pela recente visita de Marcelo Rebelo de Sousa a Timor e, seguramente, na procura de uma vida melhor. Dormem na rua. Não vão regressar porque têm a secreta esperança de em Portugal encontrarem uma vida melhor para si e para as suas famílias. Têm problemas de acolhimento, tecto e alimentação.

Já receberam a visita presidencial. Disse Marcelo então que têm de cumprir as regras vigentes e que “há um esquema legal que permite haver ou não vistos com uma grande latitude simplesmente devendo ser respeitadas as regras de contratação e isso deve ser fiscalizado”.

Quer dizer, podem vir de Timor quase ao “Deus dará!” Sobre esta realidade dos timorenses do Martim Moniz nem uma palavra do Governo.

INEM. Esperas de uma hora – Temos de acreditar no que diz o Sindicato dos Técnicos de Emergência Hospitalar. Adiantou que há pelo menos cinco ambulâncias que demoram mais de uma hora a serem accionadas pelo INEM. Isso acontece sobretudo nos distritos de Lisboa, Faro e Setúbal.

O mesmo Sindicato afirma que em Matosinhos um português de 52 anos faleceu enquanto esperava pelo INEM. Foram precisas três chamadas e isso não evitou a morte do nosso compatriota.

O INEM divulgou que faltam 369 técnicos de emergência pré-hospitalar nos serviços. No último concurso entraram apenas 49. Pois aqui está um desagradável contributo no controlo do défice.

Uma família em Minsk a aguardar um visto humanitário – Na terça-feira fomos surpreendidos com uma notícia num dos canais de televisão (SIC Notícias) sobre uma família de refugiados do Médio Oriente de seis pessoas que aguardam há dois meses e meio que o Ministério dos Negócios Estrangeiros lhes conceda uma visto humanitário.

Pai, mãe e quatro filhos dos 4 aos 12 anos estão fechados num sórdido apartamento de Minsk, capital da Bielorrússia, a aguardar o desejado visto do MNE português.

A razão do seu pedido de visto humanitário radica no facto de toda a família se ter convertido ao cristianismo. Isso, coloca, seriamente, em perigo as suas vidas.

Associações de Defesa dos Direitos Humanos (ONG Humanity e Migrap) ouvidas por aquele canal televisivo deram conta que outros países concedem visto humanitário no prazo de uma semana. Por cá já lá vão dois meses e meio e o MNE ouvido pelo canal televisivo declara, laconicamente, que está a aguardar um parecer do SEF. E do SEF nem uma palavra.

E pronto é isto que temos. O governo é responsável? É sim senhor! Mas só o governo? Não. São responsáveis os funcionários que não cuidam de cumprir com rigor as suas funções.

As chefias superiores e intermédias que, sistematicamente, fecham os olhos à falta de rigor e proficiência dos seus subordinados e varrem para debaixo do tapete os sinais de desleixo e abandalhamento às vezes tão frequentes no funcionalismo público.

E somos responsáveis todos nós quando sabemos ser muito exigentes com ou outros, mas muito pouco connosco.

Jornalista

Diário de Notícias
António Capinha
28 Outubro 2022 — 00:12



 

462: O inevitável turning point do governo socialista

OPINIÃO

Uma das vantagens de uma maioria absoluta é que ficam-se a conhecer melhor os objectivos políticos de quem a detém. E, neste caso do Partido Socialista, depois de um acidente de percurso que foi a “geringonça”, necessária para a conquista do poder, está chegado o momento de bater de frente contra a realidade.

Bem vistas as coisas esta nova política de relativa austeridade do governo do PS tem, naturalmente, aspectos benéficos para a país. Ninguém gosta de viver num país endividado ou com défice excessivo.

Já vimos esse filme e não queremos repetir. Uma das coisas boas deste governo é não querer cair de novo nas garras da troika e das soluções espartanas que ela construiu para as contas públicas portuguesas. Nem o Governo, nem ninguém.

Assim, os objectivos orçamentais do Executivo para 2023, apontando para uma divida pública de 110,08 por cento do PIB e um défice de 0,9 são de saudar. Não queremos que a ditadura dos mercados nos bata a porta, com a subida das taxas de juro.

Os mercados são implacáveis, mas temos de viver com eles. António Costa percebeu, e bem, que tem de ter um país com contas certas para não repetir os erros do governo de José Sócrates.

O problema é que essa procura de equilíbrio orçamental está a ser feita à custa das famílias, das pessoas, dos reformados e dos cortes nos serviços públicos. E não vale a pena que São Bento continue a tocar violino dando-nos música celestial e querendo tapar o sol com uma peneira. É o que é!

Todos vamos ter de fazer sacrifícios por via de uma pandemia, de uma guerra e de uma inflação que ninguém pediu.

Os tempos da geringonça conheceram ventos favoráveis que levaram a algumas medidas disparatadas. Nacionalizámos a TAP para quê? Para gastar 3 ou 4 mil milhões de euros com ela e agora ter de a privatizar à pressa!

Alguém nos consegue explicar o racional disto? Ou a adopção da medida das 35 horas para a função pública, principal causa da desregulação que, actualmente, verificamos no SNS, desguarnecendo-o do pessoal necessário para o seu eficaz funcionamento. O governo tem coragem para a reverter?

Tudo isto é feito ao sabor das circunstâncias políticas, num calculismo imediato de manutenção do poder, sem cuidar do que é melhor e mais conveniente para o país.

As contas certas e a redução do défice, no fundo a saúde financeira do país, são objectivos que o governo faz bem em prosseguir. O problema é que isso se faz à custa da qualidade dos serviços públicos, das poupanças no SNS, no desinvestimento na Justiça ou nas forças de segurança. Ou na educação. Não vemos nada feito no domínio da reorganização do aparelho de Estado.

Ou em medidas que incentivem o crescimento económico. A política deste governo é sobretudo baseada no controlo financeiro das contas públicas, com cortes no investimento público e uma ausência completa de medidas estruturais que ponham a economia a crescer de um modo que nos possibilite enfrentar o futuro com mais esperança. Ou seja, um desenvolvimento económico que nos afaste da cauda da Europa para onde estamos a caminhar.

Não adianta o governo afirmar que os reformados não perderam poder de compra. O recente Boletim Trimestral do Banco de Portugal desmente essa realidade. Descontando o valor da inflação os reformados perderam 3.5 % do poder de compra, em termos reais, no primeiro semestre de 2022, em relação ao mesmo período de 2021.

E as famílias portuguesas tiveram uma queda no seu poder de compra de 1%, em média, igualmente, no primeiro semestre de 2022. E isto apesar do aumento médio nominal de 5,1 por cento que se verificou.

É um facto que se protegeram as famílias mais desfavorecidas e apenas 60 por cento dos cidadãos com melhores remunerações perderam 1 a 2 por cento do seu rendimento disponível. Ou seja a classe média empobreceu. Protegeram-se os mais desfavorecidos, como aliás tinha de ser.

Contudo, caminhamos hoje em território desconhecido. Enfrentamos uma guerra em que não vemos fim à vista. A crise energética acentua-se, dia a dia, e os preços da electricidade e do gás vão comprometer a saúde financeira das empresas e dificultar os orçamentos familiares.

Perante esta realidade não restava outra alternativa ao governo que não fosse um turning point no sentido de um apertar de cinto controlado. É isso que o governo está a fazer, e bem. De certa maneira é o regresso da TINA (There is no alternative) com pezinhos de lã!

Jornalista

Diário de Notícias
António Capinha
21 Outubro 2022 — 00:09



 

429: Função presidencial. A palavra é de prata, mas o silêncio é de ouro

“… Marcelo antes da função presidencial era já um de nós”. Discordo completamente! MRS nunca o considerei “um de nós” porque tem origens no Estado Novo salazarista, não tem cabimento no meu livro de recordações. (Marcello Caetano foi o padrinho de casamento dos seus pais, e quem conduziu o carro que levou a sua mãe à maternidade para o dar à luz. Caetano esteve para ser seu padrinho de baptismo e é em sua honra que se chama Marcelo.)

OPINIÃO

Quando elegemos Marcelo Rebelo de Sousa (MRS) para o seu primeiro mandato na Presidência da República já há largos anos que ele nos entrava pela casa dentro na pele de comentador.

Conhecíamos o seu pensamento político, o seu percurso como jornalista e director de várias publicações, a sua carreira política e a sua vasta experiência como constitucionalista e legislador, sabíamos do seu sucesso como professor universitário, a religião que praticava, as suas origens familiares. Sabíamos tudo isso e até as travessuras que fazia à avó!

Portanto, conhecíamos a sua vida profissional e muitos aspectos da sua vida pessoal. Marcelo antes da função presidencial era já um de nós, um português de sucesso, com defeitos e com virtudes como todos os portugueses.

Não admira, assim, que as suas campanhas eleitorais tenham sido alegres passeios ao volante do seu carro privado, com fugazes encontros e iniciativas políticas que serviam apenas como sublinhado do que todo o Portugal já conhecia. Marcelo, malgré tout tinha à partida a confiança da esmagadora maioria dos portugueses e a vitória garantida nas eleições para os seus dois mandatos.

O primeiro mandato de MRS foi marcado pela existência de uma realidade política que nada tinha a ver com o seu percurso de vida e as opções políticas que foi professando. Marcelo, homem de direita, católico praticante, aguentou estoicamente a solução da geringonça, sob o ranger de dentes da sua família política.

Quase ao limite de ser apontado como traindo a sua trajectória política, MRS privilegiou a estabilidade política e os portugueses gostaram. Nos primeiros cem dias o seu grau de popularidade atingia 75,2% e a sua proximidade com António Costa fortalecia a solução da gerigonça.

A estabilidade fazia caminho, sem que nunca se lhe tivesse ouvido uma palavra contra os objectivos políticos e sociológicos da gerigonça, fosse a nacionalização da TAP ou um outro qualquer projecto político nos antípodas do pensamento e no ideário político de Marcelo.

MRS foi engolindo tudo isso em nome da estabilidade, enquanto as “selfies” e os ” afectos” iam mantendo incólume a sua popularidade. Marcelo e Costa partilhavam o mesmo guarda-chuva, juntos, para enfrentarem qualquer intempérie.

O segundo mandato de Marcelo começou ainda sob o manto da estabilidade, mas com uma maioria absoluta que lhe deixou menos margem de manobra política. Quer queiramos quer não a maioria absoluta de Costa foi uma derrota para Marcelo.

O seu magistério de influência vale agora muito menos. Com a maioria absoluta, Costa fará o que lhe der na “real gana” e terá menos relevância o que MRS pensa sobre os assuntos.

Foi assim que, neste segundo mandato, MRS iniciou um uso excessivo da palavra talvez para manter intacto o seu índice de popularidade. Começou assim uma vulgarização da palavra que tem vindo a desgastar perigosamente a função presidencial, que se quer discreta e oportuna. Para ser usada, criteriosamente, nos momentos necessários e sobretudo nestes.

O problema é que com o uso excessivo da palavra, Marcelo não desgasta apenas a sua pessoa, mas retira força à função presidencial, privando os portugueses de um dos instrumentos mais valiosos da democracia- a palavra do Presidente.

Que tem de estar protegida e salvaguardada para utilização em sérios momentos de crise ou mesmo quando o Governo se exceder como já constatámos nesta situação de maioria absoluta.

É bom, portanto, que Marcelo pare e medite no que está a fazer e no modo como está a usar a palavra.

Que não fale sobre tudo, a toda a hora. Que fale e depois seja forçado a vir corrigir o que disse. É normal que um Presidente da República a propósito do encontro do Grupo de Arraiolos nos venha dar pormenores do seu programa com o timing da realização dos almoços e jantares?

Francamente não há lá ninguém no Palácio de Belém para fazer um comunicado? Não há por lá um porta-voz para tratar dessas miudezas?

Para além do excesso da palavra, MRS está a misturar a função presidencial com as suas preferências pessoais, particularmente religiosas. Por que “carga de água” tem o Presidente da República de meter-se nas questões da pedofilia no seio da Igreja?

Esqueceu-se que é Presidente de todos os portugueses? Que deste lado, do lado da população, há católicos, não crentes, agnósticos, hindus, praticantes das várias crenças e religiões.

A bem de todos nós, a bem dos tempos difíceis que vivemos, da guerra, das dificuldades económicas, é bom para o país, e sublinho para o país, que MRS preserve melhor o uso da palavra.

Que pense menos na sua popularidade e mais nos interesses nacionais. Queremos ter um Presidente da República que esteja lá intacto com a sua palavra mas também com o seu silêncio.

Não uma figura marcada pelo comentário político, que já ninguém ouve, incapacitado de exercer a função presidencial por uso excessivo e desgastante da palavra.

Não esqueça Sr. Presidente que por muito que valha a palavra, o silêncio é sempre de ouro.

Jornalista

Diário de Notícias
António Capinha
14 Outubro 2022 — 00:09



 

395: Cartões amarelos no Pátio dos Bichos

Na minha modesta opinião, quem tem de mostrar cartões amarelos ou vermelhos é o Povo aquando das eleições. Essa coisa da “bomba atómica” apenas representa um sintoma de fraqueza democrática de quem a utilizar e uma clara demonstração de pretender mudar o sistema político de acordo com as cores da “casa”…

OPINIÃO

O peso institucional dos discursos de 5 de Outubro desfez-se no Pátio dos Bichos, quando o Presidente da República, na envolvente do seu espaço habitual falou, informalmente, aos jornalistas.

Marcelo tinha sido cauteloso no palanque da Câmara Municipal de Lisboa e a dimensão histórica das suas palavras deixava antever alguns recados sibilinos ao Governo que António Costa procurou, de imediato, envolver na sua habitual retórica política. O presidente falou de política, António Costa respondeu com economia.

Ao trazer à actualidade os acontecimentos vividos cem anos atrás, em 1921/22, numa comparação aos dias de hoje, Marcelo deixou-nos com um sorriso nos lábios quando nos apercebemos o que ganhámos. Pois hoje, felizmente, não se matam primeiros-ministros como então aconteceu, disse o Presidente no Pátio dos Bichos.

Dissolve-se o Parlamento e demitem-se os primeiros-ministros. A democracia está, assim, de boa saúde, as instituições estão fortes, apesar de tudo temos uma Justiça lenta que lá vai funcionando aos solavancos, temos um SNS mal gerido, mas temos. Temos uma

Segurança Social que se verga perante a inflação, mas temos a protecção possível dos mais idosos. Não tínhamos nada disto em 1922. Pela ausência de alternativas tivemos depois violência política que culminou em ditadura.

Mas o problema não está tanto no que não tínhamos em 1922 e temos hoje, mas sim no que ainda não temos hoje no contexto das nações europeias desenvolvidas.

Reparem bem nesta frase proferida por Marcelo no Pátio dos Bichos: “Quem é poder a todos os níveis, nacional, regional, local, e está a funcionar bem é uma coisa, se não sente que está a funcionar bem tem a hipótese de mudar, se não muda sabemos que há outras forças políticas que podem entrar em campo e mudar”.

Pois é, fica feito o aviso e mostrados os cartões amarelos. E também clarificada a agenda para os próximos tempos. Tem de haver sucesso no combate à inflação como houve na pandemia.

E tem de haver crescimento económico. Ah, e tem de haver melhor gestão do PRR, essa bazuca de cifrões que vai ser o grande instrumento da nossa futura vitalidade económica e que, afinal, está apenas executada nuns parcos 700 milhões de euros.

O 5 de Outubro deste ano foi marcado pelo apelo à mudança política. Fosse nas palavras de Carlos Moedas ou no discurso institucional de Marcelo, a mudança e as reformas bailaram na boca dos dois.

As recentes sondagens indicam que há um descontentamento com o governo e com a prestação de alguns ministros. Os recentes problemas surgidos com o ministro da Saúde e com a ministra da Coesão Territorial estão a desgastar o Executivo.

No seio do governo surgem vozes avulsas como a do ministro António Costa Silva que defende uma baixa transversal do IRC para as empresas. Tem razão. É imensa a carga fiscal nas empresas e nas pessoas.

A tudo isto o primeiro-ministro vai fazendo “orelhas moucas” desvalorizando os assuntos. Há no ar um sentimento de imobilismo e uma ideia de que o PS não está a aproveitar a maioria absoluta que o povo português lhe entregou. As sondagens mais recentes reflectem isso.

A anunciada perda do poder de compra dos pensionistas nos anos que aí vêm e o efeito destrutivo da inflação poderão vir a deixar o governo em “maus lençóis”, se não houver uma resposta eficaz e robusta à conjuntura política e financeira que estamos a viver.

Ao comparar o sucesso do Executivo no combate à pandemia com os desafios que se colocam no combate à inflação, o Presidente da República está a colocar uma espada sobre a cabeça do Governo. Isso ficou bastante claro nas declarações que fez no Pátio dos Bichos. Marcelo quer com a inflação o mesmo sucesso que o Executivo teve com a pandemia.

Não sabemos se isto não é uma missão impossível, mas o desafio está feito. Com uma guerra no terreno, problemas energéticos de grande dimensão, uma inflação galopante, uma perca do poder de compra dos portugueses, não se antevê como vai o governo desafiar a quadratura do círculo e pôr o país a crescer? António Costa “jura a pés juntos” que não haverá recessão. Vamos ver!

Mas o aviso presidencial ficou feito no Pátio dos Bichos. Vejamos se vai ser levado a sério, ou se tudo não passará de mais um exercício de dom da palavra, sem consequências, tão habitual em Marcelo! O cartão vermelho pode vir a ser mostrado, futuramente, se o imobilismo continuar. Foi esse o recado que saiu do Pátio dos Bichos.

Jornalista

Diário de Notícias
António Capinha
07 Outubro 2022 — 00:31



 

327: A mentira tem pernas curtas!

OPINIÃO

Parece que os tempos mudaram. Há uma guerra e, em consequência disso, uma situação inflaccionária. A vida vai ficar pior. Mais cara, maior vulnerabilidade para os mais pobres. Os juros estão a subir, os compromissos das famílias com as prestações da habitação vão ficar mais insuportáveis.

As empresas vão enfrentar dias difíceis com a subida do preço da energia. Aliás, algumas, não sobreviverão. O coração da Europa, a Alemanha, ameaça entrar em recessão já nos próximos trimestres. O panorama é pois de “vacas magras”.

Este é o momento em que o país deveria interiorizar, globalmente, o que está a chegar. Os portugueses deveriam estar alertados para o que aí vem! Preparem a sua vida para as dificuldades que se avizinham.

Amealhar o possível. Evitar gastos inúteis. Planear cuidadosamente as suas finanças. Olhar para o futuro a dois, três anos, no mínimo. Não assumirem compromissos financeiros longos e desnecessários.

O governo deveria ter um papel preponderante no alerta do que está para chegar. Não deveria “varrer para debaixo do tapete”, esconder, dissimular, disfarçar. Deveria falar claro, ser pedagógico, explicar a toda a população, do Algarve às Beiras, as consequências de uma situação inédita na Europa. Falar claro e verdade, de um modo compreensível, é contribuir para unidade dos portugueses.

É incentivar a uma solidariedade geracional, distribuir com parcimónia as mais-valias, mas também os sacrifícios. É essa a função de um governo, muito em especial em períodos de contracção financeira, como o que estamos a viver.

Este governo tem um problema com a frontalidade no discurso. Quer, sistematicamente, “dourar a pílula”. Tapa a realidade com uma peneira. Se há cortes nas reformas, não o assume. Se os funcionários públicos vão perder poder de compra, não explica porquê.

Se as famílias e empresas não recebem os apoios que deveriam, não justifica a insuficiência desses mesmos apoios. O governo não é pedagógico com os portugueses, não é explicativo, não é claro.

Não entende que a melhor maneira de mobilizar as populações para as dificuldades que vão surgir é falar-lhes verdade, contextualizar politicamente as diferentes situações. Se estão a aferrolhar dinheiro nos cofres públicos para prevenir a futuro, não tenham receio de o dizer!

Digam que não aumentam as reformas ou não estabilizam o poder de compra dos funcionários públicos porque querem garantir segurança contabilística das contas no futuro. Não mintam, não dissimulem, não disfarcem, não tornem nebuloso o que deve ser explicado “tim tim por tim” para que todos saibam com o que contam.

Foi isso que Mário Soares fez em Agosto de 1977, quando teve de aplicar um programa de austeridade e foi, mais tarde, acusado de meter o socialismo na gaveta. No seu discurso de mais de uma hora o Estadista socialista não deixou sombra de dúvida sobre as medidas que ia tomar. Duras, muito duras.

Pediu sacrifícios aos portugueses. Explicou-lhes o porquê dessas medidas. Desenhou uma estratégia de recuperar a economia, salvar a democracia e então, depois, o socialismo. Foi frontal, verdadeiro, pedagógico, envolvente, solidário e compreensivo com que o que estava a propor ao país e sabia que não ia ser fácil.

O discurso governamental hoje é feito de chavões, frases feitas, que na maior parte dos casos escondem a realidade. É um discurso telegráfico, politicamente pobre e redutor, a procurar disfarçar as consequências negativas das medidas que propõem.

Depois, o que acontece é o governo ser apanhado “à meia-volta” nas suas próprias contradições. A realidade política nesta legislatura é diferente da anterior. Os partidos da oposição estão mais organizados. O PSD mudou de liderança e a sua oposição é hoje mais eficaz, mais acutilante.

Não é mais a “lengalenga” de Rui Rio. A Iniciativa Liberal cresceu. O PCP está liberto dos compromissos da gerigonça. O Bloco de Esquerda não tem nada a perder. Vai ser muito difícil ao governo passar entre “pingos da chuva”, como tem pretendido fazer.

Falem verdade às pessoas, alertam-nas para o que está para chegar, expliquem com clareza o porquê das medidas que estão a tomar e as consequências das mesmas. Falem das “vacas magras que já andam por aí a pastar”. Afinal, mais tarde ou mais cedo, todos vamos acabar por as ver e ter de lidar com elas.

Jornalista

Diário de Notícias
António Capinha
23 Setembro 2022 — 00:05



 

181: Vistos para cidadãos russos. Não se pode meter tudo no mesmo saco!

– … “Não podemos deixar de levar em linha de conta que a Rússia é uma feroz ditadura, sem qualquer espaço para contraditório, sem liberdade de imprensa.”. Mesmo assim, sendo esse país pária, governado por um nazi terrorista genocida, que invadiu um país soberano, sem qualquer justificação digna desse nome (agora, para justificar a guerra, alega a existência de “enclave anti-russo”… Ainda há-de arranjar outras aldrabices tão habituais nesta escumalha dirigente zoviética).

OPINIÃO

O plenário dos ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia decidiu terminar o acordo de facilitação de vistos que existia com a Rússia, ainda que não tenha avançado para a proibição total da emissão desses mesmos vistos.

Este é um assunto que está a dividir a Europa, uma vez mais incapaz de conseguir uma posição comum face a Moscovo.

Os países que fazem fronteira com a Rússia ou estão, geograficamente, mais próximos de Moscovo não têm dúvidas. A Letónia, Lituânia e Polónia deixaram mesmo de emitir vistos para qualquer cidadão russo que queira viajar. Esta posição é compreensível face à proximidade que estes países têm da realidade sociológica e cultural russa.

Com essa proximidade sabem, melhor que ninguém e por experiência própria e pelo percurso da História quais os custos de serem vizinhos de um país belicista, pouco respeitador dos direitos humanos, que tem um comportamento nada consentâneo com a lei e o direito internacional.

E que teima em dar preocupantes sinais de não querer respeitar as fronteiras estabelecidas e as soberanias desses Estados. Daí a posição maximalista destes países, após o início da guerra com a Ucrânia, de não quererem receber visitantes russos.

Ainda que 70 por cento da população russa seja apoiante da invasão da Ucrânia é necessário aferir as condições em que esse apoio se verifica.

Não podemos deixar de levar em linha de conta que a Rússia é uma feroz ditadura, sem qualquer espaço para contraditório, sem liberdade de imprensa.

A realidade é construída de acordo com os interesses de um grupo político, oligarcas, chefiados por um presidente cujas raízes se perdem no que de pior tem a escola do KGB/FSB.

Aos mais jovens, nos bancos das escolas, são distribuídos manuais escolares que deformam a realidade, constroem uma narrativa quotidiana adaptada aos interesses de uma clique sem escrúpulos que fecha a porta a qualquer sinal de liberdade ou facto vindo do exterior que contrarie a narrativa que impõem.

A guerra não é uma guerra, não é uma invasão, não é uma ofensiva. É uma operação especial!

A Ucrânia não é um país, é um território à espera de ser ocupado por essa operação especial para ser limpo de nazis. Os media russos estão proibidos de fazerem referências a civis mortos pelas tropas de Moscovo. Ou seja, o povo russo não sabe na realidade o que se passa.

Os jornalistas e correspondentes ocidentais saíram de Moscovo há muito, anulando-se assim qualquer possibilidade de um outro olhar fora da vigilância do Kremlin.

A população russa está sem acesso às redes sociais. Não consegue um escrutínio, mínimo que seja, que possa abrir uma brecha no discurso oficial.

Os opositores ao regime de Putin são de imediato silenciados ou lançados nas prisões.

Ou seja, o povo russo desconhece o que se passa ou tem uma visão distorcida da realidade.

Há assim que contextualizar a situação em que se encontra a população russa, o seu desconhecimento e a impossibilidade de poderem avaliar a veracidade de toda a narrativa oficial construída pelo Kremlin.

Embora para a esmagadora maioria da população russa seja quase impossível viajar para Europa, os que o fizerem podem ter a oportunidade de avaliar o discurso oficial do Kremlin, verificar as inverdades, os factos escondidos, ter acesso a outras fontes de informação, falar com pessoas que têm outros pontos de vista diferentes do linguarejar oficial de Moscovo.

Assim, parece-nos correcta a posição dos que defendem que não deve existir uma proibição total da emissão de vistos para cidadãos russos que queiram viajar para a Europa.

Os que puderem que venham e que se informem o mais possível. Que vejam nas televisões ocidentais as imagens que lhes são proibidas na televisão oficial russa. Que vejam os crimes sobre a população ucraniana, os bombardeamentos de bairros civis, de escolas, de hospitais, pelas tropas russas.

Estão bem os países, como a Alemanha, França ou Portugal, que fazem um esforço para não misturar Putin e os que o rodeiam com todo o povo russo. Ainda que possa ser chocante ver russos em turismo quando o seu país bombardeia populações civis ucranianas, há que separar os que não estão no perímetro da nomenclatura dirigente russa.

Não seria correcto meter tudo no mesmo saco!

Jornalista

Diário de Notícias
António Capinha
02 Setembro 2022 — 00:44