Guterres. Mundo tem de escolher entre “ser solidário” ou cometer “suicídio em massa”

ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS/ONU/GUTERRES

Para o secretário-geral das Nações Unidas, é “inaceitável, escandaloso e contraproducente” deixar a luta contra as alterações climáticas “em segundo plano”.

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres
© EPA/MAXIM SHIPENKOV

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, pediu esta segunda-feira que os conflitos mundiais não sejam usados como desculpa para fugir às responsabilidades relativas ao clima, defendendo que a humanidade tem de escolher entre “solidariedade ou suicídio em massa”.

No seu discurso perante a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2022 (COP27), Guterres considerou que, apesar dos múltiplos conflitos que assolam o mundo – como a guerra na Ucrânia ou o conflito no Sahel -, “as alterações climáticas têm uma escala e uma linha de tempo diferentes”, já que “constituem a questão definidora da época” actual e o “desafio central do século”.

Por isso, defendeu ser “inaceitável, escandaloso e contraproducente” deixar a luta contra as alterações climáticas “em segundo plano”, e sublinhou que “muitos dos conflitos actuais estão relacionados com o crescente caos climático”.

Reconhecendo que a invasão russa à Ucrânia expôs a dependência do mundo ocidental face aos combustíveis fósseis e criou uma crise energética no mundo, Guterres pediu que isso não seja usado como “uma desculpa para recuos” nos objectivos definidos relativamente ao clima.

Estes conflitos devem antes “ser uma razão para ter mais urgência, acção mais forte e responsabilidade efectiva”, disse.

O secretário-geral da ONU afirmou ainda que, face ao aquecimento global e aos seus cada vez mais rápidos impactos, a humanidade terá de “cooperar ou morrer”.

“A humanidade tem uma escolha: cooperar ou morrer. É um Pacto de Solidariedade Climática ou um Pacto de Suicídio Colectivo”, disse António Guterres.

A actividade humana é a causa do problema climático, pelo que “a acção humana deve ser a solução”, referiu, defendendo que “a confiança” entre “o Norte e o Sul” tem de ser restabelecida.

Guterres pediu que as economias desenvolvidas e emergentes estabeleçam um “pacto de solidariedade climática” para que todos os países “façam um esforço extra para reduzir as emissões nesta década, de acordo com a meta” de limitar o aumento da temperatura a 1,5 graus Celsius e atingir emissões líquidas zero até 2050 em todo o mundo.

“Estamos perigosamente perto do ponto sem retorno”

“Mas essa meta de 1,5º está ligada à máquina de suporte de vida e a máquina está a tremer. Estamos perigosamente perto do ponto sem retorno”, disse, pedindo aos países do G20 (grupo das 19 economias mais desenvolvidas do mundo e União Europeia) que acelerem a sua transição verde “nesta década”.

Esse pacto de solidariedade climática também deve garantir que os países ricos e as instituições internacionais “fornecem ajuda técnica e financeira às economias emergentes para que estas acelerem a sua própria transição para as energias renováveis” e “acabem com a dependência de combustíveis fósseis”.

Para isso, é preciso “eliminar o carvão nos países da OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico] até 2030 e em todos os outros até 2040”, afirmou.

O secretário-geral da ONU lembrou aos Estados Unidos e à China, as duas maiores economias do mundo, que têm “uma responsabilidade particular de unir forças para tornar esse pacto uma realidade”, sublinhando que o acordo representa a “única esperança para alcançar as metas climáticas”.

Lembrando que a população mundial chega oficialmente aos 8 mil milhões de pessoas em 15 de Novembro, Guterres avançou uma questão: “O que diremos quando esse bebé 8 mil milhões tiver idade suficiente para nos perguntar: o que fizeram pelo nosso mundo e pelo nosso planeta quando tiveram oportunidade?”.

“Não esqueçamos que a guerra contra a natureza é, em si mesma, uma violação maciça dos direitos humanos”, acrescentou.

É preciso fazer mais para ajudar os países mais vulneráveis a lidar com as “perdas e danos” já sofridos devido ao aumento das tempestades, inundações, secas e outros fenómenos climáticos extremos, defendeu.

Embora esta questão seja um dos pontos de negociação mais sensíveis desta COP27, “a obtenção de resultados concretos sobre perdas e danos será o teste dos compromissos dos governos para o sucesso” da conferência, considerou.

Notícia actualizada às 13:57

Diário de Notícias
DN/Lusa
07 Novembro 2022 — 12:15



 

612: O planeta está a enviar um sinal de sofrimento: a crónica do caos climático

CIÊNCIA/ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS/AVISOS

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, avisou hoje que o “planeta está a enviar um sinal de sofrimento”, numa mensagem vídeo enviada aos participantes na Cimeira do Clima COP27, no Egipto, que arrancou de manhã.

ZAP // Marion / pixabay; André Kosters / Lusa

“No momento em que arranca a COP27, o nosso planeta está a enviar um sinal de sofrimento”, afirmou Guterres, citado pela agência de notícias AFP, referindo-se a uma “situação crónica do caos climático”.

A conferência climática da ONU arrancou hoje, em Sharm el-Sheikh, no Egipto, com um novo alerta sobre a aceleração do aquecimento global, cujo financiamento dos danos a países pobres está pela primeira vez, oficialmente, na lista dos debates.

Segundo dados divulgados hoje pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), os oito anos entre 2015 e 2022 serão os mais quentes já registados.

Até 18 de Novembro, delegados de quase 200 países tentarão dar um novo fôlego à luta contra o aquecimento global, enquanto as múltiplas e inter-relacionadas crises que abalam o mundo – guerra na Ucrânia, inflação e ameaça de recessão, crise alimentar – levantam receios de que o tema vai ficar em segundo plano.

“Vamos implementar juntos os nossos compromissos para a humanidade e para o nosso planeta”, apontou o ministro egípcio Sameh Choukri, que preside à cimeira.

Os impactos das alterações climáticas têm-se multiplicado, como mostram os diversos desastres que atingiram o planeta em 2022, desde as inundações históricas no Paquistão, às repetidas ondas de calor na Europa, além de furacões, incêndios, ou secas.

Os custos daqueles desastres já rondam as dezenas de milhares de milhões de euros, pelos quais os países do sul do globo, mais afectados, reivindicam uma compensação financeira.

O tema delicado das “perdas e danos” foi oficialmente adicionado à agenda das discussões, durante a cerimónia de abertura, enquanto até então era apenas objecto de diálogo previsto até 2024.

A desconfiança dos países em desenvolvimento é forte, enquanto não se cumpre a promessa dos países do norte de aumentar para 100.000 milhões de dólares por ano, a partir de 2020, a ajuda aos do sul, para reduzirem as emissões e se prepararem para os impactos.

Outra questão premente nas discussões prende-se com evitar um recuo nos compromissos de redução de emissões, que, mesmo assim, ainda são insuficientes.

Apenas 29 países apresentaram planos de redução aprimorados desde a COP de 2021, em Glasgow, na Escócia, embora tenham assumido o compromisso de o fazer.

2015 e 2022: a crónica do caos climático

Se as projecções para este ano se confirmarem, os oito anos de 2015 a 2022 serão os mais quentes jamais registados, alertou hoje a Organização Meteorológica Mundial (OMM) num relatório em que faz uma “crónica do caos climático”.

Esta “crónica do caos climático” mostra claramente que “a mudança se processa a uma velocidade catastrófica”, devastando vidas “em todos os continentes”, acrescentou, apelando para uma resposta através de “acções ambiciosas e credíveis” durante as duas semanas desta conferência sobre o clima no Egipto.

Com uma temperatura média estimada de 1,15°C superiores à da era pré-industrial, o ano de 2022 deverá classificar-se “apenas” como o quinto ou o sexto dos anos mais quentes, devido à influência não habitual, pelo terceiro ano consecutivo, do fenómeno oceânico La Niña, que provoca uma baixa das temperaturas.

“Mas isto não altera a tendência a longo prazo. É apenas uma questão de tempo até haver um novo ano mais quente”, insistiu a OMM, agência especializada da ONU.

Decisores políticos, académicos e ONGs reúnem-se entre hoje e 18 de Novembro em Sharm el-Sheikh na 27ª cimeira da ONU sobre alterações climáticas, COP27, para tentar travar o aquecimento do planeta, limitando o aquecimento global a 2ºC, e se possível a 1,5ºC, acima dos valores médios da época pré-industrial.

Líderes como o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, confirmaram a presença, e o Governo português vai ser representado pelo primeiro-ministro, António Costa.

ZAP // Lusa
6 Novembro, 2022



 

População está “condenada” sem acordo entre países ricos e pobres, alerta Guterres

ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS/ANTÓNIO GUTERRES

António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, lembra o compromisso não cumprido, assumido há dez anos pelos países desenvolvidos, de dar às nações mais pobres do mundo um total de 100.000 milhões de euros, até 2020, no âmbito da ajuda à protecção climática.

© EPA/MYKOLA TYS

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, alertou este sábado para a necessidade urgente de um acordo climático entre os países ricos e os que estão em desenvolvimento, caso contrário a população mundial estará “condenada”.

Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, publicada poucas horas antes da COP27 que decorrerá a partir de domingo na cidade egípcia de Sharm el Sheikh, Guterres lembrou o compromisso não cumprido, assumido há 10 anos pelos países desenvolvidos, de dar às nações mais pobres do mundo um total de 100.000 milhões de euros, até 2020, no âmbito da ajuda à protecção climática.

“Não há como evitar uma catástrofe se ambos não chegarem a um acordo neste sentido”, declarou o secretário-geral da ONU. “Neste momento, estamos todos condenados”, alertou.

António Guterres afirmou que o mundo está a aproximar-se de uma crise climática “irreversível” e de “danos dos quais não será capaz de recuperar”.

“Precisamos de mais urgência, mais ambição e reconstruir a confiança entre o norte e o sul do planeta”, acrescentou.

O responsável vincou que “metade da humanidade está na zona de perigo de enchentes, secas, tempestades extremas e incêndios florestais”.

“Nenhuma nação está imune. No entanto, continuamos a alimentar o nosso vício em combustíveis fósseis. Perante isto, temos uma de duas opções: ou a acção colectiva, ou o suicídio colectivo”, afirmou.

Diário de Notícias
DN/Lusa
05 Novembro 2022 — 14:30