504: Humanos antigos. Canibais oportunistas ou predadores?

CIÊNCIA/PALEONTOLOGIA/ANTROPOLOGIA/ARQUEOLOGIA

Randii Oliver / NASA

Os nossos antepassados do Paleolítico comiam-se uns aos outros. Os Homo sapiens e os neandertais também, tal como Homo erectus e o seu antecessor. É altamente provável que quase todos os hominídeos tenham praticado o canibalismo de alguma forma. As questões são “porquê” e “até que ponto”?

Segundo um artigo do Big Think, actualmente o canibalismo é visto como algo “abominável”. Mas será que essa aversão existia entre os nossos antepassados?

Os cientistas geralmente consideram o canibalismo paleolítico como uma excepção, não uma norma, “mas talvez isso seja apenas o desejo” de “imaginar os nossos ancestrais “como nobres caçadores e colectores” e não “como canibais brutais e oportunistas”.

James Cole, professor de Arqueologia na Universidade de Brighton, que recebeu um Prémio IgNobel pela investigação publicada em 2017 na Nature, referiu que “dada a natureza esparsa do registo fóssil de hominídeos, o facto de termos provas de canibalismo indica que o comportamento era talvez mais comum dentro das populações pré-históricas do que o número sugerido pelos sítios arqueológicos”.

Cole descreveu alguns sinais claros sobre ossos humanos fossilizados que apontam para o canibalismo: ausência de uma base craniana (para chegar ao cérebro) em esqueletos completos ou quase completos; ausência de vértebras (devido a esmagamento ou fervura para chegar à medula óssea e à gordura) e marcas de corte.

Além disso, outros sinais são as técnicas de abate comparáveis em restos humanos; provas de cozedura sob a forma de osso queimado e marcas de dentes humanos.

Estes indicadores foram observados em sítios humanos antigos em todo o mundo. Nas Cavernas Goyet, na Bélgica, os investigadores encontraram provas de que, há cerca de 45.000 anos, os neandertais massacraram alguns dos seus mortos e utilizaram os seus ossos como ferramentas.

E na caverna de Gough, no Reino Unido, os antropólogos descobriram marcas de mordeduras em ossos de Homo sapiens com 15.000 anos. Também descobriram centenas de marcas de filetagem e incisões ritualísticas nos ossos e crânios desenterrados aparentemente modificados para utilização como copos.

Será que os humanos praticavam o canibalismo de forma oportunista, devido à morte de um membro do grupo? Terá sido por necessidade, em situações de fome? Ou será que os humanos de grupos rivais caçavam-se uns aos outros?

Cole calculou o número de calorias que teria um homem adulto. Descobriu que seria de 143.771, o suficiente para alimentar um grupo de 25 humanos adultos durante meio dia.

Na sua opinião, “não valeria o esforço, especialmente em comparação com a caça a um cavalo, um boi selvagem ou um mamute, excluindo a ideia de que os humanos antigos caçavam-se uns aos outros regularmente”, lê-se no artigo.

“Um único grande indivíduo da fauna fornece muito mais calorias sem as dificuldades de caçar grupos de hominídeos, que eram tão inteligentes e engenhosos como os caçadores”, escreveu Cole.

Isso significa que, provavelmente, o canibalismo paleolítico era praticado de forma oportunista, por necessidade ou para fins ritualísticos, acrescentou.

  ZAP //
28 Outubro, 2022



 

405: O que tinham em comum Carlos II de Espanha, a Rainha Vitória e o rei Tut? A resposta está nos pais

CIÊNCIA/ARQUEOLOGIA/EGIPTO

czechr / Flickr
A famosa máscara de Tutankhamon

O que é que Tutankhamon tinha em comum com a Cleópatra, o Carlos II de Espanha ou a Rainha Vitória? Todos são fruto de relações consanguíneas e sofreram devido a doenças genéticas causadas por um costume que ao longo dos épocas se tem mantido popular entre a realeza.

Os antigos egípcios não eram excepção e Cleópatra é um exemplo famoso. A dinastia Ptolemaica queria que os membros da sua família se casassem entre eles devido à sua crença numa linhagem pura.

De acordo com o Ancient Origins, a tradição era tão abrangente que, enquanto a maioria das pessoas tinha 32 tataravós, Cleópatra tinha apenas quatro. Ela própria casou com dois irmãos mais novos.

Embora Tutankhamon seja um dos faraós mais famosos, os arqueólogos sabiam pouco sobre a sua família, que fez parte da 18ª Dinastia do Novo Reino egípcio. Devido à impopularidade do seu pai, Aquenáton, muito dos dados foram apagados após a morte do rei Tut. A identidade da sua mãe, por exemplo, tinha sido perdida.

Em 2010, mais de 3.000 anos depois, uma tecnologia de análise de ADN e tomografias computorizadas permitiram identificar as relações familiares entre 11 múmias, incluindo a de Tutankhamon, conhecidas por pertencerem à 18ª Dinastia. Destas, os cientistas apenas tinham identificado três até à data.

Os resultados mostraram que uma das múmia foi identificada como Aquenáton, pai de Tutankhamon. Outra múmia misteriosa, apelidada de “a Jovem Dama” pelos arqueólogos, foi identificada como a mãe do rei Tut.

Ainda mais surpreendente foi o facto de os cientistas terem concluído que ela era irmã de Aquenáton. Isto significava que os pais de Tutankhamon eram irmãos. Fruto dessa relação, o faraó sofria de vários problemas de saúde, incluindo um pé torto, cifoescoliose, fenda palatina, anemia falciforme e tinha a imunidade comprometida.

Os efeitos genéticos da consanguinidade eram desconhecidos durante a sua era e Tutankhamon casou com a sua meia-irmã, Anquesenamon. O rei Tut morreu aos 19 anos, não deixando filhos.

  ZAP //
9 Outubro, 2022



 

32: Descoberto no Côa novo fragmento de rocha gravada com mais de 16 mil anos

CIÊNCIA/ARQUEOLOGIA

A descoberta do novo fragmento foi efectuada no sítio do Fariseu, no Parque Arqueológico do Vale do Côa, e está a intrigar os investigadores. “Este é mais um exemplo de que há muito para descobrir”, diz director científico da Fundação Côa Parque.

Foi descoberto um novo fragmento de rocha, gravada com uma técnica diferente da chamada “Arte Do Côa”, que poderá ter cerca de 16 mil anos
Foto MIGUEL PEREIRA DA SILVA/LUSA

Vila Nova de Foz Côa, Guarda, 09 Ago 2022 (Lusa) – Arqueólogos do Côa colocaram a descoberto um novo fragmento de rocha, gravada com uma técnica diferente da chamada “Arte Do Côa”, que poderá ter cerca de 16 mil anos, disse hoje à Lusa o coordenador científico da Fundação Côa.

“Este é mais um exemplo de que há muito para descobrir no Vale do Côa. Encontrámos este novo fragmento de rocha, que foi descoberto numa camada já oficialmente datada de há 16 mil anos. Este fragmento poderá pertencer a um painel que foi descoberto há cerca de um ano e que representa uma cerva”, explicou à Lusa o director científico da Fundação Côa Parque, Thierry Aubry.

Após testes de datação por “luminescência”, que estiveram a cargo de um laboratório na Dinamarca, quando do achado inicial, no ano passado, é possível afirmar que esta gravura por incisão tem mais de 16 mil anos.

© MIGUEL PEREIRA DA SILVA/LUSA

A descoberta do novo fragmento foi efectuada na passada sexta-feira, no sítio do Fariseu, em pelo Parque Arqueológico do Vale do Côa (PAVC) e, tal como a primeira descoberta, esta também a intrigar os investigadores.

“Começamos a ter as peças de um ‘puzzle’ que vão pouco a pouco aparecendo. Não se trata de arte móvel, mas sim de uma parte de uma parede que se desmoronou. Encontrámos esta peça na passada sexta-feira, é muito recente. Ainda estamos a escavar nesta camada e estamos à espera de encontrar outras partes para reconstituir este conjunto onde está representada uma cerva feita por incisão, e não por picotagem”, indicou o também arqueólogo.

Esta peça apresenta várias incisões que estão, na opinião dos arqueólogos, “incompletas”.

“Torna-se fascinante descobrir pouco a pouco e cada ano um pedacinho deste ‘puzzle’ que tem mais de 16 mil anos”, afirmou o responsável.

Após escavações que decorreram em maio de 2021, junto à chamada ‘rocha 09’ do Fariseu, que representa um dos principais núcleos de arte rupestre do Vale do Côa, classificados como Monumento Nacional e inscritos na Lista do Património Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO, na sigla em inglês), foram encontrados 25 fragmentos de rocha com técnicas diferentes de gravação (picotagem e incisão).

“As duas primeiras peças de xisto que representam a cerva, e que foram encontradas no mesmo nível estratigráfico desta nova descoberta, despertam a curiosidade da comunidade científica e estão expostas em Lisboa, no Museu Nacional de Arte Popular, integradas na exposição ‘Arte Sem Limite'”, recordou Thierry Aubry.

Agora os arqueólogos vão centrar esforços para perceber se esta nova peça “é adjacente”, mas há a certeza de que o tipo de traço é igual ao da primeira descoberta.

“Esta nova peça deve fazer parte da mesma rocha e do mesmo fragmento do painel que foi destruído. Estas descobertas feitas em contexto de datação são muito pouco frequentes, e temos a certeza que a Arte do Côa, ainda tem muito para dar”, vincou o especialista em arqueologia à Lusa.

A chamada “Arte do Côa” situa-se entre os 25.000 e 30.000, no que diz respeito à técnica por picotagem, sendo esta descoberta a mais recente na região, e apresenta uma técnica por incisão.

A “Arte do Côa” foi classificada como Monumento Nacional, em 1997, e como Património da Humanidade, pela UNESCO, um ano depois.

Como uma imensa galeria ao ar livre, o Vale do Côa apresenta mais de 1.200 rochas, distribuídas por 20 mil hectares de terreno com manifestações rupestres, sendo predominantes as gravuras paleolíticas, executadas há mais de 25.000 anos, e distribuídas por quatro concelhos: Vila Nova de Foz Côa, Figueira de Castelo Rodrigo, Pinhel e Meda.

Diário de Notícias
Lusa
09 Agosto 2022 — 12:39