1007: Rover Perseverance detecta mais carbono orgânico em Marte, em busca de sinais de vida

CIÊNCIA / ASTRONOMIA / ASTROBIOLOGIA

O rover Perseverance encontrou moléculas orgânicas em Marte semelhantes aos químicos que deram origem à vida na Terra.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/MSSS

No chão da cratera Jezero, o rover Perseverance da NASA descobriu sinais de moléculas orgânicas, os tipos de químicos que compõem a vida na Terra. Com base nas medições que o rover tem realizado até agora, é impossível dizer se as moléculas orgânicas provêm de vida antiga ou de processos geológicos.

No entanto, mesmo moléculas orgânicas formadas geologicamente reforçam as evidências da habitabilidade passada de Marte, porque a vida na Terra provavelmente começou por coalescência a partir de moléculas orgânicas naturais como estas, diz Amy Williams, astrobióloga da Universidade da Florida e uma das planeadoras a longo prazo da missão do Perseverance.

“Os compostos orgânicos compõem a vida tal como a conhecemos”, disse Williams. “Ver carbono orgânico em Marte permite-nos compreender se os blocos de construção da vida estavam presentes no planeta no passado através da lente de como a vida evoluiu na Terra”.

O Perseverance recolheu múltiplas amostras de rochas que vão ser enviadas para a Terra graças à missão MSR (Mars Sample Return). Algumas dessas amostras incluem rochas alteradas pela água e os cientistas pensam que um Marte húmido pode ter suportado vida há milhares de milhões de anos atrás.

Testes mais sofisticados na Terra podem verificar os sinais de moléculas orgânicas e determinar se as amostras rochosas possuem evidências convincentes de vida passada em Marte.

Num artigo científico publicado dia 23 de Novembro na revista Science, liderado por Eva Scheller do Caltech (California Institute of Technology), Williams e o resto da equipa do Perseverance partilharam a sua análise de moléculas orgânicas em vários locais do chão da cratera.

O rover também avistou vários sais minerais que se formaram a partir da interacção da água com rochas na cratera.

Liderado pelo JPL da NASA, o Perseverance está a estudar a cratera Jezero porque em tempos acolheu um grande delta de rio que desaguava num antigo lago. Esse passado húmido faz da cratera um local promissor para a identificação de quaisquer sinais de vida de há milhares de milhões de anos atrás.

Esta não é a primeira vez que moléculas orgânicas são detectadas em Marte. O rover Curiosity – no qual Williams também trabalha – encontrou carbono orgânico noutros locais do planeta em 2015.

Agora que o Perseverance viu assinaturas semelhantes num contexto geológico completamente diferente, as evidências estão a acumular-se de que o carbono orgânico é omnipresente no Planeta Vermelho, embora a níveis baixos.

“Ver uma história consistente é sempre reconfortante como cientista”, disse Williams. “Agora que temos uma ideia dos compostos orgânicos, isso está a ajudar-nos a ligá-los a uma biosfera marciana ou a processos geológicos no passado”.

Astronomia On-line
29 de Novembro de 2022



 

963: Não, não é um berlinde. James Webb revela-nos a sua mais recente maravilha

CIÊNCIA/ASTRONOMIA/ESPAÇO/TITÃ/JAMES WEBB

O Telescópio Espacial James Webb revelou uma nova imagem de Titã, a lua de Saturno em que se acredita poder haver vida extraterrestre.

Michael Radke / NASA / JPL-Caltech

No dia 24 de Agosto, um instrumento vital a bordo do Telescópio Espacial James Webb apresentou um defeito que levou a equipa da missão a desligá-lo.

O problema ocorreu quando o Mid-Infrared Instrument (MIRI) apresentou maior fricção numa das suas rodas enquanto estava no modo Espectroscopia de Resolução Média (MRS).

A equipa da missão colocou o MIRI offline enquanto tentava diagnosticar o problema, deixando o observatório a fazer observações de outras formas.

Isso aconteceu logo depois do Webb ter sido atingido por um grande micro-meteorito no final de Maio, que causou danos a um dos seus principais segmentos de espelho.

Felizmente, o dano causado não alterará o desempenho do telescópio, e a equipa da missão anunciou no início deste mês que restaurou o MIRI ao status operacional.

Com tudo afinado, o Webb mais uma vez virou a sua óptica infravermelha para o cosmos e adquiriu algumas imagens de tirar o fôlego. Isso inclui uma nova imagem da maior lua de Saturno, Titã, que apareceu recentemente online.

A imagem foi processada e carregada no Twitter por Michael Radke, estudante que estuda atmosferas planetárias da John Hopkins University.

Segundo Radke, a imagem foi adquirida entre 4 e 5 de Novembro, que duplicou em escala e acrescentou vermelho, verde e azul para representar diferentes comprimentos de onda (R = 4,8 um, G = 2,1 um, B = 1,4 um). Esses valores foram baseados no Visible and Infrared Mapping Spectrometer (VIMS) da missão Cassini.

Essas cores parecem corresponder ao espectro de absorção de monóxido de carbono (verde), metano (azul) e azoto (vermelho), os gases que compõem a maior parte da atmosfera de Titã.

Titã também parece estar iluminada no canto superior esquerdo da imagem, o que cria a impressão de um nascer do sol. A cientista planetária, autora e jornalista espacial Emily Lakdawalla sugeriu que a fonte poderia ser a luz reflectida da atmosfera de Saturno.

Esta imagem também fornece um vislumbre dos tipos de operações científicas que Webb conduzirá com Titã e outros corpos no nosso Sistema Solar.

Os seus poderosos instrumentos permitirão aos astrónomos estudar a composição química das atmosferas em detalhe. Titã é de particular interesse porque é a única lua na nossa atmosfera com uma atmosfera substancial – onde a pressão do ar é aproximadamente 50% maior que a da Terra.

Como a Terra, a atmosfera de Titã é predominantemente composta de azoto (94%), com hidrocarbonetos como o metano a constituir a segunda maior fracção (5,65%).

Titã é o único outro corpo no Sistema Solar com um ciclo de precipitação e evaporação. Enquanto a Terra tem um ciclo de água, Titã tem um ciclo de metano, onde o metano forma nuvens na atmosfera da lua, cai na superfície como chuva e reabastece os lagos de metano.

Além disso, a atmosfera de Titã é rica em processos químicos, pois os hidrocarbonetos são decompostos pela radiação solar nos seus constituintes (isto é, carbono, hidrogénio, oxigénio e azoto) e então formam novas moléculas que se depositam na superfície.

A atmosfera e a superfície de Titã também possuem algo que nenhum corpo além da Terra possui: um rico ambiente prebiótico e química orgânica. Por esta razão, os astro-biólogos suspeitam que Titã pode ser um dos lugares mais promissores para procurar vida extraterrestre.

Por esses motivos, o Webb precisa dos seus instrumentos em funcionamento, principalmente o MIRI e o Espectrógrafo de infravermelho próximo (NIRSpec). Eles obterão espectros de alta precisão da atmosfera de Titã para observar essas moléculas e processos em funcionamento.

ZAP // The Conversation
28 Novembro, 2022



 

588: “Conan, a bactéria” pode estar escondida debaixo da superfície de Marte (e a dormir uma longa sesta)

CIÊNCIA/ASTROBIOLOGIA/MARTE/BACTÉRIAS

Um novo estudo simulou as condições de Marte e descobriu que “Conan, a bactéria”, conseguiria sobreviver hibernado durante 280 milhões de anos debaixo da superfície do planeta.

(dr) Envato Elements

É uma questão que têm intrigado os cientistas — e David Bowie — há anos e anos. Afinal, há vida em Marte? Um novo estudo publicado na Astrobiology sugere que um dos micróbios mais resilientes da Terra pode estar escondido debaixo da superfície marciana e a dormir uma longa soneca há já 280 milhões de anos.

O micróbio em questão é o Deinococcus radiodurans, também conhecido como “Conan, a bactéria”, e é capaz de sobreviver a radiação forte o suficiente para matar qualquer outro tipo de vida conhecido.

Os cientistas testaram seis micróbios e fungos que conseguem sobreviver em ambientes extremos, tal como Conan, para tentarem perceber se estes seres vivos seriam capazes de viver nas latitudes médias de Marte.

Para isto, os micróbios foram expostos a raios ultravioleta e gamma, a temperaturas de 63 graus negativos e a protões de alta energia que simulavam as condições ambientais do Planeta Vermelho, escreve o Space.

A equipa mediu depois a acumulação de antioxidantes de manganês, cuja quantidade aumenta à medida que a resistência à radiação também cresce, nas células dos micróbios — e Conan, a bactéria, foi a vencedora clara.

As experiências mostram que Conan consegue absorver 28 mil vezes mais radiação do que os humanos. Testes anteriores já tinham indicado que o micróbio poderia sobreviver debaixo da superfície marciana durante 1,2 milhões de anos.

O novo estudo, onde o micróbio foi congelado e ressecado para se imitar o clima frio e seco de Marte, sugere que Conan poderia sobreviver durante 280 milhões de anos no planeta, se estiver enterrado a uma profundidade de 10 metros.

Esta esperança de vida diminui para 1,5 milhões de anos se a profundidade for reduzida para apenas 10 centímetros e para apenas algumas horas se a bactéria estiver à superfície, onde fica muito exposta à luz ultravioleta.

O clima de Marte há 280 milhões de anos era basicamente igual ao actual, pelo que teríamos de recuar cerca de 2,5 mil milhões de anos no tempo — quando os fluxos de água terão desaparecido — até chegarmos a uma altura em que o clima era quente e húmido o suficiente para que a vida pudesse sequer aparecer.

A equipa reconhece esta complicação, mas sugere que o derretimento periódico poderia ter permitido um repovoamento e dispersão intermitentes da bactéria.

Os autores recomendam que missões futuras em Marte sejam feitas em crateras com menos de 280 milhões de anos, para podermos descobrir de uma vez por todas se Conan, a bactéria, tem mesmo um primo marciano a dormir aconchegado debaixo da superfície e à espera de ser descoberto.

Adriana Peixoto, ZAP //
4 Novembro, 2022