1081: O mundo já tem o seu primeiro “parastronauta”

PARASTRONAUTAS // ESPAÇO

A Agência Espacial Europeia fez história na semana passada com o anúncio do primeiro “parastronauta”, o britânico John McFall, de 41 anos.

Pixabay / Pexels

É o primeiro candidato seleccionado para o projecto Parastronaut Feasibility, descrito pela ESA como uma “tentativa séria, dedicada e honesta de abrir o caminho para o espaço para um astronauta profissional com deficiência física”.

McFall, ex-velocista para-olímpico, teve a perna direita amputada após um acidente de mota aos 19 anos.

A maioria de nós está familiarizada com imagens de testes exaustivos de selecção de astronautas e treinos em filmes como The Right Stuff. A ESA procura responder à questão prática de que mudanças de treino e equipamentos precisam ser feitas para que uma pessoa com deficiência física viaje no Espaço.

Como são seleccionados os astronautas?

A NASA seleccionou pela primeira vez os astronautas, o Mercury Seven, em 1959. O recrutamento foi limitado a pilotos de teste militares do sexo masculino com menos de 40 anos, em excelente saúde física e mental e com menos de 1,8 m de altura (a cápsula Mercury era minúscula).

Hoje, a NASA usa uma triagem de elegibilidade básica semelhante. Os candidatos devem ter visão 20/20 (lentes correctivas e cirurgia ocular a laser estão bem) com pressão arterial abaixo de 140/90 quando sentados e uma altura entre 1,49 e 1,93m (para caber nos trajes espaciais disponíveis).

No entanto, esta é a parte fácil. Os candidatos passam por várias rodadas de entrevistas e testes e, se tiverem a sorte de serem seleccionados, precisarão passar no teste físico de astronauta de voo de longa duração. É um teste cansativo de uma semana de habilidades físicas necessárias para o Espaço, como agilidade e coordenação mão-olho, bem como tolerância de pressão extrema e ambientes inerciais (rotativos).

Isso é seguido por um período de treino de dois anos, dominando hardware e software espacial complexo, realizando EVAs (passeios espaciais) simulados no Laboratório de Flutuação Neutra de Houston e experimentando a ausência de peso durante o voo parabólico.

São usados programas semelhantes ​​nas agências espaciais. Determinar quais adaptações de treino são necessárias para permitir a participação de candidatos com deficiência física será um dos resultados do projecto parastronauta.

Diversidade de astronautas está a melhorar

Culturalmente, os critérios de selecção de astronautas evoluíram lentamente desde as primeiras coortes exclusivamente masculinas e militares. A primeira mulher (e civil) no espaço, a cosmonauta soviética Valentina Tereshkova, voou na cápsula Vostok 6 em 1963.

Passaram-se mais 15 anos antes que a NASA seleccionasse astronautas do sexo feminino e mais cinco antes de Sally Ride se tornar a primeira mulher americana no Espaço a bordo do space shuttle Challenger em 1983. O primeiro astronauta negro da NASA, Guion “Guy” Bluford, voou no mesmo ano .

A classe de astronautas da NASA de 2021 com dez candidatos, Grupo 23, incluiu quatro mulheres e vários candidatos de origens culturalmente diversas.

Parece que a diversidade na selecção de astronautas ficou para trás da sociedade, e a ESA deu um passo ousado com o projecto parastronauta.

Nivelar as oportunidades

A ESA concentrou-se inicialmente em candidatos com deficiência nos membros inferiores. Os astronautas usam principalmente a parte superior do corpo para se locomover sem peso, e é improvável que uma deficiência nos membros inferiores prejudique o movimento. A este respeito, zero-g apresenta um campo de jogo nivelado.

É provável que surjam problemas ao operar o hardware espacial existente. O estudo do parastronauta visa determinar quais modificações em veículos de lançamento, trajes espaciais e outros sistemas espaciais seriam necessárias para permitir que um astronauta com deficiência física vivesse e trabalhasse no Espaço.

Há um precedente para um astronauta com uma condição progressivamente incapacitante voando no espaço. O astronauta da NASA, Rich Clifford, foi diagnosticado com a doença de Parkinson em 1994, depois de notar uma falta de movimento no braço direito ao caminhar, pouco antes do seu terceiro voo do space shuttle.

A NASA não só permitiu que ele fosse lançado a bordo do Atlantis em 1996 para sua missão final, mas programou Clifford para um EVA de seis horas no exterior da estação espacial Mir.

Embora a sua experiência tenha sido amplamente positiva, Clifford notou que teve dificuldade em vestir o seu fato espacial devido ao movimento limitado do seu braço direito. O interface homem-máquina pode apresentar o maior desafio para os futuros parastronautas.

O Espaço ainda é arriscado e extremo

Em Novembro de 2021 ultrapassamos a marca de 600 humanos que já foram ao Espaço. Compare isso com os 674 milhões de passageiros que voaram nas companhias aéreas dos EUA apenas em 2021.

Se pudéssemos viajar no tempo para quando apenas 600 pessoas voavam em aviões, encontraríamos o risco de voar consideravelmente maior do que hoje. É aqui que estamos com os voos espaciais.

Continua a ser um empreendimento de alto risco num ambiente extremo com desafios físicos e mentais significativos. Ainda estamos muito longe de alguém qualquer conseguir viajar para o Espaço.

O nosso conhecimento dos riscos físicos, mentais e operacionais associados ao voo espacial ainda é incompleto. Dos mais de 600 viajantes espaciais até o momento, apenas 70 eram do sexo feminino, e a compreensão da diferença de género na saúde espacial está apenas a começar a surgir.

Como uma deficiência física afectaria o desempenho de um astronauta no espaço? Não sabemos, mas a ESA está a dar o primeiro passo para descobrir. Parece que o Espaço é realmente a última fronteira.

ZAP // The Conversation
4 Dezembro, 2022



 

“Colocar humanos na Lua dentro de dois anos parece-me realista”

CIÊNCIA/ESPAÇO/LUA

No mês do lançamento de teste do programa Artemis, ex-astronauta da NASA Mike Massimino falou com o DN sobre o futuro do sector e deixa conselhos para quem quiser seguir a carreira.

Mike Massimino esteve mais do que uma vez na Estação Espacial Internacional e contribuiu para melhorar o telescópio Hubble.
© D.R.

Quando, em 1969, David Bowie chamava pelo Major Tom, no hino Space Oddity e, dois anos mais tarde, se questionava se haveria vida em Marte (Life on Mars?), estaria longe de imaginar que 40 anos volvidos, em 2009, se faria o primeiro tweet no espaço. O autor? Mike Massimino, na altura astronauta da NASA.

Entretanto reformou-se, mas continua a falar sobre o Espaço e astronomia (participou na série A Teoria do Big-Bang e atualmente é professor na Universidade Columbia, nos Estados Unidos. Pelo meio ainda escreveu um livro).

Por estes dias, discursou num evento da startup Unbabel, organizado no âmbito da Web Summit e, ainda que à distância, o DN conversou com o ex-astronauta sobre o futuro do sector espacial, que considera ser “cada vez mais entusiasmante”.

Sobretudo por um motivo: “Já não são apenas os governos e as agências governamentais, há também empresas privadas, como a Space X e a Blue Origin, que já começaram a levar mais pessoas ao espaço. É um paradigma completamente novo.”

“O espaço está cada vez acessível e próximo de nós, mas a Lua deve chegar primeiro, só depois se pode pensar em colocar humanos em Marte.”

Neste campo, há também planos para, em breve, colocar humanos novamente na Lua. O projecto não é novo – começou em 2017 – mas os primeiros lançamentos vão acontecer na próxima segunda-feira [dia 14], depois de já terem sido cancelados por problemas no propulsor que será testado. Apesar de tudo, Mike Massimino acredita que o programa Artemis é mesmo “o próximo grande passo para a Humanidade”.

“A Lua é o próximo local onde as pessoas chegarão. Colocar humanos lá dentro de dois anos parece-me realista; dentro de quatro, talvez colocar pessoas a andar novamente na superfície lunar”, acrescenta. E depois, o que se segue? “A intenção seguinte é construir uma base e criar uma colónia lunar.

A última vez que se colocou um humano na Lua foi há 50 anos e nunca mais se voltou a ir, temos de voltar a colocar astronautas lá e, desta vez, para ficar. Isto também é entusiasmante, e pode ser novamente uma oportunidade para entendimentos entre governos e empresas privadas trabalharem em conjunto”, defende.

Pensar mais além, neste momento, pode ser irrealista, alerta. “Tivemos recentemente a missão DART [que interceptou e desviou um asteróide], temos o telescópio espacial James Webb…

O espaço está cada vez acessível e próximo de nós, mas a Lua deve chegar primeiro, só depois se pode pensar em colocar humanos em Marte”, até porque “não convém esquecer que o acesso é mais difícil, são necessários mais recursos.

Já é difícil o suficiente colocar pessoas na Lua, é preciso ter paciência antes de pensar estarmos em Marte”, relembrando: “Seria preciso lidar com radiação, e em caso de emergências médicas é preciso pensar em como se solucionariam estas questões.”

Mike Massimino foi a primeira pessoa a fazer um tweet no espaço, em 2009. Já participou numa série televisiva e, actualmente, é professor na Universidade Columbia.

No contexto actual, há cada vez mais espaço para novas forças e entidades aparecerem nas ciências espaciais e nos estudos interplanetários – algo que pode ser feito, sobretudo, através de colaborações entre entidades, como defende Mike Massimino, que considera que a situação geopolítica actual – com uma guerra na Europa e, por exemplo, a China a procurar construir uma estação espacial própria – pode não prejudicar esta área. “A colaboração é sempre uma coisa boa.

Há que compreender isso. E mesmo com a guerra, agências espaciais como a NASA, a ESA (Agência Espacial Europeia) e outras entidades continuam a trabalhar com a agência espacial russa”, ressalva, acrescentando: “Essa é uma das coisas boas dos programas de estudo e pesquisas espaciais.

Essa interdependência entre as partes, que resulta nesta colaboração. Lançámos recentemente astronautas russos em cápsulas americanas, e vice-versa. Acho que isso vai continuar, apesar de tudo.”

Voltemos à Terra, a Portugal (de que Mike Massimino confessa gostar muito, “principalmente de Sagres, um dos sítios favoritos no planeta”) e a Lisboa, neste caso.

Com uma agência espacial criada há três anos, Portugal procura o seu espaço nos programas espaciais internacionais (a astrobióloga Zita Martins foi recentemente contratada pela ESA para o projecto Comet Interceptor).

Por isso, que conselho deixa Mike Massimino aos presentes na LangOps Universe (o evento da Unbabel onde discursou), caso queiram ser astronautas? “Olhem para o meu caso: fui rejeitado três vezes, falhei o exame de acuidade visual.

A educação é a chave neste processo e as contribuições em Terra são igualmente importantes. Estudem, porque precisamos um pouco de várias pessoas de áreas diferentes, desde economia a medicina. Estudem e apostem na educação”, remata.

rui.godinho@dn.pt

Diário de Notícias
Rui Miguel Godinho
10 Novembro 2022 — 00:09



 

344: Estudo: cogumelos alucinogénios podem ser benéficos para os astronautas

CIÊNCIA/ESPAÇO/ASTRONAUTAS/COGUMELOS ALUCINOGÉNIOS

Os cientistas estão, constantemente e cada vez mais, à procura de formas para tornar as viagens espaciais mais confortáveis para os astronautas. Desta vez, um novo estudo descobriu que os cogumelos alucinogénios podem representar benefícios para os astronautas.

Pode parecer loucura, mas os investigadores têm argumentos que podem ser válidos.

Já vimos cientistas a testar a possibilidade de cultivar alimentos no espaço, ou de garantir que os astronautas conseguem comer de forma saudável, e também já foi mencionado, aqui, a “sexologia do espaço”.

Efectivamente, os especialistas procuram encontrar formas de tornar as viagens espaciais mais confortáveis, bem como menos perigosas para os astronautas que as realizam.

Nos últimos anos, as investigações têm sido direccionadas para as consequências mentais e físicas dos voos e das estadias no espaço. Afinal, passar um longo período de tempo longe da civilização, com um grupo muito pequeno de pessoas, em condições ambientais que não suportam vida, pode ser traumático, para o corpo e para a mente.

Por isso, e apesar de não haver ainda evidência científica suficiente relativamente ao assunto, uma equipa de cientistas de uma empresa de biotecnologia sugere que cogumelos alucinogénios poderiam ajudar os profissionais a superar os efeitos do stress, aquando das viagens ao espaço. a investigação foi publicada no Frontiers in Space Technologies.

Cogumelos alucinogénios poderão ajudar astronautas nas viagens ao espaço

Teoricamente, os medicamentos psicadélicos, tomados de forma controlada e combinados com terapia, são muito eficazes no tratamento do transtorno de stress pós-traumático.

No entanto, considerando que a NASA proíbe o consumo de drogas, poderá ser difícil testar em situações reais. Por esta razão, e porque o tema carece de investigação, a equipa de cientistas ressalva que o estudo serve apenas, para já, para recomendação.

Os autores do estudo mencionam que a psilocibina, o componente que transforma os cogumelos alucinogénios numa droga psicoactiva, poderá ser eficaz para os astronautas. Embora não tenham conseguido realizar ensaios clínicos no espaço, basearam as suas conclusões em vários estudos nos quais o fármaco ajudou a aliviar o stress em doentes com cancro terminal.

Além disso, consideraram também ensaios pré-clínicos em animais, que sugerem que os cogumelos alucinogénios podem ajudar a melhorar a plasticidade neuronal. Uma vez que isto estaria implicado nas consequências cognitivas do stress a que os astronautas estão sujeitos, acreditam que poderia ser benéfico.

À equipa de cientistas, resta, daqui em diante, testar a sua teoria com astronautas, em ambiente espacial real.

Pplware
Autor: Ana Sofia Neto
24 Set 2022



 

“As próximas pessoas na Lua serão mulheres. O quando depende dos sistemas de lançamento e de pouso, que estão a ser testados”

TECNOLOGIA/ESPAÇO/LUA

Antigo cientista chefe da NASA e actualmente à frente do Goddard Space Flight Center também da agência espacial americana, James Garvin esteve nos Açores para a GlexSummit e conversou com o DN sobre Vénus, mas também sobre Marte e até sobre o regresso à Lua. O entusiasmo com que fala, também todo o conhecimento que revela, justifica o optimismo que têm sobre a exploração espacial, incluindo a cooperação entre países e entre empresas privadas e governos.

Já conhecia James Garvin de uma anterior entrevista, feita em Lisboa antes do cientista americano dar uma palestra no Instituto Superior Técnico, e se na altura Marte era o grande tema que o apaixonava, agora é Vénus que exige boa parte da sua dedicação.

A conversa aconteceu no Teatro Micaelense, em Ponta Delgada, durante a GlexSummit 2022, mas depois acompanhei o antigo cientista chefe da NASA numa ida ao Faial, nomeadamente ao vulcão dos Capelinhos, que estuda há muitos anos, tal como aos Açores em geral, acreditando – diz – que se pode aprender sobre o espaço estudando a Terra e também sobre o nosso planeta investigando o que se passa, ou se passou, noutros.

Vénus é agora a grande prioridade para a NASA?
Não. Vénus é uma de muitas. As prioridades incluem a Terra – a avaliação das alterações ambientais e o impacto no futuro -, a NASA tem um grande programa nessa área; os voo espaciais das mulheres – levar as mulheres à Lua – e isso é muito importante, como deve ser; a continuação de Marte – trazer amostras para a Terra – com a comunidade mundial, pois a NASA e a Agência Espacial Europeia [AEE] estão a fazer isso em conjunto, o que é muito importante; mas, agora, também usar Vénus como uma janela para outros mundos, especialmente aqueles que nós pensamos que seremos capazes de sentir com os Grandes Observatórios Astronómicos. Na verdade, Vénus é literalmente detectável porque é uma grande atmosfera.

A atmosfera de Vénus é 97% maior que a da Terra, é enorme. Portanto, aquela dimensão demorou algum tempo a desenvolver-se até ficar tão grande. O que é que fez isso acontecer? Porque é que não é mais desenvolvida quimicamente como a nossa com hidrogénio e oxigénio? Porque é que o registo aparente de água na atmosfera sugere que muita, muita água se perdeu? Água para um oceano.

Se houvesse um oceano seria talvez maior que o da Terra. Assim, o potencial de Vénus ter tido vida como a Terra nesses tempos antigos de oceanos e sistemas geotérmicos, como estes dos Açores, é muito alto. Provavelmente será difícil lá chegar e será difícil trabalhar lá. Marte é um ambiente árctico gelado, pode-se pôr o telefone no congelador de Marte que ele fica bem.

Portanto, Marte é mais fácil de explorar, de investigar, do que Vénus?
Muito mais fácil. Também é mais fácil porque ainda não é possível chegar a Vénus de forma a haver tempo para fazer o trabalho, pensamos que um veículo espacial em Vénus não durava mais do que uma hora. Por isso, o que queremos é fazer mais trabalho na atmosfera enquanto tentamos chegar à superfície.

Da mesma forma que a exploração do mar profundo observa tudo no caminho lá para baixo. A secção daqueles 70 km de história química do sistema climático é muito importante. A química não mente, se lermos bem a química podemos aprender muita coisa. A atmosfera de Vénus tem muitas camadas.

Em Vénus podemos então aprender alguma coisa sobre a Terra?
Podemos, porque Vénus passou por um cenário de efeito de estufa descontrolado. Nós pensamos que era mais fresco, mais agradável em determinado momento. Tudo sugere isso – precisamos de mais dados, mas vamos obtê-los -, mas depois alguma coisa aconteceu. Assim, Vénus como deve ter sido, não está lá agora.

O que é que correu mal? Ou nós percebemos mal? Portanto, ao medirmos certas coisas, tanto numa missão como a nossa DAVINCI e a missão irmã EnVision, vamos mapear Vénus na totalidade, medir a atmosfera até à escala mais fina, tocar nas montanhas de um outro mundo pela primeira vez.

Nunca nenhuns sistemas de montanhas foram alguma vez visitados por pessoas do planeta Terra e, então, que é o mais importante, vamos ter os dados para todas as pessoas brilhantes de hoje em dia, com melhores ferramentas, melhores computadores, melhores ideias, melhores modelos.

Depois há um sonho partilhado por alguns de nós: depois de termos feito todo esse trabalho nos próximos 10 ou 15 anos, talvez possamos ter pessoas na órbita de Vénus a operarem robots, como nas profundezas do mar.

Na órbita, porque pousar em Vénus é quase impossível?
É possível, mas há tanto a aprender antes de pousarmos, que se formos directamente para aí, todo o trabalho será apenas em algumas pedras.

Mas existe tecnologia actualmente para se pousar em Vénus?
Nós fomos lá com os russos nos anos 1970. Mas agora temos esta tecnologia para medir a atmosfera, da mesma maneira que o faríamos num laboratório aqui na Terra. Nunca tínhamos tido isso antes. Sabemos que funciona porque fizemos isso em Marte durante 10 anos.

O rover Curiosity levou os mesmos instrumentos que estamos a levar para a atmosfera de Vénus e eles mostraram-nos moléculas orgânicas, a história da água, etc. Quando fizermos isso na atmosfera profunda de Vénus, e em toda a atmosfera, vamos ver que se comporta como o oceano profunda na Terra, só que é um gás quente e não água quente.

Na nossa última entrevista, em 2019, falou muito sobre a importância da colaboração internacional no estudo do espaço. Hoje, com esta situação geopolítica tensa, essa cooperação internacional é mais difícil ou os cientistas conseguem colaborar na mesma?
Penso que os cientistas cooperam na mesma, acho que vamos sempre cooperar.

Mesmo durante a Guerra Fria era possível essa cooperação?
Sim, era. No fim da Guerra Fria, eu era um estudante acabado de formar e trabalhei com a Academia de Ciências Soviética. Estive em Moscovo e era um dos dois americanos que lá estavam.

Fui o primeiro americano a ser colocado no Cazaquistão no que era um grande centro astronómico e as pessoas tocavam-me porque nunca tinham visto nenhum [risos]. Vinham em camelos ao deserto onde nós estávamos a trabalhar com os soviéticos da Academia de Ciências.

Continuamos a trabalhar juntos na Estação Espacial Internacional. Sim, algumas nações querem mostrar que lideram agora, tudo bem. Acho que com a exploração espacial comercial, com os estudantes interessados, com a melhor participação dos jovens actuais em encontros como este, a cooperação vai continuar.

Sente-se optimista com os avanços da exploração espacial privada?
Sinto. Acho que o que vai acontecer é que eles vão abrir caminho, aprendendo e indo mais longe, mais depressa, com menos impedimentos, menos desafios e vão abrir espaço para novas maneiras de fazer ciência. Algumas não vão ser perfeitas de início, pois nós temos padrões incrivelmente elevados.

Para ir a Vénus, a minha missão teve milhares de páginas de propostas e de revisões, muita coisa, mas eles podem avançar mais rapidamente, podem experimentar coisas, mais como a exploração dos oceanos – “Vamos experimentar isto, vamos ver se aprendemos alguma coisa. Não deu certo. Não faz mal, tentamos novamente”. Isso vai trazer inclusão, mais pessoas a fazerem mais coisas e melhor.

Isso da experimentação, do tentar mesmo podendo falhar, é algo que também está muito ligado com a tradição da sociedade americana, a de que se podem correr riscos, mais do que noutros países?
Acho que cada sociedade corre riscos de formas diferentes. Os Estados Unidos são muito grandes, com muita gente inteligente.

Testar os limites nos negócios e em muitas outras áreas, como o espaço, é algo que faz parte da experiência americana, penso que também da europeia. Há também uma população muito maior, maior do que a de qualquer país da Europa Ocidental, como sabe, o que dá origem a mais géneros de pessoas diferentes.

A maneira como essas pessoas trabalham juntas é muito importante para se avançar, porque os EUA estão a mudar radicalmente. Penso que a exploração espacial é uma coisa sobre a qual a maior parte das pessoas concorda que vale um certo investimento.

Os bilionários gastam dinheiro nela, as organizações nacionais como a AEE, a NASA, a JAXA no Japão, a Austrália, o Canadá, investem na transmissão de capacidade, tecnologia e inspiração às pessoas, criando empregos – a nossa missão para Vénus emprega 2000 pessoas.

Portanto, acho que vamos assistir a um alargamento de abordagens, como as estações espaciais comerciais – a Axiom e outras -, missões comerciais para Marte, porque não? Vamos usar o acesso comercial à Lua, para fazer coisas para a NASA e para outros. Isto é um pouco mais difícil, mas as empresas privadas vão para a atmosfera e vamos ver o que conseguem fazer.

Recentemente, a Coreia do Sul lançou um foguetão e o número de países e de empresas capazes de o fazer está a crescer…
Está.

A China faz cada vez mais parte deste processo de conquista do espaço, mas nem sequer participa na Estação Espacial Internacional, ao contrário dos russos, apesar de estes terem anunciado a saída a partir de 2024. A competição no espaço é algo que o preocupe?
Eu penso que a competição é boa. A China tem mais de mil milhões de pessoas e está a fazer coisas óptimas no espaço. Eles estão a cooperar a nível científico com artigos em revistas com cientistas americanos e europeus.

Não estão à frente dos Estados Unidos neste momento?
Para ser sincero, não sei.

Mas pensa que eles estão a crescer muito rapidamente?
Penso que eles são muito, muito eficazes. Aprendem com anos de trabalho fundamental noutros sítios – Rússia, EUA, Europa – a terem um bom modelo de negócio. Nós também precisamos de aprender a fazer isso.

Espero que a China faça coisas boas, porque a exploração não é uma coisa de um país só, de um homem só e o espaço não tem limites, eu chamo-lhe a fronteira eterna. Porque é verdadeiramente para sempre, portanto acho que a competição é boa.

As primeiras pessoas a saberem coisas, não apenas nas redes sociais, podem afirmá-las, publicá-las e podem reivindicar essa capacidade. Isso é importante, já foi importante na década de 1960, num tempo diferente, demonstrar essa capacidade e foram menos países a fazê-lo na altura, mas eu diria que quanto mais intervenientes melhor.

Eu vejo o futuro como uma exploração digital do universo, do sistema solar, dos oceanos, de uma maneira que mudará tudo. E não serão poucos a ter acesso a isso, todos terão. Estou muito entusiasmado. A política não é a minha área, não sei nada sobre ela, mas espero que os políticos fiquem contentes.

Em termos de simbolismo para a NASA, pôr uma mulher na Lua é hoje o mais importante?
Não penso que seja simbólico, penso que é uma necessidade de há muito tempo. Não há razão para o não termos feito antes.

Mas actualmente é importante em termos de mensagem?
É importante não só como mensagem, é importante em termos de aptidão. As mulheres astronautas são tão boas, se não melhores do que os homens. São pessoas com capacidades diferentes.

Acha que vai acontecer dentro de poucos anos?
Acho que as próximas pessoas na Lua serão mulheres. O quando, o tempo que demorará, depende do nosso sistema de lançamento e de outros sistemas, como o de pouso, que estão a ser testados. Logo que sejam declarados como suficientemente testados, elas irão.

Porque é que é difícil ir à Lua actualmente, quando há 50 anos foi possível?
Em primeiro lugar, eu acredito, puramente pela minha experiência como cientista, que provavelmente fomos à Lua 50 anos antes do tempo. Talvez, num tempo histórico diferente, tivéssemos desenvolvido mais a robótica. O que fizemos foi acelerar muito.

Para fazer muito boa ciência, em vez de trazermos gramas de material, trouxemos quilos. Portanto, desenvolvemos muita coisa muito depressa e isso permitiu-nos aprender o suficiente para podermos então, graças à exploração humana, construir a exploração robótica. Essa tem sido a história desde 1972 até agora, passámos para a era de transição robótica.

Assim, penso que a pausa – tal como entre Fernão de Magalhães e Francis Drake foi cerca de 50 anos. Magalhães fez a circum-navegação, ótimo! O próximo explorador a navegar foi Drake, 50 e tal anos depois. Penso que agora o regresso à Lua vai ser mais inteligente, melhor, mais barato e para sempre. A capacidade para sustentar isso, não se vai tornar o problema que foi no passado.

Sim, podíamos ter desenvolvido um posto avançado na Lua, mas não teríamos um shuttle, não teríamos um sistema de satélites meteorológicos, não teríamos mandado a Viking a Marte, a Galileu, a Cassini, etc. A exploração humana deu origem a coisas fantásticas, como a missão Magellan a Vénus, lançada em 1989, que foi uma grande missão.

O Hubble foi reparado quatro vezes, portanto estamos a aprender, o papel humano no espaço está a mudar. Nós somos exploradores, capacitadores e fazedores, mas não temos de fazer tudo. Portanto, penso que as mulheres e os homens na Lua poderão permitir uma permanência, ou uma escolha de permanência, também vão arrastar as empresas espaciais privadas e isso vai fazer da Lua o nosso próximo posto avançado.

Eu estive na comissão de satélites no fim da década de 1980, depois do desastre do Challenger, e lá dissemos que um caminho futuro para as pessoas da Terra – e para a NASA – era concentrarmo-nos num posto avançado na Lua, pôr lá pessoas e usar a Lua como uma estação espacial. Não se constrói uma estação, usa-se uma que já existe.

Uma coisa que se irá fazer, tenho a certeza, é estabelecer um sistema intermodal de comunicação, posicionamento e navegação em redor da Lua. Será aquilo que precisamos para termos confiança para vivermos e trabalharmos lá. Será como a Internet digital do sistema lunar, e se fizermos isso na Lua, podemos expandi-lo a Marte. Marte está de volta. Ainda não fomos a muitos lugares bons.

Na verdade, penso que o rover europeu Franklin é fundamental que voe, tem instrumentos incríveis, uma equipa fantástica, um veículo maravilhoso – tem de voar, é demasiado bom para não voar. De qualquer maneira, penso que as coisas irão ser fantásticas, o ritmo a que vão acontecer é imprevisível.

Acho que as pessoas vão voltar à Lua e isso será inspirador; depois irão a Marte. Alguns de nós pensamos que a primeira coisa a fazer em Marte é pôr lá homens e mulheres. Mas isso é uma opção de investimento que não é minha – talvez seja possível com parceiros comerciais e mais países.

Acho que será importante para a humanidade saber que podemos fazer isso, mas a Lua é mais acessível, as estações espaciais comerciais são mais acessíveis. Acho que podemos fazer tudo isso, embora não sem riscos. Penso que o espaço vai mudar, dentro de 50 anos já não será o mesmo espaço de que falávamos há 50 anos depois das primeiras pessoas terem ido à Lua.

Como cientista, está optimista…
Estou, penso que as pessoas estão prontas para isso, os jovens estão prontos. É uma questão da velocidade com que vai avançar, do sucesso dos investimentos privados, dos êxitos científicos… o telescópio James Webb vai mostrar mais coisas e nós vamos dizer” Umm… podemos ir ali!” Temos melhores telescópios, melhor ciência – temos agora instrumentos a medir a migração do carbono em todo o planeta, não só nos oceanos, há 20 anos isso seria impossível. Tudo o que aprendemos no espaço aplica-se de volta aqui.

É como nós dizemos nos EUA: os dólares nunca foram para o espaço – ou os euros, já agora – eles vão para as pessoas que fazem as coisas lá, para as máquinas que eles fazem. Portanto, estou entusiasmado, penso que a geração dos jovens vai fazer grandes coisas. A verdade é que se tivermos a oportunidade somos capazes de fazer grandes coisas!

leonidio.ferreira@dn.pt

Diário de Notícias
O DN viajou a convite da GlexSummit
Leonídio Paulo Ferreira, em Ponta Delgada
22 Agosto 2022 — 00:29

90: NASA identifica possíveis locais de pouso na Lua para a sua missão Artemis

CIÊNCIA/ESPAÇO/ARTEMIS III/LUA

A missão Artemis continua a evoluir para levar de novo humanos à Lua. Depois da NASA ter colocado o foguetão de Sistema de Lançamento Espacial (SLS) na posição de lançamento, agora é a vez da agência identificar 13 locais possíveis de pouco na Lua.

Estas regiões de aterragem candidatas situam-se perto do Polo Sul lunar. Cada região tem atributos para receber a alunagem da nave da Artemis III.

Artemis: A NASA já sabe onde irá pousar a nave tripulada na Lua

A NASA identificou 13 regiões de alunagem candidatas perto do Polo Sul lunar ao preparar-se para enviar astronautas de volta à Lua ao abrigo do programa Artemis.

Cada região contém múltiplos locais potenciais de aterragem para a nave que voará na missão Artemis III. Esta será a primeira das missões Artemis a levar astronautas até à superfície do nossa satélite natural e incluirá a primeira mulher a pôr os pés na Lua.

A selecção destas regiões significa que estamos um salto gigantesco mais próximo do regresso dos humanos à Lua pela primeira vez desde a missão Apollo.

Quando o fizermos, será diferente de qualquer missão que tenha surgido antes, quando os astronautas se aventuram em áreas escuras anteriormente inexploradas pelos humanos e lançam as bases para futuras estadias de longo prazo.

Disse Mark Kirasich, administrador da Divisão de Desenvolvimento da Missão Artemis na sede da NASA em Washington.

A NASA mostra aqui uma apresentação das 13 regiões candidatas à alunagem e desembarque para a Artemis III. Cada região é aproximadamente 15 por 15 quilómetros. Um local de desembarque é um local dentro dessas regiões com um raio aproximado de 100 metros. Crédito: NASA

Conforme podemos ver, a NASA identificou esses locais já devidamente conhecidos:

  • Faustini Rim A
  • Peak Near Shackleton
  • Connecting Ridge
  • Connecting Ridge Extension
  • de Gerlache Rim 1
  • de Gerlache Rim 2
  • de Gerlache-Kocher Massif
  • Haworth
  • Malapert Massif
  • Leibnitz Beta Plateau
  • Nobile Rim 1
  • Nobile Rim 2
  • Amundsen Rim

Cada uma destas regiões está localizada a seis graus de latitude do Polo Sul lunar. Entre elas, contêm um conjunto diversificado de características geológicas.

Juntas, as regiões oferecem opções de aterragem para todas as potenciais oportunidades de lançamento do veículo Artemis III.  Estas múltiplas regiões asseguram flexibilidade para o lançamento ao longo do ano porque locais de aterragem específicos estão fortemente ligados ao calendário da janela de lançamento.

A equipa de análise pesou outros critérios de aterragem com objectivos científicos específicos para a Artemis III. Isto incluía o objectivo de aterrar suficientemente perto de uma região permanentemente sombreada para possibilitar à tripulação conduzir um passeio lunar, ao mesmo tempo que limitava a perturbação ao aterrar.

Isto permitirá aos astronautas recolher amostras e realizar análises científicas numa área não comprometida, o que produzirá informações importantes sobre a profundidade, distribuição e composição do gelo da água que foi confirmado no Polo Sul da Lua.

Ao assegurar a proximidade a regiões permanentemente sombreadas e também ao ter em conta outras condições de iluminação, a equipa identificou regiões que podem cumprir o objectivo do moonwalk (passeio lunar).

Todas as 13 regiões contêm locais que proporcionam acesso contínuo à luz solar durante um período de 6,5 dias – a duração planeada da missão de superfície Artemis III.

Como fornece uma fonte de energia e minimiza as variações de temperatura, o acesso à luz solar é fundamental para uma estadia de longo prazo na Lua.

Agora a NASA discutirá as 13 regiões com as comunidades cientificas e de engenharia para solicitar informações sobre os méritos relativos de cada região.

Pplware
Autor: Vítor M

74: Foguetão que vai levar astronautas de novo à Lua chegou a plataforma para voo de teste

TECNOLOGIA/ESPAÇO/LUA

Cabo Canaveral, Florida, Estados Unidos, 17 ago 2022 (Lusa) – O foguetão que há de levar novamente astronautas à Lua, o SLS, chegou hoje à plataforma de lançamento para o primeiro voo de teste, sem tripulação, agendado para 29 de Agosto.

© Fornecido por Lusa Preparation for Artemis 1 mission

O novo foguetão da agência espacial norte-americana (NASA) saiu do seu hangar na terça-feira à noite, atraindo multidões de trabalhadores do Centro Espacial Kennedy, no Cabo Canaveral, no Estado da Florida.

Foram precisas quase 10 horas para o engenho de 98 metros de altura fazer uma curta viagem de seis quilómetros até à plataforma de lançamento.

Esta foi a terceira viagem do foguetão até à plataforma de lançamento.

Um teste de contagem decrescente em Abril foi prejudicado por uma fuga de combustível e outros problemas de equipamento, obrigando a NASA a enviar o foguetão de novo ao hangar para reparação. O ensaio foi repetido em Junho na plataforma com melhores resultados.

A NASA prevê lançar em 29 de Agosto, após sucessivos adiamentos ao longo dos anos, o SLS no primeiro voo de teste do programa lunar Artemis.

No topo do foguetão seguirá a nave Orion com três manequins (que simulam os astronautas) equipados com sensores que vão medir os efeitos da radiação e vibração.

A nave irá voar em redor da Lua numa órbita distante durante algumas semanas antes de regressar à Terra e amarar no oceano Pacífico. O voo da missão Artemis I deverá durar mês e meio.

Depois desta missão, a NASA espera em 2024 levar astronautas para a órbita da Lua (Artemis II) e em 2025 para a sua superfície (Artemis III).

A agência espacial norte-americana quer marcar o regresso da presença humana a solo lunar com o primeiro astronauta negro e a primeira astronauta mulher.

Apenas astronautas norte-americanos, 12 ao todo, estiveram na superfície da Lua, entre 1969 e 1972, no âmbito do programa Apollo.

Apesar de ser mais pequeno do que o foguetão Saturno V, do programa Apollo, o SLS é mais potente.

ER // NS

Lusa

MSN Notícias
Elsa Resende
17.08.2022 às 19:34

73: Astronauta italiana partilhou fotografia de tirar a respiração

ESPAÇO/ISS/EEI

Samantha Cristoforetti chegou à Estação Espacial Internacional em Abril.

A astronauta Samantha Cristoforetti encontra-se actualmente a bordo da Estação Espacial Internacional e, tal como é tradição entre os seus colegas, partilhou uma fotografia na respectiva página de Twitter que é de tirar a respiração.

A fotografia em questão foi captada durante o período nocturno em que foi possível captar uma aurora boreal.

“Naquelas noites luminosas perto da Lua Cheia podes ver pormenores da superfície do planeta mesmo à noite”, escreveu Cristoforetti. “A partir da cúpula a vista é de ‘cabeça para baixo’ – ao voar acima das nuvens parece que estamos na Terra a olhar para o céu. A ver as nuvens e as estrelas ao mesmo tempo”.

A astronauta italiana chegou à Estação Espacial Internacional em Abril de 2022 para uma missão com a duração de seis meses.

MSN Notícias
Notícias ao Minuto
Miguel Dias
17.08.2022 às 20:30

52: NASA prepara-se para regressar à Lua. Já começaram os treinos

NASA/LUA/REGRESSO

O foguetão mais poderoso do mundo vai partir em 2024 e os astronautas devem chegar à Lua no ano seguinte.

© MARK FELIX / AFP

“Trabalho aqui há 37 anos e é a coisa mais emocionante em que já estive envolvido.” Rick LaBrode é o director de voo da NASA e, no final do mês, será responsável por uma missão espacial histórica: a primeira do programa a marcar o regresso dos americanos à Lua.

Um dia antes da descolagem “não vou conseguir dormir muito, com certeza”, disse à AFP, diante das dezenas de ecrãs da sala de controle de voo em Houston, Texas.

Pela primeira vez desde a última missão Apollo em 1972, um foguetão – o mais poderoso do mundo – impulsionará uma cápsula habitável para orbitar ao redor da Lua, antes de regressar à Terra. A partir de 2024, os astronautas embarcarão para fazer a mesma jornada e, no ano seguinte (no mínimo), voltarão a pisar na Lua.

Para esta primeira missão de teste de 42 dias, chamada Artemis 1, dez pessoas estarão o tempo todo na famosa sala “Mission Control Center”, modernizada para a ocasião.

As equipas ensaiam o plano de voo há três anos. “É tudo completamente novo. Um foguete totalmente novo, uma nave totalmente nova, um centro de controlo totalmente novo”, resume Brian Perry, que será o responsável pela trajectória logo após o lançamento. “Posso dizer que meu coração vai acelerar, mas vou conseguir manter o foco”, disse à AFP, dando uma palmada no peito. Afinal, já participou de muitos voos espaciais.

Piscina lunar

Além da sala de controlo, todo o Centro Espacial Johnson, em Houston, foi ajustado para a hora da Lua. No meio da enorme piscina de mais de 12 metros de profundidade onde os astronautas treinam, foi colocada uma cortina preta.

De um lado ainda está a réplica submersa da Estação Espacial Internacional. Do outro, um ambiente lunar desenvolve-se gradualmente no fundo, com gigantescos modelos de rochas, fabricados por uma empresa especializada em decoração de aquários.

“Começamos a colocar areia no fundo da piscina há apenas alguns meses. As pedras grandes chegaram há duas semanas”, diz Lisa Shore, vice-directora deste Laboratório de Flutuabilidade (NBL). “Tudo está ainda em desenvolvimento.”

Na água, os astronautas podem experimentar uma sensação próxima à ausência de peso. Para o treino lunar, são preparados para sentir apenas um sexto de seu peso. De uma sala acima da piscina, são guiados à distância, com o atraso de quatro segundos que enfrentarão na Lua.

Seis astronautas já treinaram no local e outros seis devem fazê-lo até o final de Setembro, vestindo os novos trajes lunares desenvolvidos pela NASA. “O auge deste edifício foi quando ainda estávamos a pilotar os autocarros espaciais e a construir a estação espacial”, explica o chefe da NBL, John Haas. Na altura, eram realizadas 400 sessões de treino por ano, em comparação com cerca de 150 de hoje.

Mas o programa Artemis traz um novo impulso. No momento da visita da AFP, engenheiros e mergulhadores estavam a avaliar como empurrar um carrinho na Lua.

“Nova era de ouro”

Os exercícios aquáticos podem durar até seis horas. “É como correr uma maratona, duas vezes, mas com as mãos”, comenta à AFP Victor Glover, astronauta da NASA, que esteve seis meses no espaço. Hoje, trabalha num prédio inteiramente dedicado a simuladores.

O seu papel é ajudar a “verificar os procedimentos e o material”, para que quando aqueles que forem à Lua (Glover pode ser um deles) forem finalmente escolhidos, possam preparar-se intensivamente e estar rapidamente prontos para ir”.

Graças aos equipamentos de realidade virtual, eles poderão acostumar-se a caminhar nas difíceis condições de luz do pólo sul da Lua, onde as missões Artemis irão pousar. Lá, o Sol nasce muito pouco acima do horizonte, formando constantemente longas sombras muito escuras.

Também terão de se familiarizar com as novas naves e os seus softwares, como a cápsula Orion. Num dos simuladores, sentado no lugar do comandante, é preciso, com um joystick, acoplar-se com a futura estação espacial lunar, Gateway.

Noutros lugares, uma réplica da cápsula, com o volume de 9 metros cúbicos para quatro passageiros, é usada para testes em escala real.

Os astronautas “fazem muito treino de saída de emergência neste local”, mostra à AFP Debbie Korth, vice-gerente do projecto Orion, no qual trabalha há mais de dez anos. Em todo o centro espacial, “as pessoas estão animadas”, diz. Para a NASA, “acredito que seja uma nova era de ouro” que está a começar.

Diário de Notícias
DN/AFP
15 Agosto 2022 — 14:31