819: Esta superstição sexual está a deixar as tartarugas do Panamá em risco de vida

CIÊNCIA/BIOLOGIA/TARTARUGAS MARINHAS

A tartaruga-oliva faz parte da lista de espécies consideradas “vulnerável” da União Internacional para a Conservação da Natureza, com o número de exemplares a diminuir.

Bernard Spragg / Wikimedia

As tartarugas marinhas de Punta Chame, uma península do Panamá que se precipita no Oceano Pacífico, enfrentam uma ameaça existencial semelhante à do rinoceronte e do pangolim: uma superstição humana. Os ovos da tartaruga protegida, colhidos ilegalmente da praia, são actualmente vendidos porta a porta na cidade por 75 cêntimos a 1 dólar cada um pelas suas supostas qualidades afrodisíacas.

“Especialmente os homens pensam que ao comerem ovos de tartaruga terão mais prazer sexual”, explicou Jorge Padilla, um conservacionista da ONG Fundacion Tortuguias, que recolhe e eclode os preciosos ovos. “Os ovos não vão ajudar. Eles não são um afrodisíaco”, insistiu ele.

A tartaruga-oliva (Lepidochelys olivacea) faz parte da lista de espécies consideradas “vulnerável” da União Internacional para a Conservação da Natureza, com o número de exemplares a diminuir.

A sua sobrevivência depende fortemente de pessoas como Padilla, que com voluntários da aldeia recolhem os ovos acabados de pôr e os enterram na areia do viveiro.

Centenas de ovos eclodem todos os anos entre Julho e Fevereiro, sendo que em poucas horas são trazidos para a praia e libertados perto da beira da água por voluntários que olham com orgulho para os pais enquanto as pequenas criaturas fazem uma corrida frenética para o oceano.

“Não podemos simplesmente colocá-los (na água) porque eles têm de passar por um processo chamado ‘imprinting‘ (ao longo da praia) que os levará de volta dentro de 18-20 anos à mesma praia onde nasceram” para depositarem os seus próprios ovos.

Dia e noite, Padilla patrulha a praia para afugentar os caçadores furtivos. Outras ameaças incluem cães vadios que perambulam pelas praias em busca de comida, e águias. Padilla afasta os cães mas deixa as águias como predadores naturais de tartarugas e parte do círculo da vida.

As tartarugas também acabam como captura acessória da pesca, e enfrentam ameaças às suas praias de nidificação devido à invasão humana e às alterações climáticas.

“Há muitas ameaças às tartarugas marinhas, tanto no Pacífico como nas Caraíbas: colheita ilegal de ovos, consumo excessivo da sua carne, das suas cascas… São usadas para pentes… vestuário”, disse Padilla.

ZAP //
20 Novembro, 2022



 

745: Desvendado o segredo da juventude eterna das anémonas-do-mar

CIÊNCIA/BIOLOGIA MARINHA/ANÉMONAS-DO-MAR

Os genes altamente conservados garantem a diferenciação vitalícia entre os neurónios e as células glandulares nas anémonas-do-mar.

aurelienbaudoin / Flickr
As anémonas-do-mar não envelhecem – vivem para sempre e proliferam, tornando-se cada vez maiores

As anémonas-do-mar parecem saber onde está a fonte da juventude, já que não mostram sinais de envelhecimento. Há muito que a causa exacta desta juventude eterna intriga os cientistas.

Um novo estudo publicado na Cell Reports pode ter finalmente desvendado este mistério. A impressão digital genética da anémona-do-mar Nematostella vectensis revela que os membros deste filo usam as mesmas cascatas genéticas para a diferenciação de células neurais que outros organismos mais complexos.

Estes genes também são responsáveis pelo equilíbrio das células do organismo ao longo da vida da anémona. A equipa descobriu assim a diversidade e a evolução de todos os tipos de células nervosas e glandulares nesta anémona-do-mar. Para descobrirem isto, os cientistas usaram transcriptómicas de células únicas.

As células com impressões digitais sobrepostas foram agrupadas, o que permitiu aos cientistas distinguir tipos de células já definidas ou células em momentos de transição de desenvolvimento, cada uma com combinações de expressões únicas. Isto também ajudou na identificação do progenitor comum e das populações de células estaminais com tecidos diferentes.

Os cientistas descobriram que, contrariamente ao que se pensava anteriormente, os neurónios, as células gladulares e outras células sensoriais originam-se de uma população de progenitores comum. Dado que há vertebrados com células gladulares com funções neuronais, isto indica que há uma relação evolutiva muito antiga entre as células glandulares e os neurónios.

O gene especial que ajuda no desenvolvimento destas células progenitoras comuns é o SoxC, que também tem um papel importante na formação do sistema nervoso nos humanos e noutros animais, relata o SciTech Daily.

Os autores descobriram ainda que os processos genéticos de desenvolvimento de neurónios mantém-se ao longo da vida das anémonas-do-mar, desde que são embriões até à vida adulta, o que significa que, ao contrário de nós, as anémonas conseguem substituir os neurónios danificados ao longo da vida.

ZAP //
15 Novembro, 2022



 

447: Para os pinguins solitários, dois ovos são piores do que um (até porque deixam o segundo para morrer)

CIÊNCIA/BIOLOGIA/PINGUINS

Tui De Roy / NPL / Minden Pictures
Pinguins-de-crista-erecta, nas Ilhas Antípodas no Pacífico Sul.

Nas Ilhas Antípodas no Pacífico Sul, os investigadores observaram um estranho comportamento parental em pinguins-de-crista-erecta, que punham um ovo condenado a morrer.

Em 1998, uma equipa de investigadores fez a caminhada de três dias até às isoladas Ilhas Antípodas no Pacífico Sul para estudar um dos seus poucos residentes: o enigmático e ameaçado pinguim-de-crista-erecta.

Estes são realmente os pinguins esquecidos“, disse Lloyd Davis, biólogo e comunicador científico da Universidade de Otago na Nova Zelândia, que liderou a equipa há quase 25 anos. “Ninguém sabe praticamente nada sobre eles”.

Estes pinguins inspiraram Davis, após décadas de trabalho na comunicação científica, a analisar os dados que ele e os colegas reuniram em 1998. Os resultados da investigação foram publicados a 12 de Outubro na PLOS ONE, e explicam a demografia das aves e o seu estilo único de criação — incluindo a negligência, e em alguns casos o abate, de potenciais crias.

A equipa de investigação chegou às ilhas em Setembro de 1998 e permaneceu durante a época de reprodução até Novembro. Marcaram as costas de 270 pinguins com tinta amarela para que as aves pudessem ser seguidas.

Os investigadores contaram as aves, observaram os seus comportamentos de cortejo, criação de ovos e incubação. Recolheram dados sobre uma das características mais desconcertantes da biologia do pinguim: põem sempre um ovo que nunca eclode.

Todos os pinguins põem dois ovos na época de reprodução — um primeiro ovo mais pequeno e um segundo ovo maior — embora esta diferença de tamanho seja mais extrema nos pinguins-de-crista-erecta, segundo avança o The New York Times.

Noutras aves, é normalmente o último ovo que é mais pequeno, destinado apenas a ser chocado e criado se os primeiros ovos morrerem — uma espécie de apólice de seguro. No entanto, os pinguins-de-crista-erecta expulsam imediatamente o “seguro”, como uma primeira tentativa de uma panqueca não destinada a ser comida.

Todos os ovos mais pequenos que a equipa observou em 1998 morreram, principalmente no dia anterior ou no dia em que o ovo maior foi posto, sugerindo que o ovo mais pequeno não evoluiu para ser um “plano B”.

O primeiro ovo ser mais pequeno do que o segundo ovo fez dos pinguins-de-crista-erecta um enigma “durante os últimos cem anos”, sublinhou Davis. “Ninguém encontrou uma boa explicação para este facto”.

Os ovos mais pequenos não são normalmente incubados, e a maioria acaba por sair do ninho ou acidentalmente ser esmagada. Ocasionalmente, os pinguins empurram deliberadamente os pequenos ovos para fora dos ninhos.

Em 1998, a equipa realizou uma experiência: Construíram anéis rochosos protectores em torno de alguns ninhos e compararam o destino desses ovos mais pequenos com os dos ninhos desprotegidos. Apesar da barreira ter salvo alguns deles de rolarem para longe, todos foram negligenciados e morreram.

“Pode-se ver que do ponto de vista do pinguim, eles querem o ovo maior, e por isso estão a favorecer o ovo maior”, explica Dee Boersma, bióloga de conservação na Universidade de Washington.

Enquanto o antepassado dos pinguins-de-crista-erecta criava duas crias, Davis suspeitava que a escassez de alimentos levava à selecção natural nas espécies actuais, para reduzir o tamanho da sua ninhada para um.

Esta especulação irá provavelmente continuar, uma vez que só está a tornar-se mais difícil estudar os pinguins-de-crista-erecta. Davis sublinha que é cada vez mais difícil obter licenças para viajar para estas ilhas isoladas.

Com o aquecimento da temperatura global a um ritmo alarmante e a exploração contínua dos oceanos pelos humanos, os pinguins enfrentam inúmeras ameaças.

Davis espera que o seu estudo volte a trazer ao mundo o pinguim esquecido e desencadeie mais investigação. “Se não sabemos nada sobre eles, não nos podemos preocupar com eles”, admite.

Até que a investigação seja mais aprofundada, a razão pela qual os pinguins-de-crista-erecta favorecem os segundos ovos vai permanecer um mistério. “É apenas especulativo porque não sabemos muito sobre estas aves“, conclui Davis.

  Alice Carqueja, ZAP //
16 Outubro, 2022



 

440: Peixe encontrado nos Açores é o maior do mundo

CIÊNCIA/BIOLOGIA/PEIXE LUA GIGANTE

(dr) Atlantic Naturalist
Peixe-lua gigante encontrado nos Açores.

Um peixe-lua gigante com 2.744 quilos encontrado no ano passado nos Açores foi agora considerado o maior do mundo. Tinha 3,25 metros de comprimento e 3,6 metros de altura.

Um peixe-lua gigante foi encontrado já sem vida à entrada do porto da Horta, nos Açores, em Dezembro do ano passado. Na altura já se suspeitava que, pelas suas dimensões, pudesse ser o maior do mundo. A confirmação chegou agora, com um estudo publicado na Journal of Fish Biology.

O espécime encontrado tinha 3,25 metros de comprimento, 3,6 metros de altura e pesava 2.744 quilos. O anterior recordista era um peixe-lua gigante com 2,4 toneladas, encontrado no Japão, em 1996.

O peixe foi recolhido pelas autoridades açorianas, cujos trabalhos foram acompanhados por investigadores da Associação de Naturalistas do Atlântico e da Universidade dos Açores, escreve a CNN Portugal. São conhecidas três espécies deste peixe de águas profundas.

“Nós recolhemos os dados com todo o rigor científico e apresentamos os nossos dados a uma revista científica, que os validou, inclusive a calibração da balança.

E, perante as provas documentais que mostramos, eles aceitaram o artigo para publicação. Como tal, está validado por investigadores e pela revista científica”, disse José Nuno Pereira, da Associação Naturalistas do Atlântico, à RTP Açores.

As causas da morte não foram determinadas, embora um corte na cabeça sugira que poderá ter colidido com alguma embarcação. Não foram encontrados plásticos ou outros elementos prejudiciais no estômago do peixe.

“Estas descobertas melhoram a nossa compreensão sobre a biologia desta espécie e o papel dos animais que se alimentam de seres gelatinosos.

Revelam ainda que o oceano continua saudável para sustentar os maiores animais do planeta, mas chamam a atenção para os riscos que estes correm e a necessidade de mais medidas de conservação”, sublinham os responsáveis da Associação de Naturalistas do Atlântico.

  Daniel Costa, ZAP //
15 Outubro, 2022



 

177: Medusa imortal tem a solução para a vida eterna

CIÊNCIA/BIOLOGIA

O conceito de imortalidade é, para muitos, apetecível e, para outros, inspiração para ficções que deixam qualquer um pasmado. Efectivamente, a ciência tem procurado formas de retardar a morte e, agora, esta medusa parece ter a chave para o sucesso dessa missão.

Afinal, poderá haver uma versão real e aquática da fénix…

De nome Turritopsis dohrnii e com apenas alguns milímetros de comprimento, é um dos poucos animais conhecidas capazes de voltar atrás no tempo e rejuvenescer. Por esta razão, há seres desta espécie a viver em algumas zonas do Mar Mediterrâneo e do Mar do Japão e que se dão pela alcunha de medusas imortais.

Agora, a Universidade de Oviedo decifrou o animal, descobrindo o seu genoma e percebendo como consegue prolongar o seu tempo de vida a ponto de evitar a morte.

Medusa imortal surpreende finitude dos seres humanos

O ciclo de vida das espécies é, grosso modo, semelhante: nascem, crescem, reproduzem-se e morrem. No entanto, a Turritopsis dohrnii conseguiu contornar este processo, pelo que tem a capacidade de crescer novamente, depois de se decompor, as vezes que forem necessárias até ser morta por um predador ou por uma doença.

Por reconhecerem na medusa imortal um campo de estudo interessante, uma vez que, não trazendo a solução para a morte, pode dar dicas sobre formas de a retardar, os investigadores da Universidade de Oviedo começaram a sequenciar o seu genoma. Afinal, é aqui que reside o “elixir da imortalidade”.

As ferramentas bioinformáticas têm transformado a forma como se analisam os genomas. Graças à evolução tecnológica, os cientistas conseguiram identificar os genes amplificados que permitem à medusa inverter o desenvolvimento ontogenético tradicional.

A grande maioria desses genes estão associados à “replicação e reparação do ADN, manutenção de telómeros, renovação da população de células estaminais, comunicação intercelular e redução do ambiente celular oxidativo”. Ou seja, estão associados “à longevidade e ao envelhecimento saudável”.

De forma simples, os investigadores encontraram caminhos, através dos quais as células especializadas podem desdobrar-se e transformar-se em qualquer tipo de célula.

Apesar de surpreendente, este processo é complexo e dificulta em grande medida a sua replicação. Segundo a investigadora Maria Pascual-Torner, “os vários mecanismos encontrados no nosso trabalho actuariam sinergicamente como um todo, orquestrando assim o processo para assegurar o rejuvenescimento bem sucedido da medusa imortal”. Isto é, não é possível utilizar um mecanismo isoladamente.

Pplware
Autor: Ana Sofia Neto
01 Set 2022