O “gelo zombie” da Gronelândia está imparável. E a subida do nível do mar pode ser mais do dobro do estimado

ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS/GRONELÂNDIA/GLACIOLOGIA

As notícias sobre os efeitos das alterações climáticas são cada vez mais pessimistas e esta segunda-feira foi divulgado um estudo que traça um retrato ainda mais apocalíptico.

O derretimento de “gelo zombie” dos icebergues da Gronelândia vai provocar uma subida de pelo menos 27 centímetros do nível da água do mar, mesmo que os restantes factores da actual crise climática, como o uso de combustíveis fósseis, cessem de imediato.

O “gelo zombie” da Gronelândia está imparável. E a subida do nível do mar pode ser mais do dobro do estimado © TVI24

O relatório salienta que, apesar de inevitável, este fenómeno poderá ainda ser exacerbado pelas continuadas emissões carbónicas, o derretimento de outras camadas de gelo e o aquecimento oceânico. As consequências serão globais, e particularmente nefastas para os biliões de habitantes em zonas e países costeiros – incluindo Portugal.

Os resultados do estudo ultrapassam as últimas previsões do Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas da ONU, que no ano passado estimava uma subida do nível das águas entre os 6 e os 13 centímetros até ao ano 2100.

Os 27 centímetros agora calculados, mais do que o dobro do pior cenário, correspondem a 3,3% de todo o volume de gelo da Gronelândia – ou seja, a 120 triliões de toneladas de gelo.

O “gelo zombie” – e a Gronelândia que “morre à fome”

Mas, afinal, o que é gelo “zombie”? Tal como o nome faz adivinhar, trata-se de “gelo morto” que continua anexado a camadas de gelo mais espessas, apesar de já não se alimentar delas. Estes glaciares, por sua vez, recebem menos neve para se reabastecer – e as alterações climáticas ocupam-se do resto, condenando o gelo “zombie” ao desaparecimento.

“É gelo morto. Vai simplesmente derreter e desaparecer da camada de gelo”, explica William Colgan, glaciologista e co-autor do estudo, citado pela agência noticiosa Associated Press. “Este gelo já foi consignado ao oceano, independentemente do cenário climático que adoptemos agora.”

Com os grandes glaciares a receber cada vez menos gelo e o “gelo zombie” a desaparecer a um ritmo cada vez mais acelerado, o saldo final é claramente desequilibrado. “Penso que morrer à fome seria uma boa frase” para a situação dos níveis de gelo na Gronelândia, acrescenta Colgan.

O glaciologista Richard Alley, apesar de não ter participado no estudo, explica o fenómeno com uma analogia simples: a perda de massa de gelo, quando exposta a temperaturas crescentemente elevadas, é como “um cubo de gelo colocado numa chávena quente de chá”.

Os investigadores mostram-se incertos quanto ao período de tempo necessário ao derretimento total do “gelo zombie”, mas indicam o final do século como a hipótese mais provável – ou, num cenário mais optimista, até 2150. Mas alertam: não podemos depositar todas as esperanças em cenários optimistas.

Os derretimentos glaciares ocorridos em 2012 e 2019 pareceram invulgares de tão dramáticos, mas até os anos que interpretamos como “normais” seriam considerados “extremos” há apenas 50 anos.

“É assim que as alterações climáticas funcionam”, conclui William Colgan. “O que ontem era a excepção, hoje torna-se a norma.”

MSN Notícias
TVI – CNN Portugal
30.08.2022

36: Há três razões para Portugal ser o país europeu que mais arde

ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS/INCÊNDIOS

Paulo Pimenta de Castro chama-lhe “um triângulo” difícil de limar. Portugal tem à cabeça três condições favoráveis à ocorrência do maior número de fogos e em consequência a ter mais área ardida: meteorologia, ocupação do território e comportamento das pessoas.

Cadastro dos terrenos é uma questão fundamental por resolver, segundo os especialistas.
© Paulo Cunha / Lusa

Os dados de todos os organismos indicam o mesmo: Portugal é o país que mais arde na União Europeia. “Fomos o que mais ardeu em 2016, em 2017 e em 2018 – neste ano parece estranho, porque houve aquele incêndio com muitas vítimas na Grécia, e houve aquele incêndio na Suécia que foi acabado à bomba, mas mesmo assim Portugal conseguiu, com o incêndio de Monchique, superar em área essas ocorrências”.

Paulo Pimenta de Castro, presidente da Acréscimo, professor, engenheiro silvicultor e autor de “Portugal em Chamas”, não se espanta com os dados: durante três anos seguidos fomos o país que mais ardeu na União Europeia. Ainda assim, acredita que “temos tido imensa sorte, nestes últimos anos, com o factor meteorológico”.

Não se cansa de lembrar que os incêndios dependem de três factores: meteorologia, ocupação do território e comportamentos. “Ora, ao nível dos comportamentos, o nosso palmarés é péssimo, sobretudo com o índice de queimas e queimadas na ocorrência de incêndios”. E por isso, não tem dúvida de que “temos um uso exagerado do fogo”.

No dia em que falamos com Pimenta de Castro, a serra da Estrela arde, mais uma vez. “E não tem eucaliptos”. O que deita por terra a teoria crua da monocultura, embora o factor da ocupação da floresta pese bastante. “Nós temos uma condição meteorológica que nos é benéfica, se quisermos dividir o país ao meio, na parte do litoral”, enfatiza. “Mas na parte da raia sofremos um pouco daquilo que está a sofrer Espanha.

“Neste país, grande parte da área ardida resulta de reacendimentos. E esta é uma fragilidade que temos no combate. Assim foi em 2018 em Monchique, e aparentemente foi o que aconteceu agora na Serra da Estrela. Não se justifica que passemos tantos dias a arder”, considera o engenheiro silvicultor, autor do livro “Portugal em Chamas”.

Nos últimos dias, quando analisamos o risco de incêndio, do serviço que vem da Comissão Europeia, “nós vemos que Portugal tem estado praticamente dividido ao meio”, sublinha o investigador, explicando que “temos risco elevado na zona litoral, mas risco máximo só na zona mais raiana”.

“Apesar de tudo, comparativamente com Espanha, temos tido aqui alguma sorte”, considera. “Mas quando temos dias mais quentes, como tivemos em Julho, o nosso comportamento é igual ou pior do que acontece em Espanha.

E por isso, tendo em conta o tal triângulo de factores de que falo, “beneficiamos” de termos apenas 60 mil hectares ardidos”, afirma o presidente da Acréscimo. “Se apanharmos novo golpe de calor, estes números disparam automaticamente”.

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Portugal foi o país com maior número de fogos em 2020, segundo o relatório de fogos florestais na Europa, Médio Oriente e Norte de África, elaborada pela Comissão Europeia, com uma área ardida de 67.170 hectares.

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Espanha secundou-nos em número de fogos em 2020, atingindo os 65.923 hectares de área ardida. Seguiu-se a França, com 7.373 incêndios, mas muito menos área ardida: 17.077 hectares.

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Macedónia do Norte registou o número mais baixo de fogos na União Europeia no ano de 2020. Desses incêndios resultaram apenas 68 hectares de área ardida.

A importância do cadastro dos terrenos

“Embora se tente fazer passar que a questão do cadastro é uma medida de política de ordenamento florestal, não é. É uma medida de política de ordenamento do território. E quando uma medida de ordenamento florestal, seja qual for, não sabe quem é o seu público-alvo, é óbvio que o risco de falhar é grande”, afirma o professor.

Recorda que no caso da agricultura “tivemos a Comissão Europeia, que nos obrigou a fazer o parcelário, porque queria saber a quem é que dava dinheiro. No caso das florestas, temos essa questão, de não se saber o que é de quem.

Mas considerar que pelo facto de se resolver o cadastro se resolve o problema dos incêndios…ou reduz o impacto dos mesmos em Portugal, também não é verdade. Porque isso depende depois de um outro conjunto de políticas. E se não houver expectativa por parte das famílias em obter algum ganho relativamente ao seu património, o que fazem é o que se vê: abandoná-lo”.

Também Helena Freitas aponta essa condicionante: “98% do território é privado, e nunca tivemos o cuidado de identificar solos e territórios que deveriam ser propriedade do Estado”.

A bióloga, catedrática na área da Biodiversidade e Ecologia no Departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, lembra que em Portugal conseguimos fazer o cruzamento de vários pontos cruciais e preocupantes: “Somos, de facto, o país que mais arde, temos a maioria dos terrenos na mão dos privados; mantemos o problema da herança indivisa, e poucos países considerados desenvolvidos têm esta questão do cadastro por resolver”.

“Há um conjuntos de aspectos que permanecem por resolver, e que agora num quadro climático mais favorável aos fogos, quando o nosso território está mais abandonado, não havendo valorização do rural, coloca-nos numa espiral de destruição brutal que começa a ter impactos muito preocupantes”.

A actual directora do Parque de Serralves, no Porto, lembra que mesmo ao nível da recuperação da área verde estamos num plano complicado: “Quando arde a biomassa à superfície há também muita degradação dos solos, que perdem capacidade regenerativa. Começamos também a diminuir a própria produtividade dos nossos ecossistema”, considera a a antiga coordenadora da Unidade de Missão para a Valorização do Interior.

Mais mato, menos floresta

Outra singularidade portuguesa reside no aumento do mato – e na diminuição da mancha florestal. “Isto acontece porque estamos a perder qualidade na regeneração da floresta”, considera Helena Freitas, que ainda assim considera positivas algumas iniciativas que têm vindo a ser feitas.

“O problema é que são muito lentas. E o fogo muito rápido”. Aponta como exemplo a criação de uma estrutura criada para os fogos florestais – “com a preocupação de envolver as comunidades, o que foi muito positivo. Claro que foi uma resposta directa a Pedrogão, mas foi importante”.

De resto, foi ela a responsável pelo programa para a coesão territorial, e fala por isso com orgulho do BUPI (Balcão Único do Prédio). Ainda que seja esse também um exemplo da lentidão de que fala: “Foi iniciado em 2017, e a norte do Tejo nem 20% temos ainda feito”.

Olhando para o resto da Europa, estabelece termos de comparação. “Há países que também têm problemas embora não tão graves, como França ou Espanha, e que estão a introduzir medidas mais drásticas. Designadamente no que respeita à questão da propriedade abandonada, que transita para o Estado”.

Helena Freitas defende, em primeira instância, que se promova o ordenamento da floresta, o cadastro, e se torne mais robusta a estrutura de missão que tem esse encargo. Outra questão importante é envolver as populações. “Temos de reconectar comunidades com os territórios. Hoje quase que vivemos em guerra com o mundo rural.

Quem vive no meio urbano vai descansado de férias para a praia, e quem vive no mundo rural já sabe que tem a desgraça dos incêndios à porta. E isto é insustentável. Só temos essa saída, trabalhar o ordenamento da floresta. Os cenários climáticos graves que temos podem escalar rapidamente”.

Uma nova estrutura climática

No que respeita às alterações climáticas, a investigadora deixa um alerta: “Penso que o país também precisa de criar uma estrutura de avaliação da condição climática mais actuante, mais disponível até para o próprio Estado. Nós temos o IPMA, que tem um trabalho notável, mas é preciso que esse conhecimento técnico-científico seja mais actuante, e mais disponível”, defende.

Helena Freitas fala da criação “de um interface entre a comunidade científica, capaz de produzir esta informação, e as entidades que depois a colocam no terreno”, ao mesmo tempo que invoca a importância da literacia das comunidades, “que devem saber como reagir perante um fogo.

dnot@dn.pt

Diário de Notícias
Paula Sofia Luz
11 Agosto 2022 — 00:14

22: Sabia que a chuva está contaminada com “químicos eternos”

CIÊNCIA/CLIMATOLOGIA

Alguém poderia imaginar que a chuva fosse algo mau para o ser humano? É verdade, a chuva está contaminada com “químicos eternos” em todo o planeta e isto significa que não estamos seguros, em termos de ambiente, em lado nenhum.

Mas afinal o que se passa com a chuva? Já ouviu falar em substâncias perfluoroalquiladas (PFAS)?

A Chuva tem substâncias perfluoroalquiladas (PFAS)

A chuva que cai no planeta Terra está contaminada, pois tem substâncias químicas. Essas substâncias estão presentes, por exemplo, na espuma de combate aos incêndios, roupas impermeáveis, embalagens para comida e o impacto na saúde pode levar ao desenvolvimento de doenças como cancro, infertilidade e atrasos no desenvolvimento pediátrico.

Mas, ainda são necessários mais investigações e estudos para se ter total certeza. Estas substâncias são também designadas de  “químicos eternos” (por serem difíceis de destruir) e o fenómeno está já documentado por investigadores da Universidade de Estocolmo.

De acordo com Ian Cousins, autor principal do estudo…

Não estou a dizer que todos vamos morrer destes efeitos. Já não estamos neste espaço de operações seguro, agora temos estes químicos todos. Estes conselhos de segurança, já não os conseguimos alcançar…

As substâncias perfluoroalquiladas (PFAS), os tais “químicos eternos”, são uma grande família de milhares de substâncias químicas sintéticas amplamente utilizadas em toda a sociedade e encontradas no ambiente.

Todas contêm ligações de carbono-flúor, que são uma das ligações químicas mais fortes na química orgânica. Isto significa que resistem à degradação quando utilizadas e também no ambiente. A maior parte das PFAS são também facilmente transportadas no ambiente, percorrendo longas distâncias desde a fonte da sua libertação.

Ian Cousins considera que as PFAS existem para conservar melhor os alimentos: “Não é porque há algo errado com a avaliação de risco. É apenas porque não se pode aplicar essas coisas. É simplesmente impossível, do ponto de vista económico, aplicar qualquer uma das directrizes”. A solução passa por produzir menos destes químicos.

O problema das PFAS não é tanto o seu nível de toxicidade, mas sim as quantidades em que surgem nas águas.

Pplware
Autor: Pedro Pinto