“Ninguém pensa em medidas travão, mas há comportamentos que têm de se manter”, diz Raquel Duarte

– Comportamentos sociais NUNCA existiram desde o início da pandemia há dois anos atrás, desde os anti-vacinas, passando pelos grunhos labregos irracionais que desdenharam as medidas básicas de segurança, não cumprindo as regras sanitárias da DGS, incluindo gente integrada e “especialista” no serviço de saúde, querem agora incutir nestes anormais o conceito de “bom comportamento” quando diariamente a grande maioria dos labregos deixaram de usar máscaras nos transportes públicos?

SAÚDE PÚBLICA/PANDEMIA/COVID-19/COMPORTAMENTOS SOCIAIS

Este outono-inverno será diferente dos dois anteriores. O do ano passado já o foi, mas a diferença para este ano é que há mais vacinação de reforço, mas também menos restrições. A pneumologista que apoiou o Governo na pandemia, defende que o importante é focarmo-nos na vacinação, nos comportamentos e na ventilação, porque disto dependerá o próximo outono-inverno.

Especialista alerta para a inmportância do reforço da vacinação

A 30 de Setembro termina o estado de alerta em relação à covid-19, medida decidida pelo Governo a 25 de Agosto. Nesta altura, não se sabe ainda se esta será prolongada ou não, devendo o assunto ser discutido e decidido na próxima reunião de Conselho de Ministros, mas independentemente da decisão política a pneumologista Raquel Duarte, que a convite do Governo liderou as equipas que realizaram as propostas de desconfinamento nos últimos dois anos para o país, defende que o foco da população deve estar na “vacinação de reforço”, nos “comportamentos individuais” e na adequação da ventilação aos espaços.

Isto, se quisermos “chegar a uma fase de normalização e de convívio com a covid-19”. Ou seja, destes três factores dependerá muito a forma como irá decorrer o próximo outono-inverno, que, e como sublinha a médica, também “vai ter covid-19, gripe e outras infecções respiratórias, porque os vírus não desapareceram, internamentos hospitalares e mortalidade”.

Raquel Duarte defende a ventilação adequada como uma das apostas para mitigar a covid-19

Neste momento, destaca a especialista, “ninguém pensa nas medidas de travão extremas que foram usadas no passado, mas há coisas que têm de ficar e que não podemos esquecer, como o uso de máscara e os espaços fechados arejados”.

Por exemplo, “se tivermos sintomas ou se estivemos em contacto com um doente, temos de nos abster de fazer socialização. Não devemos ir para os locais de trabalho ou outros sem máscara”.

Comparando os períodos de outono-inverno de 2020-21 e 2021-22, a pneumologista considera que há duas grandes lições a retirar para este ano: “A primeira é o evidente benefício da vacinação, que nos consegue proteger das formas graves da doença e reduzir a mortalidade.

E a segunda é o comportamento cívico, as tais medidas não farmacológicas que foram eficazes na mitigação da transmissão do vírus”. Por isto, manifesta “alguma apreensão em relação à baixa adesão registada até agora da população mais idosa ao reforço sazonal da vacina contra a covid-19”.

Raquel Duarte, também professora na Faculdade de Medicina do Porto, alerta: “Temos de continuar a ter a percepção do risco. Isto é que não podemos perder, quer do risco individual, em termos do contexto em que está cada pessoa e no sentido de nos protegermos, como em relação à percepção do risco para protegermos os outros”.

É neste sentido que continua a recomendar, e tal como já o fez a Direcção-Geral da Saúde, o uso de máscara em espaços fechados. “Estamos a falar de uma infecção contraída por via inalada e ao usarmos uma máscara estamos a reduzir esse risco, quer com uma máscara cirúrgica para nos protegermos a nós quer com uma P2 para protegermos os outros, os mais vulneráveis”.

“É preciso começar a assegurar que os espaços interiores são seguros do ponto de vista da qualidade do ar, o que passa pela ventilação adequada, para mitigar o risco da covid neste outono inverno”.

Para a especialista, a ventilação adequada, que foi sempre uma das questões incluídas nas propostas de desconfinamento, quer para edifícios públicos e de lazer, escolas, empresas e zonas residenciais, tem de ser tida em conta como forma de se mitigar a doença, sobretudo numa altura em que não há tantas restrições.

“É preciso começar a assegurar que os espaços interiores são seguros do ponto de vista da qualidade do ar, o que passa pela ventilação adequada, para mitigar o risco da covid neste outono-inverno”.

De acordo com a médica, através das propostas de desconfinamento conseguiu-se criar um quadro legislativo que apoia a existência de uma correta ventilação nos espaços fechados, quer em edifícios com ventilação mecânica como nos que têm ventilação natural, mas, diz, “é necessário que se promovam inspecções técnicas para garantir que a legislação produzida é aplicada”.

Por outro lado, defende ainda, “é necessário que se implemente uma estratégia que aumente a literacia da nossa população sobre a qualidade do ar interior”, porque “é preciso que todos percebam que tem de haver um arejamento correto nas nossas casas. E para isso temos de informar a população, para que cada pessoa possa gerir de forma muito pró-activa os diferentes contextos onde está, e garantindo sempre que está em segurança”.

Os alertas dos especialistas continuam a chegar sobre o período que aí vem. Por agora, a temperatura ainda se mantém quente, mas a rotina já está a mudar, com o fim das férias e o regresso às aulas ou ao trabalho.

De acordo com o último boletim da DGS sobre a avaliação epidemiológica da covid-19, na semana de 13 a 19 de Setembro já se registou um ligeiro aumento de infecções, mais 2049 do que na semana anterior, perfazendo um total de 18.315, embora se tenha registado o mesmo número de mortes, 37. Em relação aos internamentos, o boletim revela que, naquele período, estavam internadas menos 24 pessoas.

Diário de Notícias
Ana Mafalda Inácio
26 Setembro 2022 — 00:50



 

85: Os hipertensos podem ficar descansados durante o verão?

– Médicos e enfermeiros, actualmente, preocupam-se mais em apresentar escusas de responsabilidade do que tratar dos seus doentes. Se estivesse à espera do meu médico de família para certo tipo de situações, já tinha morrido. Felizmente possuo equipamento de medição de tensão arterial (sou hipertenso há muitos anos), oxímetro (medição de oxigénio no sangue SpO2), além de smartband que me indica e avisa 24 horas/dia, a minha tensão arterial, SpO2, sedentarismo, passos percorridos, exercícios, sono, etc.. É um complemento dos equipamentos médicos.

SAÚDE PÚBLICA/HIPERTENSÃO

Quem tem hipertensão precisa de cuidados redobrados nos dias quentes de verão, para evitar complicações cardiovasculares. É fundamental a avaliação médica para ajustar a medicação e adoptar um plano preventivo.

As ondas de calor podem ocorrer em qualquer altura do ano, sendo mais frequentes no verão.

Nos dias quentes, em que as temperaturas estão acima dos 30 graus, as pessoas, principalmente as mais vulneráveis, em que se incluem as hipertensas, devem ter cuidados redobrados de forma a gerir a hipertensão e a evitar possíveis complicações.

A hipertensão arterial é uma doença crónica e é o principal factor de risco para o desenvolvimento de complicações cardiovasculares graves, como o enfarte agudo do miocárdio e o acidente vascular cerebral.

Sabe-se que mais de 40% da população portuguesa sofre de hipertensão arterial -44,4% dos homens e 40,2% das mulheres – dados revelados pelo estudo PHYSA (Portuguese HYpertension and SAlt Study), desenvolvido em 2011 e 2012 pela Sociedade Portuguesa de Hipertensão.

Estes dados são preocupantes porque as doenças do foro cardiovascular continuam a ser a principal causa de mortalidade em Portugal. Segundo dados publicados pelo Instituto Nacional de Estatística, os acidentes vasculares cerebrais foram a causa do maior número de óbitos em 2019, representando 9,8% da mortalidade.

Vários factores influenciam o controlo de tensão arterial, tais como o consumo de sal, a obesidade, o álcool, o sedentarismo, a falta do sono, possíveis factores de stress e a temperatura ambiente, entre outros.

Existem estudos que demonstram a influência sazonal no controlo da tensão e que as alterações na temperatura ambiente podem provocar uma subida ou uma descida da tensão arterial.

Por exemplo, no verão, com temperaturas elevadas, pode existir uma diminuição dos valores da tensão arterial diurna assintomática ou com sintomas como tonturas, dor de cabeça e mal-estar, enquanto à noite pode verificar-se o fenómeno inverso, com o aumento da tensão arterial.

Se no verão há um aumento durante a noite não será motivado pela temperatura, mas sim por um estado de desconforto físico e pela má qualidade do sono em resultado das condições atmosféricas do período estival.

A variação sazonal da tensão arterial, principalmente em populações mais vulneráveis, como é o caso das pessoas idosas, está associada ao aumento da incidência de problemas cardiovasculares.

A supressão do excesso de alterações sazonais da tensão arterial contribui para a prevenção de eventos cardiovasculares. Daí a importância da medição regular da tensão arterial em consultório médico, em casa e na farmácia.

É fundamental a avaliação do doente hipertenso pelo médico antes das mudanças sazonais, de forma a ajustar a sua medicação e a elaborar um plano preventivo adequado.

O doente hipertenso deve ter especial atenção e avaliar a sua tensão arterial se tiver sintomas como tonturas, visão turva, dor de cabeça, sensação de desmaio ou perda excessiva de líquidos do organismo no caso de vómitos ou diarreia.

Que cuidados deve ter um doente hipertenso, em particular nos meses mais quentes, de forma a não pôr em causa umas férias descansadas, aproveitando o tempo para “recarregar as baterias” e melhorar o seu desempenho?

Seguem alguns conselhos simples e fáceis de seguir. Em primeiro lugar, manter uma alimentação equilibrada, pobre em gorduras e rica em legumes e frutas. Segundo, reduzir a utilização do sal, na confecção dos alimentos, dando preferência à utilização da salicórnia, uma planta com propriedades antioxidantes e óptimo substituto de sal convencional.

Depois, evitar o excesso de álcool e não fumar, reforçando a hidratação, bebendo cerca de 1.5 a 2 litros de água por dia. O calor e a humidade causam uma perda mais acentuada de água e sais minerais, através da transpiração e da respiração, perda essa que tem de ser reposta.

Fundamental também é evitar a exposição prolongada ao sol, principalmente entre as 11 horas e as 17 horas, usando roupa larga que cubra a maior parte do corpo (preferencialmente de algodão) e chapéu. Finalmente, devemos evitar locais de elevada poluição do ar e procurar ambientes frescos e arejados ou climatizados, de forma a evitar mudanças rápidas de temperatura ambiente;

Mesmo nas férias, deve-se manter o controlo adequado da tensão arterial. Uma reavaliação médica durante o período de férias pode implicar a necessidade, ou não, de alterar a dosagem ou o grupo dos medicamentos prescritos, particularmente na presença de sintomas e nos doentes com tensão máxima, mesmo se assintomáticos.

Apostar em medidas adequadas de vigilância e de cuidados, associadas à toma rigorosa da medicação ajustada e personalizada para cada doente, é uma condição essencial não só para um verão descansado, mas para uma vida longa e sem problemas.

Coordenadora da Unidade de Hipertensão Arterial do Hospital CUF Descobertas

Diário de Notícias
Nataliya Polishchuk
20 Agosto 2022 — 07:10