814: Desemprego jovem de novo varrido do mapa

OPINIÃO

O Francisco enviou-me um e-mail a pedir um estágio em Julho. Na mesma altura apareceram a Ana, o João e o Eduardo, depois a Sara (e muitos outros).

Os cinco saíam de licenciaturas, mestrado e um deles de um curso profissional. Como tinham bom perfil, entrevistei-os e combinei candidata-los aos estágios do Instituto de Emprego e Formação Profissional logo que estes abrissem.

Haviam fechado em Junho (porquê?), mas reabrem em Novembro (porquê?). E estava escrito no edital: candidaturas de 1 de Novembro a 15 de Dezembro. Entretanto, fecharam a 10 de Novembro com a informação: “atingida a dotação orçamental”.

Não estava dito previamente – “até 15 de Dezembro ou até ao limite da dotação orçamental”. Aliás, não se percebe porque há um limite de dotação orçamental numa área tão crítica, como se o desemprego fosse uma escolha. Eu estava fora do escritório nesses dias. Não os inscrevi até dia 10. O que lhes digo agora?

Por causa da pandemia, este ano aconteceu a tempestade perfeita: pressão das instituições de ensino junto das empresas quanto a estágios curriculares para alunos finalistas; em simultâneo, milhares de candidaturas de novos licenciados à procura de estágios profissionais.

Mas nesta desumana área do apoio ao (des)emprego IEFP, o Governo dorme. Quer (e bem) melhores salários para os jovens, mas ignora quem ainda nem sequer teve uma oportunidade.

Quem tenha pensado em aceder a um estágio IEFP no fim do curso, encontrou o vazio. Se a empresa, com a qual tentou concorrer, confiou nos prazos do Estado e não submeteu a candidatura logo nos primeiros dias, pode ir comprar antidepressivos para aguentar.

Resta-lhes a abertura da próxima temporada de candidaturas que ocorrerá… em Março (lá está — porque não um sistema em contínuo?). Talvez haja estágios a começar em maio, quase um ano depois de acabarem os cursos.

Para o Estado, tudo ok. Muitos destes jovens nem sequer estão inscritos no IEFP. Custam zero e são estatisticamente invisíveis. Aliás, quando saem dos estágios, se não forem contratados, passam a contar para as estatísticas de desemprego.

Que péssimo para os números oficiais, certo? Paralelamente, o IEFP impede os candidatos de começar a estagiar (e a serem remunerados pelas empresas) enquanto esperam pela burocracia estatal. Têm de ficar inscritos, mas sem qualquer emprego. Sem estágio. Sem nada.

Para as empresas, o impasse também é péssimo: perdem tempo a identificar candidatos e, depois, muitos desaparecem ou emigram porque não podem ficar à espera da abertura aleatória de estágios IEFP. Toda a gente está bloqueada.

A ministra Ana Mendes Godinho ou não sabe ou não age. Cumpre ordens de Fernando Medina. De António Costa? Têm noção do que aconteceu a tantos milhares de jovens que não couberam no seu “Orçamento”?

É uma pequena bomba social sobre as expectativas de tantas famílias quanto ao apoio público neste momento tão crucial para os seus filhos: uma porta no mundo do trabalho. Sem terem o apelido Cunha.

Ao ver este caso lembrei-me de um indicador das eleições. O PS teve maioria absoluta, mas um resultado mais fraco junto dos jovens do que nas outras faixas etárias.

Gota a gota, casos como estes empurram os novos eleitores para uma revolta contra os partidos do sistema. Ora, qualquer Governo tem obrigação de não cair na armadilha da inacção ou cegueira orçamental num tema como este.

Estamos a falar de uma centésima ou milésima do défice. Queremos reter em Portugal o investimento que fazemos no ensino superior ou é mais barato que todos emigrem?

Jornalista

Diário de Notícias
Daniel Deusdado
20 Novembro 2022 — 01:05



 

694: Inflação não justifica assalto nas portagens

– “… E contar com o bom-senso dos accionistas das autoestradas para que repartam as vicissitudes da guerra por todos. Ou estamos com a Ucrânia, ou não estamos.”

Estes aumentos não me afectam porque não possuo viatura, mas estes gajos não estão com ninguém! Eles querem lá saber dos milhares de mortos na guerra da Ucrânia; eles querem lá saber da destruição de infra-estruturas de todo o tipo na Ucrânia provocadas pela invasão de um país pária russonazi ☠️卐☠️, chefiado por um assassino terrorista profissional que continua a dormir descansado como se nada se passasse! Eles apenas olham para o seu umbigo e dizem se eu estou bem, os outros que se fodam!

OPINIÃO

1 A partir de terça-feira, o governo tem de dizer se aceita o crescimento dos preços das portagens, em linha com a inflação – em redor de 10%. É o que está na lei. Ora, como se sabe, as concessionárias das autoestradas não têm pena da perda de rendimento dos portugueses nem da espiral inflacionista. Que boas razões para se evitar então esta aparente inevitabilidade?

Para começar, temos de verificar se as autoestradas são realmente atacadas pela inflação. Olhando, não parece. As concessionárias têm três grandes custos: de capital (o montante para investimento inicial); o de salários + operação; e o de manutenção + alargamento de vias. Não é difícil concluir que o serviço da dívida constitui uma parte significativa.

Portanto, se um dos custos principais do negócio são as taxas de juro de investimento, e estas, felizmente, estão muito abaixo da inflação, então a Brisa, Ascendi, etc., têm de fazer contas tendo por base a taxa de referência do BCE (2%) e a Euribor (abaixo dos 3%). Acrescentando-se às contas o aumento dos salários e custos operacionais, não há evidência que justifique um aumento de 10% nas portagens.

Em 2021, a principal empresa, a Brisa, facturou 529 milhões em portagens. Quer um jackpot automático de 10% (mais 50 milhões)? Num negócio com concorrência, isto não sucederia.

Olhemos em detalhe para as contas da Brisa. A concessionária teve em 2021 um volume de negócios global próximo dos 580 milhões, dos quais 262 milhões são resultados antes de impostos – que se transformaram em 183 milhões de lucros e uma distribuição de dividendos de 129 milhões. “Lucros excessivos”?

O conceito até pode ser injusto para empresas que actuam em mercados com concorrência, mas este caso das autoestradas é ainda mais especial. Viver da exploração de bens públicos únicos tem de obrigar a mitigações do negócio em função da realidade do país. Mas talvez nem seja preciso usar-se este princípio. Vejamos um princípio mais prático.

Governo e concessionárias preparam-se para o brilharete: alargar o número de anos em que continuaremos a pagar portagens.

Sabe-se que as concessionárias invocam os direitos contratuais de aumentar as portagens segundo a inflação. Mas a “letra da lei” pede que vejamos também o “espírito da lei”. Inflação e taxas de juro já não são hoje quase sinónimos – como seriam em 1997 quando, por exemplo, o Decreto-Lei 294/97 foi redigido.

Perante uma diferença de 7% ou 8% entre inflação e juros, provem que 100% do negócio sofre com 10% de inflação. O detalhe dos relatórios e contas mostra que não têm essa legitimidade.

2 Aumentar as portagens é um atentado económico profundamente desigual face às diferentes zonas do país. Quem paga os (exorbitantes) preços na classe 1 de veículos ligeiros, não faz ideia de quão ainda mais absurdo é o custo das classes 2, 3 e 4.

O valor das portagens, associado ao dos combustíveis, aumenta cada vez mais o risco de deixarmos as maçãs nas macieiras e as peças de olaria na loja da vila.

Porque o baixo valor de muita da economia portuguesa – de sobrevivência em tantas pequenas terras – não aguenta esta economia-falcão liderada por empresas muito sofisticadas que manobram o Estado com conceitos jurídicos que presidentes com responsabilidade social como o da Brisa, Pires de Lima, podem e devem afastar.

Além disso o custo global das viagens é o maior travão para o desenvolvimento do turismo interno – disto a Confederação do Turismo não fala nem manda fazer estudos apesar de ser o segmento mais fiável para ajudar hotéis e restauração em todas as épocas do ano.

É mais caro viajar-se entre o norte e o sul do país do que apanhar um avião low-cost para um fim de semana numa cidade europeia.

E mais um ponto: não nos façam chorar de rir com argumentos sobre o clima para legitimar a subida das portagens – que aumentam sempre, nunca descem.

Menos emissão de carbono deve ser conseguido através de mais ou menos impostos sobre os combustíveis e melhores transportes. Viajar em Portugal, mesmo que por estrada, pode ser menos poluente do que apanhar um avião (que não paga impostos no combustível).

3 Questão decisiva: a maioria dos cidadãos pensa que as autoestradas serão eternamente da Brisa ou Ascendi. Não é assim. Por exemplo, há prazos de concessões da Brisa a acabarem em 2035.

As vias passarão a ser do Estado – eventualmente sem portagens ou com portagem mínima para custos de manutenção. Imaginam o impacto disto na economia e na vida de tantos trabalhadores?

Daí estarem-nos a levar para esta solução. Sempre a mesma solução. Qual? Governo e concessionárias preparam-se para o brilharete: alargar o número de anos em que continuaremos a pagar portagens.

Menos custo este ano, mais X anos de concessão. Assim não dói. O futuro é um lugar distante (onde se pagam portagens…). Com esta táctica, os governos mantêm-se populares. Só que não queremos mais anestesias e dilações de prazos de concessão.

É altura de olhar para as regras e ver quão absurdas e anacrónicas são. E contar com o bom-senso dos accionistas das autoestradas para que repartam as vicissitudes da guerra por todos. Ou estamos com a Ucrânia, ou não estamos.

Jornalista

Diário de Notícias
Daniel Deusdado
13 Novembro 2022 — 07:00



 

607: Lisboa quer realmente a Web Summit?

OPINIÃO

1 – A Web Summit chegou a Lisboa em 2016. O carbono zero é um dos mantras do evento e desta geração we”. Mas, a dois passos dali, Portugal reina: o mais básico acesso aos transportes públicos é pior do que na década de 70 e a cidade fica caótica. Que Lisboa prevalece? A real ou a virtual?

Quarta-feira de manhã, estação da CP, Alcântara-Terra. Máquina de bilhetes com alguma fila, rápida. Muitos estrangeiros. Mas reacções estranhas. Razões: máquina com ecrã impossível de ler, face ao Sol. Multibanco sem funcionar. Também sem funcionar o pagamento com notas ou moedas.

Nenhuma outra máquina. Bilheteira inexistente. O que fazer? Como se explica isto aos atarantados estrangeiros? Entram no comboio? Toda a gente arrisca. Só que os revisores dos suburbanos de Lisboa não podem vender bilhetes. Resultado: viagens grátis para todos.

De tarde, 17h. Fim da Web Summit: centenas de pessoas tentam comprar bilhete para o Metro. Ao fim de meia hora na fila para a máquina do Metro, desisto. Opto pelo comboio. Má ideia. As duas máquinas CP têm também uma fila enorme. Bilheteiras idem. Quase hora e meia para pagar 1,35 euros. Total: duas horas para ir do Parque das Nações a Alcântara.

A Web Summit está cá há seis anos. Ainda não há uma solução de bilhética para uma conferência que movimenta 70 mil participantes + staff? Em qualquer capital europeia com esta ambição “Web”, o telemóvel permitiria o pagamento na entrada do Metro ou comboio.

Ou então, funcionários munidos de pequenos terminais, venderiam bilhetes em dias de maior procura. Nada.

Indiferentes, os sindicatos marcam mais uma paralisação do Metro na manhã de quinta-feira (9h30-11h30), pico de entrada no terceiro dia. Na Lisboa de betão, a luta de classes continua. Na “Web Summit Lisbon 2022” as conferências discorrem sobre como a inteligência artificial substituirá cada vez mais postos de trabalho nos transportes.

2 – Questão central: a WebSummit é boa para Lisboa? A cidade é incrível para receber o evento, os portugueses são extraordinários como equipas de apoio – veja-se a notável capacidade da Polícia portuguesa em ter Zelenska num espaço com 70 mil pessoas.

Mais: a Web Summit aproxima-nos de um mundo em disrupção. Aconselho a leitura do título das dezenas e dezenas de conferências que ocorreram. Há uma vertiginosa mudança tecnológica a acontecer. Não fazemos ideia do tsunami que aí vem – na inteligência artificial, no mundo financeiro e nas relações sociais.

Infelizmente a Web Summit deixou de ter as “grandes mentes” como oradores – agora enviam os vices. Por outro lado, as conferências, baseadas em sucessivas conversas de sofá, são um anacronismo. Pior: muitas são entregues a marcas e valem zero para quem assiste.

Quanto à utilidade dos milhões públicos para o evento, reconheçamos: mesmo em tempo de guerra, Portugal não está a cair. Como aconteceu? Alguém plantou o digital e está a funcionar na criação de emprego e atracção de tantas empresas. Aliás, o mais importante da Web Summit ocorre no circuito das start-ups. Ter esta gente de mil ideias em Lisboa só pode ser bom.

Já quanto a ter a WebSummit além de 2028, é outra conversa. Porque tantos eventos Paddy Cosgrave quer multiplicar pelo mundo (Brasil, China, Médio Oriente, África…) que Lisboa passa a ser apenas o hub europeu. Chega?

Caro Presidente Marcelo, não basta mais betão e milhões para fazer crescer a FIL. É a Web Summit que tem de mostrar porque vai continuar a ser interessante como evento planetário em Lisboa. Porque corre o risco de deixar de o ser.

Jornalista

Diário de Notícias
Daniel Deusdado
06 Novembro 2022 — 07:45



 

O mal não existe – a beleza atrás do véu

OPINIÃO

Num belíssimo filme, vencedor do Urso de Berlim em 2020, Mohammad Rasoulof propõe-nos algumas histórias de iranianos obrigados a executar prisioneiros. Esse momento muda as suas vidas – quer porque obedecem, quer porque recusam.

Vidas diferentes e sem saída: um jovem soldado que se oferece para fazer parte do pelotão de execuções e ter como prémio uma folga extra; outro que arrisca a vida para não fazer parte desses pelotões de execução; e um médico, cuja exílio na montanha é consequência desse imperativo moral: não matar.

O realizador do filme foi condenado a um ano de prisão por “propaganda contra o sistema”, mas este grito por mais liberdade no Irão continua a ecoar. Agora é Mahsa Amini. As organizações de apoio humanitário calculam que os protestos contra a sua morte já vitimaram 185 pessoas.

Os ayatollahs que governam aquele regime, tal como os talibãs em Cabul, estrangulam a energia vital de uma sociedade que nunca será melhor se não tiver a vida e a voz, livre, de mais de metade do seu povo, condicionada pelo defeito do género à nascença.

É absolutamente fascinante verificar-se o que a beleza e a inteligência feminina provocam nos líderes religiosos ao longo dos séculos, fruto de leituras ortodoxas dos textos sagrados já sem o contexto original.

São milhões de vidas amputadas por todo o mundo, numa subjugação das mulheres face aos homens que não consegue ter, sequer, uma explicação à luz de qualquer mínimo afecto/respeito/pertença face a Alá-Javé-Deus.

O crime dos cabelos islâmicos foi transversal também ao judaísmo e cristianismo. A Torá exigia-lhes que vivessem com a cabeça coberta ou rapassem o cabelo. Já o apóstolo Paulo, na I Epístola aos Coríntios, lança a mesma advertência, que lhe advém de ter sido fariseu.

Ou seja, mantém no cristianismo a ideia judaica da mulher com cabeça coberta e cabelo comprido, conselho depois transformado num princípio de doutrinação universal cristã que ele não supôs ao escrever. Em Corinto, no templo de Afrodite, as prostitutas estavam de cabeça rapada. A frase surge nesse contexto.

É impossível negar, no entanto, que nos casos das três religiões monoteístas, há uma confissão de incapacidade primária de gestão das emoções masculinas face à beleza e ao ciúme. A beleza só pode ser gerida por supressão e posse: há que retirar as mulheres dos olhares de quem não as possui para não fomentar desejos irreprimíveis – o pecado.

Tantos milhares de anos passados, e tragicamente, ainda estamos neste estado de barbárie. Ao ponto de Mahsa Amini ter morrido por causa do seu cabelo. E se no Irão falamos do véu, no Afeganistão as raparigas não têm sequer direito a ir à escola a partir dos 10 anos.

O filme O mal não existe é sobre o Irão, está na plataforma Filmin, mas é sobre nós também. Atravessados pela espada da pedofilia, não nos podemos excluir deste fanatismo anacrónico.

O celibato impediu uma vida digna a homens que chocaram perante a incapacidade de conciliarem a vocação e o desejo, gerando vítimas onde poderiam ter existido famílias ou companheiros.

“A letra mata, o espírito vivifica”, disse o mesmo Paulo mais tarde, na II epístola aos mesmos Coríntios. Mas é-nos mais fácil conhecer as letras. Não temos confiança para ler o Espírito – que é o tempo e o que ele nos traz de mudança. Ele revela-se a si mesmo.

Estes líderes religiosos do nosso tempo talvez não pretendam o Mal. Mas ao imporem à força um Bem Perfeito, absurdo, anacrónico, destroem os belos e imperfeitos seres humanos que todos somos. É que só necessitamos de um bem pacífico, humilde e fraterno. De um amparo.

Jornalista

Diário de Notícias
Daniel Deusdado
16 Outubro 2022 — 00:13



 

345: Ao juiz: 186 volumes BES explicados em 5 minutos

OPINIÃO

Era uma vez uma criança abandonada às portas da Misericórdia de Lisboa, corria o santo ano de 1850, de nome posto em baptismo José Maria, acrescentado depois de “Espírito Santo” por alturas do Crisma. Muito pobre e lutador, montou bem cedo, pelos 20 anos, uma lojinha de câmbios e lotaria espanhola para as bandas da Calçada do Combro, reinava ainda D. Carlos I.

Tão bem-sucedido foi que, ainda novo, ficou rico. E depois banqueiro, mudando-se então para a mais vetusta Rua Augusta, ali por volta da entrada do século XX.

José Maria Espírito Santo morreu em 1915 e deixou aos três filhos homens (e à primogénita Maria) vastas sociedades agrícolas no Ultramar e principalmente uma casa bancária já fina, que o varão mais velho, chamado a gerir, transforma em 1920 no Banco Espírito Santo.

Rapidamente este se alcandora a 2.º maior banco lisboeta, mais tarde Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa, por fusão com o banco da família Queiroz Pereira, corria o ano da graça de 1937.

Os sucessores de José Maria seguiram as pisadas de sacrifício e labor do patriarca, tornando os Espírito Santo na gente fina de Lisboa-Cascais. A burguesia triunfou sobre a nobreza.

Sobreviveram a todas as crises e guerras. Atraem monarcas e Rothschilds aos seus serões deslumbrantes, além de artistas de Hollywood. Pela década de 60, Portugal era gerido por eles, Champalimaud, os Mello e uns mais. Claro, sob supervisão de Salazar.

No 25 de Abril, já se sabe o que aconteceu. Otelo e Vasco Gonçalves fanaram-lhes o banco, íamos por volta de 11 de Março de 75. Exilados no Brasil, em Inglaterra e na Suíça, os Espírito Santo refazem a fortuna, ajudados pelos Rockefeller, Agnelli e J.P. Morgan, entre muitos anti-comunistas da época.

Entretanto, por cá, anos depois, Soares e Cavaco reescrevem o destino da família. Refaz-se o poder financeiro dos grupos nacionalizados pré-25 de Abril nas privatizações. A história mostra, no entanto, que não tinham capital para a economia aberta dos novos tempos. E quase todos vendem. Excepto os Espírito Santo.

A chegada de Salgado

É em 1991 que Ricardo Espírito Santo Silva Salgado, bisneto do fundador, ascende ao poder por morte do tio e no exacto momento da privatização. Daqui para a frente conta-se num instante: Salgado tinha charme e ambição. Ambas, no entanto, não eram suficientes para financiar a corrida suicida de liderança do mercado bancário português.

Sim, porque o BES era 2.º no ranking, atrás do BCP de Jardim Gonçalves (a Caixa não contava neste campeonato). E os dois banqueiros desatam numa alavancagem que levaria ambos ao precipício.

A verdade é que praticamente desde o início, a numerosa Família não tinha dinheiro suficiente para manter a maioria de um banco cotado em bolsa. Como tal, Salgado levou toda a gente ao colo durante duas décadas tendo como contrapartida o poder absoluto.

Criou holdings familiares artificiais, sumptuosos negócios lateralizados do “GES”, sempre a precisarem de liquidez do BES, descobrindo novos financiadores deslumbrados pelo acesso à elite e dispostos a injectar fortunas de uma vida nas estruturas de capital Espírito Santo. Um clã.

Até que, já entrava o outono de 2013, o então rival Pedro Queiroz Pereira (Salgado tentava roubar-lhe o grupo) juntou em dois meses os números que consultoras reputadíssimas e dezenas de técnicos do Banco de Portugal não viram anos a fio.

Diagnóstico negro: uma cascata de dinheiro a rolar pelo mundo inteiro, muito dele via offshores, contas nunca consolidadas, tudo com o objectivo de não abrir brechas na inquestionável reputação nessa marca mundial, “Espírito Santo”.

Mas já nessa altura os clientes do banco andavam a ser endrominados por fundos de investimento do GES e papel comercial com contas falsas que tapavam buracos colossais em empresas esvaídas de capital. Tudo aos balcões do BES.

Posto a nu, Ricardo Salgado tentou usar de todo o seu poder. Tinha enviado ao amigo de Sócrates vastos milhões, mas agora não eram muito úteis; havia avençado gente importante, incluindo ministros; financiara partidos; continuava a mandar nos mil milhões da PT; tinha uma palavra na EDP; ninguém lhe dizia não.

Ele era o líder do dinheiro em Portugal. Iam-lhe tirar o tapete? Chamou Portas. Curvou-se em desespero perante Maria Luís Albuquerque, a ministra das Finanças, pedindo-lhe salvação via Caixa Geral de Depósitos ou o dinheiro da troika que sempre recusara. Tudo inútil. Passos Coelho assistia, comentava, mas não agia. O mercado a funcionar.

E assim, no ido 3 de Agosto de 2014, o governador Carlos Costa sentencia o BES, depois de descobrir, semanas antes, que Salgado fez desaparecer (ou não evitou fazer desaparecer) 5,7 mil milhões de dólares do BES Angola, postos à guarda do seu ex-pupilo favorito, dr. Sobrinho.

Eram 5 Bis (de biliões), como ele gostava de dizer, a juntar aos outros 5 Bis do buraco negro do GES. 10 Bis, assim, pela rama. Fora o incalculável que se perdeu em vendas ao desbarato no Novo Banco e no património GES por mais de 50 países.

E assim chegamos ao novo juiz

Foi, portanto, aos correntes dias de Setembro de 2022 o jovem juiz Pedro Correia chamado para julgar o mais complexo caso da história da Justiça Portuguesa, e, para isso, pedem-lhe que leia já 545 páginas por dia x 20 dias, só da Acusação, além dos 186 apensos volumes correspondentes a toneladas de papel.

Pois, digo-lhe: não se mace. É simples. O dr. Salgado já não vai a jogo. Para condenar alguém, há o braço direito dele, o dr. Morais Pires. Nunca saberemos se tinha a sagacidade de um Rothschild ou um rotweiller. Condenar este, e mais uns trocos, disfarça isto tudo.

Perdemos o principal grupo financeiro, a PT e mil outras coisas mais. Quem acredita no oráculo do Fernando Pessoa, medita. “Ó mar Salgado, quanto do teu sal, são lágrimas de Portugal.” A História de Portugal estava escrita. Aquele país morreu ali. Oremos.

Jornalista

Diário de Notícias
Daniel Deusdado
25 Setembro 2022 — 07:30



 

294: Inimputáveis: inflação, Pedrogão, aeroporto

“… É um exemplo impressionante de como os portugueses percebem a diferença entre uma medida ideológica versus a necessidade de ter contas públicas aceitáveis. Ou seja, o protesto só aconteceu mais de um ano após Vítor Gaspar ter anunciado o corte de 50% nos Subsídios de Natal de todos os trabalhadores, além de cortes nos pensionistas e outros aumentos de impostos.” É também um exemplo impressionante como esta governança e a anterior (a mesma), castiga os contribuintes viúvos, fazendo-os ficar sem os subsídios de férias e de natal (que já nem chegam) para liquidar o IRS!

OPINIÃO

1 É sinistro que, cinco anos depois de Pedrogão Grande, o Ministério Público queira condenar os operacionais dos incêndios em vez de ter em conta os milhares de quilómetros quadrados ocupados por espécies altamente combustíveis, fruto de uma ambição sem controlo das indústrias da madeira e do papel, que beneficiam dessa exploração económica exaustiva.

Pior: os beneficiários deste negócio têm uma responsabilidade directa quanto ao desordenamento implícito de que beneficiam e continuam alheados dos custos de ataque ao fogo, fragilizando-o.

Claro, há que acrescentar a responsabilidade, decreto a decreto, dos sucessivos governos que assobiaram para o lado, louvando o Valor Acrescentado Bruto destas indústrias, sem nunca fazerem a conta ao desequilíbrio territorial e à colossal diferença de forças entre o pequeno proprietário rural que ganha uns trocos versus os compradores finais da madeira (ardida ou não).

São eles que enchem os cofres à custa de um frágil sistema social e ambiental. Follow the money costumava ser uma velha regra criminal.

Este combate está absolutamente perdido se não mudarmos para espécies endógenas, mais resistentes ao fogo, construindo o mosaico. Crime é não se fazer isto.

2 Perdemos “130 mil euros/hora” por não termos um novo aeroporto. O número, obviamente produzido a martelo pela Confederação do Turismo Português é a última guloseima mediática sobre a chamada “não-decisão”.

Sabendo-se que não perdemos 130 mil euros/hora durante os oito meses do ano em que a Portela não está congestionada, a verdade é que 50 anos de espera tiveram a vantagem de não gerar uma dívida colossal e talvez nos tragam uma melhor decisão. Ou seja, uma alternativa/complementaridade à Portela, sem a destruição do Estuário do Tejo ou do ecossistema da Margem Sul.

E afinal Alverca pode ser solução, ou até Santarém, ainda por cima feito por privados. Resultado: vale a pena esperar para não destruir o único factor irreversível da equação – a natureza.

Há algumas coisas que sei: quanto mais o Estado der, mais impostos há de ir buscar de forma definitiva.

3 Fez quinta-feira 10 anos que mais de um milhão de portugueses saiu à rua a protestar com a chamada medida “TSU” – os descontos para a Segurança Social recuariam de 23,75% para 18% nas empresas, aumentando de 11% para 18% nos trabalhadores.

É um exemplo impressionante de como os portugueses percebem a diferença entre uma medida ideológica versus a necessidade de ter contas públicas aceitáveis.

Ou seja, o protesto só aconteceu mais de um ano após Vítor Gaspar ter anunciado o corte de 50% nos Subsídios de Natal de todos os trabalhadores, além de cortes nos pensionistas e outros aumentos de impostos.

Aqui chegados, não faço prognósticos sobre como vão reagir as pessoas às tímidas reposições que Costa e Medina andam a propor. Há algumas coisas que sei: quanto mais o Estado der, mais impostos há de ir buscar de forma definitiva; tirando o Turismo, não parece haver mais nenhum boom de produtividade ou geração de riqueza sustentada em curso; nenhum salário ou pensão volta atrás – o que está aumentado, deve ser respeitado.

Portanto, se as contas do país começarem a derrapar e a perder rating, vai afectar tudo. O que vamos perder em juros na dívida pública para os especuladores faz-nos regressar aos défices fortes.

E o impacto das taxas de crédito à habitação nas dívidas de dezenas de milhares de euros é indefensável através de aumentos salariais. Vai ser difícil. Solução fácil: ser populista já. Da esquerda à direita, todos pedem isso a Costa. De facto, Putin vai conseguir pôr a Europa toda a arder com a inflação.

Jornalista

Diário de Notícias
Daniel Deusdado
18 Setembro 2022 — 00:17



 

251: Rendas: o colapso dos quase-pobres

“… Os casos mais gritantes de sofrimento na sociedade portuguesa não acontecem apenas nas famílias funcionalmente em estado de pobreza, mas igualmente nas famílias de pobreza encapotada – aqueles portugueses que se esforçam ao limite para que na aparência tudo pareça funcionar, mas dentro de casa só há uma refeição por dia…”

OPINIÃO

A inflação é grave, a subida galopante das taxas de juro também, os custos da energia insuportáveis, as listas de espera na saúde sem fim à vista – sim, tudo isto é difícil. Mas não há problema mais difícil de resolver de forma estrutural do que a quantidade de portugueses que estão literalmente a ficar sem casa, ou a serem empurrados para soluções de pobreza-limite pelos despejos e subida das rendas.

Os casos (sobretudo de idosos) despejados por demolição das casas em que viviam, ou outras invocações subjectivas de despejo por parte dos senhorios, levantam questões em que o Estado tem atirado a bola para as autarquias, que por sua vez estão já sem capacidade de instalar cada vez mais pessoas nas casas de arrendamento camarário.

Há ainda um outro problema, paralelo, a explodir: o dos jovens ou das famílias jovens (na casa dos 30 ou 40 anos), não protegidas pelos contratos de arrendamento pré-1990, e que não só vêm sofrendo a actualização das rendas como estão à mercê do fim dos contratos.

As soluções para estas pessoas passam, quase sempre, por irem viver para cada vez mais longe dos centros urbanos ou ficarem em situações absolutamente precárias de alojamentos de favor.

Os números do Instituto Nacional de Estatística mostram que nos 923 mil contratos de arrendamento em vigor no país, mais de metade pagam rendas acima dos 400 euros. Há 200 mil famílias que estão no escalão entre 400 e 600 euros e 57 mil entre 650 e 900 euros. São sobretudo estes dois escalões que estarão agora a fazer contas sobre como irão sobreviver à tempestade que se aproxima.

A par disto, os números da Pordata mostram que Portugal é o segundo país da União Europeia (só atrás do Chipre) quanto a piores condições de habitação – 25% dos imóveis têm infiltração de água pelo telhado, ou paredes húmidas, ou soalhos e caixilharias de janelas podres. Isto significa mais custo energético para aquecer as casas, mais doenças respiratórias, mais absentismo laboral. Uma espiral de perda.

Entretanto, o Governo fez uma promessa de habitação condigna para todos até 2024, um marco na passagem dos 50 anos do 25 de Abril. Há 2750 milhões de euros do PRR (bazuca) para investimento em habitação social.

Torna-se óbvio, no entanto, que a falta de materiais de construção e a subida dos preços tornam impossível o cumprimento desta promessa até 2024, o que significa que o Governo – mais do que distribuir dinheiro de helicóptero, como é o caso dos 125 euros -, tem de reformular as opções para os anos seguintes e redistribuir de forma mais cirúrgica.

Os casos mais gritantes de sofrimento na sociedade portuguesa não acontecem apenas nas famílias funcionalmente em estado de pobreza, mas igualmente nas famílias de pobreza encapotada – aqueles portugueses que se esforçam ao limite para que na aparência tudo pareça funcionar, mas dentro de casa só há uma refeição por dia, as crianças dependem do almoço da cantina escolar, o frio é constante e os progenitores vivem para trabalhar até caírem para o lado.

Se não apoiarmos estas pessoas, que não são sequer classe média-baixa, e que raramente se encaixam nos patamares de apoio social, dá-se uma hecatombe silenciosa que em regra passa pela dissolução das famílias, casos de depressão longa e péssimo aproveitamento escolar das crianças.

Não encontro maiores heróis na sociedade portuguesa que estas famílias, tantas, que fazem gato-sapato para viver com tão pouco, sem dizerem nada a ninguém. Merecem que o Governo pense neles além dos 125 euros que agora se conseguiu arranjar. E que as novas casas também sejam para eles.

Jornalista

Diário de Notícias
Daniel Deusdado
11 Setembro 2022 — 07:00



 

146: Energia nuclear: cara, lenta, perigosa, errada

OPINIÃO

Como substituir a energia fóssil de forma que as alterações climáticas não acabem com este mundo bonito em que vivemos? Como diminuir a conta da luz, gás e veículos? Nuclear, ouve-se cada vez mais. Em Portugal seria totalmente errado.

Optar pelo nuclear seria abdicar de um enorme potencial de exportação de energia renovável e hidrogénio verde em troca de uma solução milionária, que demora pelo menos 20 anos a concretizar, e geradora de um buraco negro num qualquer território que fosse escolhido.

Estamos hoje na antecâmara de sermos exportadores de energia em escala significativa pela primeira vez na nossa história. Vento, hídrica e solar fazem um mix extraordinário que, além do uso directo, potencia soluções de hidrogénio verde capazes de garantir alguma auto-suficiência nos transportes em poucos anos. Imaginem a nossa economia sem a importação milionária da energia?

Pelo contrário, o nuclear começa logo por nos fazer depender da importação de urânio – e o urânio é ainda mais escasso que muitas das matérias-primas sobre as quais há lutas globais. Ficar de novo nas mãos dos donos do urânio, quando estamos a um passo da energia mais limpa e barata da história da humanidade, seria cair no mesmo erro em que estamos agora.

Claro que o vento, o solar e a hídrica têm problemas de regularidade. É aí que entra a importação de gás ou de energia nuclear, vinda de Espanha. Porque não há consumidores com tabu nuclear. O problema do nuclear não é o que já está feito. É pensá-la em pleno século XXI como limpa, nova, salvadora.

Ficar de novo nas mãos dos donos do urânio, quando estamos a um passo da energia mais limpa e barata da história da humanidade, seria cair no mesmo erro em que estamos agora.

Outra questão é estarmos a assistir a este assalto sobre a humanidade – triliões de euros/dólares entregues à Rússia, países árabes e grandes companhias da energia. Mas pensar o futuro esmagados por esta bitola deste terror é levar o mundo para um estado de destruição superior.

Para quem tem dúvidas, o caso ucraniano de Zaporíjia demonstra todos os dias a fragilidade das centrais nucleares em contexto hostil. E, se não basta o risco extremo de um ataque a uma central nuclear, pensemos na multiplicação de urânio enriquecido a circular por cada vez mais países.

Por fim, o caso finlandês demonstra bem o que é uma colossal derrapagem de prazo e orçamento na construção de uma central nuclear: estava previsto um custo de 3 mil milhões, prevê-se que termine em 11; supunha-se que abria em 2009 e iniciou testes este ano (mas ainda sem data de funcionamento). Tudo isto na honestíssima e rigorosíssima Finlândia.

Qualquer solução baseada no nuclear favorece os mesmos gigantes da energia de sempre, que continuarão com os oligopólios de fornecimento, em vez de uma energia cada vez mais democrática, auto-produzida e partilhada por cada vez mais painéis solares espalhados transversalmente por países com um número de horas de luz solar invejável.

E, se não bastasse tudo isto, já aqui referi o que sistematicamente os defensores do nuclear omitem: a energia nuclear tem um custo técnico que não para de subir, enquanto as tecnologias renováveis não param de se tornar mais baratas. Quem fez essa investigação exaustiva, com dados de mais de 50 anos de mercado, foi uma vasta equipa de Oxford que a publicou no Democracy Journal.

Ou seja, com uma gota de investimento nuclear transferido para tecnologia das baterias (diversas, não apenas de lítio), teríamos a intermitência solar parcialmente resolvida em menos de 10 anos. Conclusão: não podemos ir desesperadamente na cantiga dos donos disto tudo.

Jornalista

Diário de Notícias
Daniel Deusdado
28 Agosto 2022 — 07:00

93: RTP Internacional a livrar-se da Sport TV

OPINIÃO

De vez em quando acontecem coisas sensatas. Uma delas é a intenção da RTP Internacional em abdicar do jogo da Liga portuguesa para os emigrantes. Bom… dito assim parece uma desconsideração, porque se a RTP Internacional não consegue dar um joguito da bola ao fim de semana, então lá se vai a sua missão… Para que serve afinal? Para muito mais.

Mas comecemos pelo futebol e pela amada Selecção. Ora, canais como a RTP Internacional já estão há muito inibidos de transmitir jogos da Selecção em jogos oficiais porque os direitos são vendidos país a país – e não há compatibilização possível com canais que transmitem via parabólica para continentes inteiros. Portanto, selecção para emigrantes? Só nos canais nacionais. E o mesmo é verdade, infelizmente, até em competições como os Jogos Olímpicos.

O mesmo sucede com a Liga dos Campeões. Por mais interessante que fosse ter os clubes portugueses na RTP Internacional, os direitos são, uma vez mais, vendidos país a país. Portanto, zero para os emigrantes. Solução: comprar os pacotes locais para ver os jogos das competições europeias.

Até que chegamos à Liga portuguesa. Bom, aqui os direitos são nacionais. Todavia, a Liga portuguesa também é vendida no exterior, incluindo pelo sistema de parabólica ou de Internet da Sport TV. Portanto, quando a RTP Internacional tenta comprar algum futebol nacional para a sua antena, tem no vendedor dos direitos também um concorrente.

E o que faz a Sport TV? Vende um jogo, com as condições que mais lhe interessam. Que são: a RTP Internacional só pode escolher esse jogo depois da Sport TV decidir qual o melhor, que fica para si.

Ou seja, este fim de semana a RTP Internacional poderia transmitir qualquer um… excepto o FC Porto-Sporting. E todos as semanas igual, porque o melhor jogo é exclusivo Sport TV. Portanto, nunca há um Sporting-Benfica ou um FC Porto-Benfica para os emigrantes, além de que também não pode haver nenhum jogo em casa do Benfica porque os direitos são apenas da Benfica TV.

Ora, o que está a suceder neste momento, segundo diz o Expresso, é que finalmente a RTP Internacional não quer gastar 1,7 milhões de euros (sensivelmente 50% do seu orçamento) para comprar as sobras do futebol.

Sobras essas que provavelmente pouco importam aos emigrantes porque estes, para verem bons jogos, ou já têm a Sport TV via parabólica, ou vão ao “bar português” da zona ver o jogo grande. Portanto, a quem interessa este negócio? Apenas à Sport TV, que vende a gordura do fiambre ao preço de presunto.

Claro que a tentação de se fazer ruído neste tema é grande. Já veio um deputado do PSD chamar à atenção para esta suposta ofensa à diáspora. Mas qual ofensa? Durante os três anos em que que fui director da RTP Internacional, comecei a sondar os órgãos ligados aos emigrantes sobre a importância do futebol.

As respostas demonstravam que a prioridade seria ver aquele dinheiro aplicado em conteúdo sobre as comunidades emigrantes – mais do que ver tanto do orçamento gasto num jogo semanal.

Além disso, há um problema mais vasto: o monopólio das transmissões desportivas (nacionais ou internacionais) nas mãos de um só operador deveria exigir uma atitude da Comissão Europeia. Dois operadores por cada evento para aumentar oferta e baixar o preço.

O custo das transmissões não para de subir, criando uma bolha milionária absurda no mundo do futebol – sem paralelo em nenhuma outra actividade legal. A RTP está a tomar a atitude certa ao abdicar desta subjugação, tal como fez quando desistiu de comprar a Liga dos Campeões. O tempo é outro.

Jornalista

Diário de Notícias
Daniel Deusdado
21 Agosto 2022 — 07:50