Denúncias de crimes de guerra à porta do “inverno da sobrevivência” na Ucrânia

– Só quem participou numa guerra pode saber e compreender que um combatente, no teatro de operações reais, passa-se a constituir um ser incontrolável dado o enorme stress em que se movimenta, face ao sofrer, debaixo de fogo, bombardeamentos, ataques, emboscadas, etc.. Nesta perspectiva, não me admira nada que os soldados ucranianos tenham disparado contra soldados russonazis que desde há nove meses consecutivos invadiram o seu país, têm bombardeado e destruído diariamente tudo o que vêm pela frente, infra-estruturas civis, assassinando e torturando população de todas as idades, residências, escolas, creches, etc.. Este cenário altera por completo o estado psicológico do combatente – quem quiser pergunte a um sociólogo ou psicólogo sobre este tema -, provocando reacções que, em termos e situações normais, nunca produziria tais aberrações. O estranho e indigno é os russonazis ☠️卐☠️ virem reclamar desta situação quando eles próprios assassinam desde crianças a idosos inocentes e destroem bens imóveis e estruturas de apoio à sobrevivência dos ucranianos. Tais crimes, são próprios de um estado terrorista de índole e ideologia nazi.

UCRÂNIA/GUERRA/INVASÃO/CRIMES DE GUERRA

Ucranianos dizem ter encontrado locais de “tortura” em Kherson e russos acusam Kiev de abater militares que se tinham entregado. Destruição de infra-estrutura leva a OMS a traçar cenário negro para os próximos meses.

Presidente e primeira-dama assinalam o Dia da Dignidade e Liberdade.
© DR/Telegram Volodymyr Zelensky

As autoridades ucranianas dizem ter encontrado quatro locais em Kherson onde os russos “detiveram ilegalmente as pessoas e torturaram-nas brutalmente”.

Mas as denúncias de alegados crimes de guerra fazem-se também do lado de Moscovo, com o Kremlin a insistir que vai punir os responsáveis pela morte “brutal” de uma dezena de soldados russos que se estariam a render aos ucranianos. Na semana passada, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos disse que ambos os lados cometeram abusos.

De acordo com um comunicado do Gabinete do Procurador-Geral ucraniano, os russos tinham em Kherson uma rede de locais de detenção, onde foram encontrados bastões de madeira e de plástico e dispositivos usados para “torturar civis com electricidade”.

Na sua fuga da cidade, a única capital regional que tinham conquistado logo no início da guerra, há quase nove meses, os russos deixaram ainda documentos que revelam a forma como administravam os locais.

Moscovo não reagiu a esta acusação, mas insistiu na denúncia de crimes de guerra por parte dos ucranianos e em levar à justiça os responsáveis. Em causa estão vídeos que começaram a circular na semana passada – e cuja autenticidade tanto o The New York Times como a BBC confirmaram. Num deles vêem-se militares russos deitados no chão, aparentemente após se terem rendido, até que um outro aparece e começa a disparar.

Os ucranianos reagem e o vídeo é interrompido. Mas outro vídeo, filmado num drone, mostra que todos os russos acabam mortos, incluindo os que estavam deitados.

A Ucrânia nega que tenha havido um crime de guerra, alegando que os soldados foram mortos após uma falsa rendição. As Nações Unidas, que já denunciaram a existência de casos de tortura de presos políticos de ambos os lados, dizem que o caso deve ser investigado.

Inverno de sobrevivência

O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, apelou esta segunda-feira à NATO, durante a 68.ª sessão anual da Assembleia Parlamentar que terminou em Madrid, para que garanta a protecção das centrais nucleares ucranianas face à “sabotagem russa”, indicando que Moscovo esta a destruir as infra-estruturas energéticas do país “para acabar com o fornecimento de electricidade e de água e com o aquecimento no inverno”.

Nos últimos dias, a central de Zaporíjia voltou a ser atingida – com Moscovo e Kiev a trocarem acusações sobre qual dos lados é responsável.

Um conselheiro do Ministério da Defesa ucraniano, Yurik Sak, alegou numa entrevista à BBC que os ataques são uma “campanha genocida” da Rússia para “congelar os ucranianos até à morte”. Tudo porque não estão a conseguir na linha da frente as vitórias que queriam.

O director-geral para a Europa da Organização Mundial de Saúde, Hans Kluge, de visita a Kiev, avisou que este inverno será de “sobrevivência” e “uma ameaça à vida de milhões de pessoas” na Ucrânia.

Kluge diz que três milhões de ucranianos podem deixar as suas casas à procura de aquecimento e segurança, sendo que Kiev já começou a retirar os civis das áreas recentemente libertadas de Kherson.

Em relação a Zaporíjia, o Kremlin deu conta da “preocupação” face ao que disse serem os ataques ucranianos à central – que os russos controlam desde Março.

“Apelamos a todos os países do mundo que usem a sua influência para que as forças armadas ucranianas parem de fazer isto”, disse o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, citado pela Reuters, insistindo que é Kiev que está por detrás das acções. .

Peritos da Agência Internacional de Energia Atómica, que estavam em Zaporíjia, garantem que não há risco de acidente nuclear e que os seis reactores estão estáveis – assim como o combustível e o lixo nuclear.

Contudo, o director-geral da agência, Rafael Grossi, diz que os ataques são “motivo maior de preocupação”, dizendo que vai intensificar as consultas para a criação de uma zona de protecção em redor da central nuclear.

“Estado terrorista”

Zelensky apelou ainda aos parlamentos de todos os países da NATO para declararem a Rússia um “estado terrorista”. Numa intervenção por videoconferência, o presidente reiterou que a Rússia está a levar a cabo uma “política genocida” na Ucrânia ao atingir as infra-estruturas do país. Letónia, Lituânia, Estónia, Polónia e República Checa já declararam a Rússia um estado terrorista.

Amanhã, os eurodeputados vão votar uma resolução (não vinculativa) que também declara a Federação Russa um estado patrocinador do terrorismo, na sequência dos crimes de guerra e das violações do Direito Internacional e Humanitário. O objectivo é preparar um cenário em que o presidente russo, Vladimir Putin, e outros sejam julgados num tribunal internacional.

A União Europeia não tem contudo um quadro legal instalado para esta designação. Ao contrário dos EUA. O facto de um país estar nesta lista norte-americana, torna-o na prática um estado pária, ao impor restrições assistência, mas também controlos sob algumas exportações que podem ser de uso civil ou militar e outras restrições.

Tanto a Câmara dos Representantes como o Senado já votaram resoluções a defender a inclusão da Rússia na lista de Estados patrocinadores do terrorismo – onde estão Coreia do Norte, Cuba, Irão e Síria.

Mas o presidente norte-americano, Joe Biden, é contra esta medida, alegando que isso poderia ter consequências indesejáveis para a própria Ucrânia.

Dia da Dignidade e Liberdade

“Podes ter dignidade sem liberdade. Podes ter liberdade, mas podes não ser digno dela. Estes são valores que são melhor juntos”, disse o líder ucraniano para assinar o Dia da Dignidade e Liberdade, deixando claro que “a Ucrânia tem ambos e que não vai deixar que o “inimigo” os tire. Volodymyr Zelensky e a mulher Olena acenderam uma vela no aniversário das revoluções Laranja (2004) e da Dignidade (2013).

Esta última foi o início da revolta contra o presidente pró-russo Viktor Ianukovitch, após ele rejeitar um acordo com a União Europeia. Os protestos na praça Maidan deixaram centenas de mortos e culminaram na sua fuga e na anexação da Crimeia em 2014.

susana.f.salvador@dn.pt

Diário de Notícias
Susana Salvador
21 Novembro 2022 — 23:53