Diabetes. “A educação é o instrumento principal além da própria medicação”

SAÚDE PÚBLICA/DIA MUNDIAL DA DIABETES

Prevenir, diagnosticar e educar são as três componentes essenciais para combater a diabetes. Vida nas cidades pode causar aparecimento da doença, segundo José Manuel Boavida.

Presidente da Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal garante que é necessário reforçar o diagnóstico da doença.
© Jorge Amaral/Global Imagens

“Cerca de 537 milhões de adultos no mundo vivem com diabetes – número que poderá aumentar se não forem tomadas medidas que revertam esta tendência”. Este é o alerta que o médico José Manuel Boavida e o arquitecto Gonçalo Folgado pretendem deixar no Dia Mundial da Diabetes, que se assinala esta segunda-feira.

Em Portugal a situação da diabetes é preocupante e o panorama actual é difícil de identificar devido à falta de diagnósticos, segundo José Manuel Boavida, presidente da Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal (APDP). A isto, junta-se as consequências da pandemia na doença, que ainda estão por apurar…

“O impacto da pandemia ainda é difícil de avaliar, mas há estudos que apontam para o aumento do aparecimento da diabetes induzida pela própria infecção de covid-19.

O facto de as pessoas terem estado mais resguardadas e com receio da actividade física pode ter levado a alterações até na alimentação”, explica ao DN.

Segundo José Boavida, “grande parte do número de novas pessoas com diabetes está associado a zonas de pobreza e vulnerabilidade” e as fragilidades da covid-19 podem ter afectado especialmente a saúde dos mais necessitados .

“Acredito que estejamos perante um aumento que é temporário, mas poderá tornar-se profundo se a crise económica e social se agravar. Hoje, a diabetes é uma doença social muito determinada por esses factores”, diz.

Nesse sentido, o médico alerta para o reforço dos diagnósticos precoces. “É muito mais fácil tratar a diabetes e fazer com que entre em remissão quando é diagnosticada nos primeiros anos”, logo “é necessário que existam rastreios sistemáticos das pessoas em risco e fazer-se análises apropriadas para determinar se têm ou não têm diabetes”.

No âmbito do Dia Mundial da Diabetes, a principal mensagem de José Manuel Boavida remete para a educação e consciencialização da prevenção e tratamento da doença.

“A diabetes é essencialmente uma doença tratada pelos próprios doentes, com o conhecimento que adquirem após educação, sabendo gerir a medicação, hábitos e recorrendo aos profissionais de saúde sempre que existem alterações”, justifica.

“A educação é a fonte para a autonomia e para a capacidade de as pessoas atingirem o controlo da diabetes. Essa educação tem de ser sistematicamente implementada antes de as pessoas em risco desenvolverem diabetes e posteriormente também. A educação é o instrumento principal além da própria medicação”, reforça.

Prevenir a doença em Lisboa

De acordo com José Manuel Boavida, a diabetes é uma “doença social” que se verifica essencialmente nas zonas urbanas graças à mudança para hábitos alimentares menos saudáveis causados pelo afastamento das zonas rurais. Portanto, “as cidades têm que ser olhadas como fonte de aparecimento da diabetes e devemos encontrar correcção para alguns dos problemas”.

Em vista ao combate da diabetes nas cidades, o Programa de prevenção da Diabetes e Obesidade na cidade de Lisboa – Cities Changing Diabetes – lança esta segunda-feira o Foodscapes Toolkit, uma ferramenta que permite avaliar o impacto do ambiente urbano na saúde pública, com vista à definição de medidas que promovam o bem-estar físico e social.

Ao DN, Gonçalo Folgado, arquitecto e presidente da associação LOCALS APPROACH (parceira do projecto), explica que durante cerca de um ano, foram realizados estudos no bairro 2 de Maio na Ajuda, em Lisboa, para entender os comportamentos dos residentes e “poder tornar Lisboa mais saudável no combate à diabetes”.

Entre os resultados, concluiu-se que a freguesia da Ajuda tem uma oferta reduzida de alimentos saudáveis e que existe, na generalidade, alguma dificuldade no acesso aos estabelecimentos de venda de bens essenciais.

“55% dos inquiridos deste estudo admitem que subir a encosta com o peso das compras é um dos desafios para uma alimentação saudável”, partilha Gonçalo.

Perante estes dados, a equipa responsável pela Foodscapes Toolkit defende a aplicação de benefícios como a instalação de uma cozinha comunitária, workshops de culinária, a instalação de escadas rolantes “para ligar o alto da Ajuda à parte de baixo da Ajuda”, um livro de receitas da comunidade, descontos em ginásios locais e a criação de um supermercado no Polo Universitário da Ajuda para aumentar a oferta alimentar.

Fora estas dificuldades, Gonçalo Folgado realça ainda o dinheiro e a literacia alimentar como desafios que podem impedir uma alimentação saudável. “Com a inflação, tem sido cada vez mais difícil conseguir comprar alimentos não processados e até nos estabelecimentos muitas vezes fica mais barato beber uma cerveja do que uma garrafa de água”, afirma.

Além disso admite que em Portugal “ainda há alguma resistência no sentido de comer mais saudável”. “Somos um povo um pouco conservador porque achamos que as receitas dos nossos avós e dos nossos pais são sempre as mais nutritivas, o que nem sempre é verdade e há que haver esforço para uma alimentação saudável e uma vida activa que possa prevenir o aparecimento da diabetes”, resume.

ines.dias@dn.pt

Diário de Notícias
Inês Dias
14 Novembro 2022 — 07:00