361: A redundância da coragem

OPINIÃO

2022 coloca-nos ante exemplos superlativos de coragem. Na Ucrânia, no Irão. Como houve outros, tantos. Tantas vezes derrotados, tantas vezes esquecidos – ou nem sequer anotados. Porque, por maior e mais magnífica, a coragem pode não chegar.

Este título pedi-o emprestado a um livro de 1991, do escritor (antes jornalista) Timothy Mo. É um livro sobre Timor-Leste sob ocupação indonésia, publicado muito antes de os resistentes das montanhas poderem largar as armas e no mesmo ano em que as imagens do massacre no Cemitério de Santa Cruz, captadas por um jornalista britânico (estávamos ainda muito longe dos telemóveis com câmara e dos lives na internet), finalmente chamaram a atenção do mundo para o que se passava naquele pequeno território.

É um livro amargo, raivoso – pela indiferença do mundo e pela traição do colonizador, Portugal – e, simultaneamente, um hino aos que, sob a brutal e incessante opressão dos ocupantes, não desistiam de lutar, mesmo quando a luta parecia tão sem esperança e a coragem tão deslumbrante quanto inútil.

Li-o em 1993, quando era assim mesmo, quando parecia que lutar e morrer pela ideia de Timor independente era de um romantismo suicidário: menos de meio milhão de habitantes (eram 700 mil antes da ocupação, em 1975) contra um opressor de mais de 200 milhões e a realpolitik internacional que, rindo a caminho do banco, fechava olhos às atrocidades.

A Redundância da Coragem termina com a fuga do narrador – um gerente de hotel de origem chinesa e gay – para Nova Iorque, depois de corromper um militar indonésio. Nas últimas páginas, Mo, que ao longo do livro faz o protagonista passar, por acidente, de observador a participante, escreve: “Há sempre alguém que avança. Mesmo uma sociedade tão minúscula como a nossa tem a capacidade de produzir um vasto número de gente superior. Não existe isso a que se dá o nome de um herói – só pessoas normalíssimas a quem são exigidas coisas extraordinárias em terríveis circunstâncias – e que estão à altura.

Os malaios [é assim que denomina os indonésios] podem ter incendiado o campo, e pensar que exterminaram todas as criaturas nele, mas há sempre uma marmota que se salva. Há sempre uma.”

É um final estranho – o do homem que foge mas garante que há quem não fuja, que há sempre quem fique e se erga; o de quem sabe que não tem mais força, que não pode mais, mas crê numa espécie de milagre, não o da vitória, mas o da não rendição.

Lembrei-me deste livro e da sua peculiar mistura entre cinismo e fé, entre descrença e entrega, quando em 24 de Fevereiro as tropas russas entraram pela Ucrânia e Zelensky, no discurso dessa madrugada, jurou aos russos que se viessem veriam os rostos dos ucranianos e não as suas costas.

E lembro-me dele quando vejo as insurrectas iranianas a queimar os hijabs, a expor os seus longos cabelos, a dançar (também dançar em público é ali proibido às mulheres), e, com os homens que a elas se juntaram no desafio aos teocratas, encher as ruas da sua terra – “Esta é a minha terra, não vou a lado nenhum, vocês é que têm de ir”, responde, num vídeo posto a circular no Twitter, uma delas ao clérigo que lhe diz para sair do país se não aceita as suas leis misóginas – exigindo liberdade e o fim do regime dos ayatollahs.

Lembro-me sempre deste livro quando vejo lutas desiguais, aparentemente fadadas à derrota do mais fraco, do oprimido, do invadido, do ocupado, e coragens tão assombrosas como as dos que em Timor-Leste nunca se renderam – mesmo quando nem eles acreditariam poder ter outro destino senão a tortura, a morte e o esquecimento.

Não sabemos quantos ucranianos morreram desde 24 de Fevereiro – a combater, bombardeados, assassinados, de frio, de fome, de doença por não terem acesso a medicamentos ou hospitais – em resultado da invasão.

Não sabemos quantas iranianas e iranianos morreram desde que começou esta revolta (e nas outras que em 2009 e 2011 foram esmagadas), nem quantas e quantos estão nas prisões dos mullahs por lutarem por uma sociedade livre, uma sociedade em que as mulheres não sejam presas e espancadas por não usar um pano a cobrir o cabelo, por se arrogarem decidir o que vestem, o que fazem, a quem amam, em que crêem.

Mas sabemos, como sabem ucranianos e iranianos, que a probabilidade é de que muitos mais morram. Muitos mais cujos nomes e rostos só os próximos conhecem, cuja falta só os próximos chorarão, muitos mais que não terão, para os celebrar, sequer a glória fugaz de um vídeo partilhado nas redes sociais e nas TV, talvez nem um túmulo onde depor flores.

Para quê, então? O que os leva a arriscar tudo, a erguer-se no campo queimado, uma e outra vez?

Suponho que quem está na luta – e não consigo sequer começar a entender o que é preciso para estar nesse lugar, o dos que nos campos e cidades da Ucrânia defrontam os tanques e bombas daquele que se proclama como um dos mais poderosos exércitos do mundo e das que nas ruas do Irão avançam contra os disparos da polícia – não pensa na coragem que tem, nem se esta chega para vencer.

Pensa e sente que tem de ser.

Pensá-lo-á a mulher que enfrenta a barbárie religiosa de cabelos descobertos, sabendo que pode ser presa, batida, torturada, violada, assassinada (como, acredita-se, foi a curda Mahsa Amini, de 22 anos, cuja morte acendeu esta revolta, ao ser detida pela “polícia da moralidade” por ter o lenço/hijab “mal posto”). Que é aquele o seu lugar, o seu destino – o de dizer, altiva, “estou aqui, venham; quantos exércitos sejam, aqui estarei. Perdi-vos o medo.”

E que só se tem a ela e às outras como ela, e aos que se lhes juntaram, armados apenas com a sua fúria. Que não virá salvação, auxílio, de nenhum lugar, que não terá sequer, como os ucranianos têm, o financiamento e as armas dos que assistem.

Que a sua luta, por mais justa e necessária, nunca levou a comunidade internacional a pôr sequer a possibilidade de dar ao Irão, e aos países que à imagem do Irão codificam as mulheres como criaturas dos homens – a começar pela Arábia Saudita -, o tratamento que deu à África do Sul do apartheid (as sanções que castigam o Irão, sabemo-lo, nada têm a ver com a sua brutalização das mulheres).

Que daqui, deste lado, só terá, no máximo, o nosso olhar, a nossa reverência, as nossas lágrimas. As orações laicas de quem pede, de joelhos, que lhes seja dada a vitória, honrado tamanho desassombro.

Tão pouco, nada – porque, suspeita-se, para lhe mudar o destino seria preciso algo tão terrível como o massacre que fez o mundo acordar para Timor; não porque foi um massacre, mas porque foi visto. E ela, como os mullahs, sabe-o.

Jornalista

Diário de Notícias
Fernanda Câncio
27 Setembro 2022 — 00:25



 

152: Para termos uma ideia

OPINIÃO

Quando um líder partidário elogia o linchamento do bispo castelhano de Lisboa em 1383 e o compara ao primeiro-ministro, rematando com “não é para terem ideias, mas nós estamos noutro momento de risco da pátria”, se calhar não é só mais um sound bite.

É Fernão Lopes quem conta. Martinho de Zamora (cidade de Castela onde nasceu), bispo de Lisboa, “bom grande letrado e bom eclesiástico” que “regia mui bem sua igreja”, fechou-se na Sé quando no dia 6 de Dezembro de 1383, na sequência do homicídio do conde de Andeiro, ouviu os sinos da cidade a repicar.

Como os da Sé não soassem, alguns “homens-bons do concelho” terão então subido a um dos torreões e perguntado ao bispo porquê, tendo este dito que não sabia o motivo para o fazer. Não estaria segundo o cronista no intuito dos que foram falar com o clérigo fazer-lhe mal, mas o povo furioso exigia que o atirassem Sé abaixo, ameaçando os que estavam com ele. Estes, aventa o cronista, terão considerado não haver alternativa, e arremessaram o prelado.

A morte não matou a raiva da turba: desnudaram-lhe o cadáver, roubaram o que havia para roubar, agrediram-no até fartar e depois “assim o arrastaram pela cidade, com as vergonhosas partes descobertas e o levaram ao Rossio, onde o começaram a comer os cães, que o não ousava nenhum soterrar.”

Testemunho do horror e bestialidade a que pode conduzir o ódio político, nacionalista e religioso – havia um cisma na Igreja Católica à época -, eis um relato do qual, pensar-se-á, não passará pela cabeça de alguém orgulhar-se.

Engano: há quem se orgulhe. Ou quem diga orgulhar-se, o que dá igual. Viu-se isso este fim de semana, na “academia de verão” do partido de extrema-direita, quando o seu líder, a propósito ao que parece da vinda de imigrantes para Portugal, invocou o episódio de modo elogioso, louvando como “coragem” e “força” a façanha de arremessar um sacerdote católico, desarmado e sozinho, de um torreão, profanando de seguida o seu cadáver.

“Até quando fomos invadidos, até quando os espanhóis nos dominaram e escrevemos os Lusíadas, até nesse momento tivemos coragem de pegar no bispo de Zamora, que estava na cidade de Lisboa, e atirá-lo lá de cima da torre. (…)

É verdade: foi atirado da torre e depois foi dado de comer aos cães”, disse o líder e presidente do grupo parlamentar do referido partido, prosseguindo, entre risos e mímicas e ante as gargalhadas e aplausos da audiência: “Não digo que façamos isto a António Costa… mas já me pass… não é que o nosso parlamento é alto! Lá de cima, também… Mas reparem como tivemos essa força. Não é para terem ideias, mas nós estamos noutro momento de risco da pátria.”

Por esta altura já conhecemos bem a técnica habitual deste político, que depois de tentar a sorte no PSD decidiu, ao dar-se conta do êxito que o discurso de ódio teve no Brexit, com Donald Trump, com o Vox e Bolsonaro, copiar a fórmula e criar um partido como projecto de poder pessoal.

Passa por fazer determinadas afirmações (ou até gestos – recorde-se a forma como várias vezes, quando sabe estar a ser fotografado, encena o que parece ser a saudação fascista, para depois a desfazer e poder dizer que estava “simplesmente a acenar”), que sabe irem causar indignação, de modo dúbio, como se fossem “piadas” ou “forças de expressão”, para obter o máximo de efeito mediático mas poder recuar e vitimizar-se, alegando “perseguição” e “ter sido mal interpretado”.

Aqui, bom actor que é, levou a performance (quantas vezes ensaiou aquilo?) ao ponto de iniciar as frases e não as terminar, de modo a que toda a gente saiba o que quis dizer enquanto se defende juridicamente de uma acusação de incentivo à violência.

Outra coisa que devemos notar, além de que não sabe quando os Lusíadas foram escritos e tem da história de Portugal um conhecimento de banda desenhada, é que a sua retórica tem vindo a tornar-se cada vez mais violenta – e graficamente violenta.

Foi já várias vezes suspenso no Facebook e Twitter por discurso de ódio; em 2021, queixou-se de o censurarem por ter escrito que Eduardo Cabrita, então ministro da Administração Interna, “devia ser decapitado”.

Agora, elogia a coragem de um linchamento “em nome da pátria”, fazendo equivaler o bispo alegadamente “traidor” e “inimigo” ao primeiro-ministro.

Não admira pois que atraia pessoas que acreditam que a violência é uma prática aceitável. Não admira que transpire que um deputado e membro da direcção foi agredido numa reunião; que é comum os membros do partido ameaçarem-se e insultarem-se.

Não admira que um candidato autárquico tenha sido preso por disparar contra uma família estrangeira – um crime que foi descrito como tendo motivação xenófoba.

Mas não é só às personagens de aspecto patibular e modos de taberna que pululam no partido que a fórmula atrai; por mais que repugne e por mais que pareça impossível, está provado que funciona, ou não tivesse multiplicado votos e deputados, aqui como noutros países.

Estão identificados pelos cientistas políticos os factores-chave do êxito: a criação da ideia do “Outro”, ou seja a tendência para ver os membros dos outros partidos como essencialmente diferentes, alienígenas; a aversão, ou tendência para não confiar e não gostar de pessoas que não sejam do mesmo partido ou não professem as mesmas ideias; e a moralização, ou seja a tendência para ver esses “outros” como iníquos.

Tudo junto, é uma mistura explosiva, que conduz, como se tem provado – agora como noutras alturas da história – da violência discursiva à física.

O que deve então admirar é que, conhecendo-se os resultados que este tipo de retórica tem, se veja um discurso como o deste domingo a passar como mais um sound bite, mais um fait divers, reproduzido no site de um dos canais de TV sem qualquer enquadramento ou questionamento.

É como se, apesar de fazerem notícia de toda e qualquer afirmação deste político, por acharem que “dá cliques” e audiências, e assim o promovendo e dando lastro à sua mensagem, os media fossem incapazes de perceber o que estão a ver e ouvir.

Ou, quiçá, achem que têm de ser “imparciais”.

“Imparciais” como foram quando num debate na campanha das últimas presidenciais, nas quais foi candidato, mostrou uma foto de um grupo de pessoas negras com Marcelo e acusou este de estar “com os bandidos e a bandidagem”, sem que nem o presidente nem a jornalista presente ou quem nos vários canais comentou o debate tenham sublinhado a gravidade da afirmação.

Foi preciso que o assunto chegasse aos tribunais, com condenação do político e do partido por difamação e discriminação sócio-económica e étnica, para os media terem uma ideia daquilo a que tinham impavidamente assistido. Daquilo que, com passividade acrítica, comercial e imoral, estão – estamos – a promover.

Diário de Notícias
Fernanda Câncio
30 Agosto 2022 — 00:57