423: Nova Ordem Mundial: entre conspirações e realidades

OPINIÃO

Faço parte de um grupo, constituído por pessoas de diversas proveniências, profissões e ideologias que promove a reflexão e debate sobre a agenda internacional e desafios globais.

Esse grupo, cujas realizações estão disponíveis online, chama-se Clube de Lisboa e vai organizar esta semana a sua 5.ª Conferência de Lisboa, gratuita e aberta ao público, sobre o tema Rumo a uma Nova Ordem Mundial?.

Começo com este parágrafo, aparentemente (ou talvez não) “publicitário”, para abordar e reflectir sobre o tema do artigo. Na verdade, surpresa minha, nas redes sociais do Clube, desenrolou-se na última semana uma polémica sobre o título da Conferência, sem qualquer discussão sobre os temas dos painéis do programa.

Alguém me chamou a atenção de que tal seria esperável, dada a profusão de páginas na net que se dedicam à denúncia de uma alegada conspiração global, de ricos e poderosos – e cito três exemplos retirados de várias dezenas que encontrei (mantenho a grafia): “esta página dedica-se a trazer à tona as pretensões da elite global para a construção de uma nova ordem económica global que figurará no advento de um grande líder mundial que controlará todas as nações c seu poder totalitário.“; “divulgamos activamente sobre a Nova Ordem Mundial, que automaticamente envolve o Governo Oculto, os Illuminatis, o Grupo Bilderberg, as Profecias, os Chemtrails, os OGM/GMO (Alimentos Orgânicos Genéticamente Modificados) e muito mais…“; somos “um grupo de conhecimentos gerais com base em teorias conspiratórias, sociedades secretas, nova ordem mundial, etc..“.

Confesso que fiquei surpreendido, mas mais esclarecido sobre a razão das polémicas sobre o título. Vejamos, porém, algumas das razões que sustentam a necessidade de estarmos atentos e informados sobre as mudanças profundas que têm vindo a ter lugar na dita cuja… ordem mundial, procurando não cair na armadilha de considerar que as realidades são fake news (ao estilo Trump) e que tudo não passa de conspirações urdidas por uma guilda de deuses todo-poderosos.

À entrada da presente década, eventos impactantes, políticos, securitários, económicos, sociais, tecnológicos, ambientais, estão a acelerar mudanças globais, locais e individuais.

A covid-19 e a Guerra da Ucrânia são dois desses eventos que, juntamente com outros que estão em curso há já bem mais tempo, designadamente desde o fim da Guerra Fria, estão a reverter significativos sucessos conseguidos nas últimas duas décadas, tais como a saída de milhões de pessoas da pobreza extrema ou os acordos para combater o aquecimento global.

O que (problematicamente) chamamos ordem mundial do pós-2.ª Guerra Mundial baseou-se na criação de um conjunto de normas internacionalmente aceites, não obstante a coabitação conflitual de dois sistemas económicos e políticos diferentes, liderados pelos EUA e pela URSS.

Apesar de serem confrontacionais, a coexistência destas “duas ordens dentro duma Ordem” permitiu a criação e manutenção de algumas (não todas) instituições multilaterais.

Neste período, que durou cerca de 35 anos, ocorreram os processos de integração europeia, a descolonização e, em alguns países asiáticos, modelos de crescimento bem-sucedidos, assentes na produção industrial doméstica com padrões internacionais competitivos.

Após o fim da “Guerra Fria” e da União Soviética, iniciou-se um novo ciclo, caracterizado pela supremacia dos EUA, que se estendeu por cerca de década e meia.

A globalização (e a deslocalização industrial) acelerou – e as políticas neoliberais prevaleceram, fragilizando estados e instituições públicas e acelerando a concentração de riqueza e rendimento.

Foi igualmente neste período que a Revolução Digital se intensificou e que a China se tornou na segunda maior economia mundial – sendo vista pelos EUA como principal competidor mundial pelo poder.

Tal acontece a par de uma situação de emergência climática, do aumento de desigualdades de riqueza e rendimento, locais e globais, do (re)surgimento de potências regionais cada vez mais assertivas, bem como com o retorno de nacionalismos e fundamentalismos identitários que originaram guerras.

A estas transformações junta-se, novamente, a inflação, com causas económicas que regridem até à crise financeira global de 2008, mas que, após a Guerra da Ucrânia, assumiu contornos bastante políticos – que a economia não pode solucionar. O crescimento da inflação – e da dívida tornaram-se hoje, e mais uma vez, ameaças globais.

É neste contexto que, após um fugaz (?) período unipolar, a competição pela hegemonia aumenta, o multilateralismo enfraquece, tensões e iniciativas multipolares se multiplicam e um novo, ainda difuso, quadro global começa a tomar forma.

A questão que devemos colocar a nós próprios é se achamos que tudo isto é fruto de uma conspiração de uma qualquer entidade omnisciente e omnipotente ou se não será mais curial procurarmos compreender o que se passa e assumirmos o nosso papel como cidadãos informados.

Professor universitário

Diário de Notícias
Fernando Jorge Cardoso
13 Outubro 2022 — 00:45