635: Campo de Ourique: um conto cento e dez por mês

OPINIÃO

Ser bairrista é bom. Mas, para tal, é preciso ser rigoroso e exigente na apreciação dos múltiplos critérios de avaliação.

Logicamente, todos preferem habitar em zona agradável. Todos gostam que o bairro de residência seja limpo, apresentável e atraente. Na dimensão urbana, tem de ser bem planeado e gerido. Igualmente, deve ter árvores, jardins muito cuidados, equipamentos sociais destinados a crianças e idosos, também. É bom que assim aconteça.

Mesmo, atendendo à saúde individual e da família, é importante a ligação afectiva estabelecida entre a pessoa e o apartamento onde se habita, que deve ter luz natural e receber raios solares. O respectivo prédio tem de estar devidamente conservado e implantado em quarteirão espaçoso e recheado de blocos, mas de dimensão humana.

Segurança nas ruas, imprescindível. Lugares de estacionamento de automóveis, indispensáveis.

Assim acontecia em Lisboa, precisamente, em Campo de Ourique. Eram os anos 50 e 60 do século passado. Ambiente, então, de encantar. Uma vaidade para quem aí morava. Rendas acessíveis, apenas para a classe média, visto que estavam limitadas pela “tabela” de um conto cento e dez escudos por mês para um apartamento com cozinha, casa de banho, sala e dois quartos.

Por isso, os andares com papéis brancos colados nos vidros das janelas que assinalavam estarem vazios e prontos para alugar eram visitados por jovens casais à procura de casa. Quase todos eram médicos, advogados, engenheiros ou professores. Profissões liberais, mas também empresários e empregados de escritório de grandes empresas.

As edificações, relativamente equilibradas em altura, preenchiam os arruamentos perpendiculares e paralelos ao redor do Jardim da Parada.

O Bairro foi sempre servido por abundantes transportes assegurados pela Companhia Carris, quer em autocarros quer em carros eléctricos com percursos dos Prazeres até à Baixa ou pela Ferreira Borges a caminho das Amoreiras.

O grande mercado municipal da Coelho da Rocha garantia o abastecimento regular de alimentos, frescos, de qualidade, a par das lojas de mercearias finas, quase sempre familiares. As cafetarias principais mais frequentadas eram a Tentadora, a Aloma e a Értilas. Entre os restaurantes mais procurados, estavam o Canas, o Gigante, o Sevilhana e o Velha Goa.

Os cinéfilos iam ao Europa ou ao Paris, na Domingos Sequeira. A Concorrente e a Volga como livrarias e papelarias eram muito apreciadas.

Ali residiram intelectuais, escritores e políticos que marcaram a História da Cultura Portuguesa: Fernando Pessoa e os seus heterónimos (1888-1935), Bento de Jesus Caraça (1901-1948), António Ferreira de Macedo (1887-1959), Rómulo de Carvalho e António Gedeão (1906-1997), Joel Serrão (1919-2008), Jorge Borges de Macedo (1921-1996), Fernando Assis Pacheco (1937-1995), Luís Sttau Monteiro (1926-1993), Jorge Sampaio (1939-2021)…

Por outro lado, os trabalhadores e operários, viviam nas zonas mais periféricas do Bairro, como a Travessa do Bahuto, Fonte Santa, Meia-Laranja, Casal Ventoso, Maria Pia…

Nessa época, a pobreza era chocante. Era o tempo dos meninos pés-descalços e dos caixotes de lixo, logo pela manhã, remexidos por quem andava ao trapo com um grande saco ao ombro, à procura de restos e de papel para vender.

Moral da história:

A vida urbana pode ser compensadora, se…

Ex-director-geral da Saúde

franciscogeorge@icloud.com

Diário de Notícias
Francisco George
09 Novembro 2022 — 00:19



 

551: Terror atómico

“… Falar sobre a Guerra e lutar pela Paz são as mais importantes medidas de prevenção para evitar a actual escalada a caminho de conflitos nucleares. Estarão as sanções à Rússia apontadas neste sentido?”.

Existem pessoas que parece ainda não terem compreendido a origem e a finalidade da invasão dos russonazis ☠️卐☠️ à Ucrânia e não é assim tão difícil de entender a não ser que se esteja simplesmente a efectuar a defesa da sua ideologia! As sanções à rússia, nasceram da INVASÃO que este país efectuou a um vizinho país, soberano, sem que o invadido tenha constituído qualquer perigo para o invasor. Tão simples, n’é? A destruição maciça de infra-estruturas vitais, os assassínios de população civil desde crianças a idosos, o terror infligido às populações dos locais atacados e bombardeados são razão mais que justa para que as sanções sejam aplicadas, Mas eu ainda considero que são poucas. Porque estes nazis apenas compreendem a lei do terror. Por isso, já há muito tempo deveria ter-se tomado, a par das sanções, o mesmo remédio que os terroristas têm aplicado na Ucrânia. Quem com ferro mata, com ferro morre!


OPINIÃO

O urânio é um elemento químico, metálico, radioactivo, que se encontra na natureza, nomeadamente em Portugal.

A principal característica que possui, em emitir radiação, foi descoberta, em 1896, pelo físico francês Antoine-Henri Becquerel (1852-1905). Foi ele quem demonstrou que tanto em estado de metal, como em qualquer combinação (compostos), o urânio irradia, espontaneamente, radiações invisíveis que, na altura, descobriu por impressionarem as chapas fotográficas.

As investigações sobre a aplicação das propriedades, singulares, do urânio prosseguiram na primeira metade do século XX. Rapidamente, os cientistas concluíram que poderia ser utilizado quer na produção de energia eléctrica em centrais nucleares construídas para o efeito (com a vantagem de não produzir carbono), quer em armamento, com poder de destruição maciça.

Por isso mesmo, agora, é preciso falar de bombas atómicas e em acidentes ocorridos nas centrais de energia nuclear. É preciso que os cidadãos conheçam mais sobre os seus efeitos. Que imaginem o nível de devastação e de imensa destruição que provocam.

Só assim poderá crescer o clamor a favor da sua eliminação como arma.

Só assim poderá crescer o clamor a favor da Paz.

Precise-se.

Passaram 77 anos desde os lançamentos de duas bombas atómicas lançadas pelos Estados Unidos da América sobre o Japão, em Hiroxima, a 6 de Agosto, e três dias depois, em Nagasaki, em 1945.

A primeira foi uma bomba de urânio e a segunda de plutónio. Em Hiroxima morreram, instantaneamente, mais de 70 000 pessoas e em Nagasaki um número superior a 40 000.

Foi há 77 anos, sublinhe-se. Ao longo de tantos anos, desde o final da II Guerra Mundial, não será difícil de imaginar o grau de “aperfeiçoamento” das novas armas nucleares. Por isso, é de admitir que um eventual próximo bombardeamento seria ainda muito mais dramático.

Ninguém duvida que os efeitos provocados, hoje, pelo lançamento de uma bomba atómica seriam arrasadores para seres humanos, fauna, flora e ambiente. Uma imensa devastação.

Um cenário de guerra atómica, a acontecer, deixaria a região bombardeada sem qualquer resposta. Um terror. Nada haveria a fazer para reduzir as consequências e para prevenir os efeitos na saúde de sobreviventes. Nem caves de betão como antigamente se construíam na Suíça para servirem de refúgios atómicos, por inutilidade absoluta.

Nem comprimidos de iodo que apenas têm indicação para o caso de desastres nucleares ocorridos em centrais de produção de energia, num raio de 30 quilómetros do local do acidente (como sucedeu em Chernobyl e Fukushima).

Em síntese: nada capaz de prevenir os efeitos depois da explosão do cogumelo. Nada como limitar, nem encurtar, os danos a seguir. Ou se morre imediatamente, ou nas semanas seguintes, devido a queimaduras e ao envenenamento radioactivo.

Moral da história:

O único reactor nuclear em Portugal, localizado em Sacavém, foi desactivado em 2016 e o respectivo combustível nuclear foi enviado para os Estados Unidos da América, em 2019. Por isto mesmo, uma vez que não existe qualquer instalação nuclear, a utilização de comprimidos de iodo não faz qualquer sentido.

Falar sobre a Guerra e lutar pela Paz são as mais importantes medidas de prevenção para evitar a actual escalada a caminho de conflitos nucleares.

Estarão as sanções à Rússia apontadas neste sentido?

Ex-director-geral da Saúde
franciscogeorge@icloud.com

Diário de Notícias
Francisco George
02 Novembro 2022 — 06:10



 

417: Humanismo

OPINIÃO

Trabalhar, voluntariamente, em organizações humanitárias representa uma forma diferente de estar na vida, por múltiplas razões. Antes de tudo, pela sensação, única, em construir Humanismo. Desenvolver Solidariedade. Cultivar Fraternidade.

Esta ideia começou há muitos anos, no tempo da Segunda Guerra da Independência de Itália, em 1859. Então, o poderoso Exército do Imperador Austro-Húngaro, Francisco José, combatia a Itália que lutava pela Libertação do seu Território.

Era o tempo do guerrilheiro Garibaldi (1807-1882), mas, também, do compositor Verdi (1813-1901) que compunha as suas eternas óperas.

Nesse ano, em 1859, confrontaram-se, por um lado, as tropas francesas de Napoleão III, aliadas aos Exércitos italianos do Reino da Sardenha de Vítor Emanuel II e das Províncias Unidas do Centro e, por outro lado, os contingentes do Império da Áustria às ordens de Francisco José I.

Os Aliados juntam mais de 190 mil soldados e 800 peças de artilharia. Os austríacos, em desespero, chegam a mobilizar, ao longo da campanha, um total superior a 250 mil militares.

Primeiro, foi Garibaldi, que à frente de forças voluntárias, conhecidas como Caçadores dos Alpes, derrotou os austríacos, em Abril, e depois, em Solferino (aldeia da Lombardia), em Junho, o Imperador da Áustria sofreu, novamente, pesada derrota imposta pelos Aliados.

As crónicas da época que descrevem em pormenor a Batalha de Solferino são impressionantes. Perturbam pela crueldade. Comovem. O conflito armado envolveu, somando os dois lados, mais de 200 mil soldados.

No final do dia, os campos dos confrontos armados ficaram povoados de corpos prostrados no chão vermelho, ensanguentado. Eram muitos milhares de soldados, mortos e feridos, dos dois Exércitos. A impiedosa dureza dos combates retrata uma desumanidade absoluta.

Era preciso organizar o socorro aos combatentes, mas sem distinção de nacionalidade. Eram muitos milhares de feridos. Homens em horrível sofrimento que necessitavam de apoio urgente. Reclamavam por cuidados, às vezes era até tão simples como a limpeza de um ferimento superficial ou dar água a beber.

Outras, pelo contrário, em soldados sem forças devido aos ferimentos graves provocados por tiros de espingarda, de canhão ou baionetas. Um horror difícil de descrever.

Foi então que o cidadão suíço, Henry Dunant, que presenciou a desumanidade da batalha, foi procurar ajuda aos residentes, civis, da aldeia para recolherem os soldados feridos, a fim de serem tratados sem qualquer distinção. Derrotados e vitoriosos.

Os socorristas voluntários ignoravam as cores dos fardamentos e as nacionalidades. Era tempo de sobrepor os valores do Humanismo a quaisquer outros interesses. Italianos, franceses, austríacos eram todos homens. Todos sofriam. Todos distantes das famílias. Todos precisavam de auxílio. Por igual. Sem nenhum tipo de discriminação.

Logo depois, muitos outros conflitos, com cenários semelhantes, voltaram a acontecer.

Homens continuam a guerrear contra outros homens. Preferem soluções belicistas na resolução de conflitos. Não privilegiam o diálogo.

Hoje, assim é, entre russos e ucranianos. Que atrocidades! Uma vergonha, antes de tudo, para Putin.

Moral da História:
Será que os líderes da NATO, da União Europeia, do Reino Unido e Estados Unidos da América, ao enviarem tanto armamento para a Ucrânia, estarão a erguer a Paz ou a Guerra?

Ex-director-geral da Saúde
franciscogeorge@icloud.com

Diário de Notícias
Francisco George
12 Outubro 2022 — 00:47

– Escreve o colunista “Será que os líderes da NATO, da União Europeia, do Reino Unido e Estados Unidos da América, ao enviarem tanto armamento para a Ucrânia, estarão a erguer a Paz ou a Guerra?“. Em minha modesta opinião – e não sou a favor de guerras, terrorismo, violência, destruição, eu que estive numa guerra durante quase dois anos e sei do que falo porque a vivi -, os países que estão a enviar armamento para a Ucrânia, estão apenas a ajudar um país soberano que foi invadido por um psicopata terrorista que se julga um czar da antiga URSS e que tem destruído infra-estruturas civis, assassinado civis inocentes, porque imaginou que o Ocidente quer tomar conta da sua amada rússia! Não passa de um ayatollah igual aos que proliferam pelo Daesh ou Isis.



 

222: Desafios

OPINIÃO

Desde o aparecimento da pandemia da SIDA, em 1980, e do reconhecimento da propagação da resistência aos anti-microbianos, designadamente das bactérias aos antibióticos; dos vírus aos medicamentos antivirais; dos parasitas aos anti-palúdicos e até dos mosquitos vectores aos insecticidas (como o DDT), os cientistas perceberam que as crises de Saúde Pública iriam continuar a ocorrer.

Admitiram que outras situações poderiam surgir. Recomendaram, desde logo, mais reforço das unidades de resposta a emergências, mais investigação e mais investimento por parte do Estado em Saúde.

Tinham razão. Aconteceram novas crises. Antes e depois da viragem para o Século XXI foram identificados outros problemas, inquietantes, que fizeram reacender preocupações que iriam abalar a segurança das populações e exigir a mobilização de cada vez mais recursos.

Antigos problemas voltaram a reaparecer (como a tuberculose resistente aos medicamentos, doenças transmitidas por vectores), ao lado de outros novos que iriam surgir sem terem sido previstos (como as pandemias provocadas por Coronavírus ou a doença do vírus Ébola).

As infecções respiratórias que começaram na Ásia são devidas ao Coronavírus que é comum em animais exóticos. Já a epidemia da doença do Ébola, em 2014, que teve início na costa ocidental de África, é provocada por um vírus diferente associado aos macacos. Ambas são de origem animal.

Porém, uma multiplicidade de causas poderá explicar o aparecimento de novas crises.

Comece-se pela poluição. Basta comparar uma fotografia de uma cidade e das suas áreas suburbanas, hoje, com outro retrato da mesma cidade há cem anos.

São muitas as diferenças: antes de tudo, a imensidão de veículos movidos a combustíveis fósseis; a aglomeração de edificações, resultantes de especulação imobiliária; industrialização desordenada; níveis crescentes de poluição do solo, dos rios, dos oceanos e da atmosfera.

Tudo isto agravado pela desflorestação frenética do território; concentração urbana da população; o perfil demográfico envelhecido e a desmedida ligação aérea permanente que une todas as cidades do mundo.

Essas condições são causadoras de maior vulnerabilidade das populações, sem ignorar as desigualdades da qualidade de vida, a persistência da pobreza, as consequentes dificuldades alimentares, o constante agravamento das diferenças sociais entre famílias de altos e baixos rendimentos, bem como os efeitos na Saúde provocados pelas alterações climáticas que agravam essa vulnerabilidade, em todo o planeta.

Entre outros efeitos causados pela aceleração das alterações climáticas, o aquecimento global favorece, comprovadamente, a multiplicação de vectores, para além de provocar maior frequência de fenómenos climáticos extremos, como secas, inundações, ciclones e ondas de calor.

Assim sendo, como no horizonte não há sinais de melhoria, nem remédios milagrosos, há que admitir que irão continuar a acontecer novas crises, novas epidemias e pandemias. Suceder-se-ão.

Moral da história:

É tempo de os governantes prepararem os países para responderem a futuros desafios, como epidemias inesperadas e imprevisíveis. É tempo de reforçarem os sistemas de vigilância. É tempo de dedicarem mais investimento à investigação. É tempo de a Saúde Pública ser uma prioridade.

Ex-director-geral da Saúde
franciscogeorge@icloud.com

Diário de Notícias
Francisco George
07 Setembro 2022 — 07:30