829: Bares alemães boicotam jogos do mundial

MUNDIAL/FUTEBOL/BARES ALEMÃES/BOICOTE

Para o dono de um bar em Colónia era mais importante tomar posição sobre o Qatar do que lucrar à custa do torneio. O boicote ganhou adeptos entre outros bares da cidade.

“Cartão vermelho para o Qatar” lê-se num protesto junto à Porta de Brandemburgo, Berlim.
© John MACDOUGALL / AFP

O Lotta tem as portas abertas há 27 anos e incontáveis jogos de futebol transmitidos nos dois ecrãs gigantes. Mas quando o Campeonato do Mundo iniciou, o seu proprietário decidiu que o bar estaria fechado.

Na segunda-feira, à hora dos Estados Unidos-País de Gales, os clientes vão estar a jogar um concurso de cultura geral. E na terça-feira, enquanto a França joga contra a Austrália, o pub dá voz a um painel que vai discutir a situação no Qatar, a FIFA e o boicote.

Peter Zimmermann, um dos proprietários do espaço, nada tem contra o futebol, bem pelo contrário. É sócio do Colónia (ou FC Köln) e acha que não pode valer tudo no negócio do futebol.

“Queremos dar o exemplo contra este sistema completamente corrupto da FIFA, onde o que realmente importa é o dinheiro e os direitos humanos e a cultura futebolística não interessam”, disse Zimmermann à Deutsche Welle. “E claro que o Qatar supera tudo: a opressão das mulheres, a discriminação contra os homossexuais e as chocantes condições de trabalho”, prosseguiu.

“Claro que o Campeonato do Mundo de futebol é sempre um bom negócio adicional, especialmente quando a Alemanha está a jogar. Mas temos os nossos clientes regulares e espero que outras pessoas venham aqui para a nossa programação alternativa”, disse.

Instalação num estádio em Herne, cidade na Renânia do Norte-Vestefália, em memória dos que morreram na construção dos estádios no Qatar..
© Roberto Pfeil / afp

A iniciativa de Zimmermann foi decidida em Abril, altura em que pendurou uma faixa com os dizeres “Boicote Qatar”. À medida que o tempo passou outros bares em Colónia associaram-se à iniciativa.

A DW realça que o sentimento geral alemão é, senão de boicote, pelo menos de indiferença perante o torneio. Numa recente sondagem Infratest Dimap, quase metade dos inquiridos considerava passar totalmente ao lado do mundial.

O sentido crítico alemão ressente-se no comércio, com as cadeias de lojas a registarem uma quebra nas vendas de camisolas do Campeonato do Mundo até 50% em comparação com o último mundial de 2018.

Diário de Notícias
DN
21 Novembro 2022 — 00:17



 

821: O Mundial em que o negócio está acima dos direitos humanos

MUNDIAL/FUTEBOL/QATAR/DIREITOS HUMANOS

Uma década, muitas mortes e controvérsias, e mais de 200 mil milhões de euros depois, a prova mais polémica da história do futebol, arranca hoje no Qatar e termina a 18 de Dezembro.

O “Mundial da vergonha”, como tem sido insistentemente chamado, tem hoje início com o jogo de abertura entre o Qatar, o país anfitrião, e o Equador (16.00, RTP1).

Uma competição marcada por polémicas e uma enorme contestação devido a temas sensíveis, como as 6750 vidas perdidas na construção dos estádios, o desrespeito pelos direitos humanos, as perseguições à comunidade LGBTQI+ e a corrupção envolvida na escolha do país para organizar a prova, que será a última de dois dos melhores jogadores de sempre: Ronaldo e Messi.

Para chegar a Doha, o Mundial percorreu um longo e tortuoso caminho, por entre montanhas de dinheiro, símbolo da corrupção que fez cair a cúpula do futebol mundial, e vales de corpos sem vida de milhares de trabalhadores, num absoluto desprezo pelos direitos fundamentais e dignidade humana. Contra os críticos, o Qatar prometeu o melhor Campeonato do Mundo de Futebol de sempre.

Pretensão assente no maior investimento alguma vez feito num evento desportivo – a factura já passou dos 200 mil milhões de euros, nove vezes mais do que os 11 mil milhões gastos no Rússia2018.

Segundo várias organizações de direitos humanos, incluindo a Amnistia Internacional (AI), desde o início das obras (2010) até Outubro, morreram 6750 trabalhadores na construção dos estádios. Todos oriundos da Índia, Bangladesh, Nepal e Sri Lanka.

A FIFA e o Qatar admitem apenas três (!) mortes nas obras e mais 36 trabalhadores que perderam a vida devido a causas naturais. Como no país não há autópsias, é impossível saber ao certo o número de vítimas.

Mas, confiando nas embaixadas dos países de origem, cerca de um quarto dos 30 mil operários (com salários de 264 euros) não chegou a ver o início do Mundial que ajudou a construir.

O que levou a AI a pedir aos organizadores 433 milhões de euros para o fundo de apoio às famílias das vítimas e aos sobreviventes. Um pedido recusado, apesar do organismo estimar lucros de três mil milhões.

As tímidas e esporádicas intervenções públicas de jogadores, treinadores e federações, também envergonham o mundo do futebol, tantas vezes elogiado pelo humanismo e carácter solidário.

Jogadores como Bruno Fernandes e Mats Hummel lembraram que o torneio “custou a vida a milhares de pessoas”, e, pelo menos, oito capitães, incluindo os da Alemanha, Dinamarca e Inglaterra, prometeram usar braçadeiras arco-íris em homenagem à oprimida comunidade LGBTI+.

Para evitar o escalar de protestos nos relvados, a FIFA endereçou uma carta a pedir às selecções que “não deixem que o futebol seja arrastado para batalhas políticas e ideológicas”, lembrando que “respeita todas as opiniões e crenças, sem pretender dar lições de moral ao resto do mundo”.

Na realidade, a FIFA e o Qatar andaram sempre de mãos dadas. Ainda ontem, Gianni Infantino, líder do organismo que rege o futebol mundial, acusou os europeus de hipocrisia na questão dos migrantes que morreram na construção dos estádios.

“Não quero dar nenhuma lição de vida, mas o que está a acontecer aqui é profundamente injusto. Pelo que nós, europeus, temos feito nos últimos 3000 anos, devemos desculpar-nos nos próximos 3000 anos antes de começar a dar lições de moral às pessoas que são apenas hipocrisia”, atirou.

Entre os líderes mundiais, quase todos levantaram a voz em defesa dos direitos humanos, mas foram muito poucos os que que boicotaram a competição – as poucas excepções foram a família real e o governo da Dinamarca.

Blatter: o porta voz do “erro”

Em 2010, a atribuição da organização do maior evento desportivo a seguir aos Jogos Olímpicos a um país do tamanho de Trás os Montes, com menos de três milhões de habitantes (72% homens) e sem tradição futebolística causou perplexidade.

O cheque em branco convenceu a FIFA, mas saiu caro à cúpula do futebol mundial, com o então presidente da FIFA, Joseph Blatter, e o então líder da UEFA, Michel Platini, destituídos e acusados de corrupção em tribunal.

O francês terá retirado o apoio à candidatura dos EUA e influenciado os membros do Comité a votarem no Qatar, depois de um encontro no Eliseu promovido pelo então presidente Sarkozy com o príncipe e actual emir do Qatar, Tamim bin Hamad bin Khalifa Al Thani, que prometeu reforçar os investimentos em França, incluindo a aquisição do PSG (o que aconteceu em 2011).

O Qatar venceu os EUA (14 votos contra 8) e Platini não demorou a ser perseguido pela justiça suíça, com o apoio do FBI, por crimes fiscais dos quais foi absolvido.

Blatter também foi acusado de corrupção e absolvido, embora condenado por irregularidades financeiras durante o mandato como presidente da FIFA. Ele que em 2010 justificou a escolha do Qatar com a aposta em “novos territórios”, há dias admitiu ter sido “um erro”.

Não só pela questão dos direitos humanos, como pelos constrangimentos na calendarização, por ser jogado no inverno e a meio da época na Europa, que fornece 70% dos 831 jogadores. Em Portugal, a I Liga só será retomada a 28 de Dezembro.

O primeiro Mundial num país do Médio Oriente obrigou ainda a adiar a pretensão do novo presidente da FIFA, Gianni Infantino, de aumentar de 32 para 48 as selecções na fase final, por falta de estádios para o alargamento – oito em vez dos habituais 12.

Estádios faraónicos, topo de gama, climatizados, reutilizáveis e alguns com apenas um mês de vida, como o inovador Estádio 974, que receberá o Portugal-Gana, no dia 24, construído com 974 contentores.

Mundial amigo do ambiente?

Independente desde 1971, o Qatar é um símbolo de ostentação entre os biliões do petróleo, a grandiosidade e a modernidade, sem esquecer os arcaísmos islâmicos que o fazem regredir aos olhos do mundo quando negam direitos às mulheres ou criminalizam as opções sexuais.

Um relatório da ONU descreveu o país como “quase uma sociedade de castas baseada na nacionalidade”, onde o emir controla os poderes executivo, legislativo e judicial.

O dinheiro nunca foi um problema, mas o bolso dos adeptos promete sofrer com isso. Um bilhete pode custar até 800 euros (ver a final pode chegar 2225) e uma cerveja 15 euros, e tem de ser consumida em locais próprios para não ir contra as regras do país (foi proibida a venda nos estádios e zonas circundantes), que é o terceiro mais rico do Mundo, graças ao ouro negro (petróleo) e à maior reserva de gás natural do mundo, que o torna num dos maiores emissores de gases com efeito de estufa.

Apesar disso, os organizadores atestam um Mundial amigo do ambiente e o primeiro de sempre a atingir a neutralidade carbónica, embora um relatório do Carbon Market Watch conclua que se trata de uma “contabilidade criativa”.

Certo é que Doha nunca teve tanta vida nas ruas, mesmo sem a beleza feminina despida de preconceitos que fez das bancadas de outros Mundiais um espectáculo dentro do próprio jogo.

Agora, será o Mundo capaz de assistir ao futebol sem pensar em conjunturas geopolíticas, fundamentalismos religiosos e opressão de mulheres e migrantes?

Perante tanta discórdia e polémica, só mesmo o futebol dentro das quatro linhas poderá salvar esta competição. Portugal “não é favorito, mas é candidato”, nas palavras de Fernando Santos.

E os principais candidatos são os suspeitos do costume: Brasil, Argentina, Alemanha e a campeã França. Até à final de dia 18, haverá muito futebol todos os dias. Mas a cruzada pelos direitos humanos não vai parar certamente.

isaura.almeida@dn.pt

Diário de Notícias
Isaura Almeida
20 Novembro 2022 — 00:48



 

772: Pessoas impedidas de entrar no Portugal-Nigéria com T-shirt da Amnistia

– Neste Portugal dos pequeninos, o “excesso de zelo” serve de desculpa para muita merda que se vai fazendo…

AMNISTIA INTERNACIONAL PORTUGAL/FPF/UEFA

Federação Portuguesa de Futebol explicou que a organização do encontro, a cargo da UEFA, não tinha sido informada da iniciativa, pelo que alguns seguranças agiram “com excesso de zelo”. A partir do momento em que a FPF soube do caso, quem quis pôde entrar com as camisolas.

Publico nas bancadas.
© Gerardo Santos / Global Imagens

A Amnistia Internacional denunciou esta quinta-feira casos de pessoas que receberam uma T-shirt em prol dos direitos humanos antes do Portugal-Nigéria em futebol, em Alvalade, que foram depois impedidas de entrar com elas vestidas.

“Foi com tristeza e pesar que a Amnistia Internacional Portugal viu ser restringida uma acção de solidariedade para com os trabalhadores migrantes no Qatar pelos seguranças no Estádio de Alvalade”, pode ler-se em comunicado divulgado por aquela organização em Portugal.

As cerca de mil T-shirts, que se assemelham aos coletes de trabalhadores da construção civil, da ‘Equipa Esquecida’, os migrantes que morreram, sofreram lesões e abusos de direitos humanos nos preparativos do Mundial2022, foram entregues antes do Portugal-Nigéria, particular de preparação.

Segundo a Amnistia, várias pessoas denunciaram que seguranças no recinto os obrigavam “a tirar e entregar-lhes as camisolas”, o que foi comprovado por uma equipa de activistas daquela organização.

“Tendo-lhes sido dada a mesma indicação: que apenas poderiam entrar se despissem as camisolas e as deixassem fora, colocando-as no lixo. Por fim, os seguranças recusaram-se a restituir as camisolas abandonadas aos activistas da organização”, pode ler-se na nota.

A Amnistia acrescenta que os seguranças “justificaram esta acção respondendo às pessoas que estão a seguir indicações da Federação Portuguesa de Futebol”, instituição a quem pediram já “esclarecimentos urgentes”.

À Lusa, fonte da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) explicou que a organização do encontro, a cargo da UEFA, não tinha sido informada da iniciativa, atribuindo esta acção a “alguns seguranças com excesso de zelo”.

Segundo a mesma fonte, a partir do momento em que a federação soube do caso, outros adeptos puderam entrar com as camisolas, defendeu.

“Esperamos que tudo não passe de um mal-entendido e que a Federação Portuguesa de Futebol possa esclarecer ou dissociar-se deste triste episódio de falta de respeito pela liberdade de expressão dos adeptos da nossa selecção”, considerou Pedro A. Neto, director executivo da Amnistia Internacional Portugal.

Aquela organização “teme que este episódio seja mais uma mancha num evento que deveria também ser uma oportunidade de inclusão, respeito e promoção dos direitos humanos”, sentindo que foi restringido um direito à liberdade de expressão.

O Campeonato do Mundo masculino de futebol vai decorrer entre 20 de Novembro e 18 de Dezembro, com a selecção portuguesa apurada e inserida no grupo H, com Uruguai, Gana e Coreia do Sul.

Diário de Notícias
DN/Lusa
17 Novembro 2022 — 22:10