690: Esperança média de vida atingirá os 100 anos. Até que idade iremos trabalhar?

SOCIEDADE/GERONTOLOGIA/GERIATRIA

Aumento da população idosa e diminuição do número de jovens no mundo preocupam os especialistas internacionais da Economia da Longevidade, que defendem mudanças na sociedade ajustadas a um futuro longevo.

© Ilustração Vítor Higgs

A tendência demográfica envelhecida de Portugal não é novidade – é o quinto país mais envelhecido do mundo, depois do Japão, Itália, Grécia e Finlândia – e pensar chegar a viver até aos 100 anos já não será um desejo impossível de alcançar, segundo as previsões apresentadas na conferência da Economia da Longevidade, que ocorreu no início de Novembro no Colégio Arzobispo Fonseca, em Salamanca, Espanha.

Porém, se a esperança média de vida alcançar os 100 anos, qual será a idade da reforma? Esta foi uma das questões em debate num evento que juntou especialistas internacionais.

Nas várias investigações divulgadas aponta-se para o crescimento da esperança média de vida em todo o mundo até 2100, e as conclusões apontam apenas para uma hipótese: é necessário haver uma mudança em direcção à longevidade.

A saúde, a geriatria, a educação, a economia e o emprego, entre outros factores, serão altamente influenciados por esta tendência demográfica que se verifica no mundo e especialmente em Portugal.

Assim sendo, os especialistas defendem a economia da longevidade “como uma nova categoria económica para as gerações futuras”.

A realidade dos jovens de hoje em dia já é inteiramente diferente da que se vivia há cerca de 100 anos. Agora, a educação é uma prioridade e conquistas como sair e casa ou ter filhos são, na generalidade, cada vez mais adiadas por diferentes condicionantes. E daqui a 100 anos, com o país cada vez mais envelhecido, como será a vida dos portugueses?

O economista Andrew Scott considera que o futuro será marcado pela “vida dos 100 anos” e que “haverá mais pessoas com 80 anos do que com 20”.

De acordo com as Projecções de População Residente 2018-2080 do Instituto Nacional de Estatística (INE), o número de idosos acima dos 65 anos “passará de 2,2 para 3,0 milhões” em pouco mais de 60 anos.

Além disso, “o índice de envelhecimento em Portugal quase duplicará, passando de 159 para 300 idosos por cada 100 jovens, em 2080, em resultado do decréscimo da população jovem e do aumento da população idosa”, pode ler-se no sítio oficial do INE na Internet.

Atendendo a estas informações, o INE prevê ainda que “a população em idade activa (dos 15 aos 64 anos) diminuirá de 6,6 para 4,2 milhões de pessoas”, o que deixa a questionar: Que oportunidades restarão para os jovens? Terão a responsabilidade de viver em prol do bem-estar dos mais idosos?

Aos jornalistas, o especialista em economia comportamental, Richard H. Thaler – vencedor do Prémio Nobel da Economia de 2017 -, contou que “há muitas coisas que vão ter de mudar gradualmente.

Não sabemos o que irá acontecer tendo em conta a longevidade, mas de acordo com as previsões as pessoas terão vidas mais longas e mais saudáveis.

Se continuar a haver um baixo número de fecundidade, temos um grave problema em mãos porque não podemos esperar que a próxima geração pague pelos idosos”.

Nesse sentido, Richard Thaler acredita que “a sociedade precisa de melhorar a forma como as pessoas mais velhas podem continuar a ser úteis na idade da reforma”, o que exige um “esforço das gerações trabalharem umas para as outras”.

“O aumento da esperança média de vida implica custos e algo vai ter de mudar. É possível que a idade da reforma suba e temos de encontrar oportunidades para as pessoas mais velhas poderem continuar a trabalhar, como por exemplo novas oportunidades de emprego a tempo parcial.

No entanto, alguém terá de pagar por estes benefícios e cabe aos governos decidir como e quem pagará por estes incentivos”, justifica.

Tendo em conta a possível falta de mão-de-obra, visto que o número de jovens será cada vez mais reduzido em comparação ao número de idosos, o economista norte-americano defende que “existem muitas oportunidades, mas também despesas.

Com o aumento da esperança de vida vão ser necessários mais trabalhos de geriatria e cuidadores e o maior problema é que há poucas pessoas jovens”.

Diante disso, “é necessário transformar as condições de trabalho e apostar na imigração”. “Há muitas pessoas espalhadas pelo mundo que querem trabalhar e muitos países que não têm trabalhadores suficientes.

A solução é muito óbvia… mas, claro que existem obstáculos políticos a impedir que isto aconteça. Na maior parte dos países do mundo, a população local sobrestima o número de imigrantes”, explica.

“Se a população não está a crescer, algo tem de mudar: ou as pessoas começam a ter mais filhos ou vamos ter de deixar entrar mais imigrantes nos países. É isto”, sublinha.

Face às dúvidas quanto ao regime de pensões e às implicações na economia, Richard considera que o aumento da população envelhecida exigirá medidas. “Teremos de fazer algo: ou os idosos trabalham mais tempo e mantêm os seus benefícios ou têm reformas menos confortáveis e os impostos são aumentados.”

Aumento da imigração e políticas de apoio à fecundidade são algumas das respostas para combater a falta de população activa no futuro.

Por sua vez, Andrew Scott, economista e professor na London Business School, expressou na sua intervenção na Economia da Longevidade que o futuro será marcado pela “vida dos 100 anos”, uma vez que a ideia de chegar a viver mais de um século não está assim tão longínqua.

Segundo o economista, “a cada dez anos, a esperança média de vida aumenta entre 2 a 3 anos”, o que significa que em 2100 alguns países do mundo já poderão ter uma esperança média de vida de 100 anos.

Em Portugal, a esperança de vida à nascença no triénio 2018-2020 foi estimada em 78,07 anos para os homens e em 83,67 anos para as mulheres, o que representa um aumento de 1,90 e de 1,48 anos, respectivamente, em relação aos valores previstos para 2008-2010, de acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística (INE).

Andrew Scott sublinha ainda que em breve “haverá mais pessoas com 80 anos do que com 20 anos”, sendo assim necessários apoios adequados à realidade das próximas gerações. “Quanto mais jovem se é, mais a longevidade é importante”, frisa.

Isto porque, “as pessoas nunca estiveram tão velhas e nunca tiveram tantos anos de vida à sua frente”, logo, “é preciso mudar a sociedade e adaptar à nova realidade da longevidade”, diz.

Quanto às condições de vida dos idosos, foi ainda discutido na conferência a promoção do bem-estar na velhice, sendo importante ter “uma visão sobre a longevidade e não apenas sobre o envelhecimento”, segundo Ana João Sepúlveda, Managing Partner da 40+ Lab.

Nessa perspectiva, a longevidade irá implicar uma “mudança na forma como envelhecemos”, nomeadamente na melhoria da qualidade de vida e no acesso aos cuidados de saúde.

Por outro lado, María Gafo, membro da Comissão Europeia, reforça a importância da descentralização geográfica ou regionalização, dado o constante aumento da população idosa.

O futuro é incerto, mas os desafios da longevidade devem ser pensados com urgência e as medidas tomadas tendo em conta as investigações, segundo os especialistas da Economia da Longevidade.

Números em Portugal

83, 67 – Em Portugal, a esperança de vida à nascença no triénio 2018-2020 foi estimada em 78,07 anos para os homens e em 83,67 anos para as mulheres, o que significa um aumento de 1,90 e de 1,48 anos, respectivamente, em relação aos valores estimados para 2008-2010, de acordo com dados do INE.

3 milhões – De acordo com as Projecções de População Residente 2018-2080 do Instituto Nacional de Estatística, o número de idosos acima dos 65 anos “passará de 2,2 para 3 milhões” de pessoas.

300 – O índice de envelhecimento em Portugal passará de 159 para 300 idosos por cada 100 jovens, em 2080, em resultado do decréscimo da população jovem e do aumento da população idosa, segundo o INE.

4,2 milhões – A população em idade activa – dos 15 aos 64 anos – diminuirá de 6,6 para 4,2 milhões de pessoas, segundo os dados publicados no sítio online do Instituto Nacional de Estatística.

ines.dias@dn.pt

Diário de Notícias
Inês Dias
13 Novembro 2022 — 00:00