773: Número de portugueses que deixa de ir ao dentista por não ter dinheiro está a aumentar

– Primeiro, há que por comida na mesa, pagar a renda da casa, electricidade, gás, água, farmácia, transportes, impostos exorbitantes por decisão da governança, etc. e não sobra nada para mais nada. Nos tempos da outra senhora, o meu “Posto da Caixa” tinha estomatologista, entre outras especialidades, não era necessário deslocar-me ao hospital. A saúde oral vai-se fazendo com a higiene diária… Aliás, a saúde em Portugal é para os ricos. Os pobres vão-se acondicionando da melhor forma que podem.

SAÚDE ORAL/DENTISTAS/DESPESAS

A população está cada vez mais consciente da importância da medicina dentária, mas, este ano, e se calhar fruto da crise que já se faz sentir, há mais pessoas a assumirem que não vão ao dentista por falta de dinheiro. Esta é uma das realidades traçada pelo VII Barómetro da Saúde Oral, que hoje é apresentado no 31.º Congresso da Ordem dos Médicos Dentistas.

Mais de 50% dos portugueses afirmou desconhecer que SNS também tem medicina dentária.
© Pedro Correia Global Imagens

Quase 30% dos mais de mil inquiridos no VII Barómetro de Saúde Oral, assumiu este ano não ter dinheiro para ir ao dentista. A faixa que se segue é que a assume não ter necessidade de ir, porque não tem problemas, depois é a que tem medo de ir, a que não tem tempo ou a que dá prioridade aos filhos para consultas e tratamentos.

O resultado relativo à questão económica aumentou, segundo o barómetro, “7.4 pontos percentuais, relativamente às edições anteriores”, o que, segundo a análise da Ordem dos Médicos Dentistas (OMD), pode significar haver aqui “já efeitos da crise actual”. Este retrato sobre a saúde oral em Portugal, em 2022, realizado através de 1102 entrevistas, a pessoas maiores de 15 anos e de todas as regiões do país, é hoje apresentado no 31.º Congresso da OMD, que decorre até amanhã, em Lisboa.

Mas o mesmo barómetro também destaca pontos positivos, como o facto de “os portugueses estarem mais cientes da importância da ida ao dentista, havendo uma redução de 20.1 pontos percentuais na percentagem de indivíduos que afirma não ter necessidade de ir”.

Os resultados obtidos no barómetro de 2022, um estudo que procura avaliar os hábitos, o acesso, as percepções e motivações da população relacionados com a oferta de cuidados de saúde dentários, demonstram mesmo algumas melhorias, nomeadamente no que diz respeito ao facto de 68,5% dos inquiridos ter referido que visitou o seu médico dentista no último ano, o que representa uma melhoria de 9.1 pontos percentuais quando comparado com o barómetro de 2021.

Acresce que 67,4% dos portugueses dizem também ter o hábito de visitar o seu médico dentista, pelo menos, uma vez por ano, o que representa igualmente um aumento de 9 pontos percentuais a mais relativamente a 2019 e de quase 15 pontos em relação à primeira edição do barómetro, 2014.

48,1%. Esta é a percentagem de portugueses que não tem dentes naturais e nada a substitui-los. É uma percentagem elevada, mas, mesmo assim, é o melhor valor registado desde a primeira edição deste barómetro.

No entanto, há algumas tendências que se mantêm. Uma delas é o facto de só 32,3% dos portugueses terem a dentição completa, embora a percentagem com falta de seis ou mais dentes naturais, exceptuando os dentes do siso, seja de 28,5%, o que representa uma ligeira melhoria, de um ponto percentual face a 2021.

O número de pessoas com falta de dentes sem nada a substituí-los também melhorou. Segundo o barómetro passou para 48,1% e embora seja uma percentagem elevada pode dizer-se que é o melhor valor registado desde a primeira edição deste estudo.

Em termos de hábitos de higiene, há melhorias na utilização do fio dentário e elixir, embora tenha havido uma redução na percentagem de portugueses que escova os dentes duas vezes ao dia.

Maioria de crianças menores de 6 anos não vai ao dentista

Na faixa etária abaixo dos seis anos, a maioria nunca visitou o dentista (65,2%), embora este valor seja inferior ao verificado nas duas últimas edições do barómetro. Ainda na faixa dos menores, sobretudo entre os 10 e os 15 anos, só 51,8% dos que procuraram cuidados é que utilizaram o cheque dentista, o que é menos 8.5 pontos percentuais do que em 2021.

Outro indicador importante, é precisamente o de haver 55,9% da população inquirida a assumir desconhecer que o SNS disponibiliza cuidados na área de medicina dentária. Este valor vinha a diminuir desde 2017, fazendo acreditar que cada vez mais a população estava bem informada, mas nesta edição a tendência inverteu-se.

Houve 44,1% que disse ter conhecimento, mas tal não se reflecte na utilização dos cuidados do SNS, porque, entre quem sabe, só 6,9% recorreu ao sistema público nos últimos 12 meses para tratar os dentes. E quem usou tais serviços foram sobretudo os indivíduos de classes socais mais baixas.

Destes, quase um terço indica que se não tivesse sido atendido no SNS não tinha hipótese de recorrer aos serviços privados por motivos económicos. Dos que usaram o SNS só 39,5% consideram realizar tratamentos complementares no sector privado.

Ou seja, 18,6% afirmou que usaria seguro ou plano de saúde, 8,9% subsistema de saúde. De acordo com a análise da OMD, “a importância do acesso a serviços de medicina dentária no SNS e da comparticipação do Estado nas consultas do sector privado está assim ilustrada e reconhecida pelos portugueses”.

73% dos portugueses já assume ter adquirido o hábito de escovar os dentes com frequência, o que representa também uma melhoria nos hábitos de higiene oral.

Um aspecto positivo é que, de uma forma geral, os portugueses continuam satisfeitos com os seus médicos dentistas (94,5%), sendo que nos casos de insatisfação os principais motivos são os preços praticados (59,3%) e os resultados dos tratamentos (41,6%).

No entanto, a percentagem de indivíduos que nunca mudaram de médico dentista baixou de 52,8% para 44% e a percentagem de quem mudou ou está a pensar mudar de médico dentista aumentou quase 6 pontos percentuais, principalmente devido aos preços praticados (23%).

O barómetro revela ainda que, além do indicador dos preços, há outros que são igualmente valorizados aquando de uma visita ao médico dentista, nomeadamente a confiança, que aparece em primeiro lugar, e os resultados dos tratamentos, a higiene e a limpeza da clínica. Os aspectos menos valorizados são o género do médico e a idade, resultados que indicam que as prioridades se mantêm.

Diário de Notícias
Ana Mafalda Inácio
18 Novembro 2022 — 00:13