592: Economia já começou a perder emprego e empresários antecipam cenário pior até Janeiro

ECONOMIA/DESEMPREGO/EMPRESÁRIOS

INE. Desde que eclodiu a guerra na Ucrânia, e apesar dos meses de verão fulgurantes devido ao turismo, a economia portuguesa já perdeu quase 20 mil empregos até Setembro. No grupo populacional com 25 anos ou mais, já há destruição líquida de postos de trabalho face há um ano e desemprego começou a subir.

© Rafael Costa

A economia portuguesa está a perder força e isso já começa a ser visível nos indicadores de emprego e de desemprego do Instituto Nacional de Estatística (INE).

O emprego está a caminho da estagnação, a taxa de desemprego, ainda baixa, está a subir lentamente, as expectativas dos empresários relativamente à contratação e criação de postos de trabalho nos próximos três meses estão a cair a pique em todos os sectores analisados.

Segundo o INE, o emprego total cresce cada vez menos, tendo avançado apenas 0,8% em Setembro face a igual mês de 2021. Este valor, ainda preliminar, é o mais fraco desde Março de 2021, estava Portugal a reerguer-se da pior vaga da pandemia.

Se o período de observação começar quando eclodiu a guerra na Ucrânia (final de Fevereiro), então aí torna-se claro que mesmo com um verão turístico fulgurante, a economia portuguesa perdeu quase 20 mil empregos desde início da guerra e crise inflacionista até ao último mês de Setembro.

Mas o INE mostra, por exemplo, que há partes do emprego total que podem estar já a ceder, mesmo quando se compara com Setembro do ano passado.

Emprego mais jovem ainda resiste

A camada mais jovem (menos de 25 anos) ainda resiste, mas o grande grupo formado pelos trabalhadores com 25 anos ou mais já estará em contracção: a estimativa preliminar do INE relativa a Setembro indica uma descida de 0,1%, a primeira desde Fevereiro do ano passado, quando o país saiu da vaga mais mortífera da covid.

Na população desempregada acontece algo similar. O desemprego total (número de pessoas sem trabalho, mas que procuraram activamente emprego e estavam disponíveis para trabalhar) ainda desceu 2,5% em Setembro, mas esta é a pior marca desde maio de 2021, quando o país começou o segundo grande desconfinamento.

Uma vez mais, o grupo dos mais jovens parece ser o que resiste melhor a esta conjuntura que está a virar para pior. Em Setembro, o desemprego jovem (menos de 25 anos) ainda recuou cerca de 14%, para 62,5 mil casos.

Já o grupo dos restantes desempregados (25 anos ou mais) aumentou 0,6% no mês de Setembro, para 256,2 mil casos. Não se registava um agravamento neste indicador mensal do INE desde maio de 2021.

A taxa de desemprego, que é o peso do número de desempregados no total da respectiva população activa, pode ter subido para 6,1% em Setembro.

Antes de eclodir a guerra da Rússia contra a Ucrânia, o rácio do desemprego português estava a descer; era de 5,7% em Fevereiro passado, o valor mais baixo em 20 anos. Nas séries do INE, é preciso recuar a Fevereiro de 2002 para encontrar um nível de desemprego inferior (5,5%).

© INE e cálculos DV

© INE e cálculos DV

© INE

Confiança dos gestores no emprego cai a pique em todos os sectores

Ainda de acordo com o instituto oficial, os indicadores prospectivos de curto prazo (próximos três meses) relativos ao emprego no sector privado estão todos em declínio acentuado.

A maioria dos mais de quatro mil empresários e gestores de topo ouvidos pelo INE indicam que estão a cortar a fundo nos planos de emprego até Janeiro, pelo menos. Pode ser contratar menos, não contratar, despedir ou não renovar contratos.

No caso da indústria e da construção essas perspectivas caíram para o nível mais baixo desde o pior momento da pandemia (final de 2020, início de 2021).

O INE faz estes inquéritos de confiança a cerca de 4.300 empresários: 1.000 são empresários ou gestores da indústria transformadora, 600 da construção e obras públicas, 1.100 do comércio, 1.400 dos serviços.

Outro indicador fundamental que não está a melhorar é o do investimento industrial. Quase 78% dos gestores abordados dizem que vai ficar igual ao que está ou pior.

O INE refere que, “de acordo com a informação recolhida sobre a evolução do investimento no âmbito do inquérito qualitativo de conjuntura à indústria transformadora, 63,6% das empresas prevêem que o investimento em 2023 irá estabilizar face a 2022, enquanto 22,7% das empresas prevêem um aumento e 13,7% uma diminuição”.

© INE

Clima arrefece antes do inverno

O INE remata dizendo que o indicador geral de clima económico em Portugal “diminuiu entre Agosto e Outubro, reforçando o movimento descendente iniciado em Março e atingindo o mínimo desde Abril de 2021”.

“Os indicadores de confiança da Indústria Transformadora, da Construção e Obras Públicas, do Comércio e dos Serviços diminuíram todos em Outubro relativamente a Setembro.”

Esta semana o ministro das Finanças, Fernando Medina, veio a público dizer que a economia está a surpreender pela positiva e que o emprego continua “forte”, tendo inclusive sinalizado que pode rever em alta o crescimento estimado para este ano de 6,5% para perto de 6,7%.

Mas 2023 será outra conversa. Mesmo com fundos europeus e uma previsão de salto monumental no investimento público, o governo projecta uma forte travagem da economia para apenas 1,3% de crescimento em 2023.

E o emprego só deve avançar 0,4%. No entanto, a taxa de desemprego fica incólume nos 5,6%, segundo o cenário macro da nova proposta de Orçamento do Estado para 2023.

Dinheiro Vivo
Luís Reis Ribeiro
Luís Reis Ribeiro
05 Novembro, 2022 • 00:01