Reunião do Infarmed devia ter incluído “recomendações fortes” de protecção individual

– Como tem sido habitual neste Portugal dos Pequeninos…

SAÚDE PÚBLICA/PANDEMIA/COVID-19/INFARMED

Especialistas consideram que encontro entre políticos e peritos decorreu com “zero novidades”, embora nesta fase da pandemia fosse fundamental “recomendações fortes” para se minimizar a circulação do vírus. Do lado da saúde, só houve uma palavra para a prevenção: vacinação.

Ministro Manuel Pizarro esteve ontem no Infarmed para ouvir os peritos de instituições do Estado sobre a situação epidemiológica do país.

A pandemia ainda não terminou. E por muito que se queira incluir a infecção por SARS-CoV-2 no lote das doenças comuns, por infecção respiratória, ainda há muito para fazer, nomeadamente no que toca a “fortes recomendações para protecção individual”, senão mesmo algumas medidas obrigatórias, como o uso de máscara em situações muito específicas, bem como no que toca “a uma vigilância mais activa, para se ter noção real do que se está a passar no país”.

Mas não só. É preciso até “mais literacia da população sobre este tipo de doença”, precisamente “para se minimizar os riscos e as consequências”. Isto mesmo foi defendido ao DN por três especialistas que têm acompanhado a evolução da pandemia no nosso país, e daí que uma das críticas feitas à reunião que esta sexta-feira assinalou o regresso entre políticos e peritos ao Infarmed seja precisamente a de “não ter incluído fortes recomendações à população”.

Até porque todos os recados que têm vindo a ser dados pelas autoridades de saúde visam única e exclusivamente “a responsabilidade individual” e têm como palavras de ordem “vacinação, vacinação”.

O presidente da Associação Portuguesa de Médicos de Saúde Pública (APMSP), Gustavo Tato Borges, considerou que a reunião foi “exactamente o que se esperava e o que o Sr. Ministro já tinha dito que iria ser.

Falou-se da evidência e recordou-se desafios, com zero de novidades ou com pouco impacto na vida das pessoas. Ou seja, com uma ausência total de recomendações e de implementação de medidas. E, neste sentido, a reunião foi o que se esperava, simpática e pouco mais”.

O médico infecciologista António Silva Graça disse ao DN ter estado a acompanhar a reunião e que “esperava mais”, questionando mesmo que, para ter decorrido desta forma, “se seria mesmo necessária”, pois “já tínhamos ouvido o Sr. Ministro dizer na véspera que não iriam ser tomadas medidas significativas relativamente à pandemia”.

Antes também já se tinha assumido “a pobreza dos números registados”, portanto, diz Silva Graça, “o que considerava importante era haver pelo menos uma recomendação muito forte sobre a utilização da máscara”.

O epidemiologista Manuel Carmo Gomes, que integra a equipa da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa que faz a modelação da evolução da doença desde o início da pandemia, e que desta vez não esteve no Infarmed, confessou não ter tido a oportunidade de acompanhar em directo, mas não deixa de referir que o importante, mesmo para esta fase, “era a obrigatoriedade do uso de máscara em situações muito específicas, nomeadamente nos transportes públicos, porque é uma medida que não tem impacto económico nem social nas nossas vidas”.

Querem tornar a covid-19 uma doença do dia-a-dia, mas é preciso mais literacia

Do lado da saúde pública, Gustavo Tato Borges comentou ao DN ter concordado com o ministro Manuel Pizarro no que defendeu sobre a vacinação, “tem de ser fomentada” e “as pessoas que forem chamadas devem ser vacinadas”, mas “nesta reunião faltou dizer que as pessoas devem manter os cuidados quando estão doentes e evitar ir trabalhar”, e, se forem, “deve haver a garantia de que usam máscara”.

Mais. “Esta deve ser usada em qualquer momento do nosso dia sempre que possa haver um risco acrescido de se ser infectado ou de se transmitir a infecção a outras pessoas.”

O médico reforça que outra das recomendações que deveriam ter sido feitas no encontro “era a da ventilação dos espaços interiores”. Nesta fase da pandemia, é preciso termos a garantia de que “há melhores espaços com ventilação interior”.

Gustavo Tato Borges sublinha: “O que me parece é que se pretende que a covid seja cada vez mais uma doença normal, como outras de infecção respiratória, e que integre aquilo que é a vigilância habitual destas, só que, se calhar, esta vigilância é que deveria ser aperfeiçoada, não só para a covid-19, mas para as outras infecções respiratórias”, lembrando ainda que “as mudanças de comportamento exigem o aumento da literacia sobre as doenças virais.

Só assim conseguiremos minimizar o risco futuro de tais doenças, e, nomeadamente, da covid-19 na nossa sociedade e na minimização do recurso aos serviços de saúde, como urgências, nas quais já se sente uma sobrecarga considerável”.

Neste momento nada mais há a fazer em relação à covid-19 que não seja “prevenção, protecção, comportamento individual e ventilação”, mas se isto não for dito sobejamente à população o vírus continuará a circular de forma elevada.

Por isso, alerta, a partir do momento “que se comece a notar que a doença está a ter maior impacto nos internamentos e óbitos é necessário o regresso da máscara obrigatória e de uma ou outra medida mais dramática”.

Manuel Pizarro com a secretária de Estado para a Promoção da Saúde, Margarida Tavares, e a directora-geral da Saúde, Graça Freitas.
© Miguel Lopes/Lusa

O infecciologista António Silva Graça avança também: “Parece-me pouco esperar-se que as pessoas utilizem a máscara quando estão com sintomas e infectadas, só porque é uma questão cívica e de respeito pelos outros.

É preciso que esta medida seja fortemente recomendada pelas autoridades de saúde, dizendo mesmo que, “embora não seja uma fase crítica, a pandemia não acabou e existem mais casos do que aqueles que se admite existirem”.

Para o médico a vigilância está a ser feita de uma forma com a qual não concorda e, se o país quer “evitar um agravamento da situação, dever-se-ia, pelo menos, reverter o que foi feito relativamente à testagem – permitindo que as pessoas pudessem voltar a aceder mais facilmente aos testes para confirmarem a infecção – e à protecção ao isolamento dos infectados”, porque senão “vamos ter reflexos maiores no trabalho e nas escolas”.

O epidemiologista Manuel Carmo Gomes considerou que “a situação ainda não é muito preocupante, mas que vamos ter de esperar para ver, porque há duas grandes incógnitas às quais ainda não se consegue responder: uma é o verdadeiro impacto das sub-variantes e outra a protecção que dão as vacinas adaptadas a estas sub-variantes”.

Do lado da Saúde, a prevenção remete-se à vacinação, vacinação

Durante quase uma hora os peritos de instituições do Estado, Henrique de Barros, presidente do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, João Paulo Gomes, director do Departamento Bioinformático do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), e Carlos Alves, infecciologista do Infarmed, autoridade da saúde e do medicamento, resumiram a situação epidemiológica do país, usando a vacinação como palavra de ordem para a prevenção.

Henrique de Barros defendeu que “a pandemia actual é aquilo a que os economistas chamam um exemplo de incerteza radical, ou seja, é demasiado complexa para ser capturada por modelos simples”, lembrando, no entanto, que “as vacinas são indispensáveis”, mas “podem não ser suficientes”.

No entanto, o médico ressalvou que estas preveniram “mais de um milhão de infecções, mais de dois milhões de dias de internamento e 130 mil em cuidados intensivos, bem como 12 mil mortos”.

E é neste sentido que defende a vacinação como “uma estratégia de imunização”, considerando até que se há “vacinas disponíveis, como nós temos, nada justifica que as pessoas não possam vacinar-se qualquer que seja a sua idade”.

Mas o médico reforçou que esta pode não ser suficiente, sendo necessário manter de forma responsável um “conjunto de medidas” da parte da população, como: quem está doente deve ficar em casa ou não continuar a “funcionar socialmente”.

O técnico do INSA, João Paulo Gomes, começou a sua declaração por fazer o ponto de situação sobre as variantes, linhagens e sub-linhagens que caracterizam o panorama epidemiológico a nível nacional e internacional, referindo que “a variante Delta foi a mais severa e esteve em Portugal cerca de 7 meses, até que “importámos da África do Sul a famosa Ómicron”.

Referiu ainda que a taxa de vacinação “excelente” que temos aumentou a imunidade, permitindo que se passasse a falar apenas das sub-linhagens desta – BA.1, BA.2 e BA.5 e agora BQ.1.1, estando esta última “a crescer”, “cerca de 30% dos casos devem-se já a esta sub linhagem, a mais transmissível actualmente”.

Todavia, “não há evidências de que estas sub-linhagens sejam mais severas”. João Paulo Gomes destacou, no entanto, que “as vacinas têm-se mostrado “muito eficazes”, mas “menos contra estas linhagens emergentes”.

Na área do medicamento, Carlos Alves reforçou que no combate à pandemia “as medidas não farmacológicas são importantes”, mas que as farmacológicas “fizeram a grande diferença”, tendo sido as vacinas “a terem mais impacto na evolução da pandemia” e que “estar vacinado faz a diferença. É importante fazer reforços”.

O coronel Penha Gonçalves, que coordena agora o processo de vacinação, lembrou que 94,7% da população residente em Portugal iniciou o processo de vacinação e que 74% dos elegíveis já recebeu a segunda dose de reforço, que está a ser dada desde Setembro.

O médico militar anunciou ainda haver um aumento de 10% na capacidade vacinal para permitir administrar a dose de reforço às pessoas acima dos 50 anos antes do final do ano, mas assumiu que ainda há cerca de 600 mil pessoas que ainda não se vacinaram.

A seguir a esta reunião do Infarmed, e como dizem alguns especialistas, resta esperar para ver, até porque o que está definido em termos de directrizes de acção para as unidades de saúde está desactualizado, já que vem tudo do período em que estávamos sob o estado de alerta.

No ano passado, nesta altura, já havia plano de outono-inverno, agora, sobre este nada se sabe, tal como nada se sabe sobre o sistema de vigilância para a covid-19, em simultâneo com a gripe, através dos médicos de sentinela, um projecto que foi anunciado ainda no início do verão.

Diário de Notícias
Ana Mafalda Inácio
11 Novembro 2022 — 22:53



 

Reunião do Infarmed vai colocar as pessoas em “estado de alerta”

– Este sujeito, por natureza, é sempre do contra. Seria a favor de qualquer tipo de medidas se elas fossem a partir de um governo da sua cor partidária. Acho bem a reunião com o Infarmed para que seja efectuada uma análise com os intervenientes na área da saúde e isso não me coloca em nenhum tipo de “estado de alerta”.

ORDEM DOS MÉDICOS/PANDEMIA/INFARMED

Na opinião de Miguel Guimarães, “o facto de existir uma reunião no Infarmed vai colocar as pessoas em estado de alerta” porque vão pensar que, se os peritos se estão a reunir, é porque “as coisas não estão bem”.

© ANTÓNIO COTRIM/Lusa

O bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, considerou esta quinta-feira que a realização da reunião de peritos do Infarmed para avaliar a situação da pandemia no país vai colocar as pessoas em “estado de alerta”.

Os peritos voltam a reunir-se na sexta-feira no auditório do Infarmed, em Lisboa, para fazer um ponto de situação da covid-19, mas o ministro da Saúde, Manuel Pizarro, esclareceu na altura do anúncio da reunião que a realidade mostra que a decisão de interromper o estado de alerta, no dia 1 de Outubro, foi acertada.

“Eu percebo que se queira fazer uma reunião para fazer o ponto da situação do estado da pandemia actualmente, mas não era preciso fazer uma reunião formal, com a conotação que as reuniões do Infarmed têm”, disse Miguel Guimarães, que falava à agência Lusa a propósito do 25.º Congresso Nacional da Ordem dos Médicos que decorre na sexta-feira em Braga.

Na sua opinião, “o facto de existir uma reunião no Infarmed vai colocar as pessoas em estado de alerta” porque vão pensar que, se os peritos se estão a reunir, é porque “as coisas não estão bem”.

Miguel Guimarães adiantou que nesta época do ano vai haver mais casos de covid-19, de gripe, vão morrer mais pessoas, mas o que se deve fazer é apelar às pessoas para se vacinarem e dar condições para que a vacinação seja acelerada.

“A vacinação agora não está a ser igual (…) é tudo muito mais lento e o tempo passa. Daqui a bocado estamos em Janeiro e corremos o risco de não estar vacinados, pelo menos, a população-alvo”, disse, afirmando que a Direcção-Geral de Saúde (DGS) “podia estar melhor nesse aspecto e o Governo também”.

Por outro lado, defendeu, é preciso proteger as pessoas mais frágeis, que, de uma forma geral, são as que têm morrido.

“São pessoas que têm alterações do sistema imunitário, que estão a fazer imuno-supressores, ou que estão imuno-deprimidas pela doença que têm, o que significa que a vacina nessas pessoas funciona menos bem porque elas não conseguem produzir os anticorpos necessários para ficarem protegidas”, adiantou.

Para prevenir a doença grave nestes doentes, o bastonário defendeu que o país tem “a obrigação de disponibilizar anticorpos mono-clonais neutralizantes” para que possam “estar tão protegidas como as pessoas que fazem a vacinação”, uma prática que disse estar a ser feita em praticamente em todos os países da Europa.

Questionado sobre se os serviços de urgência estão preparados para uma maior procura, disse que, neste momento, já têm a capacidade de resposta limitada devido à saída de “muitos médicos” do SNS.

Adiantou que o serviço de urgência tem “vivido muito” das horas extraordinárias que os médicos vão fazendo, mas há muitos que já não estão disponíveis para as continuar a fazer todas as semanas, e às vezes mais do que uma vez por semana, “em prejuízo da sua vida pessoal e familiar”.

“Portanto, eu prevejo que a situação seja complicada”, disse, apontando que, para a resolver, “é perceber quem é que vai estar disponível para fazer serviço de urgência, e isso vê-se com tempo, dentro do SNS” e recorrendo a prestação de serviços, mas directamente com os médicos.

Defendeu ainda que se deve também “preparar já e perceber” junto dos hospitais privados quem pode estar disponível, caso seja necessário, para receber, por exemplo, doentes respiratórios.

“É importante que haja também uma consciencialização por parte da sociedade de libertar o espaço da urgência para as pessoas que têm doenças mais graves”, concluiu.

Diário de Notícias
DN/Lusa
10 Novembro 2022 — 14:48



 

574: Covid-19: Peritos voltam a reunir-se no Infarmed dia 11 para avaliar pandemia

SAÚDE PÚBLICA/INFARMED/COVID-19/PANDEMIA

Ministro da Saúde descarta, porém, a possibilidade de se realizarem reuniões permanentes.

O ministro da Saúde anunciou esta quinta-feira que vai decorrer no próximo dia 11 uma reunião de peritos no Infarmed para fazer um ponto de situação da covid-19, descartando a possibilidade de se realizarem reuniões permanentes.

“Vamos fazer na sexta-feira, dia 11 [deste mês], uma reunião de actualização no Infarmed porque foi isso que nos comprometemos”, disse Manuel Pizarro, acrescentando que até agora a realidade mostra que a decisão de interromper o estado de alerta (no dia 01 de Outubro) foi acertada.

O governante falava aos jornalistas em Campo Maior (Portalegre), à margem da sessão de encerramento do XIV Encontro de Intervenção Precoce “Desenvolvimento Infantil: Um passo atrás do outro”.

Manuel Pizarro referiu também que a interrupção do estado de alerta no início de Outubro “não significava” o fim da pandemia.

“É isso que vamos fazer no dia 11, é uma vez mais uma reunião com peritos que nos vão dar informação sobre a situação internacional e a situação nacional da pandemia e sobre os dados de monitorização que nós temos até agora”, explicou.

Segundo o ministro, esses dados baseiam-se “não tanto no número de pessoas com infecção, porque esse diagnóstico já não é feito de forma generalizada como era, mas sobretudo das pessoas que precisam de recorrer ao internamento ou precisam ou têm um desfecho menos positivo”.

O ministro da Saúde fez ainda questão de sublinhar que nesta altura “não há nenhum indicador” do ponto de vista epidemiológico ou do ponto de vista da gravidade da doença que justifique efectuar reuniões permanentemente.

Diário de Notícias
DN/Lusa
03 Novembro 2022 — 20:28