376: A Ponte

OPINIÃO

O tempo é de incerteza, mas a falta de aspiração endémica do país, também não ajuda. Uma inflação galopante, a ameaça de um conflito à escala global, a que se somam as alterações climáticas, e as micro-desgraças do dia a dia, parecem apenas demonstrar que, quando a alma é pequena, nada vale a pena.

Compensamos o desânimo com o refúgio à sombra do manto acolhedor do Estado, que transforma magros apoios em alavancas perenes de um sistema social, político e económico reconciliado com a mediocridade.

E que torna esses apoios justamente estruturantes da actividade económica num país onde, há décadas, nada se passa sem o beneplácito do poder político. A maior conquista deste sistema endémico é, podemos dizê-lo, uma colonização do ânimo e da subsequente capacidade de aspirar.

Porque a literatura sempre esteve um passo à frente, permitam-me recordar um pequeno conto de Franz Kafka, escrito em 1916/17, chamado justamente A Ponte. Ora esta ponte, construída sobre um abismo, é uma edificação esquecida, por onde ninguém passa. E se ninguém por lá passa, então está em causa a sua própria natureza de ponte.

Apesar de tudo, ainda que seja irrelevante e ninguém a atravesse, uma ponte só deixa de ser ponte quando cai. Um dia, um homem de bengala, aproxima-se da edificação, bate no solo com a bengala e salta sobre o empedrado. A ponte adormecida, que toda a vida se havia mantido imóvel a olhar fixamente para o riacho que passava por baixo de si, sentiu uma enorme curiosidade de ver quem assim perturbava o seu descanso.

Afinal, quem é que assim ousava reclamar a sua natureza de ponte. Movida pela curiosidade, vira-se para olhar para cima. Ora, onde já se viu uma ponte virar-se? Mal se virou, inevitavelmente caiu. E foi justamente ao cair que realizou a missão para que fora edificada.

As estruturas arquitectónicas – completas e robustas ou frágeis e em ruínas – são uma presença recorrente na escrita kafkiana e servem como estratégias simbólicas da decifração do mundo. A ponte, descrita com traços humanos – tem mãos e pés -, representa na verdade o indivíduo como ponte, que possibilita o encontro e estabelece relações.

Mas uma ponte por onde ninguém passa não cumpre a sua função de ordenação da geografia, tal como o ser humano que não ousa empenhar-se no diálogo com os outros, que ousa criar e transformar, não assume em pleno a sua humanidade, e, em contexto político, a sua cidadania.

Tal como a ponte que encontrou o desígnio, no momento mesmo do seu colapso, também é com uma humanidade falível, mas que não deixa de arriscar e que se assume eloquentemente humana a cada ato falhado, que as histórias de Franz Kafka nos confronta.

O maior risco que os indivíduos correm neste tempo quase irreal e de testemunho do impossível é sair de si e encontrarem a diferença que nos ameaça, venha ela sob a forma de um Coronavírus, do migrante, do antagonista político, do concorrente de negócios, daquele que ameaça a nossa segurança. Vivemos em sociedades obcecadas com a contenção do risco, que existe fora de nós.

Essa é aliás a história da modernidade e da sua narrativa ambivalente. Por um lado, acreditamos que somos pequenos deuses, iluminados pela ciência e capazes de dominar as ameaças naturais. Por outro, temos consciência da nossa enorme fragilidade que torna a nossa existência insuportável.

É tempo de ousarmos sair do nosso confortável adormecimento e de nos virarmos, como a ponte de Kafka, ainda que isso possa significar um risco de destruição do tempo antigo. Porque é arriscando que nos reconciliamos com a grandeza aspiracional da nossa humanidade comum.

Reitora da Universidade Católica Portuguesa

Diário de Notícias
Isabel Capeloa Gil
29 Setembro 2022 — 00:05