246: A jornada das contradições. A crónica do dia em que a Igreja desmentiu Marcelo — e Moedas acabou isolado

 

🇵🇹 LISBOA // CML // JMJ2023 // CONTRADIÇÕES A +

Em conferência de imprensa, D. Américo Aguiar revelou que o orçamento da Igreja para a Jornada Mundial da Juventude de 2023 é de 80 milhões de euros.

Desde que assumiu funções como Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa nunca escondeu o seu perfil de católico praticante, mostrando-se próximo das principais instâncias da organismo em Portugal — algo que já lhe valeu dissabores no passado.

A atribuição da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) a Lisboa foi publicamente celebrada pelo chefe de Estado, que desde cedo assumiu o fato de “embaixador não oficial” do evento.

No entanto, as notícias recentes que apontam para custos avultados para a concretização das JMJ — pelo menos 4,6 milhões de euros para o altar-palco que vai receber o Papa Francisco — parecem marcar um distanciamento entre o Presidente da República e a Igreja Católica, a julgar pelas declarações contraditórias que as duas partes fizeram desde que o preço da estrutura, e o facto de a sua concretização ter sido atribuída à Mota-Engil por ajuste directo.

Depois de ter pedido mais informações à Câmara de Lisboa sobre a preparação do evento, Marcelo Rebelo de Sousa afirmou ontem, em declarações aos jornalistas, que o altar-palco devia ser construído à imagem das ideias e pensamentos do Papa Francisco.

Como tal, esperava um projecto que correspondesse ao “pensamento do Papa que se caracteriza por uma visão simples, pobre, não triunfalista“.

Seria muito estranho um Papa que quer dar imagem de pobreza austeridade e contra o espavento viesse a não ter um acolhimento correspondente ao que é o seu pensamento”, defendeu o Presidente da República.

Marcelo Rebelo de Sousa considerou ainda que esta solução seria o que “a sociedade espera” e confessou esperar que “a solução encontrada no final” consiga “tentar tirar proveito do que é interesse nacional e respeitar o período em que nos encontramos e a própria maneira de ser do Papa que é contrário ao que é espaventoso“.

Interrogado sobre se a Igreja Católica Portuguesa já devia ter prestado esclarecimentos sobre esta matéria, o chefe de Estado remeteu essa responsabilidade para todos os envolvidos na organização da Jornada Mundial da Juventude: autarquias, Estado e Igreja Católica. “Eu acho que os três, em tempo oportuno, darão certamente esclarecimentos“, disse.

Minutos após estas declarações, surgia o primeiro contraditório da tarde. Citando o Patriarcado de Lisboa, a SIC Notícias avançava que, ao contrário do que havia sido dito pelo Presidente da República, este havia sido informado dos custos que envolviam a construção e instalação do altar-palco, já que as decisões teriam sido tomadas por várias entidades.

A Igreja defendeu-se ainda das declarações de Carlos Moedas, quando o autarca atribuiu a dimensão do palco às exigências desta entidade, dizendo que nunca impôs quaisquer condições.

A resposta de Marcelo Rebelo de Sousa não se fez esperar e, através do mesmo canal de informação, fez saber que apenas soube dos valores em causa “informalmente“, ou seja, através de jornalistas, e nunca pelo Patriarcado.

O Presidente da República acrescentou ainda que só na semana passada teve conhecimento das dimensões do altar-palco e que, no seu entender,  “ainda é possível diminuir” os custos do projecto.

Esta possibilidade foi confirmada, horas mais tarde, numa conferência de imprensa que contou com a presença de D. Américo Aguiar, coordenador da JMJ 2023, e que serviu para dar resposta a muitas das questões que se levantaram nos últimos dias — e terminar com o pingue-pongue de declarações em espaço público. Segundo o responsável, o orçamento da Igreja para a jornada cifra-se nos 80 milhões.

Esta foi a primeira posição da Igreja em relação ao valor que está disposta a despender, ao qual se juntam outros 80 milhões, divididos entre a autarquia de Lisboa, de Loures e o Governo, o que já eleva os custos do evento para 160 milhões de euros.

“As coisas que puderem ser eliminadas por não serem essenciais, pediremos para serem eliminadas“, garantiu D. Américo Aguiar. “Nada é dogmático até que aconteça e esteja feito.”

Sobre o custo do altar-palco, o presidente das Jornadas disse estar “magoado“, garantindo também que só teve conhecimento do valor inerente à estrutura pela comunicação social. “É um número que magoa porque vivemos tempos em que todos sentimos as dificuldades de todos“, começou por explicar.

Tratou ainda de esclarecer a polémica em torno das alegadas exigências feitas pela Igreja. “O papel da Igreja é pedir às autoridades que respondam àquilo que temos de providenciar.

Nós sabemos o que precisamos que aconteça no palco, mas se ele é rectangular, quadrado, redondo, curvo, mais alto ou mais baixo, não é nossa preocupação.”

Não sou o empreiteiro e também não sou o dono da obra (…) e é nossa obrigação sentarmo-nos com o autor do projecto, com os nossos técnicos, para irmos ver porque é que custa 4,2 milhões de euros e vermos o que é que, sendo da nossa responsabilidade, pode ser eliminado para que os custos não sejam o que são.”

D. Américo Aguiar aproveitou ainda a conferência de imprensa para garantir um escrutínio público das contas “até ao cêntimo“. Comprometeu-se, ainda, a investir possíveis lucros em projectos para a juventude nos dois municípios mais envolvidos na preparação do evento.

Sobre o envolvimento do Presidente da República na preparação do evento e o pedido para que as entidades fossem contidas nos custos, o responsável da Igreja lembrou a forma como Marcelo Rebelo de Sousa “festejou no Panamá que trouxéssemos as jornadas para Portugal“.

Poucos minutos depois de terminada a conferência de imprensa, Marcelo Rebelo de Sousa entendeu que a verdade dos factos havia sido reposta por D. Américo Aguiar e que ficou claro que o Presidente da República não sabia dos custos do altar-palco.

Está esclarecido, D. Américo Aguiar acabou de dizer, desmentindo a nota do Patriarcado, que o Presidente da República não sabia o valor do altar. E, portanto, a Igreja, e bem, desmentiu aquilo que tinha vindo numa nota do Patriarcado e que tinha provocado a minha estupefacção“, disse o chefe de Estado.

O Presidente da República saudou ainda a posição “sensível à compatibilização de dois objectivos: um, que a jornada seja uma projecção de Portugal no mundo; segundo, que tenha uma linha de contas as circunstâncias económicas e sociais vividas neste momento”.

Moedas, o isolado

No meio de várias contradições, uma figura surgia cada vez mais isolada, a de Carlos Moedas.

O autarca, que num primeiro momento atribuiu a dimensão do altar-palco às exigências da Igreja, viu-se desmentido pela instituição, que negou as suas declarações, e desautorizado pelo Presidente da República, que defendeu a possibilidade de uma alternativa mais em conta.

No entanto, em declarações aos jornalistas, reforçou a sua ideia de investir até “35 milhões de euros”  no evento — o qual espera que tenha um “retorno enorme“.

“O retorno vai ser multiplicado, tudo isto que vamos investir, vai ser multiplicado por 10 ou por 20.” O autarca justificou ainda a necessidade de recorrer a ajustes directos com o pouco tempo que dista até ao evento e com o facto de o seu executivo ter começado “do zero” porque “nada estava feito“.

“Nós tínhamos que ir para um processo que seria uma adjudicação directa, mas eu fui muito mais longe. Eu disse: eu não vou fazer uma adjudicação directa pura. Vamos consultar várias empresas” e “assim foi”, justificou o presidente da Câmara lisboeta.

Perante a polémica instalada, Moedas admitiu “rever o projecto e melhorar. Mas temos e fazer. Eventualmente ainda tentando reduzir custos. Não sei se é possível reduzir custos, o que sei é que é possível continuar a trabalhar.”

De seguida, o autarca dirigiu-se às declarações de Marcelo Rebelo de Sousa e da Igreja, dando nota das preocupações levantadas, mas priorizando a imagem da cidade e do país durante o evento.

“Eu farei aquilo que entenderem tanto do lado da Igreja como do senhor Presidente da República. Respeito as opiniões. Faço o que for necessário. Aquilo que digo é que faltam 186 dias e temos de ir para a frente. Vamos ter 100 hectares em que estará um milhão e meio de pessoas.

Nós vamos ter um palco em que vão estar mais de 190 países a olhar para Portugal. Naquele momento, Lisboa vai ser o centro do mundo. E isso tem um valor enorme para nós“, continuou.

Finalmente, chamou a si todas as responsabilidades das decisões, escudando-se na necessidade de mostrar obra — e um evento — feita a tempo. “Dou o corpo às balas. Tudo o que podemos fazer é melhor, mas tem de ser feito. Temos de fazer.”

“É um momento tão único, tão importante para Lisboa. Estou muito bem com a minha consciência. Todos os eventos da JMJ transformaram sociedades. Eu quero que a JMJ transforme Lisboa.”

Ana Rita Moutinho // ZAP
27 Janeiro, 2023



 

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223: Quanto custam aos contribuintes as Jornadas com o Papa? Ninguém sabe (nem quanto paga a Igreja)

 

– As entidades organizadoras deste evento católico, gastam milhões; os pobres contam os cêntimos para sobreviverem… Que raio de doutrina e de religião é esta?

🇵🇹 JMJ 2023 // CML // CUSTOS ASTRONÓMICOS

Está lançada a polémica com o custo do altar-palco que vai acolher o Papa Francisco durante as Jornadas Mundiais da Juventude em Lisboa. Mas, na verdade, não se conhece a totalidade dos custos do evento, nem quanto será pago pelos contribuintes e pela Igreja Católica.

As Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ) são o maior encontro de jovens católicos de todo o mundo, contando com a participação do Papa. Neste ano, vão ser em Lisboa, mas a preparação do evento está a gerar polémica devido aos elevados custos envolvidos.

Nesta semana, “rebentou” a polémica com o custo do altar-palco que vai acolher o Papa, uma obra que foi adjudicada por 4,24 milhões de euros (mais IVA), segundo dados do Portal Base da contratação pública. Mas a este valor somam-se ainda 1,06 milhões de euros para as fundações indirectas da cobertura.

Estas duas obras foram entregues, em ajustes directos, às empresas Mota-Engil e Oliveiras, respectivamente.

Vai ser a Câmara Municipal de Lisboa (CML) a pagar este altar-palco de 9 metros de altura, com três plataformas e onde cabem 2 mil pessoas. Terá também dois elevadores para pessoas com mobilidade reduzida e uma escadaria.

Carlos Moedas, presidente da CML, já veio culpar a Igreja pelo elevado custo da obra, notando que é preciso responder às exigências da Fundação que organiza as JMJ e que foi criada pelo Patriarcado de Lisboa para o efeito.

Este altar-palco vai custar 18 vezes mais do que aquele que foi erguido em 2010, para a visita do então Papa Bento XVI a Lisboa, e que custou 300 mil euros.

CM Lisboa
Projecto do altar-palco das Jornadas Mundiais da Juventude em Lisboa.

Governo pode gastar mais de 36 milhões de euros

Mas os gastos das JMJ não se ficam por aqui. A SIC Notícias avança que a organização do evento tem um custo previsto superior a 36 milhões de euros.

Contudo, em Outubro de 2022, o Correio da Manhã (CM) avançou que esse valor respeitaria apenas aos gastos assumidos pelo Governo, sem contar com as questões da segurança, mobilidade e saúde.

O jornal sublinhava ainda que a CML previa gastar entre 30 e 35 milhões de euros com o evento.

Já a Câmara de Loures seria responsável por arcar com 16 milhões de euros dos custos, ainda de acordo com o CM.

Entre as obras que estão a ser feitas para acolher o evento, uma das mais importantes é a criação do Parque Urbano Tejo-Trancão no antigo aterro junto ao rio Trancão, entre Lisboa e Loures. Será neste local que vai decorrer a Missa Final de encerramento das JMJ e onde vai também nascer o altar da discórdia.

Só estas obras exigem um investimento total de 21,5 milhões de euros, incluindo a recuperação do Aterro Sanitário de Beirolas, a criação de redes de saneamento, de água e de energia, e ainda a construção de uma ponte pedonal sobre o Rio Trancão.

Não se sabe quanto vai gastar a Igreja Católica

“O Governo deixou ao encargo das Câmaras as obras dos principais recintos, mas as autarquias asseguram que a Igreja também está envolvida no custo da organização”, avança a SIC Notícias.

Só que ninguém sabe quanto é que a Igreja Católica, que organiza o evento, vai gastar ao certo, nem que fatia dos custos das obras vai suportar.

O que se sabe é que a inscrição para toda a semana das JMJ custa 235 euros.

São esperadas cerca de 1,5 milhões de pessoas no evento, esperando-se que gastem algo como 400 milhões de euros.

Susana Valente, ZAP //
25 Janeiro, 2023



 

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203: Altar do Papa vai custar 4,2 milhões à Câmara de Lisboa em ajuste directo

 

– FABULÁSTICO!!! FANTÁSTICO!!! 4,2 MILHÕES DE €UROS PARA UM ALTAR-PALCO DESTINADO AO PAPA! Entretanto onde para a ajuda aos sem abrigo, aos pedintes de Lisboa? FDS!!! Segundo rezam os livros, cristo andava de sandálias. Os Papas ornamentam-se com ouro e vestes luxuosas! Que raio de religião é esta? E para os receber, gastam-se mais de QUATRO MILHÕES DE €UROS apenas para um palco? É por estas e muitas outras que sou ATEU!

🇵🇹 ALTAR DO PAPA // JMJ // LISBOA // C.M.L.

Orçamento de Estado para 2023 abre uma excepção à Jornada Mundial da Juventude, o que permitiu que a obra fosse adjudicada por ajuste directo, apesar do elevado valor.

A obra de construção do altar-palco onde o Papa Francisco vai celebrar a missa da Jornada Mundial da Juventude 2023, em Lisboa, vai custar 4,2 milhões de euros à Câmara de Lisboa, por ajuste directo.

De acordo com o contrato publicado no Portal Base, a obra foi adjudicada pela SRU – Sociedade de Reabilitação Urbana à construtora Mota-Engil por 4.240.000 euros, sem IVA. A construtora tem agora 150 dias para executar o projecto após a consignação da obra.

O Orçamento de Estado para 2023 abre uma excepção em relação à Jornada Mundial da Juventude, o que permitiu que a obra fosse adjudicada por ajuste directo, apesar do elevado valor.

“Para a celebração de contratos que tenham por objecto a locação ou aquisição de bens móveis, a aquisição de serviços ou a realização de empreitadas de obras públicas e que se destinem à organização, programação, concepção e implementação da Jornada Mundial da Juventude 2023, incluindo as intervenções necessárias nos locais dos eventos e a eventual relocalização de instalações existentes, as entidades adjudicantes podem adoptar procedimentos de ajuste directo quando o valor do contrato for inferior aos limiares referidos nos n.os 3 ou 4 do artigo 474.º do CCP, consoante o caso”, pode ler-se no artigo. O limiar em causa é de 5,35 milhões de euros.

A Câmara Municipal de Lisboa enviou ao Observador um esclarecimento no qual justifica o custo do palco salientando que “a complexidade desta obra não é comparável a nada que tenha sido feito em Portugal”.

Segundo a autarquia “a obra do palco ficará para a cidade e será de fruição dos Lisboetas após a JMJ. A cobertura do palco manter-se-á e será rebaixada para poder ser usada em múltiplos eventos que passem a ter por palco o Parque Tejo, que servirá para acolher os maiores eventos do mundo ao ar livre”.

Diário de Notícias
DN
24 Janeiro 2023 — 15:25



 

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