642: No Brasil, o surrealismo saiu à rua

OPINIÃO

Depois de quatro anos surreais, o Brasil viveu esta semana, na ressaca da derrota inédita de um candidato à reeleição, Jair Bolsonaro, o ápice do surrealismo. Bolsominions, como são chamados pela maioria dos brasileiros, ou patriotas, como eles se autodenominam, foram às ruas curtir as duas primeiras fases do luto, negação e raiva.

Nalguns pontos do país, fardados de verde e amarelo vibraram com as notícias da prisão de Alexandre de Moraes, o presidente do Tribunal Eleitoral, e do envio de tropas a Brasília para anular o resultado das eleições.

“Obrigado, Senhor!”, “o Brasil é nosso!”, bradaram, em lágrimas, na direção dos céus, até descobrirem, minutos depois, que estavam, logicamente, a ser vítimas patéticas do veneno que produziram por anos: notícias falsas.

Um grupo ficou famoso por cantar o hino, com aquela pungência que só um bolsominion (patriota, perdão) atinge, virado para um pneu. Sim, um pneu que, fosse gente e não borracha, coraria de vergonha por se ver naquela cena.

Um outro grupo, menos cómico, dispensou o pneu mas não o infame sieg heil hitleriano, durante a cantoria num povoado do mais bolsonarista, branco e germânico-descendente dos estados do Brasil, Santa Catarina.

Outros grupos que juravam, heroicos, não arredar pé dos bloqueios nas estradas, fugiram, brancos de medo, nalguns casos deixando até as chaves dos camiões e das motos na ignição, quando as claques do Atlético Mineiro e do Corinthians, em trânsito para os jogos dos seus clubes, chegaram e os mandaram liberar as vias e ir trabalhar.

Muitos foram filmados, sem se rirem, a marchar em frente a quartéis, quais soldados da Armata Brancaleone, e a rogarem ao Exército brasileiro, que desde a guerra do Paraguai está mais ou menos em serena hibernação, por um golpe.

Houve um bolsominion (patriota) que fez sucesso online ao ser filmado a atirar-se para cima de um carro parado a simular um dramático atropelamento.

E outro que, ao tentar impedir que um camião furasse o bloqueio, percorreu seis quilómetros agarrado ao veículo, como numa paródia de um filme do 007. Na internet, já se vendem homenzinhos agarrados a camiões para colar nos frigoríficos.

Na mesma internet viralizou entre patriotas uma reunião por Zoom de Bolsonaro com uma juíza do Tribunal de Haia a admitir fraude eleitoral. A juíza da imagem, porém, era a cantora Lady Gaga.

Enquanto os patriotas faziam estas figuras, Bolsonaro, o real, movia-se por aquilo que sempre o moveu desde que, através de um artigo dos Anos 80 na revista Veja a exigir salário mais alto para os militares, entrou na vida pública: dinheiro.

Negociava com o presidente do seu partido um chorudo salário, uma casa paga e assistência jurídica de borla, abrigado, no conforto do Palácio da Alvorada, da chuva que punia lá fora os membros mais amalucados da sua seita – amalucados, mas firmes por, segundo eles, o aparente descaso do líder não passar de silêncio estratégico de um génio militar.

Algures na terra redonda, entretanto, o eleito Lula da Silva recebia os parabéns de Biden, de Xi, de Putin, de Macron, de Scholz, de Guterres, de Von der Leyen.

E marcava viagem ao Egito para participar na COP27, com escala em Lisboa, antes de começar a tratar da transição com os adultos do governo de Bolsonaro, alguns deles, nada amalucados, já prontinhos para mudar de lado.

Jornalista, correspondente em São Paulo

Diário de Notícias
João Almeida Moreira
10 Novembro 2022 — 00:21

[sem correcção ortográfica]



 

235: Não há governo nesta corrupção

OPINIÃO

Em 2018, Jair Bolsonaro prometeu “o fim da corrupção” e a jura soou como música aos ouvidos de eleitores brasileiros esgotados de três anos seguidos de manchetes sobre os desvios na Petrobras, investigados na Operação Lava Jato, que atingiram justa ou injustamente membros de cerca de 30 partidos políticos.

Quatro anos depois, o balanço: em Outubro de 2019, o ministro do Turismo foi investigado por desviar dinheiro através de candidaturas femininas falsas e em Abril de 2021 o titular do Meio Ambiente acusado de dificultar a fiscalização a madeireiras, de amigos dele, suspeitas de extração ilegal de árvores.

No mês seguinte, foi revelado o Tratoraço, esquema multimilionário montado pelo Planalto para manter a base de apoio no Congresso — e assim se blindar de eventual impeachment — em troca de três mil milhões de reais distribuídos pelos parlamentares em dinheiro e géneros, como os tratores sobrefaturados em 259% que haveriam de batizar o escândalo.

Passou mais um mês e descobriu-se que, mesmo informado do esquema por um deputado, o presidente aceitou negociar a compra de uma vacina indiana contra a covid, a covaxin, 1000% acima do preço de mercado, depois de o Brasil se ter recusado a adquirir os mais baratos e fiáveis imunizantes do mundo.

Em Março de 2022 foi a vez de o Ministério da Educação ser capturado por dois pastores evangélicos, amigos de Bolsonaro e do ministro, também pastor, que distribuíam verbas apenas a municípios que se comprometessem a colocar dinheiro ou barras de ouro no bolso dos reverendos.

A imprensa brasileira lista, além destes, mais dezenas de casos envolvendo desvios em autocarros escolares, em contratos na secretaria de comunicação da presidência, em gastos de 15 milhões de reais só na aquisição de leite condensado para o Planalto ou na compra de asfalto por uma empresa de fachada no valor de 600 milhões de reais.

Há ainda os escândalos paralelos a Bolsonaro, como a aquisição milionária de viagra e de próteses penianas pelas forças armadas, um dos braços do governo, e aqueles que atingem em cheio a sua família, como o desvio milionário dos salários dos assessores, os estranhos depósitos na conta da primeira-dama pelo operacional do esquema ou os mais de 50 imóveis comprados pelo clã em dinheiro vivo.

Bolsonaro, no entanto, insistia até ao ano passado numa das suas máximas preferidas — “não há corrupção neste governo”.

Atropelado por provas e factos, no entanto, vem evoluindo (ou regredindo) no discurso contra a corrupção de forma interessante. Em Junho de 2021, já falava em “corrupção virtual”. “Neste governo só há corrupção virtual, como no caso da vacina, em que não foi gasto um real”.

Em maio, passou a referir-se à “falta de corrupção consistente”. “O nosso governo até ao momento não tem apresentado desvio de recursos com denúncias consistentes de corrupção”.

Em julho, a corrupção existia mas não era endémica. “Há casos isolados que pipocam mas o governo não tem corrupção endémica”.

Desde o mês passado, a culpa de haver corrupção é de quem procura por ela. “Se procurar alguma coisa vai achar, só o ministério do Desenvolvimento tem 20 mil obras, será que está tudo certinho?”.

Tivesse tempo e não, ao que tudo indica, apenas mais um mês de governo, Bolsonaro acabaria por adaptar a sua máxima a “não há governo nesta corrupção”.

Jornalista, correspondente em São Paulo

Diário de Notícias
João Almeida Moreira
09 Setembro 2022 — 07:00