111: Nancy Pelosi e Mathias Rust: personagens e contextos num planeta em rápida mudança

OPINIÃO

Os leitores do Diário de Notícias sabem quem é Nancy Pelosi. Mas é provável que muitos não tenham ouvido falar de Mathias Rust. No entanto, há uma ténue ligação entre ambos: correram riscos, aterraram em lugares distintos e essa circunstância fez com que fossem considerados personae non gratae por países diferentes.

No caso da Presidente da Câmara dos Representantes norte-americana, a sua presença em Taipé acossou a República Popular da China e desviou o olhar da imprensa – ainda que por instantes – da invasão da Ucrânia. Nancy insistiu em visitar Taiwan apesar do Presidente do seu país ter manifestado uma posição contrária.

Só que numa democracia os poderes constitucionais têm a sua independência, algo que parece bizarro a quem tem ou sustenta posições autocráticas. Como sabemos, os ecos das horas de Nancy na ilha Formosa persistem e alimentam a incerteza destes tempos com geometrias cada vez mais variáveis.

Mas se a visita de Pelosi foi institucional, o feito de Rust foi um impulso individual.

No último quartel do século passado o quadro geopolítico era diferente do actual. Na Europa (e não só) o Bloco de Leste era dirigido pela União Soviética (URSS) e a Cortina de Ferro – a fronteira entre os dois blocos que emergiu da 2.ª Guerra Mundial e foi tecida a ferro, sangue e fogo – estendia-se do Árctico ao Mediterrâneo, e alimentava equilíbrios, temores e angústias.

Mas em 1985, quando Mikhail Gorbatchov foi eleito pelo Politburo como líder da URSS, ventos frescos e promissores sopraram a partir de Moscovo: foi o tempo da glasnost (transparência) e da perestroika (reestruturação), sinais de mudança que marcaram a História.

E marcaram Mathias Rust, que em 1987 era um jovem aviador com poucas dezenas de horas de voo. Vivia em Hamburgo e acalentava um sonho próprio dos seus 18 anos: criar uma ponte entre o Leste e o Oeste a fim de mostrar que muitos europeus ansiavam pelo estabelecimento de relações entre os dois blocos. A 13 de Maio daquele ano, Mathias levantou voo do aeródromo de Uetersen num Cessna Skyhawk 172 que alugou para – dizia ele – garantir horas de voo.

Após um périplo pelo norte da Europa, aterrou em Helsínquia no dia 25. Uma espécie de luta interior ocupou-o nesses dias, procurando entender se valia a pena correr o risco de afrontar o forte sistema de defesa aérea da URSS. Alcançou a coragem necessária mesclada com um resto de dúvidas e na manhã do dia 28 levantou voo, informando a torre de controlo sobre o seu destino: Estocolmo. Após meia hora no ar marcou o rumo para Moscovo.

Quando sobrevoava a Estónia – então ocupada pela URSS – os controladores finlandeses já tinham dado o alerta e perdido o rasto do Cessna nos seus ecrãs. Chegou a temer-se o pior quando um helicóptero de busca encontrou manchas de óleo e destroços no Mar Báltico; porém, o audaz aviador permanecia no ar.

Claro que foi detectado pelos radares soviéticos, mas como a sorte protege os audazes, o Cessna foi confundido com um Yak-12 – um monomotor de origem soviética semelhante ao avião que tripulava – e Mathias escapou ainda a três baterias de mísseis terra-ar e a um MIG23 que o interceptou! Nem as baterias no solo nem o caça no ar tiveram permissão para premir o botão, e o jovem aviador manteve a fortuna a seu lado.

Para isso também contribuíram a recente reforma da Força Aérea Soviética, com as cadeias de comando e comunicação ainda em fase de adaptação, e a memória do abate por erro da URSS de um Boeing 747 das linhas aéreas da Coreia do Sul ocorrido em 1983 e que vitimou 269 pessoas. O destino protegeu Mathias até a fim: aterrou na ponte Bolshoy Moskvoretsky, donde haviam sido removidos para manutenção naquele dia de manhã os cabos aéreos que alimentavam os tróleis.

Eram 18:43h em Moscovo quando o Cessna estacionou na Praça Vermelha. O jovem manteve-se ao lado do avião e após o pasmo inicial dos transeuntes – houve quem pensasse tratar-se do decór de um filme -, a multidão que o rodeou manifestou-se afável cumprimentando-o. Mathias explicou que vinha do Ocidente e que queria encontrar-se com Mikhail Gorbatchov para lhe entregar uma “mensagem de paz” que – assegurava ele – iria ajudá-lo a difundir nas sociedades ocidentais a bondade dos seus propósitos reformistas.

O convívio festivo durou mais de uma hora, até à chegada de militares que dispersaram os moscovitas e, delicadamente, lhe pediram o passaporte e perguntaram… se transportava armas.

O feito de Rust satirizou a imagem do maior país do mundo, mostrando quão enferrujados estavam os seus sistemas de defesa. Mas teve o condão de permitir a Gorbatchov acelerar os processos que considerava necessários para implementar a perestroika. Mathias foi julgado em Setembro daquele ano e condenado a uma pena de prisão por entrada ilegal na URSS, violação das leis de voo e “vandalismo malicioso”.

Reconheceu culpa nas duas primeiras acusações, mas refutou a última pois não havia nada de malévolo nas suas intenções. Foi libertado em 3 de Agosto de 1988, no que foi entendido como um gesto de “boa vontade” da URSS, dois meses após Gorbatchov e Ronald Reagan terem assinado o Acordo para a eliminação dos mísseis balísticos e de cruzeiro, nucleares ou convencionais, de curto e médio alcance.

Não é só o tempo que separa a saga de Rust da visita de Nancy. Mudou o Mundo e modificaram-se as percepções que dele temos, ao ponto de hoje julgarmos improvável a repetição do que fez o intrépido aviador. Porém, a verdade é esta: dispomos de um só planeta, mas são diversos os mundos que nele existem.

E se os sistemas de suporte da vida na Terra dão sinais aterradores que deveriam fazer-nos mudar de hábitos, atitudes e comportamentos – como tem sublinhado o Secretário-Geral da ONU -, a precariedade destes tempos dá-nos motivos de sobra para que saibamos escolher o lado da História onde queremos estar.

Professor Associado c/ Agregação, Universidade de Évora

O autor escreve pela norma anterior ao Acordo Ortográfico de 1990

Diário de Notícias
João Eduardo Rabaça
23 Agosto 2022 — 00:03