“Esse tal de Lula!”

OPINIÃO

O que seria mais ridículo, se não fosse trágico: acreditar que Lady Gaga é “primeira-ministra do Tribunal de Haia” e que fará uma “intervenção federal” no Brasil para reparar os resultados da eleição presidencial de 30 de Outubro de 2022 ou que “esse tal de Lula”, eleito pela terceira vez presidente do país, “vai nacionalizar todas as terras” a partir do dia 1 de Janeiro?

O estado de negação em que permanecem os eleitores de Jair Bolsonaro depois da derrota do ex-capitão não mereceria grandes comentários se não afectasse quase metade dos brasileiros alegadamente adultos e, sobretudo, se não fizesse parte de uma perigosa tendência que começa a alastrar-se por todo o mundo: a construção de uma realidade paralela a que os indivíduos se apegam, pondo em risco, como explica o intelectual brasileiro Muniz Sodré, todo o ambiente social.

Criado e potenciado pelas redes sociais, o referido processo exacerba até ao limite, explica Sodré, o papel manipulador da media tradicional, de tal modo que, agora, “cada um é manipulador de si mesmo, como efeito da individualização digitalizada dos estímulos”. Isso é impulsionado subterraneamente pelas grandes centrais de fakenews, correspondendo a uma estratégia da extrema direita e das forças autoritárias em todo o mundo.

A verdade é que a alienação colectiva produzida por essa estratégia está a atingir uma dimensão tal, que se torna impossível debater racionalmente, conforme os parâmetros que herdámos do iluminismo, com aqueles que acreditam em tudo o que circula nas suas próprias bolhas. É o caso dos eleitores fanáticos de Bolsonaro.

O seu número, diga-se, é menor do que todos aqueles que votaram nele, uma vez que muitos deles já dão sinais de que aceitam tranquilamente os resultados das urnas e que, inclusive, poderão compor com o novo presidente, mas, mesmo assim, ainda é significativo. O mais perturbador é que inclui muita gente que, há poucos anos, era capaz de reflexões razoáveis e civilizadas.

É preciso, pois, neste e em outros casos similares, insistir e recordar alguns factos.

“Esse tal de Lula” já governou o Brasil por duas vezes e não confiscou as terras nem congelou as contas bancárias de ninguém. Tirou o país do mapa da fome, fez da economia brasileira a sexta maior do mundo, criou novas universidades, multiplicando o número de alunos e permitindo o acesso às mesmas de milhões de jovens oriundos das classes mais pobres, em especial negros, vítimas históricas do racismo estrutural, e posicionou o Brasil num lugar de destaque na cena internacional. Por isso, deixou o governo com mais de 80% de aprovação.

Quanto à corrupção, três notas: primeiro, a justiça declarou Lula inocente em todos os casos (26) que ele enfrentou, anulando as sentenças viciadas dos tribunais inferiores;

2) houve vários casos comprovados e devidamente julgados de corrupção nos governos liderados pelo PT, envolvendo figuras de diferentes partidos, como o próprio PT e outros, sendo que as cifras dos políticos destes últimos (alguns dos quais apoiaram Bolsonaro) foram superiores às dos políticos do PT envolvidos em tais casos;

3) os governos do PT foram os que deram mais condições efectivas às instituições brasileiras, como a Procuradoria e a Polícia Federal, para investigarem a corrupção.

Sem mistificar ninguém, o facto é que “esse tal de Lula” é um fenómeno político. Trata-se de um líder político como a humanidade só conhece de tempos a tempos. Obviamente, não é um santo e, apesar de todas as suas qualidades, é impossível prever como será a sua governação nos próximos quatro anos.

Mas, ao menos para que conste, é preciso insistir: Lula é um político de centro-esquerda, democrata, católico, que jamais afirmou que quer substituir o capitalismo e cujo único “pecado”, aos olhos da burguesia tradicional brasileira e dos seus feitores, é apostar na justiça social.

Leia-se o seu mandeliano discurso de vitória na noite de 30 de Outubro de 2022. Se, depois disso, alguém ainda acreditar que ele come crianças ao matabicho, deve ser internado com urgência.

P.S. – No artigo da semana passada, escrevi que Carlos Bolsonaro era o filho mais velho do ainda presidente brasileiro. Está errado. É o segundo. As minhas desculpas aos leitores.

Escritor e jornalista angolano e Director da revista África 21

Diário de Notícias
João Melo
08 Novembro 2022 — 00:25