101: Fernando e João

OPINIÃO

Fernando e João foram dois portugueses que, quis o destino, se encontrassem no mesmo dia 11 de Agosto, às portas do céu.

Em comum tiveram também uma ligação ao Benfica.

Pelo número de artigos, notícias, homenagens e celebrações, não teremos como os comparar. Para quem esteja atento aos tablóides e redes sociais, e desconheça ambas as estórias de vida, Fernando, parece, teria cumprido muitos mais e importantes feitos do que João.

Nas televisões, João teve direito a umas curtas referências, enquanto Fernando foi assunto de múltiplas notícias, debates, comentários e reportagens.

Nos jornais e revistas, foram páginas e páginas, centenas de artigos e capas a evocar Fernando. Já João, foi tema de menos de uma mão-cheia de pequenos artigos, dois por amigos próximos.

O clube desportivo Sport Lisboa e Benfica, onde se distinguiu Fernando, organizou uma gigantesca homenagem pública, com as mais altas entidades do desporto, transmitida em directo pelas televisões. Destacados dirigentes de outros clubes, também lhe renderam homenagem. Foi bom poder lembrar ao País os remates e os passes que tornaram Fernando uma celebridade.

João serviu Portugal. Algumas das instituições que serviu destinaram-lhe curtos comunicados. Não houve celebrações, não aconteceram homenagens, nem se aproveitou para mostrar o seu exemplo de herói ao País. Sabem o que é uma “Torre e Espada”? E “Valor Militar”? E o que significam aquelas condecorações “com palma”? Alguém se lembra do 16 de Março?

Curiosamente, Fernando, artista da bola, o Pequeno Genial, ficou famoso pelo seu pé esquerdo, com o qual defendeu o Barreirense, o Benfica, o Bordéus, o Belenenses, o Estrela da Amadora e a Selecção Nacional de Futebol.

Ironicamente João, General do Exército Português, foi Soldado, comandou centenas de homens, combateu por Portugal em inúmeras frentes, inclusive na revolução democrática. Ostentava ao peito a Ordem Militar da Torre e Espada (grau de oficial) com palma, a Medalha de Prata de Valor Militar com Palma e duas Cruzes de Guerra.

Condecorações cujos feitos subjacentes decerto dariam matéria para muitas homenagens, artigos, comentários e reportagens. Por alguma razão, tal não aconteceu!

Até as notas vindas da Presidência da República sobre os falecimentos de Fernando e de João, foram, espante-se, muito semelhantes e equilibradas.

Estes são os valores que cultivamos hoje.

Capitão-de-mar-e-guerra (ref.)

Diário de Notícias
João Rodrigues Gonçalves
22 Agosto 2022 — 00:55