86: Precisa-se de bom senso e de melhor Justiça

 

🇵🇹 OPINIÃO

published in: 3 semanas 

As últimas semanas têm sido pródigas em falta de bom senso. Depois da notícia de uma indemnização milionária oferecida pela TAP e tida como um excelente negócio face às pretensões da indemnizada, foi a história da secretária de Estado por um dia, a prisão de um presidente de câmara, o pagamento de vouchers a directores da TAP que, como sabemos, continua a não sair do vermelho, a ex-secretária de Estado que, precisando de trabalhar, optou por um emprego que alegadamente configura uma ilegalidade, entre outras notícias menos sonantes.

Internacionalmente, o destaque vai para a invasão dos edifícios sede do poder Brasileiro, na linha do que aconteceu há dois anos nos Estados Unidos da América com a invasão do Capitólio.

Todos estes exemplos denotam a falta de bom senso que grassa em muitos dos políticos modernos, sem capacidade de autocrítica e de perceberem quando devem, ou não devem, aceitar determinados desafios face ao seu passado.

Seria de esperar que quando alguém é convidado para um cargo público, fosse capaz de revisitar o seu passado e perceber se, por sua acção ou por mera circunstância, pode nele encontrar actos capazes de colocar em causa o exercício do poder.

Infelizmente temos presenciado um conjunto de exemplos que põe em causa o bom-nome dos políticos e a nobreza do exercício de cargos públicos. Mesmo nos casos em que o julgamento ético possa não coincidir com o julgamento judicial, é tempo de mudança.

Precisamos de bom senso nas opções dos que querem ter vida pública, escolhendo os palcos onde podem e devem actuar, sem se verem comprometidos e sem comprometerem a imagem de todos os que impolutamente desempenham exemplarmente a sua missão de serviço e causa pública.

Na nossa última opinião, a propósito do caso TAP, alertámos aqui para a necessidade de as empresas de capitais públicos que integram o sector empresarial do Estado terem regras menos liberais na dispensa (e na nomeação) dos seus gestores.

Duas semanas depois prova-se que tínhamos razão. A TAP supostamente vai financiar 450 euros mensais de despesas de deslocação aos seus directores sem carro atribuído. Legalmente tudo deve estar certo.

Eticamente, na empresa em causa, com os problemas financeiros da mesma, tal medida serve para o cidadão comum questionar, mais uma vez, as escolhas políticas das lideranças.

No plano internacional, o exemplo do Brasil é mais um sinal do crescimento dos grupos extremistas que não se conformam com o poder da democracia e das urnas, excepto quando lhes é favorável.

Importa, no entanto, termos presente que os extremos só existem porque os políticos moderados, um pouco na linha dos exemplos que hoje aqui damos, se têm deixado levar pelo deslumbramento do exercício do poder, com claros e evidentes abusos, pelo menos no plano ético.

Precisamos de bom senso e de mais ética, mas também de melhor Justiça, que não permita que os abusos aconteçam e muito menos que sejam compensadores.

Presidente do Instituto Politécnico de Coimbra

Diário de Notícias
Jorge Conde
12 Janeiro 2023 — 00:23



 

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