839: Um País sem Valores é um País Moribundo

OPINIÃO

Os valores perdem-se quando as pessoas não conseguem distinguir o bem do mal, o certo do errado, a verdade da mentira e toda a acção dos fortes é desculpada por mais horrível e perversa que seja.

Os valores são um guia de acção, uma bússola que perante as situações que enfrentamos na vida nos permitem escolher o caminho a seguir.

Sem valores a sociedade avança para a lei da selva, em que a força é suprema, a corrupção alastra, a justiça não existe e a Lei é arbitrária. Naturalmente uma sociedade assim não pode progredir, definha e morre em lenta agonia.

A perda de valores confirma-se quando nos ensinam, erradamente, que o democrata e o antidemocrata são igualmente aceitáveis, que o racismo e o anti-racismo são semelhantes, que o fascismo e antifascismo são extremismos a rejeitar, que a honestidade e a desonestidade são posturas igualmente certas e o que importa é enriquecer.

Que o agressor e a vítima são ambos culpados. Que o assassino e o assassinado não se distinguem. Que se o mal está feito não há nada a fazer. Que a corrupção e o combate à corrupção são exageros e que a verdadeira diferença é entre políticos corruptos com uma pequena obra feita e os honestos que não fazem nada – vejam lá qual é melhor?

É neste ambiente de dissolução moral e cívica que é formada a nossa juventude, sem convicções fortes, sem um sentido de justiça que a faça generosa, forte e interventiva.

As polícias, PSP, GNR, SEF, etc., estão infestadas por agentes que destilam ódio racial mas mesmo assim são louvadas como instituições impolutas em que devemos confiar.

Estes agentes odeiam os grupos racializados, os imigrantes, os democratas, os comunistas, os socialistas, os radicais, os de esquerda, os deficientes, os de orientação sexual diferente da deles, os activistas, os que se vestem de forma pouco habitual, em suma todos os que não pensam como os seus mentores de extrema-direita.

Não merecem ser punidos afirmam certos políticos. Porque, dizem-nos, estes racistas são tão bons como os anti-racistas. Para lavar algumas aparências internacionais organize-se um inquérito que depois arquive os casos. Eis a resposta sempre pronta para varrer um problema para debaixo do tapete e seguir em frente como nada fora.

Os racistas estão organizados. Em falsos sindicatos. Em sindicatos que assumem discursos como se fossem as chefias da Polícia. Que defendem todos os actos dos seus membros e que perseguem os raros polícias que ousam denunciar os desmandos e o racismo.

Estes falsos sindicatos são na verdade movimentos de extrema-direita organizados dentro das Polícias. Muitos deviam ser dissolvidos. Atenção. Nem todos.

Os agentes racistas são uma minoria repete-se, mas afirmam-no sem dados concretos, logo sem saber do que falam, provavelmente mentindo. Quanto era jovem aprendi uma lengalenga que ajuda a pensar “Se um elefante incomoda muita gente, dois elefantes incomodam muito mais, três elefantes incomodam muito mais …”.

É, pois, fácil imaginar, como o disse Luzia Moniz, que se quatro jornalistas encontraram 591 agentes a proferir discursos de ódio, oito jornalistas encontrariam muito mais e doze jornalistas ainda mais. Quantos serão então os agentes racistas? A maioria? Todos?

Porque não se apura a verdadeira extensão do problema e, sem dados concretos, se apressam os políticos e dirigentes das forças policiais a por as mãos no lume pelos restantes agentes? Que revela essa atitude? Quem querem proteger? De que se querem proteger?

E os que fazem os inquéritos serão diferentes dos colegas? Não terão aprendido todos na mesma escola? A quase ausência de punições nas últimas décadas dá-nos uma resposta concreta e factual às perguntas anteriores.

Naturalmente os inquéritos deviam ser feitos por entidades exteriores, independentes, incluindo peritos internacionais. Só assim seriam as conclusões credíveis. Não é preciso muita imaginação copie-se o exemplo do Reino Unido e até o da Igreja Católica.

Vivo perto de uma esquadra. Uma esquadra pequena com poucos agentes. Vejo-os passar diariamente. Sinto-me em perigo. Podem pertencer todos ou a maioria ao grupo dos 591 que sabemos de fonte segura acreditam no discurso de ódio.

Sei que todos esses 591 continuam de serviço, equipados de bastões e armas de fogo e prontos para passar das palavras à acção. Quem me garante a segurança? Quem me protege desses polícias? O Governo, o IGAI e os comandos da Polícia não parecem ser.

Não se actua, não se corta a direito, não se tomam acções decisivas porque no centro do poder os valores estão ausentes, não distinguem um racista de um anti-racista, não diferenciam um democrata de um antidemocrata, nem destrinçam um fascista de um anti-fascista.

Esta amálgama confusa de valores leva à paralisia, à desculpabilização, à impunidade, à dissonância entre a palavra e o ato e à simples hipocrisia. Estão a destruir a nossa sociedade e a torna-la num palco violento e cruel.

Diário de Notícias
Jorge Fonseca de Almeida
21 Novembro 2022 — 15:16